A sensibilidade humana abstrata é aquela que está presente
todos os dias na vida cotidiana das trocas no mercado desde aquelas feitas por
aqueles que na maior parte do tempo nas áreas rurais são considerados como
praticantes da economia de subsistência até aquelas que são feitas na esfera
internacional pelos ditos participantes do mercado mundial. Todo o tempo nas
trocas das mercadorias quem está presente é esta sensibilidade humana abstrata
que iguala
as mercadorias num mesmo quantum desta sensibilidade humana abstrata;
noutras palavras quem vive no cotidiano das trocas de
mercadorias é esta sensibilidade humana morta, abstrata.
E eu? Eu não falo desta sensibilidade humana morta, abstrata
diariamente?! Então, porque ninguém troca ideias comigo?! No
entanto, todos os dias todo mundo, inclusive eu, troca mercadorias entre si e
também trocam ideias. Porque não trocam ideias comigo?! Quem tem de responder
ou tentar responder sou eu mesmo, posto que é quem ainda troca ideias comigo.
Vamos lá.
Primeiro, parece que a sensibilidade humana morta, abstrata
da qual falo quase que todos os dias não aparece nos meus textos para promover
e facilitar as trocas de mercadorias. Ao contrário, ela aparece, nos meus
textos, isolada da vida cotidiana e das trocas de mercadorias, de certo modo
ela aparece nos meus textos como se ela fosse a coisa em si e não a coisa
para si das trocas de mercadorias. Ora, é bem possível que ninguém se
interesse por viver cotidianamente com a sensibilidade humana morta, abstrata
como se fosse a coisa em si fora das trocas e da vida, pelo contrário, a
sensibilidade humana morta, abstrata só interessa para viver
cotidianamente como coisa para si dentro das trocas de
mercadorias e como conteúdo dos produtos para sobreviver diariamente. Nos meus
textos a sensibilidade humana morta, abstrata aparece como se
fosse a coisa em si de modo que neles a pesquisa é pela sensibilidade humana morta,
abstrata
presente em mortos ilustres como Kant, Nietzsche, Marx, Epicuro, Demócrito,
Ésquilo, Sófocles, Eurípedes etc. e, assim, eu e os meus textos nos situamos no
mundo da sensibilidade humana morta, abstrata das abstrações
e/ou ideias
dos mortos
ilustres. Primeiro resultado, a sensibilidade humana morta, abstrata
dos meus textos convida a acumular a sensibilidade humana morta,
abstrata
não para aumentar o poder de compra das mercadorias e sim para aumentar a
sensibilidade humana morta, abstrata como coisa em
si,
como mundo
em
si
dos mortos,
das abstrações,
como mundo
em
si
da sensibilidade humana
morta,
abstrata.
Agora deveria escrever segundo, depois terceiro e assim por
diante até escrever por último, mas não quero mais escrever assim. O que, agora,
me parece fundamental é saber que escrevo para manter vivo o morto, ou seja,
tenho a pretensão de contrariar o que se faz diariamente, que é trocar o morto
para se manter o vivo, e propor trocar o vivo para manter o morto e, para isso,
eu me apresento, nos meus textos, com essa disposição de trocar a minha vida e
meu mundo vivo para manter e cultivar a morte dos ilustres e o mundo morto
deles. Não sei se realmente é isso o que ocorre com meus textos, mas, talvez,
seja algo parecido: Eu, com meus textos, digo que estou junto com os mortos que,
de algum modo, tentaram mudar a vida cotidiana do mundo que viveram, digo que junto
com as ideias deles eu imagino ter mais poder para denunciar a vida do mundo
que vivemos e maior credibilidade para despertar o auxílio dos vivos para mudar
o mundo que vivemos. Só que eu quero tudo isso promovendo e facilitando o
convívio com os mortos, promovendo e facilitando a vida no mundo dos mortos, ou
seja, quero tudo isso elevando a sensibilidade humana morta, abstrata
à condição de sensibilidade humana da coisa em si. A meu ver, isso é um “erro”
porque o “certeiro” é elevar a sensibilidade humana viva, concreta
à condição de sensibilidade humana da coisa em si, mas, quando é preciso
proteger a sensibilidade humana viva, concreta de modo a evitar
que seja exterminada, então, para a sua defesa, se assume até mesmo o “erro”,
quer dizer, se assume a responsabilidade de desenvolver uma sensibilidade humana morta,
abstrata e, desse modo, se assume uma
prática de destruição da sensibilidade humana viva, concreta para conservar a
essência
da sensibilidade humana viva, concreta. No entanto, uma vez que se
entrou no “erro” de uma vida morta por ser uma vida defendida pelo mundo
dos mortos, por ser uma vida que se tornou vida do mundo dos mortos, uma vida
que se tornou vida dos mortos, melhor, uma vida que se tornou consciência da
vida dos mortos, uma vida que se tornou consciência de sua própria vida morta,
porque resistiu à destruição da sensibilidade humana viva, concreta
num mundo à parte e fora da sensibilidade humana viva, concreta para o qual é
muito fácil fugir e encontrar refúgio porque é um mundo que desviou, declinou
da força exterminadora do mesmo modo que no judô se usa a força do oponente por
meio de um pequeno desvio que deixa o caminho livre para que a força exterminadora
persevere na sua atividade até se auto exterminar, mas, enquanto isso, quem
fugiu para a consciência desenvolve uma disciplina que apenas mantém viva a essência
da sensibilidade viva, concreta tal qual o judoca apenas se
exercita na disciplina de manutenção da essência da capacidade de
sua própria força de se desviar da força do oponente para conservar sua essência
sensível humana
viva,
concreta.
Será mesmo isso?!
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