sábado, 11 de julho de 2015

Marx ou a fonte da saudade da presença do futuro




O tempo livre do camponês permitiu a ele desenvolver o tempo de trabalho livre, ou seja, tudo que o camponês desenvolveu foi transformando e aproveitando o seu tempo livre do trabalho servil em tempo de trabalho livre, mas o trabalhador livre quer obter o seu tempo livre do tempo de trabalho capitalista para aproveitá-lo transformando-o em tempo de trabalho? Quer retornar ao tempo livre do camponês e girar a roda para trás transformando o tempo livre que obteve novamente em tempo de trabalho?! Não é o que parece. O que parece ser um desenvolvimento do camponês para adiante ou girando a roda para frente é a atitude do capitalista de aproveitar toda e qualquer oportunidade para transformar o tempo livre em tempo de trabalho, daí que promova o trabalho informal, o empreendedorismo, o micro empreendedorismo etc. Mas e o que quer o trabalhador com seu tempo livre? Fazer política, estudar, praticar esportes, participar da educação dos filhos e da vida comunitária, fazer música e artes, enfim, filosofar. A emancipação dos trabalhadores é obra dos trabalhadores de se libertar do trabalho ou do tempo de trabalho e de conquistar a liberdade ou o tempo livre para se autodesenvolver e/ou se autorealizar humana e socialmente.


As lutas entre o capital e o trabalho, entre as classes capitalistas e as classes trabalhadoras em torno do tempo de trabalho e do tempo livre só adquirem sentido quando se antagonizam com um lado querendo dominar impondo por toda parte a necessidade do tempo de trabalho para sobreviver, enquanto o outro lado quer fruir por toda parte a liberdade/a satisfação/a realização do tempo livre para viver. A obra dos trabalhadores é fazer a sociedade dos trabalhadores, quer dizer, a sociedade liberta do tempo de trabalho e que vive na liberdade de fruir da liberdade e/ou do tempo livre.


Menor tempo de trabalho para produzir um produto permite produzir muito mais produtos num mesmo tempo de jornada de trabalho. Por outro lado, também permite empregar muito mais trabalhadores num menor tempo de jornada de trabalho. O capitalista com o menor tempo de trabalho produtivo quer mais produtos e menos trabalhadores numa mesma jornada de trabalho. O trabalhador com o menor tempo de trabalho produtivo quer mais tempo livre e mais trabalhadores num menor tempo de jornada de trabalho. Um vive de explorar o menor tempo de trabalho dentro da jornada de trabalho, o outro vive de usufruir o maior tempo livre fora da jornada de trabalho. Um vive de explorar a manutenção da jornada de trabalho, o outro vive da possibilidade de se libertar da jornada de trabalho. Um quer perpetuar o tempo de trabalho por menor que ele seja, o outro quer suprimir o tempo de trabalho por menor que ele seja.


Sem dar tais sentidos de classe às lutas de classes entre capitalistas e trabalhadores tais lutas são inteiramente sem sentido, melhor, tais lutas são apenas arrumações do sistema de trabalho assalariado, arrumações do capitalismo. As lutas de classes em si e por si mesmas são apenas arranjos do sistema capitalista, mas quando são assumidas pelos trabalhadores para dar sentido de classe trabalhadora a estas lutas elas passam a ser dirigidas como obra que conduz à sociedade dos trabalhadores, ou seja, à sociedade emancipada do tempo de trabalho, à sociedade do tempo livre, quer dizer, àquela sociedade que aproveita todo o tempo livre para desenvolver a pessoa humana, a personalidade do indivíduo ou a individualidade humana/social. Só quando a classe trabalhadora dá um sentido de classe trabalhadora à sua luta de classe e quer a emancipação do trabalho, a emancipação social, a emancipação humana é que a luta de classes deixa de ser um mero arranjo do capitalismo e se torna meio da libertação humana e social da exploração do trabalho humano e social e pode vir a ter início a liberdade humana e social do autodesenvolvimento da criatividade humana e social.



Não há como negar que este sentido de classe da luta da classe trabalhadora se torna manifesto na figura do filósofo mas não do filósofo teórico que faz a materialização do pensamento numa obra filosófica e/ou numa escola filosófica de pensamento e sim do filósofo prático que faz a materialização do pensamento numa obra prática e/ou numa prática comum do pensar. Ou seja, não se trata mais da figura do filósofo que é fantástico e teoricamente genial por melhor interpretar e compreender o mundo e sim da figura do filósofo que é livre e praticamente comum por se ater a mudar o mundo.



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