Escrevi dois e-mails para um amigo a respeito do que venho fazendo
no momento no meu blog singularidade/pluralidade. O primeiro intitulei de “Co-incidência
da mudança das circunstâncias e da atividade humana ou autotransformação” e o
segundo de “Derridando”. Edito aqui, em sucessão, dois parágrafos do primeiro e
três do segundo e-mail.
Notei que dos três últimos textos (do público, do crítico e do
autor) o que tem menor índice de lapsos é o do crítico e também notei que o
autor começa dizendo que os outros (crítico e público) o chamam de autor, mas,
no texto, onde tudo isso teve início, é ele quem se apresenta como autor, depois
de devidamente provocado pelo crítico.
Imaginei que a exposição que o crítico reclama é a da vida do
autor na prática (será que ele tem? Será que ele vive?) e, por isso, imaginei
também que não é se recolhendo para mais um “aprofundamento” teórico que o autor
irá chegar aonde o crítico sugere que chegue, isto é, ao exercício de sua
liberdade, à prática de sua vida.
Depois dos trechos retirados dos e-mails cito uma passagem de Marx
e, em seguida, a tradução da mesma na linguagem dos trechos editados. Destaco
todo um parágrafo que me pegou de surpresa com sua “novidade” de defender tudo
que, de um modo geral, eu critico.
“(...) como você bem lembrou, ninguém pára o mundo, ninguém pára a
vida, logo, nosso próprio mundo, nossa própria vida continua quando paramos,
bem como o próprio mundo e a própria vida continuam quando paramos. Se tudo
continua e não é possível parar nem girar para trás a roda da história, do
tempo, da vida de modo que sendo este movimento irreversível não temos como
negar que rumamos todos para um destino inexorável que é a morte, portanto, a
tragédia está inscrita de modo inescapável na nossa vida, no nosso mundo e
também na vida em geral e no mundo em geral: Mortais!!!! Sendo assim, que
podemos fazer?! Fiquei com a impressão que o surgimento do crítico, do
público e do autor pode ter vindo como uma sugestão para um uso mais realista
da minha liberdade e da minha vida, ou seja, a cisão pode não ser tão somente
uma esquizofrenia nem tão só uma luta de tendências internas com diferenciações
filosóficas, políticas, sociais etc., mas pode ser algo bem mais coerente com o
uso da própria liberdade e da própria vida dentro do movimento
irreversível. Será que não se trata duma divisão de tarefas? Duma divisão do
trabalho entre aspectos da minha liberdade, da minha vida? Tudo isso porque é
preciso fazer o conserto enquanto se anda. Existe uma expressão que é bem
melhor do que eu disse. ("Consertar o carro andando!"?!).
“O pensamento voa. Pensei em fazer uma espécie de diário com as
diversas atividades e as diversas metas de modo que, devido precisamente à
exposição que teria forçosamente de fazer de mim mesmo, viria a realizar
efetivamente mudanças na minha vida ao ir alcançando diferentes metas com as
diferentes atividades. Então, para fazer o que o crítico me cobra, que é me
recolher e assumir uma determinada tendência e/ou posição filosófica, eu faria
precisamente o contrário e me exporia à crítica por ter estabelecido meta para
mudar algo na minha vida usando a minha liberdade. Estaria exposto à crítica
por também estar exposto ao público, quer dizer, mais precisamente por minha
capacidade de ser autor estar exposta à crítica, ao público e, especialmente, a
mim mesmo como autor que consegue mostrar a si mesmo que é capaz, que permanece
lutando para mostrar a si mesmo que é capaz ou que consegue mostrar a si mesmo
que não é capaz, precisamente por não conseguir ser autor de algo. ”
“(...) O que o crítico sugere e que eu estou dizendo que fiz
no passado e estou nisso desde então, logo que eu teria é de me expor para me
libertar. Esse argumento também me remete à memória de achar que, desde então
até hoje, eu vivo exposto, vivo num mundo que espiona e controla todos meus passos
(...) Noutras palavras, eu já vivo sob a tal exposição à crítica e ao público e
também sob contínuo teste da minha capacidade de ser autor. Nada de novo.
Nenhuma inovação.
“Acho que eu tinha uma característica, acho que ainda tenho, mas
um pouco diferente desde então, de ser o mais transparente possível e que, em
determinado momento, achei que isso era uma fraqueza porque parecia aumentar o
número de meus adversários por todo lado, em casa com minha família, com a
namorada, no grupo de igreja, no colégio militar, no grupo do bairro, por todo
lado. Porém, fico me perguntando se isso era mesmo uma fraqueza ou se minha
fraqueza foi o contrário, foi ter achado que era uma fraqueza e, assim, ter me
retirado da superfície visível para o fundo invisível da coisa fenomênica,
logo, pergunto se meu erro não foi sair da coisa para mim e cair na coisa em
mim.
“Veja só o que eu estou dizendo. Estou dizendo que a coisa invisível, a coisa em mim,
a mesma que venho dizendo que pode ser a essência
subjetiva, tal qual Marx parece
defender, ou ainda que pode ser a coisa
numênica e incognoscível, tal qual
Kant defende, enfim, estou dizendo, sem me importar com Marx nem Kant, que meu erro
é cair na coisa em mim, é ficar na
coisa em mim. Estou, então, com a mesma irritação
de Nietzsche com aqueles que negam a aparência ou a superfície visível da coisa fenomênica e querem ficar
com o escondido por detrás, na inaparência ou no fundo invisível da coisa fenomênica, querem
a escondida, inaparente e invisível coisa em si. Segredo, informação, conhecimento, enfim,
tudo da esfera esotérica, íntima, privada,
porém, nada da esfera exotérica,
social, comum daquilo que transparece, esclarece, comunica
(porque une). Ou seja, é a partir do aparente, do transparente, do visível da coisa para si
que é possível viver na prática e fruir a sabedoria
(o próprio saber), enquanto
que a partir do inaparente, do escondido,
do invisível da coisa em si é possível viver na teoria e fruir a filosofia
(amor/culto/adoração ao saber alheio).”
Isto pode ser um comentário feito com Nietzsche sobre a 11ª
Tese sobre Feuerbach das “Teses
sobre Feuerbach”, de Karl Marx:
“Os filósofos apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o
que importa é mudá-lo.”
Os teóricos apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o que
importa é praticá-lo.
Ficar na coisa em si
sonhando
com o mundo não é ruim, mas o bom mesmo é acordar
com o mundo na coisa para si. Fazer traço numa pintura que sonha com o mundo na
coisa
em si e fazer acorde numa música que acorda com o
mundo na coisa para si. Fazer ambos é muito bom, mas,
parece que entre a vida virtual e a vida real é preciso escolher
e valorizar
uma mais do que a outra, quer dizer, ou
a coisa em si ou a coisa para si.
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