Eis o que é mesmo da forma mais sincera que ainda me resta
para perceber com clareza meu autoengano.
O medo, horror, terror, pavor de ser responsável pela prisão
de meu pai, porque foi esta a ameaça que me fizeram se continuasse com uma
enquete sobre o Colégio Militar, me fez recuar e parar a enquete, mas foi só
para ser surpreendido com novo golpe, no ano seguinte, com o anúncio pelo
Colégio Militar de mudanças que incorporavam a maioria das propostas que
estavam na minha enquete, mas que eram apresentadas como sendo propostas do Colégio
Militar. Finalmente, me deram o terceiro golpe, que era muito mais cruel e
organizado. Me impuseram o papel de Chefe de Turma, apesar de minha recusa do
mesmo. Nunca tinha sido Chefe de Turma e sempre fui de uma turma que desde o
primeiro ano ginasial era a de número 9. Quando me impuseram ser Chefe de Turma
colocaram na minha turma um aluno que sempre foi Chefe de Turma, mas nunca foi
da minha turma de número 9 e sempre da dele que tinha seu próprio número. Além
dele, também colocaram na minha turma 9 outros alunos que nunca tinham sido
dela, dentre eles se destacava o Coronel-Aluno, graduação recebida pelo aluno
que se destaca nos estudos de todos os demais alunos de todo o conjunto do
Colégio Militar por suas notas 10 ou quase 10 em todas as matérias.
Para não ser Chefe de Turma passei a fazer tudo errado
e, assim, me disciplinei ao ter o comportamento errado, aquilo se tornou
uma questão de “honra” para mim, eu precisava ter alguma “dignidade”, de algum modo
era preciso que respeitassem a minha “recusa” a ser Chefe de Turma, era preciso
que respeitassem a minha “recusa” a ser “comprado” por eles. Nas
aulas de português, pela primeira vez, tínhamos um professor que ensinava de
forma inovadora, porque ele trazia um tema para que nós fizemos um debate do mesmo.
E eu aí participava de forma destacada como debatedor e, na verdade, para mim,
era o único momento que eu tinha para me sentir certo por poder expressar
livremente meu pensamento vivo.
Tudo, no entanto, era algo planejado. Eles queriam que eu
fosse visto como alguém que, por mais que discordasse durante os debates do
professor, era um aliado e “discípulo” de um professor “errado” por não dar aula
e por ser sim um sofista e ficar ensinando os alunos a ser demagogos. De repente, o
professor foi substituído e no seu lugar veio um que, sem o menor espaço para
qualquer debate, dava análise sintática e gramática com grande eficiência.
Pouco tempo depois, num só e mesmo dia eu fui sistematicamente punido desde a
hora que cheguei no Colégio Militar por diferentes superiores hierárquicos e
durante as diferentes aulas por diferentes professores. Então, decidi romper
totalmente e não mais obedecer a ninguém nem a nada. Saí de sala e da formatura
da turma para marchar em desfile de apresentação para o Comando do Colégio
Militar, recebi inúmeras ordens de ficar em sentido e nada obedeci. Fui levado
à presença do General-Comandante do Colégio Militar e fiquei com os braços para
trás. O General-Comandante pegava nos meus braços e os trazia para frente e eu,
em seguida, os levava de volta para trás, até que decidiram que chamariam minha
família para conversar a respeito de mim. Meu pai estava viajando a serviço da
Embratel e minha mãe veio ao Colégio Militar e ficou horrorizada com a “optatória”
(a ela pareceu uma opção obrigatória) que apresentaram, ou a família me tirava
do Colégio em tempo ou eu seria jubilado do Colégio Militar, o que significaria
que perderia um ano inteiro (na verdade dois anos, o de 69 e o de 70) até poder voltar a ser matriculado e a estudar em
qualquer estabelecimento de ensino regular. Negociou minha transferência,
facilitada pela aprovação que tinha tido em exame feito em 68 para entrar no Colégio
André Maurois, antes de ter sido convencido a desistir, pela irmã de minha mãe,
a continuar no Colégio Militar até fazer o serviço militar, de modo que, no
segundo semestre de 69, me tornei aluno do Colégio Estadual André Maurois. A
continuidade no Colégio Militar implicava em ser jubilado, mas também em ser
visto pelos alunos como quem ia até às últimas consequências naquela luta
absurda com os tiranos do Colégio Militar. Perdi esta luta e passei a ser
visto e a ver a mim mesmo como um “caído” na família. Nunca mais saí dessa
condição e, agora, em 2016, já fazem 47 anos que estou “caído” na família.
Se estou “acorrentado” à família, mesmo que,
em algum momento possa parecer, com certeza, não é à
maneira de Prometeu, mas sim à maneira de Édipo, basta ver que “caio” nos
golpes desde o início para fugir da responsabilidade pela
prisão de meu pai. Ora, esse fugir na tragédia de “Édipo Rei”, de
Sófocles, é uma ação praticada por Laio e Jocasta, quer dizer, pelo pai e pela
mãe de Édipo, quando procuram fugir da predição do Oráculo de que
Édipo vai matar o pai, casar com a mãe e dar origem a uma prole abominável; mas
também é uma ação praticada por Édipo quando procura fugir da mesma predição
de que será o causador da morte de seu pai, que se casará com sua mãe e dará
origem a uma prole abominável. E é ao fugir que eles todos (Laio, Jocasta,
Édipo) colocam em ação a predição, quer dizer, criam condições para que a
tragédia, imposta como ameaça pelo Oráculo, “caía” na família real de
Tebas.
Afinal, o que é o Oráculo? Ao que tudo indica é a
inteligência estratégica do poder e da história. Isso é especialmente
verdadeiro quando o próprio Oráculo ou a própria inteligência estratégica é
encaminhada a viver sua própria tragédia, ou seja, quando conhecemos “Prometeu
Acorrentado”, de Ésquilo. Vemos que Prometeu não tem nenhum escrúpulo em usar a
mentira, o engano, o ardil, a armadilha, o estratagema, enfim, o “golpe”
para efetivar o que quer. Ora, é isso que o Oráculo faz com sua predição
ameaçadora e também é isto que o Colégio Militar fez com sua ameaça inicial e
suas ameaças sucessivas de modo a me jogar na condição de “caído” na família que,
aliás, é a mesma sensação da Dilma Rousseff quando disse que, com o Impeachment
sendo consumado pelo Senado, seria jogada à condição de “carta fora do baralho”.
E, quando na situação trágica, Prometeu não foge do tirano
nem da tirania mas sim sofre a dor da tirania e de
enfrentar
a tirania.
Sem dúvida, não é isso, mesmo. Porque eu, mesmo que tenha
sido simbolicamente,
fugi
da castração
e assim a realizei efetivamente, de modo que só teria realizado efetivamente a concepção,
mesmo que fosse simbolicamente, se me tivesse disposto a sofrer a
dor
de
enfrentar
a
tirania
até às últimas consequências.
O que me resta fazer aqui nos meus textos que não trocam
ideias com ninguém porque não servem para ninguém?! Só me resta realizar
efetivamente, mesmo que de forma simbólica, a condição na qual me
encontro de “caído” na família, quer dizer, a condição de Édipo, cujo último
ato em “Colono” é achar um túmulo para se entregar aos sagrados cuidados da morte
imortal.
Conclusão só há saída para quem engana os outros, mas nunca
para quem engana a si mesmo, por mais que sinceramente venha a saber de seu
autoengano.
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