sábado, 28 de maio de 2016

São três mesmo que escrevem?!...




Eles me chamam de leitor autor. Não sei muito bem o que é isso, porque eles, que se chamam ou são chamados de leitor público e de leitor crítico, escrevem, logo, são autores, certo?! Ou está errado?! Eu escrevo e leio tanto quanto eles, aliás, quem escreve e lê todo o tempo é um mesmo corpo, uma mesma sensibilidade física, mas, no plano psíquico eu já não sei quantos são, ainda que eu tenha perfeita consciência e memória dos atos de escrever os textos de um e de outro, bem como sei que eles também não estavam em nenhum estado alterado de consciência nem são espíritos que baixam e fazem dum mesmo corpo, duma mesma sensibilidade física um puro e simples médium para a expressão de suas personalidades. Então, o que eu posso dizer deles?! E tentando compreender isso que eu e eles estamos fazendo?! Ou seja, porque eu estou me tornando nós?! Porque também, me tornando nós, não me configuro pura e simplesmente nessa unidade coletiva, o nós, e quero uma certa diversidade de unidades singulares, os eus?! Confesso que não sei ou não compreendo com clareza qual o significado disso tudo, mas, jogo feito, vamos jogar!!!


Meu coração deu umas pontadas, mandou uns sinais e eu parei um pouco. Que ele quer me dizer com seus sinais?! Aí está uma divisão comum que é feita entre o eu e um componente essencial do eu, no caso, um órgão vital do corpo humano. Isso pode ter sido para me lembrar o que tinha pensado escrever. Pensei que o detetive faz uso dos mais diversos sinais para reproduzir na sua mente e na de seus interlocutores o que aconteceu numa cena de crime, mas também em muitas outras cenas da sua investigação de um crime e, até mesmo, suas conversações com os suspeitos e os insuspeitos e testemunhas e auxiliares etc. são usadas como sinais a serviço da reprodução das cenas ocorridas e, até mesmo, daquelas que poderão vir a ocorrer em determinado momento, lugar e com quem. Pelo menos é assim que os detetives das estórias de detetives agem desde o Sherlock Holmes, de Conan (o civilizado) Doyle. Mas, os médicos também vivem fazendo leituras de sinais ditos sintomas e o mesmo fazem os psicanalistas. Aqueles que se dedicam à invenção de ferramentas e máquinas também prestam enorme atenção aos gestos usados na realização de um determinado trabalho produtivo. Aqueles que se dedicam ao teatro também prestam enorme atenção nos conjuntos de gestos e no arranjo deles que servem para caracterizar a representação de suas personagens. É uma característica também da economia política inglesa ser dedutiva à maneira de Sherlock Holmes. Em todos esses casos o foco são os sinais, sintomas, gestos, falas, energias humanas, produtos das energias humanas e das máquinas, enfim, em todos o que está presente é o foco na atividade sensivelmente humana, quer dizer, em tudo que dela é sensível, quer dizer, é sinal, sintoma, efeito, materialidade, realidade. Noutras palavras, o conhecimento sensível da atividade humana é o que está em foco, portanto, a coisa sensível cujo conhecimento se visa conhecer em si por meio das coisas sensíveis que aparecem para si não é a coisa em si fora e para além da sensibilidade humana e sim a coisa em si dentro e nos limites da própria sensibilidade humana. Nesse sentido é um conhecimento dentro dos limites da sensibilidade humana como já dizia Kant, mas não é um conhecimento insatisfatório, como dizia Kant, porque não é capaz de conhecer a coisa em si fora da sensibilidade humana, fora do espaço e do tempo. E não é insatisfatório precisamente porque a coisa em si está dentro dos limites da sensibilidade humana, ou seja, é na cachola humana que se faz a concepção da coisa em si a partir de todos os sinais e por meio do arranjo que na cachola humana se faz deles. O inconsciente, por exemplo, é uma atividade humana que manifesta sua existência por meio de sinais, sintomas, sonhos, lapsos etc., ou seja, de maneira similar à de uma outra atividade humana que é a consciência.


