quinta-feira, 5 de maio de 2016

Kant ou o sensível (vital) é irreal e o real é insensível (mortal) - atualizado




Descobri que tem gente que não compreende com clareza porque motivo as formas a priori da sensibilidade, o espaço e o tempo, estão impedidas de acessar e de conhecer a coisa em si? Talvez porque a maneira de Kant defender a sua argumentação seja tão hábil que se torne difícil explicitar sua significação. Kant diz que o espaço e o tempo são exclusivamente dos humanos porque as coisas tais quais elas são nelas mesmas estão excluídas do espaço e do tempo. Kant defende que a sensibilidade é uma realidade que só é aparente para nós humanos e que as coisas tais quais elas são, independentemente da sensibilidade humana, quer dizer, na sua própria realidade estão fora do espaço e do tempo e não podem ser acessadas pela sensibilidade porque também estão fora da sensibilidade, já que esta é exclusivamente humana, logo, todas as coisas que vemos, acessamos e conhecemos por meio de nossa sensibilidade, por meio do espaço e do tempo, são coisas que aparecem e são como aparecem exclusivamente para nós que as cobrimos com o manto ou véu da sensibilidade e do espaço e do tempo que são formas de percepção exclusivamente humanas; noutras palavras, a sensibilidade, o espaço e o tempo, a percepção não existem na realidade das coisas tais quais elas são realmente nelas mesmas porque são mantos ou véus com os quais cobrimos e impedimos nosso acesso às coisas reais tais quais elas são realmente, ou seja, as coisas que sentimos, percebemos e vivenciamos no espaço e no tempo são as coisas aparentes tais quais elas aparentam ser para nós. Em resumo, o que podemos conhecer são as coisas tais quais elas aparentam ser para nós, quer dizer, as coisas tais quais nós as disfarçamos para nós, então tudo que podemos conhecer são aparências, farsas, mentiras dessas coisas que existem exclusivamente para nós e que são as formas a priori da sensibilidade humana, o espaço e o tempo.


Aquilo que a percepção sensível humana acessa é uma aparência que impede o acesso à realidade tal qual ela é realmente fora da percepção sensível humana. E é por isso que Kant tenta um outro acesso à realidade tal qual ela é fora da percepção da sensibilidade humana e é um acesso especulativo a respeito de como é a realidade tal qual ela é sem sensibilidade humana, sem espaço nem tempo, quer dizer, como é a realidade que não posso conhecer, mas que posso apenas especular com o pensamento como poderá ser. Ou seja, Kant quando vê só vê a aparência, a farsa, a mentira, mas quando não pode ver, quando está cego ou não usa os olhos e sim apenas o pensamento, só pode especular e só pode arriscar a escolha da especulação que vai colocar em prática de modo que se torne visível, sensível, aparente a sua aposta de que a coisa real tal qual ela é realmente nela mesma seja aquela para a qual a cegueira do seu pensamento o teleguiou. Quando vê é a farsa e quando cego é teleguiado pela incerteza, já que não pode garantir que sua aposta seja efetivamente na coisa real tal qual ela realmente é.



Será que isso esclarece Kant? O que nele é sensível, visível é uma farsa com toda a certeza do conhecimento e o que nele é insensível, invisível é uma tragédia com toda a incerta e arriscada prática (condução) da vontade. Para Kant é a tragédia da moral (da condução da vontade) que deve predominar e dirigir a farsa do conhecimento.


Como público, espectadores ou coro fazemos uso da sensibilidade do espaço e do tempo e conhecemos a representação, a farsa da coisa tal qual ela é para nós. Como atores, agentes ou intérpretes fazemos uso da especulação do fora do espaço e do tempo e praticamos a interpretação, a tragédia da vontade da coisa real tal qual ela é em si.


Conhecer apenas a aparência é só acessar o irreal e praticar apenas a tragédia é só encontrar o real inacessível. Vida mortal é pura aparência, farsa. Morte imortal é pura realidade, tragédia.


O conhecimento sensível para Kant é da aparência e sua insatisfação está na limitação desse conhecimento a esta aparência, porque mais que penetre nas coisas aparentes e mesmo no interior das coisas aparentes esse conhecimento sensível nunca alcança a realidade das coisas tais quais elas são realmente nelas mesmas, esse conhecimento sensível nunca chega nas coisas em si, porque as coisas em si nunca se mostram e/ou se dão a conhecer como fenômenos objetivos e isso porque elas são essências subjetivas que, segundo Kant, se encontram numa realidade transcendente aos fenômenos objetivos e aos sujeitos humanos, portanto, essas essências subjetivas não são encontradas nem habitam nos sujeitos humanos, logo, estes não podem conhecer a coisa em si neles mesmos, na sua própria subjetividade humana, posto que elas existem, na verdade, não como essências subjetivas e sim como transcendências objetivas, quer dizer, existem numa objetividade que transcende os fenômenos objetivos e os sujeitos humanos, logo, que também transcende a habitação natural das essências subjetivas que é a subjetividade dos sujeitos humanos [na verdade, elas se encontram numa objetividade transcendente que Kant denomina númeno (noumeno), que remete para o divino – ver https://pt.wikipedia.org/wiki/N%C3%BAmeno ]. Aliás, é precisamente por esse motivo que o interior dos sujeitos humanos, a subjetividade humana, para Kant, é um lugar onde se especula a respeito da objetividade transcendente e onde a vontade interpreta a objetividade transcendente ou a coisa em si que, dentre as especulações, escolheu e apostou praticar como intérprete, agente, ator.


Será que transparece a similitude do chamado esquema do sistema de Kant com o esquema do sistema da tragédia que se incorpora/encarna na figura de Édipo, especialmente, em "Édipo-Rei" mas também em "Édipo em Colono"?!





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