sábado, 21 de maio de 2016

Unidade da diversidade?!




Outro dia escrevi algo parecido, porque está modificado, com o que está escrito abaixo e entre aspas, para uma amiga e depois fiquei pensando como a filosofia, melhor, a contradição adora se divertir e como ‘nós’ somos a sua diversão. Porquê? Explico adiante depois do texto abaixo, melhor, tentarei explicar, já que a contradição pode ficar se divertindo às minhas custas.


“Eu costumo pensar naquela figura descrita por Marx na ‘Questão Judaica’ do ‘homem’ por oposição ao ‘cidadão’, enfim, na figura do indivíduo burguês (mônada) cuja ‘liberdade termina onde começa a do outro’ e que um empregador e/ou o Estado, nas suas mais diversas modalidades (registro de nascimento, cobrança de impostos, arquivos de espionagem etc.), passa de um registro ou arquivo de um indivíduo monádico para o de um outro indivíduo monádico como, talvez, alguém passe do encontro com um indivíduo monádico para o encontro com outro indivíduo monádico.


“O que eu, em geral, fico pensando é que vivo dentro da mônada, da redoma, do átomo e, daí me fixe no estudo do atomismo grego (Demócrito e Epicuro) de Marx, que também é uma referência às tragédias gregas nas figuras de Édipo e Prometeu.


“Mas aí, ocorre algo que preciso pensar mais, porque me ocorre agora que Édipo, aquele que age guiado de forma transcendente pelos deuses e que só vem a saber a verdade sobre si mesmo a posteriori, também é esse indivíduo egoísta, monádico, atomista, cuja liberdade é um engodo e termina quando, ao saber a verdade, descobre que agiu de maneira inteiramente pré-determinada pelos deuses como revelou o Oráculo. E a outra figura mítica, Prometeu, com certeza, cultivada por Marx, também se encontra "acorrentada" à individualidade egoísta, monádica, atomista, mas aí a sua liberdade é o pensamento que sabe a verdade a priori e quando e como será liberta do "acorrentamento", da individualidade egoísta, monádica, atomista e poderá sair livre como o pensamento numa individualidade altruísta, comum, comunista.


“O indivíduo egoísta que se descobre sem individualidade própria quando vem a conhecer sua individualidade e o indivíduo egoísta que conhece sua individualidade própria e descobre sua liberdade num projeto, num futuro. Em todo caso, ambos estão relacionados ao ‘homem’, ao ‘indivíduo egoísta’, à ‘mônada’, ao ‘átomo’, à ‘consciência humana de si’ ‘inconsciente e ignorante’ e ‘consciente e sábia’, a ‘inconsciente e ignorante’ só se torna ‘consciente e sábia’ a posteriori e a ‘consciente e sábia’ trabalha e elabora sua ‘inconsciência e ignorância’ a priori. Para a primeira, a filosofia sucede à ação individual, para a segunda, a filosofia precede à ação individual. Então, contradição das contradições de Marx é a consciência que precede o ser?! Sim e não, porque a consciência de si é também a consciência do ser, então, a contradição pode ser entre uma consciência de si inconsciente do ser, logo, inconsciente de si e que se torna consciente de si a posteriori, e uma consciência de si consciente do ser, logo, consciente do inconsciente em si e que se elabora como consciente de si a priori. O problema da consciência ou ciência de si, quer dizer, do ser, do inconsciente se diferencia em saber prévio da coisa em si e saber posterior da coisa fora de si. Quer dizer se diferencia na ciência que sabe a ciência da coisa dentro de si e na ciência que sabe a ciência da coisa fora de si. Logo, a ciência oracular pode estar dentro de si e ser humana ou a ciência oracular não pode estar dentro de si por não ser humana (Deus? Super-homem? Quem? Átomo? Quanta?). ”


Essas palavrinhas mágicas a priori e a posteriori ficam inteiramente desencantadas quando a contradição vem e mostra suas limitações. Porque se considerar a sensibilidade como a priori então eu só poderei saber, e apenas o que eu puder saber, a respeito da objetividade a posteriori. E, ao contrário, se a sensibilidade for considerada a posteriori, quer dizer, pertencente tanto à objetividade sensível quanto a nossa própria objetividade humana, então tudo que eu souber a respeito da objetividade poderá ser a priori porque antes foi a posteriori.


A informação é o problema. Podemos concordar que a sensibilidade é a fonte da informação, mas podemos discordar quanto à própria sensibilidade. Podemos considerar que a sensibilidade é algo exclusivamente nosso, quer dizer, algo exclusivamente humano, logo, é uma ilusão considerar que a sensibilidade esteja presente na objetividade fora de nós como algo da própria objetividade externa a nós. Não! Aí na objetividade externa a nós não existe sensibilidade própria, logo, não podemos saber como esta objetividade externa é nela própria de forma independente da nossa sensibilidade, quer dizer, não podemos conhecer a coisa tal qual ela é em si, mas só como ela é para a nós, para a nossa sensibilidade. Essa nossa propriedade exclusiva ou privada, a sensibilidade, nos impede de conhecer a coisa em si, essa nossa propriedade privada nos exclui da Natureza sensível ou da sensibilidade da comunidade natural e nos torna seres à parte da sensibilidade da Natureza e/ou da comunidade natural. De modo que nos posicionamos do lado das máquinas e/ou dos instrumentos que criamos com a nossa sensibilidade humana exclusiva, privativa de nossa natureza humana, melhor, de modo que posicionamos as máquinas e os instrumentos que criamos, desprovidos de sensibilidade, tal qual o restante da Natureza, como criaturas da nossa sensibilidade humana, quer dizer, como objetos criados por nossa sensibilidade humana, logo, os consideramos como meios de exercer a nossa sensibilidade humana e, assim, nós os colocamos como partes integrantes da nossa sensibilidade humana e como partes excluídas do restante da Natureza, exceto por serem tão desprovidos de sensibilidade quanto toda a Natureza restante. E daí? Que importa isso? Isso importa para o desenvolvimento de uma física quântica, uma física que só admite a sensibilidade como privativa da natureza humana, como propriedade privada humana.


