Outro dia escrevi algo parecido, porque está
modificado, com o que está escrito abaixo e entre aspas, para uma amiga e depois
fiquei pensando como a filosofia, melhor, a contradição adora se divertir e
como ‘nós’ somos a sua diversão. Porquê? Explico adiante depois do texto
abaixo, melhor, tentarei explicar, já que a contradição pode ficar se
divertindo às minhas custas.
“Eu costumo pensar naquela figura descrita
por Marx na ‘Questão Judaica’ do ‘homem’ por oposição ao ‘cidadão’, enfim, na
figura do indivíduo burguês (mônada) cuja ‘liberdade termina onde começa a
do outro’ e que um empregador e/ou o Estado, nas suas mais diversas modalidades
(registro de nascimento, cobrança de impostos, arquivos de espionagem etc.), passa
de um registro ou arquivo de um indivíduo monádico para o de um outro indivíduo
monádico como, talvez, alguém passe do encontro com um indivíduo monádico para
o encontro com outro indivíduo monádico.
“O que eu, em geral, fico pensando é que vivo
dentro da mônada, da redoma, do átomo e, daí me fixe no estudo do atomismo grego
(Demócrito e Epicuro) de Marx, que também é uma referência às tragédias
gregas nas figuras de Édipo e Prometeu.
“Mas aí, ocorre algo que preciso pensar mais,
porque me ocorre agora que Édipo, aquele que age guiado de forma transcendente
pelos deuses e que só vem a saber a verdade sobre si mesmo a posteriori,
também é esse indivíduo egoísta, monádico, atomista, cuja liberdade é um engodo
e termina quando, ao saber a verdade, descobre que agiu de maneira inteiramente
pré-determinada pelos deuses como revelou o Oráculo. E a outra figura mítica,
Prometeu, com certeza, cultivada por Marx, também se encontra
"acorrentada" à individualidade egoísta, monádica, atomista, mas aí a
sua liberdade é o pensamento que sabe a verdade a priori e quando e como
será liberta do "acorrentamento", da individualidade egoísta,
monádica, atomista e poderá sair livre como o pensamento numa individualidade
altruísta, comum, comunista.
“O indivíduo egoísta que se descobre sem
individualidade própria quando vem a conhecer sua individualidade e o indivíduo
egoísta que conhece sua individualidade própria e descobre sua liberdade num projeto,
num futuro. Em todo caso, ambos estão relacionados ao ‘homem’, ao ‘indivíduo
egoísta’, à ‘mônada’, ao ‘átomo’, à ‘consciência humana de si’ ‘inconsciente e
ignorante’ e ‘consciente e sábia’, a ‘inconsciente e ignorante’ só se torna ‘consciente
e sábia’ a posteriori e a ‘consciente e sábia’ trabalha e elabora sua ‘inconsciência
e ignorância’ a priori. Para a primeira, a filosofia sucede à ação
individual, para a segunda, a filosofia precede à ação individual. Então,
contradição das contradições de Marx é a consciência que precede o ser?! Sim e
não, porque a consciência de si é também a consciência do ser, então, a
contradição pode ser entre uma consciência de si inconsciente do ser, logo,
inconsciente de si e que se torna consciente de si a posteriori, e uma
consciência de si consciente do ser, logo, consciente do inconsciente em si e
que se elabora como consciente de si a priori. O problema da consciência
ou ciência de si, quer dizer, do ser, do inconsciente se diferencia em
saber prévio da coisa em si e saber posterior da coisa fora de si.
Quer dizer se diferencia na ciência que sabe a ciência da coisa dentro de si e
na ciência que sabe a ciência da coisa fora de si. Logo, a ciência oracular
pode estar dentro de si e ser humana ou a ciência oracular não pode estar
dentro de si por não ser humana (Deus? Super-homem? Quem? Átomo? Quanta?). ”
Essas palavrinhas mágicas a priori e a posteriori ficam
inteiramente desencantadas quando a contradição vem e mostra suas limitações.
Porque se considerar a sensibilidade como a priori então eu só poderei saber, e apenas o que eu puder saber, a
respeito da objetividade a posteriori. E, ao contrário, se a
sensibilidade for considerada a posteriori, quer dizer, pertencente
tanto à objetividade sensível quanto a nossa própria objetividade humana, então
tudo que eu souber a respeito da objetividade poderá ser a priori porque antes foi a posteriori.
A informação é o problema. Podemos concordar
que a sensibilidade é a fonte da informação, mas podemos discordar quanto à
própria sensibilidade. Podemos considerar que a sensibilidade é algo
exclusivamente nosso, quer dizer, algo exclusivamente humano, logo, é uma
ilusão considerar que a sensibilidade esteja presente na objetividade fora de
nós como algo da própria objetividade externa a nós. Não! Aí na objetividade
externa a nós não existe sensibilidade própria, logo, não podemos saber como
esta objetividade externa é nela própria de forma independente da nossa
sensibilidade, quer dizer, não podemos conhecer a coisa tal qual ela é em si,
mas só como ela é para a nós, para a nossa sensibilidade. Essa nossa
propriedade exclusiva ou privada, a sensibilidade, nos impede de conhecer a
coisa em si, essa nossa propriedade privada nos exclui da Natureza sensível ou
da sensibilidade da comunidade natural e nos torna seres à parte da sensibilidade
da Natureza e/ou da comunidade natural. De modo que nos posicionamos do lado
das máquinas e/ou dos instrumentos que criamos com a nossa sensibilidade humana
exclusiva, privativa de nossa natureza humana, melhor, de modo que posicionamos
as máquinas e os instrumentos que criamos, desprovidos de sensibilidade, tal
qual o restante da Natureza, como criaturas da nossa sensibilidade humana, quer
dizer, como objetos criados por nossa sensibilidade humana, logo, os
consideramos como meios de exercer a nossa sensibilidade humana e, assim, nós
os colocamos como partes integrantes da nossa sensibilidade humana e como
partes excluídas do restante da Natureza, exceto por serem tão desprovidos de
sensibilidade quanto toda a Natureza restante. E daí? Que importa isso? Isso
importa para o desenvolvimento de uma física quântica, uma física que só admite
a sensibilidade como privativa da natureza humana, como propriedade privada
humana.
