quarta-feira, 4 de maio de 2016

Castração e concepção. Falta e presença. Atualizado




Esse texto foi publicado originalmente com 6 parágrafos, sendo que o sexto parágrafo é idêntico ao seu título. Mas, agora, tudo aquilo que vem depois do sexto parágrafo é atualização deste texto.


A coisa em si é cognoscível e acessível quando a sensibilidade não é exclusiva de quem conhece de modo que as formas do espaço e do tempo também são formas das próprias coisas tais quais elas são em si mesmas, logo, as coisas são espaciais e temporais nelas mesmas e não exclusivamente na sensibilidade humana a priori. Logo, não existe um corte epistemológico separando a sensibilidade humana da sensibilidade natural das coisas tais como elas são sensivelmente em si mesmas e, assim, impedindo o conhecimento das coisas em si e só admitindo o conhecimento das coisas para si, das coisas tais quais elas são exclusivamente para a sensibilidade humana que por um corte epistemológico se encontra radicalmente separada da sensibilidade natural das próprias coisas tais quais elas são e, por meio de tal abismo, interditas de conhecer as coisas tais quais elas são naturalmente sensíveis, porque elas não são naturalmente sensíveis exceto para a sensibilidade humana, ou seja, elas são apenas humanamente sensíveis, mas o corte epistemológico interdita o acesso à sensibilidade delas mesmas.


Não existindo este corte epistemológico de Kant, então as coisas são tão sensíveis quanto os humanos são sensíveis e existem num mundo sensível comum. Desse modo, a sensibilidade humana acessa imediata e sensivelmente as coisas tais quais elas são sensivelmente acessíveis e cognoscíveis. E a sensibilidade humana imediata e sensivelmente estabelece duas existências para as coisas sensíveis, a existência sensível real fora da subjetividade humana e a existência sensível imaginária dentro da subjetividade humana. Assim, o sujeito humano carrega dentro de si a imaginação das coisas sensíveis e pode conhecer na sua imaginação as essências subjetivas das coisas sensíveis que existem no real/na realidade como fenômenos objetivos. Surgindo alguma dúvida no conhecimento da essência subjetiva ele pode recorrer à percepção sensível do fenômeno objetivo para, talvez, tirar a dúvida, ainda que, em geral, seja mais habitual que a dúvida seja sanada no próprio desenvolvimento do conhecimento da essência subjetiva dentro do sujeito.


Primeira diferença, sem o corte epistemológico da sensibilidade humana com a sensibilidade das coisas naturais tais quais elas são sensivelmente em si (nelas) mesmas ainda permanece existindo uma relação natural comum da sensibilidade humana com a sensibilidade natural, logo, existe o acesso direto da sensibilidade humana à sensibilidade das próprias coisas tais quais elas são nelas mesmas, consequentemente, o humano não está mais isolado, por meio da própria sensibilidade, das coisa tais quais elas são sensivelmente nelas próprias e só tendo acesso às coisas tais quais elas são sensivelmente exclusivamente para os humanos e nunca para elas próprias. Não, ele agora se encontra numa comunidade sensível com a natureza de modo que a sua sensibilidade acessa a sensibilidade das coisas tais quais elas são para elas mesmas. Mas, ainda que as coisas sensíveis sejam acessadas tais quais elas são sensivelmente, quer dizer, como fenômenos objetivos, tais quais eles são neles mesmos, e, desse modo, adentrem no sujeito como imaginação, o processo de conhecimento das coisas sensíveis não se limita ao conhecimento dos fenômenos objetivos tais quais eles são neles mesmos, mas se desenvolve no conhecimento das essências subjetivas, tais quais elas são nelas mesmas, dos fenômenos objetivos, tais quais eles são neles mesmos, ou seja, se torna desenvolvimento dos conceitos dentro do sujeito humano, porque conceito se relaciona com conceber e é isso que o sujeito humano faz com as essências subjetivas, tais quais elas são nelas mesmas, dentro de si mesmo ou dentro de sua própria essência subjetiva, ele se relaciona subjetivamente com elas até criar conceitos, até conceber o conhecimento completo delas mesmas tais quais são essencialmente ou em curso de se completar tal conhecimento da essência mesma das coisas tal qual ela se encontra nelas mesmas.


