A coisa em si incognoscível ou inacessível para a razão pura
que faz uso do conhecimento dos fenômenos que se mostram no espaço e no tempo
permanece incognoscível ou inacessível para a razão prática que faz uso do
desejo de modo que a coisa em si seja na prática como desejamos que ela seja
para nós. De um lado, conhecemos a coisa tal qual ela se mostra para nós; de
outro, praticamos a coisa tal qual ela é desejada por nós. A nossa razão
prática é uma criação, uma produção, um desejar.
A moral de Kant, que é igualmente um produto da razão, é
correta quando praticada de acordo com o imperativo categórico, quer dizer,
quando obedece à determinação da coisa em si inteiramente independente do
espaço e do tempo, logo, quando obedece ao que é atemporal e inespacial,
portanto, ao que existe em si para além da vida, para além da morte, então,
obedece ao que é imortal. Um tal imperativo é categórico por ser a vontade ou o
desejo do que se encontra para além do corpo e do conhecimento de nossa
consciência e só pode existir para a nossa consciência como desejo, vontade ou
imperativo da coisa em si, do inconsciente ou da castração do espaço e do tempo
que é o desejo imortal e atemporal.
Qual a relação do puro conhecimento com os fenômenos? Os
fenômenos são as coisas que aparecem para nós e que, por isso, podemos conhecer
porque eles são resultantes dos princípios ou das formas do espaço e do tempo
da nossa sensibilidade que antecedem e são condição de toda experiência possível,
ou seja, tudo que podemos conhecer são as coisas tais quais elas são enquanto
formas do espaço e do tempo exclusivas de nossa sensibilidade, portanto, nunca
temos acesso às coisas tais quais elas são em si mesmas nem de acordo com as
formas delas mesmas em nada similares às formas do espaço e do tempo de nossa
sensibilidade. Todo nosso conhecimento dos fenômenos é um aprofundamento no
conhecimento de nossa sensibilidade tal qual ela é exclusivamente para nós,
então todo nosso conhecimento corresponde à projeção das formas do espaço e do
tempo que continuamente fazemos e, assim, acessamos os fenômenos ou as coisas
para nós como espelhos das imagens que, em contínua sucessão, projetamos de modo
a nunca acessarmos as coisas tais quais elas são nelas mesmas e sim
exclusivamente tais quais elas são projetadas por nossa sensibilidade a
priori.
Não sendo possível a relação do puro conhecimento das coisas
tais quais elas são em si, então, qual relação é possível com as coisas tais
quais elas são em si? Não é mais uma relação pura da razão com as coisas em si porque
esta relação pura da razão com as coisas é exclusivamente com as coisas tais
quais elas são para nós, tais quais elas são para a razão pura. As coisas tais
quais elas são em si permanecem inacessíveis à razão pura porque ela só tem
acesso às coisas tais quais elas são para si e permanece isolada e, por isso
mesmo, também uma razão em si sem acesso às coisas tais quais elas são em si,
ou seja, nesse seu isolamento, das coisas tais quais elas são em si, a razão
que permanece em si não é a razão pura, porque esta é a que projeta sua
sensibilidade conhecendo as coisas para si, mas, ela é uma razão em si ou
isolada em si e que apenas pode especular e supor como sejam as coisas tais
quais elas são em si mesmas, porém, esta sua atividade especulativa pode
permanecer inteiramente especulativa e isolada dentro de si ou pode arriscar
escolher entre as especulações aquelas que prefere, que mais gosta, que deseja
e, desse modo, sair de seu isolamento especulativo em si mesma e se afirmar
como razão prática, quer dizer, razão que escolheu realizar o pensamento especulativo
que mais prefere, que mais gosta, que mais deseja. Se a razão pura conhece
aquilo que projeta imediatamente tal qual sua sensibilidade faz aparecer como
coisa para si, então, a razão prática já escolhe aquilo que especula ser a coisa em si
e que, por mediação ou por reflexão da sua sensibilidade, faz aparecer, no
sentido de produzir, de criar, como coisa para si.