Já uma outra perspectiva considera a
sensibilidade como propriedade natural da objetividade em geral, quer dizer, da
objetividade externa da Natureza e da objetividade humana que também é parte
integrante da objetividade da Natureza, ou seja, a sensibilidade é uma
qualidade natural comum, logo, também é uma propriedade comum da Natureza e da
Humanidade. Por isso mesmo, por outro lado, podemos conhecer a coisa em si porque
a sensibilidade é comum e, portanto, a coisa sensível tal qual ela é
externamente ela também é sensivelmente percebida internamente, daí que seja
possível conhecer a coisa tal qual ela é em si mesma em nós mesmos, posto que a
sensibilidade da coisa natural e da humanidade natural é comum, então, tudo que
criamos dentro de nós e por nós mesmos é parte integrante da sensibilidade
natural, parte integrante da Natureza, quer dizer que toda nossa criação está
incluída na Natureza, de modo que a física que desenvolvemos é uma física
qualitativa, que admite a sensibilidade como qualidade natural comum, como
propriedade comum natural.
O problema certamente surge com a diferença
das sensibilidades da Natureza e da Humanidade, já que o conhecimento e/ou a
consciência surge como exclusividade humana, como propriedade privada
humana. Porém, esta propriedade privada da
sensibilidade humana tem sentido diferente se a sensibilidade é exclusivamente
humana e se apesar da sensibilidade ser comum é a consciência que é exclusiva
da sensibilidade humana, logo, nesse caso, a sensibilidade inconsciente é comum
à Natureza e à Humanidade e a sensibilidade consciente é exclusiva da
Humanidade. Já no primeiro caso, a sensibilidade é exclusiva da Humanidade, mas
a coisa objetiva permanece existindo ainda que não seja sensível para a
Humanidade, logo, a sensibilidade inconsciente é incognoscível e exclusiva da
Natureza, enquanto que a sensibilidade consciente é exclusiva da Humanidade e
só conhece a aparência das coisas ou as coisas tais quais elas são para a nossa
sensibilidade exclusivamente humana.
O inconsciente sendo propriedade comum e a
consciência sendo propriedade privada humana, de um lado, e do outro, o
inconsciente sendo propriedade privada da Natureza e a consciência sendo
propriedade privada da Humanidade. No primeiro caso, a contradição se concilia
na consciência humana de si, no conhecimento humano de si, quer dizer, no
conhecimento que a consciência humana consegue fazer da propriedade comum do
inconsciente e da propriedade privada da consciência. No segundo caso, a contradição cinde a
Natureza e cinde a Humanidade porque o inconsciente é propriedade privada da
Natureza e a consciência é propriedade privada da Humanidade, mas, a
contradição que cinde Natureza e Humanidade é uma contradição que cinde o ser
humano, já que ele também é um ser natural, ou, pelo menos, parece ser, logo,
surge uma nova possibilidade de conciliação da Natureza e da Humanidade que se
faz possível não mais pela sensibilidade e sim pela insensibilidade comum a
ambos, quer dizer, por meio de uma esfera transcendente que pode ser a esfera
do átomo, de Deus e/ou do super-homem, mas, com certeza, é a esfera de um além
da Natureza e da Humanidade.
Finalmente, o problema começou com o
indivíduo egoísta, monádico, atomista e acabou com dois indivíduos
diferenciados. Um deles, admitindo que sua sensibilidade é comum e não egoísta,
acaba admitindo que o conhecimento e/ou a consciência da sensibilidade comum e
da sensibilidade consciente é exclusiva do ego humano. O outro, admitindo que
sua sensibilidade é privada e egoísta, acaba admitindo que o conhecimento e/ou
a consciência da sensibilidade inconsciente da Natureza e da sensibilidade
consciente humana é exclusiva de uma objetividade insensível como o átomo, duma
subjetividade insensível como Deus, enfim, duma super objetividade e duma super
subjetividade, quer dizer, dum super ego super humano.
Donde podemos concluir que o indivíduo
egoísta que admite a sensibilidade comum ou a propriedade comum acaba
usufruindo com todos os demais indivíduos egoístas duma associação na qual o
conhecimento ou a consciência humana é comum entre eles. Já o indivíduo egoísta
que só admite a sensibilidade privada, seja da Natureza, seja da Humanidade, acaba se submetendo com todos os demais indivíduos egoístas a uma nova
dissociação na qual o conhecimento ou a consciência transcendente é a supressão
deles.
A contradição se diverte com nosso uso da
mesma conceituação ‘indivíduo egoísta’ para o qual ela dá sentido
contraditório, diverso.
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