Seríamos trágicos para nos divertir com a contradição que se
diverte com a tragédia?!
Eterno retorno da contradição e do João Bobo.
Porque tamanha repetição?! Não, nem falo mais dos trágicos,
mas sim dos textos que repetem incessantemente os mesmos temas, os mesmos
assuntos. Porque isso?!
- Simples, meu caro Watson. Isto ocorre porque o autor vive
imerso na contradição, melhor, porque ele, tal como Demócrito, Édipo, Kant e
alguns outros céticos, parte do princípio que considera a sensibilidade um
defeito humano e que, portanto, espaço e tempo e vida mortal são partes
integrantes deste defeito humano, ou seja, ele, tal como estes outros,
considera que sofre uma interdição e, por isso, não pode usufruir da perfeição
da Natureza insensível, sem espaço nem tempo e imortal, só que aí o ceticismo,
comum de todos eles e a todos eles, diz para si mesmo, mas essa perfeição é a
morte, certo?! Então, para evitar a morte ou o suicídio, o autor, tal qual os
demais céticos, permanece afirmando que é graças à sensibilidade que pode
desfrutar dessa exclusividade que é o conhecimento! ...e também pode usufruir do
espaço-tempo, da vida mortal... Watson,
se o autor efetivamente partisse do princípio que considera a sensibilidade uma
perfeição humana natural, logo, espaço-tempo e vida mortal como sendo partes
integrantes dessa perfeição humana natural, então, ele se sentiria livre para
usufruir e, muito provavelmente, usufruiria livremente da perfeição da Natureza
sensível, do espaço e do tempo e da vida mortal até completar essa perfeição e
a perder para a insensibilidade, a eternidade, a atemporalidade e a
imortalidade da morte, mas aí ele também teria de ser sábio, expert na
perfeição da sensibilidade natural humana, quer dizer, teria de assumir a
avaliação da qualidade da sensibilidade natural humana perfeita para poder
escolher, por exemplo, entre uma avaliação, como a de Nietzsche que, considerando
a qualidade vital, não se importa e, até mesmo, se lança na tragédia para
usufruir da perfeição sensível da vitalidade mortal até a perda da mesma para a
morte imortal, e outra avaliação, a de Epicuro que, considerando a qualidade
vital, se importa e, até mesmo, prefere evitar a tragédia para usufruir da
perfeição sensível da vitalidade mortal até o fim da mesma com a morte imortal.
Enquanto Nietzsche se diverte com a frase “ter nascido foi o que de pior aconteceu,
idiota!”, já Epicuro critica quem difunde tal tipo de pensamento e diz que “se
está tão desgostoso da vida assim, então, em lugar de depreciá-la tanto assim
para todo mundo, tal sujeito pode resolver o problema facilmente tirando a própria
vida”, logo, na avaliação de Epicuro tal sujeito, na verdade, avalia a
qualidade vital como um defeito e não como uma perfeição. Nietzsche, por sua
vez, diz que Epicuro se esconde por detrás da aparência, ainda que, no fim,
avalie que Epicuro é um póstumo, quer dizer, alguém cuja filosofia de vida vale
e se realiza efetivamente na vida mortal dos que são posteriores, além disso,
Nietzsche considera a si mesmo como um póstumo, ou seja, avalia que sua
filosofia de vida será praticada efetivamente na vida mortal dos posteriores.
Dá para compreender a dificuldade, mas também é possível
indagar se o autor não poderia, em lugar de ficar simplesmente repetindo o
assunto em eterno retorno, se recolher e, uma vez que tenha tomado uma decisão
quanto à apreciação da sensibilidade (defeito ou perfeição qualitativa?) e
quanto ao modo de usufruí-la (temer a perda da sensibilidade ou a morte; não
temer e se lançar na perda da sensibilidade ou na morte; e, amar a graça da
sensibilidade e da vida?), para aí sim retornar inovando com o desenvolvimento
dos caminhos escolhidos pelo autor. Ou não é possível fazer isso, hein autor?! Responde!!!
Hein?!
- Olha eu, na qualidade de autor, vou tentar ser bem
sincero. Eu acho que eu não consigo não. Sabe porquê? Eu acho que é porque eu,
na minha condição de sensibilidade natural humana, por mais que possa parecer
que sim, não me basto e estou sempre procurando por sensibilidade natural
humana que me responda e também que me pergunte, mas, infelizmente, estou
metido numa tal embrulhada dessa contradição tragicômica, pois, “um nasce pra
sofrer, enquanto o outro ri”, dizia o poeta, que não tenho como escapar das
exigências da minha sensibilidade natural humana, exceto, quiçá, por meio da
morte. No entanto, também acho que, se uma exigência dessas chega a mim na
condição de autor, então, pode ser que, de algum modo, tenha chegado o momento
de ser mais autor, no sentido de ser mais origem e fonte, do que ser originado
e proveniente, quer dizer, na filosofia, o momento de ser mais mestre do que
discípulo e, na realização e superação da filosofia, o momento de ser mais
sábio do que filósofo. Pode ser tudo isso muito bonitinho, mas, na realidade,
como sujeito dessa época histórica, pode ser que tenha chegado o momento de
ousar adquirir a maioridade ou a emancipação da menoridade, como dizia Kant, ou
ainda pode ser que tenha chegado o momento de ousar a emancipação da prole
humana. Novamente, fica claro que como autor fico repetindo, logo, fica claro
que ainda não sou mesmo mestre, filósofo, sábio, maior, prole emancipada, mas
que sou sim discípulo, filosofante, buscador, menor e prole aprisionada. Fica
claro que filosofar é a única atividade comum às três posições descritas acima,
é praticada por quem teme a morte, por quem desafia a morte e por quem ama a
vida, além, é claro, de ser a que assumo praticar. Logo, fica claro que, como
autor, eu sou um fracasso. Também sou um fracasso, já que sou fracassado em
muitas outras áreas da vida, em muitas outras qualidades sensíveis naturais
humanas.
Tá bom, já estou mais do que cansado dessa sua cantilena,
desse seu fracasso. Eu quero saber é do que você pode fazer após ter fracassado
totalmente e não ter mais opção para fracassar ainda mais, exceto, é claro, se
tirar a própria vida, mas, nesse caso, também foi por falta de opção de
fracassar ainda mais. Então, o que eu quero de você é saber como você sai do
fracasso total, do fundo do poço, do fundo da fossa, do fundo do calabouço. O
que eu quero é saber como você exerce a liberdade
mesmo no fracasso total, no fundo do poço, no fundo da fossa, no fundo do
calabouço, quer dizer, mesmo na prisão, mesmo no reino da necessidade?! Então,
autor que você me diz?! Pode tentar inovar exercendo a liberdade ou não?! Eu já
não estou aguentando mais essas suas repetições, seus “eternos retornos”, você
pode mudar isso, hein?!
- ... ?!?!?!... Será que eu paro pra deixar de ser tão chato assim?!... Até quando?!... Eu aguento?!...
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