Esse texto foi publicado originalmente com 6 parágrafos, sendo que o sexto parágrafo é idêntico ao seu título. Mas, agora, tudo aquilo que vem depois do sexto parágrafo é atualização deste texto.
A coisa em si é cognoscível e acessível quando a
sensibilidade não é exclusiva de quem conhece de modo que as formas do espaço e
do tempo também são formas das próprias coisas tais quais elas são em si
mesmas, logo, as coisas são espaciais e temporais nelas mesmas e não
exclusivamente na sensibilidade humana a priori. Logo, não existe um corte
epistemológico separando a sensibilidade humana da sensibilidade natural das
coisas tais como elas são sensivelmente em si mesmas e, assim, impedindo o
conhecimento das coisas em si e só admitindo o conhecimento das coisas para si,
das coisas tais quais elas são exclusivamente para a sensibilidade humana que
por um corte epistemológico se encontra radicalmente separada da sensibilidade
natural das próprias coisas tais quais elas são e, por meio de tal abismo,
interditas de conhecer as coisas tais quais elas são naturalmente sensíveis,
porque elas não são naturalmente sensíveis exceto para a sensibilidade humana,
ou seja, elas são apenas humanamente sensíveis, mas o corte epistemológico
interdita o acesso à sensibilidade delas mesmas.
Não existindo este corte epistemológico de Kant, então as
coisas são tão sensíveis quanto os humanos são sensíveis e existem num mundo
sensível comum. Desse modo, a sensibilidade humana acessa imediata e
sensivelmente as coisas tais quais elas são sensivelmente acessíveis e
cognoscíveis. E a sensibilidade humana imediata e sensivelmente estabelece duas
existências para as coisas sensíveis, a existência sensível real fora da
subjetividade humana e a existência sensível imaginária dentro da subjetividade
humana. Assim, o sujeito humano carrega dentro de si a imaginação das coisas
sensíveis e pode conhecer na sua imaginação as essências subjetivas das coisas
sensíveis que existem no real/na realidade como fenômenos objetivos. Surgindo
alguma dúvida no conhecimento da essência subjetiva ele pode recorrer à
percepção sensível do fenômeno objetivo para, talvez, tirar a dúvida, ainda que,
em geral, seja mais habitual que a dúvida seja sanada no próprio
desenvolvimento do conhecimento da essência subjetiva dentro do sujeito.
Primeira diferença, sem o corte epistemológico da
sensibilidade humana com a sensibilidade das coisas naturais tais quais elas
são sensivelmente em si (nelas) mesmas ainda permanece existindo uma relação
natural comum da sensibilidade humana com a sensibilidade natural, logo, existe
o acesso direto da sensibilidade humana à sensibilidade das próprias coisas tais
quais elas são nelas mesmas, consequentemente, o humano não está mais isolado,
por meio da própria sensibilidade, das coisa tais quais elas são sensivelmente
nelas próprias e só tendo acesso às coisas tais quais elas são sensivelmente
exclusivamente para os humanos e nunca para elas próprias. Não, ele agora se
encontra numa comunidade sensível com a natureza de modo que a sua
sensibilidade acessa a sensibilidade das coisas tais quais elas são para elas
mesmas. Mas, ainda que as coisas sensíveis sejam acessadas tais quais elas são
sensivelmente, quer dizer, como fenômenos objetivos, tais quais eles são neles
mesmos, e, desse modo, adentrem no sujeito como imaginação, o processo de
conhecimento das coisas sensíveis não se limita ao conhecimento dos fenômenos
objetivos tais quais eles são neles mesmos, mas se desenvolve no conhecimento
das essências subjetivas, tais quais elas são nelas mesmas, dos fenômenos
objetivos, tais quais eles são neles mesmos, ou seja, se torna desenvolvimento
dos conceitos dentro do sujeito humano, porque conceito se relaciona com
conceber e é isso que o sujeito humano faz com as essências subjetivas, tais
quais elas são nelas mesmas, dentro de si mesmo ou dentro de sua própria
essência subjetiva, ele se relaciona subjetivamente com elas até criar
conceitos, até conceber o conhecimento completo delas mesmas tais quais são
essencialmente ou em curso de se completar tal conhecimento da essência mesma
das coisas tal qual ela se encontra nelas mesmas.