E daí?! Daí que eu tendo a compreender o que está acontecendo com esses três leitores que escrevem e se diferenciam entre si, mas que, na realidade, são um mesmo que lê e um mesmo que escreve, como sendo manifestações dessas duas atividades humanas similares, o inconsciente e a consciência. Dizer que são manifestações do inconsciente é algo muito fácil de dizer porque sendo o inconsciente algo inconsciente até mostrar conscientemente essa característica inconsciente das manifestações já passou muito tempo e as demonstrações ficam na consciência como possíveis, desde que não sejam refutadas. Se trata dum mundo de possibilidades, de nuvens, de névoas, de brumas. Já dizer que são manifestações da consciência é algo mais difícil de dizer porque sendo a consciência algo consciente causa um estranhamento mostrar conscientemente essa característica consciente das manifestações da consciência na forma duma pluralidade de singularidades. No entanto, novamente um inglês, David Hume, aquele que tirou Kant de seu sono metafísico, afirma que não existe relação de causa e efeito entre os sensíveis, entre os sinais, os sintomas, os gestos etc. e que é a atividade humana estabelece essas relações. Então, deixando de lado a atividade humana inconsciente, podemos concordar com ele que é a consciência humana quem estabelece as relações de causa e efeito, mas, antes disso, temos de concordar com ele que a consciência humana é consciência particular ou individual de cada sinal sensível, logo, numa mesma consciência dum mesmo individuo humano podem habitar uma diversidade de consciências singulares de sinais sensíveis singulares, de modo que aquilo que chamamos de consciência dum mesmo indivíduo humano é um conjunto de consciências sensíveis singulares de sinais sensíveis singulares; noutras palavras, isso é resultante de quem estabelece a relação de causa e efeito entre as diferentes consciências sensíveis singulares de sinais sensíveis singulares e apresenta este conjunto como uma unidade da diversidade sob a denominação de consciência da singularidade de um mesmo indivíduo humano. Desse modo é viável fazer conscientemente do eu um nós e, portanto, é viável que apareçam conscientemente diferentes eus num mesmo eu que, assim, também é um nós e não tão somente um eu.


O alemão Hegel também usa nós em oposição a eu na “Fenomenologia do Espírito”. E aí o nós expressa a posição do filósofo que já fez a experiência da consciência e agora está levando os leitores da Fenomenologia a fazer a experiência da consciência. Nessa experiência da consciência a consciência descobre que ela não é um eu, mas uma pluralidade de eus, logo, um nós. A Fenomenologia do Espírito ou a lógica dos fenômenos do espírito ou o conhecimento dos fenômenos do espírito visam demonstrar que os fenômenos, os sinais, os sintomas, as manifestações, os gestos etc. são próprios de uma atividade humana que é o espírito. Noutras palavras, tudo, até mesmo a atividade humana, é efeito do espírito. Aqui, a diferença entre Hegel e Hume está na atribuição da causa e efeito ao espírito como sendo a atividade verdadeira e na atribuição da causa e efeito à atividade humana como sendo a atividade fantasiosa. Para Hegel a atividade da verdade é a atividade do espírito. Para Hume a atividade da fantasia é a atividade humana. Para Hegel a atividade da fantasia é a atividade sensível. Para Hume a atividade da verdade é a atividade sensível.



Eu acho que nem consigo falar como eles pedem que eu fale. Querem que fale como autor. No momento estou muito atordoado com esta repentina divisão de quem escreve em três. Talvez, mais tarde consiga falar como autor. No momento, o máximo que consegui foi tentar compreender esta cisão em três. Será uma esquizofrenia?! Fiquei me perguntando. Ainda no início, já que a consciência é consciente dos diferentes eus?! Será uma criação literária, já que a consciência é consciente dos diferentes eus, os quais, então não passam de personagens?! Será uma forma de entretenimento da consciência consigo mesma?! Será o quê?! Que será?! Que será?!



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