terça-feira, 10 de maio de 2016

Será mesmo isso?!




A sensibilidade humana abstrata é aquela que está presente todos os dias na vida cotidiana das trocas no mercado desde aquelas feitas por aqueles que na maior parte do tempo nas áreas rurais são considerados como praticantes da economia de subsistência até aquelas que são feitas na esfera internacional pelos ditos participantes do mercado mundial. Todo o tempo nas trocas das mercadorias quem está presente é esta sensibilidade humana abstrata que iguala as mercadorias num mesmo quantum desta sensibilidade humana abstrata; noutras palavras quem vive no cotidiano das trocas de mercadorias é esta sensibilidade humana morta, abstrata.


E eu? Eu não falo desta sensibilidade humana morta, abstrata diariamente?! Então, porque ninguém troca ideias comigo?! No entanto, todos os dias todo mundo, inclusive eu, troca mercadorias entre si e também trocam ideias. Porque não trocam ideias comigo?! Quem tem de responder ou tentar responder sou eu mesmo, posto que é quem ainda troca ideias comigo. Vamos lá.


Primeiro, parece que a sensibilidade humana morta, abstrata da qual falo quase que todos os dias não aparece nos meus textos para promover e facilitar as trocas de mercadorias. Ao contrário, ela aparece, nos meus textos, isolada da vida cotidiana e das trocas de mercadorias, de certo modo ela aparece nos meus textos como se ela fosse a coisa em si e não a coisa para si das trocas de mercadorias. Ora, é bem possível que ninguém se interesse por viver cotidianamente com a sensibilidade humana morta, abstrata como se fosse a coisa em si fora das trocas e da vida, pelo contrário, a sensibilidade humana morta, abstrata só interessa para viver cotidianamente como coisa para si dentro das trocas de mercadorias e como conteúdo dos produtos para sobreviver diariamente. Nos meus textos a sensibilidade humana morta, abstrata aparece como se fosse a coisa em si de modo que neles a pesquisa é pela sensibilidade humana morta, abstrata presente em mortos ilustres como Kant, Nietzsche, Marx, Epicuro, Demócrito, Ésquilo, Sófocles, Eurípedes etc. e, assim, eu e os meus textos nos situamos no mundo da sensibilidade humana morta, abstrata das abstrações e/ou ideias dos mortos ilustres. Primeiro resultado, a sensibilidade humana morta, abstrata dos meus textos convida a acumular a sensibilidade humana morta, abstrata não para aumentar o poder de compra das mercadorias e sim para aumentar a sensibilidade humana morta, abstrata como coisa em si, como mundo em si dos mortos, das abstrações, como mundo em si da sensibilidade humana morta, abstrata.


Agora deveria escrever segundo, depois terceiro e assim por diante até escrever por último, mas não quero mais escrever assim. O que, agora, me parece fundamental é saber que escrevo para manter vivo o morto, ou seja, tenho a pretensão de contrariar o que se faz diariamente, que é trocar o morto para se manter o vivo, e propor trocar o vivo para manter o morto e, para isso, eu me apresento, nos meus textos, com essa disposição de trocar a minha vida e meu mundo vivo para manter e cultivar a morte dos ilustres e o mundo morto deles. Não sei se realmente é isso o que ocorre com meus textos, mas, talvez, seja algo parecido: Eu, com meus textos, digo que estou junto com os mortos que, de algum modo, tentaram mudar a vida cotidiana do mundo que viveram, digo que junto com as ideias deles eu imagino ter mais poder para denunciar a vida do mundo que vivemos e maior credibilidade para despertar o auxílio dos vivos para mudar o mundo que vivemos. Só que eu quero tudo isso promovendo e facilitando o convívio com os mortos, promovendo e facilitando a vida no mundo dos mortos, ou seja, quero tudo isso elevando a sensibilidade humana morta, abstrata à condição de sensibilidade humana da coisa em si. A meu ver, isso é um “erro” porque o “certeiro” é elevar a sensibilidade humana viva, concreta à condição de sensibilidade humana da coisa em si, mas, quando é preciso proteger a sensibilidade humana viva, concreta de modo a evitar que seja exterminada, então, para a sua defesa, se assume até mesmo o “erro”, quer dizer, se assume a responsabilidade de desenvolver uma sensibilidade humana morta, abstrata e, desse modo, se assume uma prática de destruição da sensibilidade humana viva, concreta para conservar a essência da sensibilidade humana viva, concreta. No entanto, uma vez que se entrou no “erro” de uma vida morta por ser uma vida defendida pelo mundo dos mortos, por ser uma vida que se tornou vida do mundo dos mortos, uma vida que se tornou vida dos mortos, melhor, uma vida que se tornou consciência da vida dos mortos, uma vida que se tornou consciência de sua própria vida morta, porque resistiu à destruição da sensibilidade humana viva, concreta num mundo à parte e fora da sensibilidade humana viva, concreta para o qual é muito fácil fugir e encontrar refúgio porque é um mundo que desviou, declinou da força exterminadora do mesmo modo que no judô se usa a força do oponente por meio de um pequeno desvio que deixa o caminho livre para que a força exterminadora persevere na sua atividade até se auto exterminar, mas, enquanto isso, quem fugiu para a consciência desenvolve uma disciplina que apenas mantém viva a essência da sensibilidade viva, concreta tal qual o judoca apenas se exercita na disciplina de manutenção da essência da capacidade de sua própria força de se desviar da força do oponente para conservar sua essência sensível humana viva, concreta.



Será mesmo isso?!



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