O mundo como representação para nós é o mundo do
conhecimento imediato das coisas tais quais elas são para nós, quer dizer, tais
quais as representamos por meio das nossas formas a priori da sensibilidade que
são o espaço e o tempo. O mundo como vontade para nós é o mundo da prática que
criamos, produzimos e/ou desenvolvemos por meio da reflexão, nas coisas tais
quais elas são para nós, da nossa vontade de que as coisas em si sejam tais como
as desejamos que sejam para nós.
Tanto de um lado quanto do outro lado permanecemos sem
acesso à coisa tal qual ela é em si, ainda que, com a razão prática, tenhamos
acesso à coisa tal qual ela é em nós, tenhamos acesso à coisa tal qual a
desejamos em nós. Ou seja, em ambos os casos estamos castrados do acesso à
coisa tal qual ela é em si própria, mas, no segundo caso, ainda que não
tenhamos acesso à coisa tal qual ela é em si própria, sentimos a novidade de
termos acesso à coisa tal qual ela é em nós próprios para nós
próprios, sentimos a novidade de ter acesso ao desejo da coisa tal qual
ela é em nós e para nós, apesar e, mesmo depois, de
permanecermos castrados da coisa tal qual ela é nela (em
si)
própria e para ela (si) própria.
Mas nós vivemos, tanto num caso quanto no outro, no mundo da
vida mortal, quer dizer, da vida mortal que é separada e não tem acesso à coisa
em si pertencente à morte imortal, podemos apenas especular a respeito da coisa
em si e da morte imortal, ainda que possamos escolher a especulação a respeito
da coisa em si e da morte imortal que queremos para nós, que desejamos que
seja, permanecemos efetivamente conhecendo coisas para nós e desejando coisas
em nós enquanto permanecemos na vida mortal do mundo da representação das
coisas para nós e da vontade das coisas em nós, porém, mesmo assim, sem acesso
à morte imortal nem ao “mundo” das coisas tais quais elas são em si. Crer
em vida após a morte é similar a escolher e crer no desejo em nós
apesar de não ter acesso ao desejo na coisa em si mesma, de não ter acesso ao
conteúdo da morte imortal.
Porém, existe uma outra perspectiva que considera a coisa em
si cognoscível ou acessível para a razão que faz uso dos fenômenos que surgem
no espaço e no tempo porque a sensibilidade deles está tanto neles quanto em
quem os conhece, ou seja, as coisas em si estão presentes nos próprios
fenômenos sensíveis e por meio da sensibilidade elas passam para dentro de quem
as conhece, mas não como fenômenos e sim como essências e é por isso que elas
cabem dentro de quem as conhece tais como elas são na sua essência ou em si.
Nessa perspectiva, as coisas em si estão presentes nos fenômenos, mas só são
efetivamente conhecidas nas suas essências ou em si mesmas quando, em lugar de
estar apenas presentes na objetividade dos fenômenos, elas são reveladas em si
mesmas como essências na subjetividade de quem as conhece.
Nessa perspectiva, sendo a coisa em si cognoscível por quem
a conhece e dentro de quem a conhece, quer dizer, a coisa em si cognoscível
habita dentro de quem a conhece e como coisa em si e/ou essência de quem a
conhece, então, o conhecimento é também um aperfeiçoamento da essência
subjetiva de quem conhece, é um desenvolvimento da consciência de quem tem
acesso à coisa em si dentro de si, de quem tem acesso à essência subjetiva da
coisa em si dentro de si, dentro da sua própria essência subjetiva. O
conhecimento da coisa em si se mostra um desenvolvimento do autoconhecimento de
si mesmo como espaço-tempo em si e não mais como antes um conhecimento das
diferentes experimentações do espaço e do tempo das coisas tais quais elas são
para si.