A atividade de conhecimento, no caso de quem acessa e
conhece as coisas tais quais elas são nelas mesmas, parece se desenvolver quase
que inteiramente no interior do sujeito cognoscente, na sua atividade de
conceber a essência subjetiva das próprias coisas com a sua própria essência
subjetiva de si mesmo. Ela parece ser feita a partir da passagem da percepção
sensível para o pensamento humano. No entanto, uma vez que o sujeito consegue
conhecer a coisa tal qual ela é nela mesma dentro de si mesmo, então, como se
desenvolve sua relação prática, quer dizer, sua relação que sai do interior do
sujeito, da sua essência subjetiva, para o seu exterior, para o fenômeno
objetivo?
Ora, dentro de si ele possui o saber da coisa tal qual ela é
em si (nela) mesma, então, o saber da coisa tal qual ela é nela mesma se
encontra dentro do sujeito e não no fenômeno objetivo, ainda que tenha
originalmente vindo do fenômeno objetivo para a essência subjetiva no interior
do sujeito, logo, o saber e o conhecimento da coisa tal qual ela é nela mesma
se encontra na essência subjetiva e não no fenômeno objetivo, consequentemente,
a atividade do sujeito de sair de si para aplicar o saber e/ou a essência
subjetiva da coisa tal qual ela é nela mesma no fenômeno objetivo só se
compreende como uma atividade de aperfeiçoamento do mundo do fenômeno objetivo
por sua própria essência subjetiva que está entregue e concentrada aos cuidados
e nas mãos do sujeito humano. Noutras palavras, a essência da coisa tal qual
ela é em si não se encontra no fenômeno objetivo e sim na própria essência da
coisa tal qual ela é em si no interior do sujeito, quer dizer, na essência
subjetiva do humano que tanto a conhece quanto se autoconhece, então, aqui acontece
algo que se assemelha ao que acontece com o fenômeno na perspectiva de Kant que
é a ausência da coisa em si nele, mas, aqui, a coisa em si se transferiu do
fenômeno para a essência subjetiva do sujeito cognoscente, enquanto que com
Kant a coisa em si se transferiu para um mundo transcendente inacessível e
incognoscível. A grande diferença na hora da prática se mostra como a diferença
entre a prática de uma crença, de uma suposição, de uma hipótese e a prática de
uma sabedoria, de uma verdade, de uma evidência.
Castração e concepção. Falta e presença.
A coisa sensível é percebida pelo sujeito sensível e passa a
habitar dentro do sujeito sensível, na sua imaginação, mas o sujeito sensível
não se limita a perceber a coisa sensível e a captar e formar imagem dela na
sua imaginação e isto porque a sua imaginação coloca em ação as imagens que
captou e formou fazendo associações e dissociações com elas e, assim, sua
imaginação faz configurações que ainda não se encontram presentes com as demais
coisas sensíveis fora do sujeito sensível. Estas configurações podem vir a ser
presentes junto com as demais coisas sensíveis fora da imaginação ou podem
permanecer presentes apenas na imaginação. Por maior que seja a atividade da
imaginação e a pluralidade de configurações da imaginação apenas saem da
subjetividade da fantasia imaginativa para a objetividade da realidade sensível
aquelas configurações que não contradizem a percepção sensível. É a
sensibilidade que confirma a pertinência, a pertença ou não das configurações à
percepção sensível ou à fantasia imaginativa, logo, o mesmo se passa com as
essências subjetivas configuradas no interior do sujeito sensível ou elas são confirmadas
como pertencentes às percepções sensíveis ou são afastadas como pertencentes às
fantasias imaginativas. A atividade da imaginação chega a configurar os átomos
e o vazio como essências subjetivas das percepções sensíveis das coisas
sensíveis e aí a atividade da imaginação vai acompanhando o processo de
desenvolvimento dos átomos e do vazio desde sua configuração inicial como
essências subjetivas até à sua elaboração final como confirmação das percepções
sensíveis.