A atividade de conhecimento, no caso de quem acessa e conhece as coisas tais quais elas são nelas mesmas, parece se desenvolver quase que inteiramente no interior do sujeito cognoscente, na sua atividade de conceber a essência subjetiva das próprias coisas com a sua própria essência subjetiva de si mesmo. Ela parece ser feita a partir da passagem da percepção sensível para o pensamento humano. No entanto, uma vez que o sujeito consegue conhecer a coisa tal qual ela é nela mesma dentro de si mesmo, então, como se desenvolve sua relação prática, quer dizer, sua relação que sai do interior do sujeito, da sua essência subjetiva, para o seu exterior, para o fenômeno objetivo?



Ora, dentro de si ele possui o saber da coisa tal qual ela é em si (nela) mesma, então, o saber da coisa tal qual ela é nela mesma se encontra dentro do sujeito e não no fenômeno objetivo, ainda que tenha originalmente vindo do fenômeno objetivo para a essência subjetiva no interior do sujeito, logo, o saber e o conhecimento da coisa tal qual ela é nela mesma se encontra na essência subjetiva e não no fenômeno objetivo, consequentemente, a atividade do sujeito de sair de si para aplicar o saber e/ou a essência subjetiva da coisa tal qual ela é nela mesma no fenômeno objetivo só se compreende como uma atividade de aperfeiçoamento do mundo do fenômeno objetivo por sua própria essência subjetiva que está entregue e concentrada aos cuidados e nas mãos do sujeito humano. Noutras palavras, a essência da coisa tal qual ela é em si não se encontra no fenômeno objetivo e sim na própria essência da coisa tal qual ela é em si no interior do sujeito, quer dizer, na essência subjetiva do humano que tanto a conhece quanto se autoconhece, então, aqui acontece algo que se assemelha ao que acontece com o fenômeno na perspectiva de Kant que é a ausência da coisa em si nele, mas, aqui, a coisa em si se transferiu do fenômeno para a essência subjetiva do sujeito cognoscente, enquanto que com Kant a coisa em si se transferiu para um mundo transcendente inacessível e incognoscível. A grande diferença na hora da prática se mostra como a diferença entre a prática de uma crença, de uma suposição, de uma hipótese e a prática de uma sabedoria, de uma verdade, de uma evidência.


Castração e concepção. Falta e presença.


A coisa sensível é percebida pelo sujeito sensível e passa a habitar dentro do sujeito sensível, na sua imaginação, mas o sujeito sensível não se limita a perceber a coisa sensível e a captar e formar imagem dela na sua imaginação e isto porque a sua imaginação coloca em ação as imagens que captou e formou fazendo associações e dissociações com elas e, assim, sua imaginação faz configurações que ainda não se encontram presentes com as demais coisas sensíveis fora do sujeito sensível. Estas configurações podem vir a ser presentes junto com as demais coisas sensíveis fora da imaginação ou podem permanecer presentes apenas na imaginação. Por maior que seja a atividade da imaginação e a pluralidade de configurações da imaginação apenas saem da subjetividade da fantasia imaginativa para a objetividade da realidade sensível aquelas configurações que não contradizem a percepção sensível. É a sensibilidade que confirma a pertinência, a pertença ou não das configurações à percepção sensível ou à fantasia imaginativa, logo, o mesmo se passa com as essências subjetivas configuradas no interior do sujeito sensível ou elas são confirmadas como pertencentes às percepções sensíveis ou são afastadas como pertencentes às fantasias imaginativas. A atividade da imaginação chega a configurar os átomos e o vazio como essências subjetivas das percepções sensíveis das coisas sensíveis e aí a atividade da imaginação vai acompanhando o processo de desenvolvimento dos átomos e do vazio desde sua configuração inicial como essências subjetivas até à sua elaboração final como confirmação das percepções sensíveis.


A imaginação seguindo a percepção sensível das coisas durante suas durações e seus processos de decomposições de suas formas e de seus conteúdos chega à imaginação dos átomos e do vazio e uma vez aí inicia e se fixa na sua atividade imaginativa a respeito dos átomos e do vazio. Sua atividade imaginativa parte da infinidade dos átomos no vazio infinito, logo, parte do sem fim do vazio e dos átomos, então, eles como espaço abstrato ou vazio e como quantum mínimo de espaço concreto ou tempo (considerando que toda coisa é um quantum que por ser tempo entra em decomposição) são princípios permanentes e básicos da sustentabilidade de tudo. Os átomos são espaços cheios presentes no espaço vazio e, por isso, eles devido ao peso de sua massa se encontram em queda em linha reta no espaço vazio na mesma velocidade, já que o espaço vazio aceita igualmente a queda de todos, sem resistir a nenhum deles, independentemente da diferença de peso e de massa que tenham entre si. Desse modo, os átomos e o vazio permanecem ensimesmados e, ainda que sejam os princípios permanentes e básicos da sustentabilidade de tudo, nada vem a ser porque nessa queda em linha reta no vazio na mesma velocidade eles permanecem ensimesmados e não há nenhum vir a ser. Noutras palavras, como essências subjetivas eles, os átomos e o vazio, são uma excelente especulação, mas nada além de uma especulação, mas uma especulação que pertence à fantasia e não à realidade, já que não consegue confirmar a percepção sensível, no sentido de vir a ser percepção sensível, ainda que consiga confirmar a percepção sensível da experiência da queda dos corpos sob a ação da gravidade. Para sair do seu ensimesmamento e para que tudo venha a ser é preciso que os átomos saiam da inércia da queda em linha reta no vazio que os deixa ensimesmados, é preciso que saiam de si e, assim, deixem de ser apenas coisa em si e venham a ser por si mesmos, logo, num movimento interno natural, por escolha própria dos átomos, os quais, afinal, são os únicos seres existentes ao lado do não-ser do espaço vazio, logo, não é possível nenhum movimento externo ao que existe aí que são exclusivamente os átomos e o vazio, portanto, qual é este movimento natural dos átomos de sair da condição de coisas em si e vir para a condição de coisas para si? Este movimento natural e que é uma escolha do próprio átomo é o movimento de declinação do átomo da sua queda em linha reta no espaço vazio, logo, sua declinação é um pequeno desvio que se configura como uma mínima linha curva e esta linha curva que cada átomo escolhe como coisa para si tem como resultado o encontro, o choque, a repulsão e/ou a atração dos átomos entre si e aí, desse terceiro movimento, resulta a possibilidade de vir a ser configurado tudo, quer dizer, o mundo sensível.


Os átomos em queda se desviam ligeiramente da linha reta e, assim, se encontram e, ainda em queda, estabelecem relações gravitacionais entre si e se diferenciam uns dos outros devido ao peso e a massa que não só os diferenciam uns dos outros, mas também diferenciam as suas velocidades de queda no vazio e isto precisamente porque não se encontram mais apenas em queda em linha reta no vazio, mas sim, além de entrarem em linhas curvas durante a queda eles também estabeleceram entre si um sistema de atração e repulsão que alterou a velocidade igual da queda e trouxe à tona não só as diferenças de velocidades na queda como também as diferenças de peso e de massa dos átomos entre si, bem como de proximidade e distância entre si, logo, de associação em certos conjuntos de átomos e dissociação de outros conjuntos de átomos.



Porém estas combinações todas dos átomos no vazio resultam no mundo sensível, quer dizer, resultam no surgimento fora do mundo atômico das composições que originam o espaço sensível do mundo sensível e o tempo sensível do mundo sensível. A composição do espaço sensível é imaginada como resultante do desvio da linha reta que é a linha curva que resulta na linha horizontal do encontro dos átomos entre si que resulta num sistema que por acidente compõe o espaço sensível do mundo sensível, mas como os movimentos dos átomos em linhas de queda vertical, de curva diagonal e de encontro horizontal são contínuos ocorrem acidentes com os acidentes que compõem o espaço sensível e estes acidentes dos acidentes que compõem o tempo. O espaço sensível é a composição passiva resultante das composições dos átomos e o tempo sensível é a composição ativa até à decomposição resultante das mudanças dos movimentos e das composições dos átomos no vazio. O cosmo sensível se mostra como um sistema de atração e repulsão inteiramente similar ao do mundo atômico até mesmo com os corpos celestes girando em linha curva em torno de si e uns dos outros, então, tal qual o cosmo atômico veio a ser a partir do desvio dos átomos o cosmo sensível vem a ser a partir do desvio dos corpos celestes. Porém, os corpos celestes e todo o cosmo sensível está sujeito ao espaço e ao tempo sensíveis, quer dizer, à decomposição, então, no cosmo sensível nenhum ser, por mais que sua autonomia remeta para a autonomia dos átomos, é superior, em autonomia, à autonomia da consciência humana que conseguiu conceber todo esse processo desde os átomos e o vazio até o cosmo sensível. Porém, se tudo se decompõe e perde sua autonomia, então, é claro, também a consciência humana perde sua autonomia e se decompõe em átomos e vazio, portanto, só os átomos no vazio não perdem sua autonomia. Certamente é isso mesmo, porém, surge um problema. Se os átomos e o vazio são essências subjetivas dos fenômenos objetivos, ou seja, se as coisas sensíveis e os sujeitos sensíveis são a realidade efetiva e os fenômenos objetivos de modo que as essências subjetivas são reais quando confirmadas pelas percepções sensíveis e são apenas fantasias quando afastadas e não confirmadas pelas percepções sensíveis, então é significativo que no cosmo sensível apenas se possa confirmar a autonomia da consciência humana e não a dos átomos, posto que a autonomia dos átomos se encontra afirmada no cosmo atômico e não no cosmo sensível, aliás, mesmo que fosse afirmada no cosmo sensível não seria a autonomia dos átomos que seria afirmada porque no cosmo sensível os átomos perdem sua autonomia e não duram de forma imortal tal qual afirmam os átomos ensimesmados no vazio, aliás, desse modo também nada vem a ser. Então, o critério do predomínio da percepção sensível como realidade ante a imaginação como fantasia conclui que a única realidade autônoma da essência subjetiva da imaginação que é confirmada pela percepção sensível é a consciência humana de si do sujeito sensível e a realidade do átomo, mesmo no caso de confirmação sensível, no mundo sensível é mortal e sem autonomia suficientemente durável para se contrapor à autonomia efetivamente sensível da consciência da essência subjetiva humana do sujeito sensível que também é o sujeito humano. Consequentemente, ao desenvolver os átomos e vazio desde sua configuração inicial como essências subjetivas até a sua confirmação final como percepções sensíveis, o que fica claramente confirmado como percepção sensível é a essência subjetiva da consciência humana de si e o que é afastado e negado são os átomos e o vazio como percepções sensíveis, de modo que na vida mortal só existe confirmado pela percepção sensível a essência subjetiva da consciência humana de si do sujeito sensível e os átomos e o vazio permanecem na morte imortal e não são confirmados pela percepção sensível como essências subjetivas da vida mortal da coisa sensível. Surge um desenvolvimento do atomismo que se afirma tanto como dissolução do atomismo como cosmo insensível dos átomos e do vazio na morte imortal quanto se afirma como realização do atomismo como cosmo sensível da(s) consciência(s) humana(s) de si na vida mortal. Ocorre, então, uma mudança da essência subjetiva da natureza física do átomo para a essência subjetiva da natureza psíquica da consciência humana de si, mudança do átomo para a consciência humana de si, mudança da natureza física para a natureza psíquica, mudança da morte imortal para a vida mortal. A opção por manter o atomismo, nesse momento do seu desenvolvimento, o da sua realização e confirmação pela percepção sensível, é também a opção pela morte imortal e/ou pela castração/ausência, tal qual o fizeram Demócrito e Édipo, enquanto que a opção por dissolver o atomismo e mudar para a consciência humana de si é a opção pela vida mortal e/ou pela concepção/presença, tal qual o fizeram Epicuro e Prometeu. E se Epicuro e Prometeu parecem roubar o princípio e a vida da Natureza de modo que parecem se confundir com criminosos, então é preciso perceber porque Demócrito e Édipo que parecem ter o princípio e a vida roubados pela Natureza, com tais sacrifícios, parecem se confundir com santos? Quer dizer, porque escolher a vida mortal parece um crime e porque escolher a morte imortal parece uma santidade?!



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