Já uma outra perspectiva considera a sensibilidade como propriedade natural da objetividade em geral, quer dizer, da objetividade externa da Natureza e da objetividade humana que também é parte integrante da objetividade da Natureza, ou seja, a sensibilidade é uma qualidade natural comum, logo, também é uma propriedade comum da Natureza e da Humanidade. Por isso mesmo, por outro lado, podemos conhecer a coisa em si porque a sensibilidade é comum e, portanto, a coisa sensível tal qual ela é externamente ela também é sensivelmente percebida internamente, daí que seja possível conhecer a coisa tal qual ela é em si mesma em nós mesmos, posto que a sensibilidade da coisa natural e da humanidade natural é comum, então, tudo que criamos dentro de nós e por nós mesmos é parte integrante da sensibilidade natural, parte integrante da Natureza, quer dizer que toda nossa criação está incluída na Natureza, de modo que a física que desenvolvemos é uma física qualitativa, que admite a sensibilidade como qualidade natural comum, como propriedade comum natural.


O problema certamente surge com a diferença das sensibilidades da Natureza e da Humanidade, já que o conhecimento e/ou a consciência surge como exclusividade humana, como propriedade privada humana.  Porém, esta propriedade privada da sensibilidade humana tem sentido diferente se a sensibilidade é exclusivamente humana e se apesar da sensibilidade ser comum é a consciência que é exclusiva da sensibilidade humana, logo, nesse caso, a sensibilidade inconsciente é comum à Natureza e à Humanidade e a sensibilidade consciente é exclusiva da Humanidade. Já no primeiro caso, a sensibilidade é exclusiva da Humanidade, mas a coisa objetiva permanece existindo ainda que não seja sensível para a Humanidade, logo, a sensibilidade inconsciente é incognoscível e exclusiva da Natureza, enquanto que a sensibilidade consciente é exclusiva da Humanidade e só conhece a aparência das coisas ou as coisas tais quais elas são para a nossa sensibilidade exclusivamente humana.


O inconsciente sendo propriedade comum e a consciência sendo propriedade privada humana, de um lado, e do outro, o inconsciente sendo propriedade privada da Natureza e a consciência sendo propriedade privada da Humanidade. No primeiro caso, a contradição se concilia na consciência humana de si, no conhecimento humano de si, quer dizer, no conhecimento que a consciência humana consegue fazer da propriedade comum do inconsciente e da propriedade privada da consciência. No segundo caso, a contradição cinde a Natureza e cinde a Humanidade porque o inconsciente é propriedade privada da Natureza e a consciência é propriedade privada da Humanidade, mas, a contradição que cinde Natureza e Humanidade é uma contradição que cinde o ser humano, já que ele também é um ser natural, ou, pelo menos, parece ser, logo, surge uma nova possibilidade de conciliação da Natureza e da Humanidade que se faz possível não mais pela sensibilidade e sim pela insensibilidade comum a ambos, quer dizer, por meio de uma esfera transcendente que pode ser a esfera do átomo, de Deus e/ou do super-homem, mas, com certeza, é a esfera de um além da Natureza e da Humanidade.


Quando a propriedade do inconsciente natural e humano é comum e apenas a propriedade da consciência humana é privada se torna possível o conhecimento da coisa em si e a Natureza conhece a si mesma apenas através da Humanidade, do mesmo modo que a Humanidade conhece a si mesma através de si mesma e da sua Natureza. Porém, quando a propriedade do inconsciente é privativa da Natureza e a propriedade da consciência é privativa da Humanidade, então, a consciência só conhece sua aparência de Humanidade e ignora a essência da Natureza, mas, ao mesmo tempo, num plano transcendente e insensível, que pode ser o da Natureza, existe um conhecimento guardado da coisa em si que pode ser o átomo, pode ser Deus, pode ser o super-homem etc., mas, de todo modo, é algo que cinde a Natureza e a Humanidade escravizando e destruindo a Humanidade para elevar e glorificar sua Transcendência Insensível.


Finalmente, o problema começou com o indivíduo egoísta, monádico, atomista e acabou com dois indivíduos diferenciados. Um deles, admitindo que sua sensibilidade é comum e não egoísta, acaba admitindo que o conhecimento e/ou a consciência da sensibilidade comum e da sensibilidade consciente é exclusiva do ego humano. O outro, admitindo que sua sensibilidade é privada e egoísta, acaba admitindo que o conhecimento e/ou a consciência da sensibilidade inconsciente da Natureza e da sensibilidade consciente humana é exclusiva de uma objetividade insensível como o átomo, duma subjetividade insensível como Deus, enfim, duma super objetividade e duma super subjetividade, quer dizer, dum super ego super humano.


Donde podemos concluir que o indivíduo egoísta que admite a sensibilidade comum ou a propriedade comum acaba usufruindo com todos os demais indivíduos egoístas duma associação na qual o conhecimento ou a consciência humana é comum entre eles. Já o indivíduo egoísta que só admite a sensibilidade privada, seja da Natureza, seja da Humanidade, acaba se submetendo com todos os demais indivíduos egoístas a uma nova dissociação na qual o conhecimento ou a consciência transcendente é a supressão deles.


A contradição se diverte com nosso uso da mesma conceituação ‘indivíduo egoísta’ para o qual ela dá sentido contraditório, diverso.



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