A imaginação seguindo a percepção sensível das coisas
durante suas durações e seus processos de decomposições de suas formas e de
seus conteúdos chega à imaginação dos átomos e do vazio e uma vez aí inicia e
se fixa na sua atividade imaginativa a respeito dos átomos e do vazio. Sua
atividade imaginativa parte da infinidade dos átomos no vazio infinito, logo,
parte do sem fim do vazio e dos átomos, então, eles como espaço abstrato ou
vazio e como quantum mínimo de espaço concreto ou tempo (considerando que toda
coisa é um quantum que por ser tempo entra em decomposição) são princípios
permanentes e básicos da sustentabilidade de tudo. Os átomos são espaços cheios
presentes no espaço vazio e, por isso, eles devido ao peso de sua massa se
encontram em queda em linha reta no espaço vazio na mesma velocidade, já que o
espaço vazio aceita igualmente a queda de todos, sem resistir a nenhum deles, independentemente
da diferença de peso e de massa que tenham entre si. Desse modo, os átomos e o
vazio permanecem ensimesmados e, ainda que sejam os princípios permanentes e
básicos da sustentabilidade de tudo, nada vem a ser porque nessa queda em linha
reta no vazio na mesma velocidade eles permanecem ensimesmados e não há nenhum vir
a ser. Noutras palavras, como essências subjetivas eles, os átomos e o vazio,
são uma excelente especulação, mas nada além de uma especulação, mas uma
especulação que pertence à fantasia e não à realidade, já que não consegue confirmar a percepção sensível, no sentido de vir a ser percepção
sensível, ainda que consiga confirmar a percepção sensível da experiência da
queda dos corpos sob a ação da gravidade. Para sair do seu ensimesmamento e
para que tudo venha a ser é preciso que os átomos saiam da inércia da queda em
linha reta no vazio que os deixa ensimesmados, é preciso que saiam de si e,
assim, deixem de ser apenas coisa em si e venham a ser por si mesmos, logo, num
movimento interno natural, por escolha própria dos átomos, os quais, afinal,
são os únicos seres existentes ao lado do não-ser do espaço vazio, logo, não é
possível nenhum movimento externo ao que existe aí que são exclusivamente os
átomos e o vazio, portanto, qual é este movimento natural dos átomos de sair da
condição de coisas em si e vir para a condição de coisas para si? Este
movimento natural e que é uma escolha do próprio átomo é o movimento de
declinação do átomo da sua queda em linha reta no espaço vazio, logo, sua
declinação é um pequeno desvio que se configura como uma mínima linha curva e
esta linha curva que cada átomo escolhe como coisa para si tem como resultado o
encontro, o choque, a repulsão e/ou a atração dos átomos entre si e aí, desse
terceiro movimento, resulta a possibilidade de vir a ser configurado tudo, quer
dizer, o mundo sensível.
Os átomos em queda se desviam ligeiramente da linha reta e,
assim, se encontram e, ainda em queda, estabelecem relações gravitacionais
entre si e se diferenciam uns dos outros devido ao peso e a massa que não só os
diferenciam uns dos outros, mas também diferenciam as suas velocidades de queda
no vazio e isto precisamente porque não se encontram mais apenas em queda em
linha reta no vazio, mas sim, além de entrarem em linhas curvas durante a queda
eles também estabeleceram entre si um sistema de atração e repulsão que alterou
a velocidade igual da queda e trouxe à tona não só as diferenças de velocidades
na queda como também as diferenças de peso e de massa dos átomos entre si, bem
como de proximidade e distância entre si, logo, de associação em certos
conjuntos de átomos e dissociação de outros conjuntos de átomos.
