quarta-feira, 11 de maio de 2016

Não! Não é isso, mesmo!!!




Eis o que é mesmo da forma mais sincera que ainda me resta para perceber com clareza meu autoengano.


O medo, horror, terror, pavor de ser responsável pela prisão de meu pai, porque foi esta a ameaça que me fizeram se continuasse com uma enquete sobre o Colégio Militar, me fez recuar e parar a enquete, mas foi só para ser surpreendido com novo golpe, no ano seguinte, com o anúncio pelo Colégio Militar de mudanças que incorporavam a maioria das propostas que estavam na minha enquete, mas que eram apresentadas como sendo propostas do Colégio Militar. Finalmente, me deram o terceiro golpe, que era muito mais cruel e organizado. Me impuseram o papel de Chefe de Turma, apesar de minha recusa do mesmo. Nunca tinha sido Chefe de Turma e sempre fui de uma turma que desde o primeiro ano ginasial era a de número 9. Quando me impuseram ser Chefe de Turma colocaram na minha turma um aluno que sempre foi Chefe de Turma, mas nunca foi da minha turma de número 9 e sempre da dele que tinha seu próprio número. Além dele, também colocaram na minha turma 9 outros alunos que nunca tinham sido dela, dentre eles se destacava o Coronel-Aluno, graduação recebida pelo aluno que se destaca nos estudos de todos os demais alunos de todo o conjunto do Colégio Militar por suas notas 10 ou quase 10 em todas as matérias.


Para não ser Chefe de Turma passei a fazer tudo errado e, assim, me disciplinei ao ter o comportamento errado, aquilo se tornou uma questão de “honra” para mim, eu precisava ter alguma “dignidade”, de algum modo era preciso que respeitassem a minha “recusa” a ser Chefe de Turma, era preciso que respeitassem a minha “recusa” a ser “comprado” por eles. Nas aulas de português, pela primeira vez, tínhamos um professor que ensinava de forma inovadora, porque ele trazia um tema para que nós fizemos um debate do mesmo. E eu aí participava de forma destacada como debatedor e, na verdade, para mim, era o único momento que eu tinha para me sentir certo por poder expressar livremente meu pensamento vivo.


Tudo, no entanto, era algo planejado. Eles queriam que eu fosse visto como alguém que, por mais que discordasse durante os debates do professor, era um aliado e “discípulo” de um professor “errado” por não dar aula e por ser sim um sofista e ficar ensinando os alunos a ser demagogos. De repente, o professor foi substituído e no seu lugar veio um que, sem o menor espaço para qualquer debate, dava análise sintática e gramática com grande eficiência. Pouco tempo depois, num só e mesmo dia eu fui sistematicamente punido desde a hora que cheguei no Colégio Militar por diferentes superiores hierárquicos e durante as diferentes aulas por diferentes professores. Então, decidi romper totalmente e não mais obedecer a ninguém nem a nada. Saí de sala e da formatura da turma para marchar em desfile de apresentação para o Comando do Colégio Militar, recebi inúmeras ordens de ficar em sentido e nada obedeci. Fui levado à presença do General-Comandante do Colégio Militar e fiquei com os braços para trás. O General-Comandante pegava nos meus braços e os trazia para frente e eu, em seguida, os levava de volta para trás, até que decidiram que chamariam minha família para conversar a respeito de mim. Meu pai estava viajando a serviço da Embratel e minha mãe veio ao Colégio Militar e ficou horrorizada com a “optatória” (a ela pareceu uma opção obrigatória) que apresentaram, ou a família me tirava do Colégio em tempo ou eu seria jubilado do Colégio Militar, o que significaria que perderia um ano inteiro (na verdade dois anos, o de 69 e o de 70) até poder voltar a ser matriculado e a estudar em qualquer estabelecimento de ensino regular. Negociou minha transferência, facilitada pela aprovação que tinha tido em exame feito em 68 para entrar no Colégio André Maurois, antes de ter sido convencido a desistir, pela irmã de minha mãe, a continuar no Colégio Militar até fazer o serviço militar, de modo que, no segundo semestre de 69, me tornei aluno do Colégio Estadual André Maurois. A continuidade no Colégio Militar implicava em ser jubilado, mas também em ser visto pelos alunos como quem ia até às últimas consequências naquela luta absurda com os tiranos do Colégio Militar. Perdi esta luta e passei a ser visto e a ver a mim mesmo como um “caído” na família. Nunca mais saí dessa condição e, agora, em 2016, já fazem 47 anos que estou “caído” na família.


Se estou “acorrentado” à família, mesmo que, em algum momento possa parecer, com certeza, não é à maneira de Prometeu, mas sim à maneira de Édipo, basta ver que “caio” nos golpes desde o início para fugir da responsabilidade pela prisão de meu pai. Ora, esse fugir na tragédia de “Édipo Rei”, de Sófocles, é uma ação praticada por Laio e Jocasta, quer dizer, pelo pai e pela mãe de Édipo, quando procuram fugir da predição do Oráculo de que Édipo vai matar o pai, casar com a mãe e dar origem a uma prole abominável; mas também é uma ação praticada por Édipo quando procura fugir da mesma predição de que será o causador da morte de seu pai, que se casará com sua mãe e dará origem a uma prole abominável. E é ao fugir que eles todos (Laio, Jocasta, Édipo) colocam em ação a predição, quer dizer, criam condições para que a tragédia, imposta como ameaça pelo Oráculo, “caía” na família real de Tebas.


Afinal, o que é o Oráculo? Ao que tudo indica é a inteligência estratégica do poder e da história. Isso é especialmente verdadeiro quando o próprio Oráculo ou a própria inteligência estratégica é encaminhada a viver sua própria tragédia, ou seja, quando conhecemos “Prometeu Acorrentado”, de Ésquilo. Vemos que Prometeu não tem nenhum escrúpulo em usar a mentira, o engano, o ardil, a armadilha, o estratagema, enfim, o “golpe” para efetivar o que quer. Ora, é isso que o Oráculo faz com sua predição ameaçadora e também é isto que o Colégio Militar fez com sua ameaça inicial e suas ameaças sucessivas de modo a me jogar na condição de “caído” na família que, aliás, é a mesma sensação da Dilma Rousseff quando disse que, com o Impeachment sendo consumado pelo Senado, seria jogada à condição de “carta fora do baralho”. E, quando na situação trágica, Prometeu não foge do tirano nem da tirania mas sim sofre a dor da tirania e de enfrentar a tirania.


Sem dúvida, não é isso, mesmo. Porque eu, mesmo que tenha sido simbolicamente, fugi da castração e assim a realizei efetivamente, de modo que só teria realizado efetivamente a concepção, mesmo que fosse simbolicamente, se me tivesse disposto a sofrer a dor de enfrentar a tirania até às últimas consequências.


O que me resta fazer aqui nos meus textos que não trocam ideias com ninguém porque não servem para ninguém?! Só me resta realizar efetivamente, mesmo que de forma simbólica, a condição na qual me encontro de “caído” na família, quer dizer, a condição de Édipo, cujo último ato em “Colono” é achar um túmulo para se entregar aos sagrados cuidados da morte imortal.



Conclusão só há saída para quem engana os outros, mas nunca para quem engana a si mesmo, por mais que sinceramente venha a saber de seu autoengano.



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