Mas, quem conhece a coisa em si mesma tal qual ela é em si
mesma dentro de si mesmo desenvolve a relação de conhecimento como processo de
autoconhecimento. Ora, a prática na perspectiva anterior, tinha sua origem na
impossibilidade de conhecimento da coisa em si e na possibilidade de fazer uma
aposta no auto aperfeiçoamento do desejo dentro de si de construir para si a
suposição ou a crença que faz da coisa tal qual suposta em si e para si a coisa
tal qual ela é em si própria. A prática na relação anterior era própria de quem
não conhece e não pode conhecer mas deseja a coisa tal qual ela é em si mesma do
mesmo modo que supõe ou crê que ela seja dentro de si, dentro do seu desejo.
Agora, a perspectiva mudou porque ela é própria de quem conhece a coisa tal
qual ela é em si e, mais ainda, de quem desenvolve esse conhecimento como
conhecimento de si mesmo, ou seja, o conhecimento da coisa em si se torna
autoconhecimento de si mesmo, logo, acesso ao próprio desejo, conhecimento do
próprio desejo e/ou autoconhecimento do desejo da coisa em si que, ainda que
esteja presente nos fenômenos objetivos, não se encontra presente tal e qual a
coisa em si deseja estar nos fenômenos objetivos, daí que a relação prática nessa
perspectiva seja de mudar os fenômenos objetivos, quer dizer, de mudar as suas
crenças e suposições de modo que ele, o mundo dos fenômenos objetivos, venha a se desenvolver tal e qual as
coisas são em si mesmas nas suas essências subjetivas.
Nessa perspectiva, o conhecimento da coisa em si é o
autoconhecimento da coisa em si e a prática é a coisa em si desenvolvendo sua
essência subjetiva por meio da transformação do fenômeno objetivo de modo que
ele expresse mais a essência subjetiva da coisa em si do que o fenômeno
objetivo da coisa exclusivamente para si.
Esta perspectiva mais segura de si, mais autoconfiante, mais
completa no poder de conhecer e de praticar a mudança do mundo é, por outro
lado, muitíssimo pouco conhecida e muitíssimo pouco praticada, por isso mesmo
que ela é muitíssimo mais difícil de conhecer, compreender, aperfeiçoar e
praticar. No entanto, ela parte da coisa em si dentro do espaço-tempo, logo,
não deixa a coisa em si fora do espaço e do tempo ou na imortalidade e na
atemporalidade. Não, ela permanece com a coisa em si sensível, espaço-temporal,
quer dizer, permanece no interior da vida mortal, posto que esta é
sensibilidade e duração no espaço-tempo. Por isso mesmo que, quando vai para a
prática, vai com a essência subjetiva da vida mortal, quer dizer, vai com a
sabedoria da coisa em si da vida mortal precisamente para combater a ignorância
baseada em suposições e crenças negadoras da vida mortal pela pretensão de
afirmar a morte imortal, a coisa em si insensível, imortal e atemporal, quer
dizer, a coisa em si fora da sensibilidade e do espaço-tempo na sensibilidade e
no espaço-tempo como prática duma suposição ou crença. Aqui se encontra a ironia do imperativo categórico, porque ele é sempre a aplicação do imperativo categórico baseado numa suposição ou crença, quer dizer, baseado numa hipótese. Então, como ele pode escapar de ser um imperativo hipotético? Pela negação do corpo, da sensibilidade, da vitalidade e afirmação da mortalidade, da insensibilidade, da incorporeidade.
Não são fáceis as coisas em si vitais e mortais, mas são
aquelas que existem quando estamos presentes e que não existem quando estamos
ausentes. Epicuro dizia que “não devemos temer a morte, porque a morte não é
nada para nós, já que quando a morte está presente nós não estamos mais
presentes e quando nós estamos presentes a morte não se encontra presente.”
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