Porém estas combinações todas dos átomos no vazio resultam
no mundo sensível, quer dizer, resultam no surgimento fora do mundo atômico das
composições que originam o espaço sensível do mundo sensível e o tempo sensível
do mundo sensível. A composição do espaço sensível é imaginada como resultante
do desvio da linha reta que é a linha curva que resulta na linha horizontal do
encontro dos átomos entre si que resulta num sistema que por acidente compõe o
espaço sensível do mundo sensível, mas como os movimentos dos átomos em linhas
de queda vertical, de curva diagonal e de encontro horizontal são contínuos
ocorrem acidentes com os acidentes que compõem o espaço sensível e estes acidentes
dos acidentes que compõem o tempo. O espaço sensível é a composição passiva resultante
das composições dos átomos e o tempo sensível é a composição ativa até à
decomposição resultante das mudanças dos movimentos e das composições dos
átomos no vazio. O cosmo sensível se mostra como um sistema de atração e
repulsão inteiramente similar ao do mundo atômico até mesmo com os corpos
celestes girando em linha curva em torno de si e uns dos outros, então, tal
qual o cosmo atômico veio a ser a partir do desvio dos átomos o cosmo sensível
vem a ser a partir do desvio dos corpos celestes. Porém, os corpos celestes e
todo o cosmo sensível está sujeito ao espaço e ao tempo sensíveis, quer dizer,
à decomposição, então, no cosmo sensível nenhum ser, por mais que sua autonomia
remeta para a autonomia dos átomos, é superior, em autonomia, à autonomia da consciência
humana que conseguiu conceber todo esse processo desde os átomos e o vazio até
o cosmo sensível. Porém, se tudo se decompõe e perde sua autonomia, então, é
claro, também a consciência humana perde sua autonomia e se decompõe em átomos
e vazio, portanto, só os átomos no vazio não perdem sua autonomia. Certamente é
isso mesmo, porém, surge um problema. Se os átomos e o vazio são essências
subjetivas dos fenômenos objetivos, ou seja, se as coisas sensíveis e os
sujeitos sensíveis são a realidade efetiva e os fenômenos objetivos de modo que
as essências subjetivas são reais quando confirmadas pelas percepções sensíveis
e são apenas fantasias quando afastadas e não confirmadas pelas percepções
sensíveis, então é significativo que no cosmo sensível apenas se possa
confirmar a autonomia da consciência humana e não a dos átomos, posto que a
autonomia dos átomos se encontra afirmada no cosmo atômico e não no cosmo
sensível, aliás, mesmo que fosse afirmada no cosmo sensível não seria a
autonomia dos átomos que seria afirmada porque no cosmo sensível os átomos
perdem sua autonomia e não duram de forma imortal tal qual afirmam os átomos ensimesmados
no vazio, aliás, desse modo também nada vem a ser. Então, o critério do
predomínio da percepção sensível como realidade ante a imaginação como fantasia
conclui que a única realidade autônoma da essência subjetiva da imaginação que
é confirmada pela percepção sensível é a consciência humana de si do sujeito
sensível e a realidade do átomo, mesmo no caso de confirmação sensível, no mundo
sensível é mortal e sem autonomia suficientemente durável para se contrapor à
autonomia efetivamente sensível da consciência da essência subjetiva humana do
sujeito sensível que também é o sujeito humano. Consequentemente, ao
desenvolver os átomos e vazio desde sua configuração inicial como essências
subjetivas até a sua confirmação final como percepções sensíveis, o que fica
claramente confirmado como percepção sensível é a essência subjetiva da
consciência humana de si e o que é afastado e negado são os átomos e o vazio
como percepções sensíveis, de modo que na vida mortal só existe confirmado pela
percepção sensível a essência subjetiva da consciência humana de si do sujeito sensível
e os átomos e o vazio permanecem na morte imortal e não são confirmados pela
percepção sensível como essências subjetivas da vida mortal da coisa sensível. Surge
um desenvolvimento do atomismo que se afirma tanto como dissolução do atomismo
como cosmo insensível dos átomos e do vazio na morte imortal quanto se afirma como
realização do atomismo como cosmo sensível da(s) consciência(s) humana(s) de si
na vida mortal. Ocorre, então, uma mudança da essência subjetiva da natureza
física do átomo para a essência subjetiva da natureza psíquica da consciência
humana de si, mudança do átomo para a consciência humana de si, mudança da
natureza física para a natureza psíquica, mudança da morte imortal para a vida
mortal. A opção por manter o atomismo, nesse momento do seu desenvolvimento, o
da sua realização e confirmação pela percepção sensível, é também a opção pela
morte imortal e/ou pela castração/ausência, tal qual o fizeram Demócrito e Édipo,
enquanto que a opção por dissolver o atomismo e mudar para a consciência humana
de si é a opção pela vida mortal e/ou pela concepção/presença, tal qual o
fizeram Epicuro e Prometeu. E se Epicuro e Prometeu parecem roubar o princípio e
a vida da Natureza de modo que parecem se confundir com criminosos, então é
preciso perceber porque Demócrito e Édipo que parecem ter o princípio e a vida
roubados pela Natureza, com tais sacrifícios, parecem se confundir
com santos? Quer dizer, porque escolher a vida mortal parece um crime e porque
escolher a morte imortal parece uma santidade?!
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