quarta-feira, 29 de julho de 2015
Mas, é por aí que se faz a emancipação do niilismo e que se realiza a libertação do ser?!
O problema com o ser, que é o resultado permanente tanto do trans-formar ou mudar o mundo quanto do trans-valorar ou interpretar os valores de forma diferente, é que ele também é o ego ou melhor e mais precisamente, para que não se contraponha o que seria o ser como conceito da filosofia grega antiga e o eu/ego como conceito da filosofia europeia (com a alemã, em destaque) moderna, ele é a razão, a identidade entre ser e pensar, entre tudo que é real e tudo que é racional.
Mas sem o ser, o ego ou a razão não só a economia não funciona nem se desenvolve porque ela é o interesse egoísta e racional de autodesenvolver o ser, como ainda não funciona nem se desenvolve aquela presença que define e caracteriza uma pessoa quando o que é chamado de mal de Alzheimer vai descaracterizando e indefinindo a pessoa ao dissolver tal presença dela nela.
E assim o problema suposto ou de base talvez não exista porque nenhuma economia se desenvolve desinteressada tal como nenhuma pessoa se desenvolve sem a saúde da presença que a interessa, quer dizer, com a doença da ausência que a dissolve. Simplificando, no vir a ser está presente o objetivo, a finalidade, a centralidade ou em torno de que gira todo o movimento de vir: o ser! Logo, o problema com o ser não é verdadeiramente um problema com o ser e sim um problema com o não ser, desde quando na antiga Grécia a existência da ausência, do não ser e/ou do vazio foi admitida até chegar na moderna Europa à admissão da existência do niilismo.
O martírio está na origem desta história e é atualmente que ele se apresenta de forma radical no terrorismo e nos inúmeros espetáculos de assassinatos em série que culminam no suicídio do homicida. Mas, o martírio guerreiro, heróico, santo, revolucionário, fundamentalista, niilista é o lado espetacular do martírio e, no entanto, o martírio anônimo e cotidiano está baseado no ganhar o pão ou a vida com o suor do próprio rosto, está baseado no trabalho.
Porém, o trabalho está se tornando algo escasso, algo que, cada vez mais, cabe só às máquinas realizar efetivamente. E a quantidade dos que ficam sem trabalho durante toda a sua própria vida está se tornando abundante. Ainda hoje o martírio anônimo e cotidiano pelo trabalho é estimado com orgulhosa inclusão criativa por sua vítima e pela sociedade, enquanto que o martírio anônimo e cotidiano por estar sem trabalho é estimado com ressentida marginalização niilista por sua vítima e pela sociedade.
Que a emancipação dos trabalhadores é obra dos trabalhadores foi a grande afirmação da autonomia do movimento de auto-emancipação dos trabalhadores e de emancipação dos trabalhadores do trabalho, o que é algo muito conhecido, mas que os trabalhadores viveriam num mundo no qual a falta de trabalho se tornaria estrutural e no qual, portanto, a ausência de trabalho - e não ainda a emancipação do trabalho - se tornaria abundante é algo muito ignorado. E é algo ignorado precisamente porque não é obra dos trabalhadores nem da auto-emancipação nem da emancipação do trabalho. E, no entanto, o problema permanece porque se os trabalhadores se emancipam do trabalho, então o seu ser se desenvolve e afirma como algo para além do trabalho. Porém, se o trabalho se emancipa dos trabalhadores, então o ser dos trabalhadores é dissolvido e é negado como um nada aquém do trabalho. No primeiro caso, a afirmação do ser é para além do trabalho é a afirmação da apropriação dos meios de produção. No segundo caso, a dissolução num nada aquém do trabalho é a dissolução num nada sem quaisquer meios de produção, num nada inteiramente dependente dos meios de consumo, num nada inteiramente dependente duma ração ou renda de consumo ou de sobrevivência.
O problema atual está filosoficamente colocado pelo niilismo que avança no seu processo de supressão do ser, mas como se faz a emancipação do niilismo? Evidentemente é preciso que seja desenvolvendo o ser e suprimindo o niilismo, mas, como? Como se é precisamente o niilismo quem avança?! A produção é automática e sem trabalhadores, ou seja, o trabalho é da máquina automática ou do autômato, porém, esta produção só se realiza quando é consumida por quem a compra. Uns poucos são proprietários que empregam outros poucos para garantir a manutenção e o desenvolvimento de suas máquinas e os que são muitos são os que nada possuem, nem mesmo emprego ou trabalho, e que fazem o que for preciso e estiver a seu alcance para consumir uma parte qualquer, por menor que seja, do que foi produzido pelas máquinas automáticas.
Nos mistérios dionisíacos do consumir, quer dizer, do comer o pão e beber o vinho o participante descobria que ao mesmo tempo que consumia também era consumido. Então, sem dúvida, os mistérios da produção automática que só pode se realizar pelo consumo também se assemelha porque o consumo do "pão e do vinho" que ela tanto necessita dos consumidores para que se realize termina sendo também o consumo dos proprietários que tanto necessitam ser consumidos para "permanecer" proprietários.
Mas, é por aí que se faz a emancipação do niilismo e que se realiza a libertação do ser?!
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário