segunda-feira, 20 de julho de 2015
Para mudar ou transformar o mundo é preciso mudar ou transformar o pensamento...
Além da derradeira solução, aquela que efetivamente para o pensamento, pelo menos é o que parece, existe alguma outra solução? Existe essa, à qual Marx se refere nas suas "Teses sobre Feuerbach" e que, ciente de não poder parar o pensamento nem o mundo, se limita a mudar o mundo, ainda que, para fazer isso, precise começar mudando o pensamento, já que não só o pensamento não para, como, antes de tudo, estamos mais imediatamente em nós mesmos, no nosso mundo, que é o mundo do pensamento, do que no mundo propriamente dito, que é o mundo do real.
I
A primeira tese se inicia dizendo que a falha do pensamento materialista tradicional é considerar que o mundo, a sensibilidade, o real é apenas objeto ou intuição, quer dizer, matéria e/ou real fora de nós, por isso que o novo materialismo defende um aperfeiçoamento e considera que o mundo, a sensibilidade, o real também é atividade sensivelmente humana, prática, não subjetiva; noutras palavras, a falha de considerar a matéria e/ou o real apenas como matéria e/ou real fora de nós faz do real e/ou matéria exclusivamente um objeto e de nós exclusivamente um sujeito, melhor, nos separa do real e/ou da matéria na nossa condição de sujeito, daí que nos consideremos imediatamente em nós mesmos, no nosso mundo, que é o mundo do pensamento. Marx diz não!!! A matéria e/ou o real são mundo material e/ou real porque são atividade sensivelmente humana, prática, não subjetiva, ou seja, não estamos separados do real e/ou da matéria num mundo dentro de nós que é subjetivo frente a um mundo fora de nós que é objetivo. Não!!! Ambos somos objetivos, reais, materiais, seja na forma de objeto sensível não-humano, seja sob a forma de atividade sensivelmente humana, prática, não subjetiva e não como a atividade de abstração, como pensamento insensível, subjetivo. Esta última atividade é a assumida pelo idealismo e o materialismo tradicional quer apenas os objetos sensíveis, mas não inclui a própria atividade humana entre as objetividades sensíveis e, por isso, cai de volta no idealismo, quer dizer, no considerar a atividade humana como exclusivamente subjetiva, interior a nós, logo, como exclusivamente teórica/pensar e só consegue considerar a prática como atividade objetiva dos dejetos, poluições, defeitos humanos. É como se o materialismo tradicional só concebesse o amor ou o afeto idealizado das subjetividades humanas e o ódio ou o desafeto materializado das objetividades desumanas, mas não o sexo ou o afeto materializado das objetividades humanas. Noutras palavras, o mundo e/ou o real fornece os objetos materiais e/ou reais de alimentação ou input da subjetividade humana que ama e se comunica com outra subjetividade humana trocando ideias e afetos, mas o humano também fornece objetos materiais e/ou reais de rejeição ou output da subjetividade humana que odeia e manipula desumanamente outra subjetividade trocando materiais e desafetos. Por isso o materialismo tradicional não compreende a atividade sensivelmente humana, prática, objetiva do pênis e da vagina, do trabalho, a atividade revolucionária, prático-crítica.
II
Ele precisou aperfeiçoar o pensamento materialista considerando objetivos o mundo, a sensibilidade e a atividade sensível humana, prática. Desse modo, ele fez um corte com o pensamento abstrato e com a subjetividade ensimesmada, separada da objetividade, alienada da sua sensibilidade, materialidade, realidade, objetividade. Consequentemente sua segunda tese ficou livre para obrigar o pensamento humano a se referir à objetividade como uma prática, uma atividade sensível e não mais como uma subjetividade, um pensamento, uma teoria que corresponde ou não à realidade.
III
Por isso mesmo que, na sua terceira tese, sobre a doutrina materialista da mudança das circunstâncias e da educação, é a atividade sensivelmente humana, a prática ou são os homens que mudam as circunstâncias e o próprio educador deve ou precisa ser educado, ou seja, passar por e desenvolver uma prática, uma atividade sensivelmente humana, uma mudança educacional ou de si mesmo. O materialismo tradicional considera que é a subjetividade humana, o pensamento humano ou separado da objetividade que desenvolve a educação e/ou as relações amorosas e afetivas ideais para a construção das circunstâncias humanas, ou seja, ele eleva a subjetividade humana acima da objetividade e, desse modo, rebaixa os que não alcançam a subjetividade do materialismo tradicional.
IV
O materialismo tradicional critica a religião por seu idealismo de considerar o mundo, a sensibilidade, o real apenas como sujeito/pensamento e não como objeto, mas ele, por sua vez, o considera apenas como objeto e, desse modo, procura trazer o mundo religioso e idealista para o mundo mundano e materialista, mas como esse último é apenas real e objetivo como objeto e o sujeito se encontra fora dele por não ser objetivo, então este mundo mundano e materialista é também idealista e deixa o sujeito humano fora do mundo e da materialidade, logo, é perfeitamente possível voltar a ter um mundo religioso idealista e separado do mundo mundano e materialista já que este último é também um mundo que deixa de fora o sujeito humano. O novo materialismo vê nessa falha do materialismo tradicional uma contradição interna do mundo materialista consigo mesmo e colocando o sujeito humano dentro da materialidade objetiva do mundo ele procura destruir toda a contradição do materialismo mundano tradicional que separa o humano objetivo do seu próprio mundo objetivo. Mas é aqui que ele fala da destruição da família terrestre como origem da família celeste, quer dizer, que é a família terrestre que desenvolveu essa falha materialista que separa do mundo objetivo o sujeito humano como exclusivamente subjetivo e, assim, impede que ele viva e usufrua de sua condição de sujeito humano objetivo.
V
O materialismo tradicional não quer o pensamento abstrato do idealismo e quer sim a intuição, mas a intuição para ele é a sensibilidade exclusiva do objeto e não do sujeito humano, ou seja, para a intuição a sensibilidade não é uma atividade humano-sensível, prática, não subjetiva.
VI
O materialismo tradicional converte a essência religiosa idealista na essência humana. De modo que a essência humana é uma abstração inerente ao sujeito humano singular. Mas, para o novo materialismo a essência humana é o conjunto das relações sociais, ou seja, não é inerente ao sujeito singular nem ao gênero humano como uma natureza, porque ela é resultante do conjunto das relações sociais, é resultante do conjunto das atividades sensivelmente humanas, do conjunto das práticas humanas, do conjunto não subjetivo das relações humanas.
VII
O materialismo tradicional não vê que o sentimento religioso é um produto social, bem como o sentimento humano, e que o indivíduo abstrato e/ou a essência abstrata que ele analisa pertence à mesma sociedade que os produziu.
VIII
"Para o novo materialismo toda a vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que orientam a teoria para o misticismo" são compreendidos e solucionados reduzindo tudo à prática humana.
IX
"O ponto culminante a que chega o materialismo intuitivo, quer dizer, o materialismo que não concebe a sensibilidade como atividade prática, é a intuição dos indivíduos singulares e da sociedade civil-burguesa."
X
"O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade civil-burguesa; o ponto de vista do novo é a sociedade humana ou a humanidade social."
XI
"Os filósofos apenas interpretaram o mundo de forma diferente, o que importa é mudá-lo."
O nosso exame apenas confirma a necessidade que Marx tem de mudar o pensamento da sua existência em si mesmo, subjetiva, abstrata, racional para a sua existência fora de si mesmo, objetiva, concreta, real. Com o pensamento ensimesmado o movimento do pensamento que não para só pode mudar de uma interpretação para outra interpretação do mundo, já com o pensamento foradesimesmado o movimento do pensamento que não para já pode mudar o mundo de uma forma para outra forma do mundo. Mudar o pensamento de sua existência subjetiva para a sua existência objetiva é mudar da interpretação do mundo para a transformação do mundo. Então, para começar a pensar diferente e mudar o mundo é preciso primeiro mudar o pensamento de ensimesmado para foradesimesmado ou"engajado".
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