sexta-feira, 13 de maio de 2016

Fugir é inconsciente?! Lutar é consciência?! - atualizado




Parece muito difícil escrever sobre minhas próprias dores porque elas aproveitam para ficar mais intensas e para se tornar insuportáveis. Por isso que paro de escrever sobre minhas próprias dores, para que elas diminuam de intensidade e eu possa suportá-las. Porém, desse jeito elas atuam sobre mim como se fossem uma pesada âncora que me fixa e impede de navegar. Mas, como é possível navegar para quem está ancorado? Levantando a âncora até que deixe de ser um ponto fora de si e se torne um ponto dentro de si ou cortando a âncora de modo que seja um ponto fora de si que permanece em si como um simples ponto para si, dentre muitos outros, sem relação com qualquer ponto dentro de si. No primeiro caso, as dores serão baixadas e usadas como âncora quando parar a navegação e serão levantadas e incorporadas dentro de si como navegantes. No segundo caso, as dores serão abandonadas com a âncora fora de si e nunca poderão ser incorporadas dentro de si como navegantes, mas, por outro lado, a navegação será permanente e não será mais possível usar âncora para parar a navegação.


Sem as dores não há tragédias. E são as relações com as suas próprias dores que diferenciam os personagens trágicos. Os personagens Laio, Jocasta e Édipo fogem de suas dores e o personagem Prometeu é acorrentado às suas dores e ele prefere ficar preso às suas dores do que ficar navegando por aí livre delas como mensageiro dos deuses. Édipo acaba encarando e descobrindo a maior das dores, ou seja, descobre que, por ter fugido das dores, nunca pôde conhecer para onde seu íntimo ia e, assim, para não fugir mais e permanecer no seu íntimo, ele se cegou ou cortou sua percepção da luz sensível, segundo Freud, se castrou, quer dizer, se acorrentou à maior das dores visando conhecer para onde ia a luz insensível em seu íntimo, daí que vá ao encontro da permanente luz insensível da morte imortal no seu sagrado túmulo em Colono, em local secreto. Ora, com a castração ele próprio é o secreto túmulo sagrado em Colono. Porque Colono?! Será que é “colonização”?! O castrado com sua morte imortal coloniza a vida mortal?!


Qual é a vantagem de Prometeu? Ser imortal. Ele quer ser mortal e se lança decidido ao sofrimento como quem busca a morte. De imediato fica acorrentado às suas dores, em seguida, seu fígado é comido diariamente por uma ave de rapina, finalmente, é lançado do abismo no Cáucaso no Hades (mundo dos mortos) nas profundezas da terra. Por acompanhar suas dores ele sabe para onde seu íntimo vai, por isso que ele é o previdente, o que sabe por antecipação, por enfrentar e acompanhar o sofrimento de suas dores, quer dizer, por acompanhar a sensibilidade até às suas profundezas de coisa em si. Prometeu, ao contrário dos outros que fogem da dor, que fogem da castração, se lança no enfrentamento da dor, no enfrentamento da castração conseguindo o conhecimento da sensibilidade do qual os outros fogem e, por isso, conseguem o desconhecimento ou a inconsciência da sensibilidade. A vantagem de ser imortal fica sem efeito aqui nesta vida mortal precisamente porque eu conheço um ser humano que usa o sofrimento e a busca da morte como forma de conhecimento e de exercício de poder sobre a sensibilidade íntima dos outros, especialmente sobre a de seus familiares. Porém, nesse caso, algo merece ser destacado, ele quer o sofrimento muito mais do que os outros possam querer fazê-lo sofrer, de modo que os outros se dobram à sua vontade por não querer assistir a tanto sofrimento, por não querer vê-lo sofrer. E é essa a sua vantagem com o se lançar no sofrimento, se lançar na castração, o poder de conhecer a sensibilidade com intimidade ou na sua coisa em si e, assim, exercer o poder e dobrar os outros à sua vontade. Chantagem e extorsão são armas dessa atividade prometeica de se lançar no sofrimento, na castração.



Compreender, compreender, compreender... fico tentando compreender sem parar e isto faz parte da minha fuga da dor... suspendo a escrita antes que doa...



Minha mãe é quem sempre me ensinou, melhor, impôs isso, de ter de compreender mesmo quando me batem, ou seja, me ensinou, melhor, me impôs isso, esse apanhar de forma compreensiva. Enquanto isso meu pai me batia sem qualquer explicação, sem nenhuma razão, sem nenhum motivo, de modo que não entendia porque apanhava. E ela dizia para entender o ininteligível, para compreender o incompreensível.


Mas existe também o outro imortal, aquele que é tido como fonte da tragédia, o deus Dionísio ou Baco. Sobre ele se conta que se despedaça e depois se recompõe. Porém, a tragédia “As Bacantes”, de Eurípedes, nos mostra uma outra atitude desse deus, atitude que é deliberadamente de manipulação, porque ele engana sua vítima e ele usa os outros para agirem no seu lugar, no caso a mãe de sua vítima será quem ele usa para ser o algoz de sua vítima. Ele cultiva intimidade com as bacantes, melhor, ele as manipula intimamente porque elas o cultivam, já que ele é Baco ou Dionísio. E ele manipula Penteu e o leva a uma cilada, onde ele é castrado e despedaçado por sua própria mãe, que, como bacante, está em transe dionisíaco. Este imortal usa a simpatia e alegria para encantar e poder fazer suas “fofocas” de modo a colocar em transe dionisíaco suas auxiliares e instrumentos bacantes e alcançar seu objetivo que é a agressão a seu rival, sem que este sequer possa desconfiar da razão de tão repentina e tamanha antipatia, sem que este possa compreender a explicação, a razão, o motivo, o entendimento para sofrer a agressão. Suas armas são simpatia, alegria, sedução, encantamento para exercer a mais perfeita manipulação da intimidade alheia para a realização de seus desejos. Também conheço humano assim e não é preciso recorrer à condição de imortal para obter esta vantagem sobre quem foge da dor e sobre quem se lança na dor, porque aqui os recursos são de imediato ao que proporciona prazer (simpatia, alegria, sedução, encantamento) para, em seguida, obter, de quem se encontra em prazer ou transe dionisíaco, que proporcione ao seu rival desprazer, dor, perturbação, sacrifício, ou seja, o manipulador permanece oculto, encoberto e se sentindo livre, alegre, feliz e, até mesmo, isento de responsabilidade, sereno, sério tal qual um deus, que nada faz diretamente, mas só indiretamente através de seus adoradores, seus fiéis, seus crentes, seus devotos.


As três tragédias usadas por Nietzsche para discorrer sobre a “Origem da Tragédia” estão presentes no contexto da vida cotidiana da minha família, nela, meus irmãos são os “imortais” Prometeu e Dionísio, enquanto eu sou o “mortal” Édipo; posto que eles não são “imortais”, então qual o sentido dessa incorporação deles de personagens ditos “imortais”? Até onde consigo compreender e olha que isso, essa tal atividade de compreender faz parte duma tortura específica à qual sou cotidianamente submetido, é apenas por oposição ao fato da família ter me escolhido para ser “mortal” que eles são “imortais”.



Ganhando ânimo para escrever sobre as dores mais estruturais e profundas. Consigo?!



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