Parece muito difícil escrever sobre minhas próprias dores
porque elas aproveitam para ficar mais intensas e para se tornar insuportáveis.
Por isso que paro de escrever sobre minhas próprias dores, para que elas
diminuam de intensidade e eu possa suportá-las. Porém, desse jeito elas atuam
sobre mim como se fossem uma pesada âncora que me fixa e impede de navegar.
Mas, como é possível navegar para quem está ancorado? Levantando a âncora até
que deixe de ser um ponto fora de si e se torne um ponto dentro de si ou
cortando a âncora de modo que seja um ponto fora de si que permanece em si como
um simples ponto para si, dentre muitos outros, sem relação com qualquer ponto
dentro de si. No primeiro caso, as dores serão baixadas e usadas como âncora
quando parar a navegação e serão levantadas e incorporadas dentro de si como
navegantes. No segundo caso, as dores serão abandonadas com a âncora fora de si
e nunca poderão ser incorporadas dentro de si como navegantes, mas, por outro
lado, a navegação será permanente e não será mais possível usar âncora para
parar a navegação.
Sem as dores não há tragédias. E são as relações com as suas
próprias dores que diferenciam os personagens trágicos. Os personagens Laio,
Jocasta e Édipo fogem de suas dores e o personagem Prometeu é acorrentado às
suas dores e ele prefere ficar preso às suas dores do que ficar navegando por
aí livre delas como mensageiro dos deuses. Édipo acaba encarando e descobrindo
a maior das dores, ou seja, descobre que, por ter fugido das dores, nunca pôde
conhecer para onde seu íntimo ia e, assim, para não fugir mais e permanecer no
seu íntimo, ele se cegou ou cortou sua percepção da luz sensível, segundo
Freud, se castrou, quer dizer, se acorrentou à maior das dores visando conhecer
para onde ia a luz insensível em seu íntimo, daí que vá ao encontro da
permanente luz insensível da morte imortal no seu sagrado túmulo em Colono, em
local secreto. Ora, com a castração ele próprio é o secreto túmulo sagrado em
Colono. Porque Colono?! Será que é “colonização”?! O castrado com sua morte
imortal coloniza a vida mortal?!
Qual é a vantagem de Prometeu? Ser imortal. Ele quer ser
mortal e se lança decidido ao sofrimento como quem busca a morte. De imediato
fica acorrentado às suas dores, em seguida, seu fígado é comido diariamente por
uma ave de rapina, finalmente, é lançado do abismo no Cáucaso no Hades (mundo
dos mortos) nas profundezas da terra. Por acompanhar suas dores ele sabe para
onde seu íntimo vai, por isso que ele é o previdente, o que sabe por
antecipação, por enfrentar e acompanhar o sofrimento de suas dores, quer dizer,
por acompanhar a sensibilidade até às suas profundezas de coisa em si.
Prometeu, ao contrário dos outros que fogem da dor, que fogem da castração, se
lança no enfrentamento da dor, no enfrentamento da castração conseguindo o
conhecimento da sensibilidade do qual os outros fogem e, por isso, conseguem o
desconhecimento ou a inconsciência da sensibilidade. A vantagem de ser imortal
fica sem efeito aqui nesta vida mortal precisamente porque eu conheço um ser
humano que usa o sofrimento e a busca da morte como forma de conhecimento e de
exercício de poder sobre a sensibilidade íntima dos outros, especialmente sobre
a de seus familiares. Porém, nesse caso, algo merece ser destacado, ele quer o
sofrimento muito mais do que os outros possam querer fazê-lo sofrer, de modo
que os outros se dobram à sua vontade por não querer assistir a tanto
sofrimento, por não querer vê-lo sofrer. E é essa a sua vantagem com o se
lançar no sofrimento, se lançar na castração, o poder de conhecer a
sensibilidade com intimidade ou na sua coisa em si e, assim, exercer o poder e
dobrar os outros à sua vontade. Chantagem e extorsão são armas dessa atividade
prometeica de se lançar no sofrimento, na castração.
Compreender, compreender, compreender... fico tentando
compreender sem parar e isto faz parte da minha fuga da dor... suspendo a
escrita antes que doa...
Minha mãe é quem sempre me ensinou, melhor, impôs isso, de
ter de compreender mesmo quando me batem, ou seja, me ensinou, melhor, me impôs
isso, esse apanhar de forma compreensiva. Enquanto isso meu pai me batia sem
qualquer explicação, sem nenhuma razão, sem nenhum motivo, de modo que não
entendia porque apanhava. E ela dizia para entender o ininteligível, para
compreender o incompreensível.
Mas existe também o outro imortal, aquele que é tido como
fonte da tragédia, o deus Dionísio ou Baco. Sobre ele se conta que se despedaça
e depois se recompõe. Porém, a tragédia “As Bacantes”, de Eurípedes, nos mostra
uma outra atitude desse deus, atitude que é deliberadamente de manipulação,
porque ele engana sua vítima e ele usa os outros para agirem no seu lugar, no
caso a mãe de sua vítima será quem ele usa para ser o algoz de sua vítima. Ele
cultiva intimidade com as bacantes, melhor, ele as manipula intimamente porque
elas o cultivam, já que ele é Baco ou Dionísio. E ele manipula Penteu e o leva
a uma cilada, onde ele é castrado e despedaçado por sua própria mãe, que, como
bacante, está em transe dionisíaco. Este imortal usa a simpatia e alegria para
encantar e poder fazer suas “fofocas” de modo a colocar em transe dionisíaco
suas auxiliares e instrumentos bacantes e alcançar seu objetivo que é a
agressão a seu rival, sem que este sequer possa desconfiar da razão de tão
repentina e tamanha antipatia, sem que este possa compreender a explicação, a razão,
o motivo, o entendimento para sofrer a agressão. Suas armas são simpatia,
alegria, sedução, encantamento para exercer a mais perfeita manipulação da
intimidade alheia para a realização de seus desejos. Também conheço humano
assim e não é preciso recorrer à condição de imortal para obter esta vantagem sobre
quem foge da dor e sobre quem se lança na dor, porque aqui os recursos são de
imediato ao que proporciona prazer (simpatia, alegria, sedução, encantamento)
para, em seguida, obter, de quem se encontra em prazer ou transe dionisíaco,
que proporcione ao seu rival desprazer, dor, perturbação, sacrifício, ou seja,
o manipulador permanece oculto, encoberto e se sentindo livre, alegre, feliz e,
até mesmo, isento de responsabilidade, sereno, sério tal qual um deus, que nada
faz diretamente, mas só indiretamente através de seus adoradores, seus fiéis,
seus crentes, seus devotos.
As três tragédias usadas por Nietzsche para discorrer sobre
a “Origem da Tragédia” estão presentes no contexto da vida cotidiana da minha
família, nela, meus irmãos são os “imortais” Prometeu e Dionísio, enquanto eu
sou o “mortal” Édipo; posto que eles não são “imortais”, então qual o sentido
dessa incorporação deles de personagens ditos “imortais”? Até onde consigo
compreender e olha que isso, essa tal atividade de compreender faz parte duma
tortura específica à qual sou cotidianamente submetido, é apenas por oposição
ao fato da família ter me escolhido para ser “mortal” que eles são “imortais”.
Ganhando ânimo para escrever sobre as dores mais estruturais
e profundas. Consigo?!
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