domingo, 4 de janeiro de 2015
Da realidade dos sonhos e dos sonhos da realidade
O que acontece aqui, digo, quando escrevo e com o que escrevo? Acredito que, tal qual outros que escrevem, estabeleço uma relação mental com o mundo ou entre quem escreve e quem lê, mais ainda, estabeleço uma relação na qual ocorre a preponderância de algum sentido na relação mental com o mundo.
A meu ver, sou absolutamente falho no que tange a ler o mundo via noticiário, observação das mercadorias, das marcas, observação das estatísticas dos fenômenos sociais e econômicos, observação dos acontecimentos legais, trabalhistas, jurídicos, políticos etc. Eu adentrei ainda jovem num "corte epistemológico" que me conteve e manteve afastado dos conhecimentos positivos, quer dizer, do uso dos sentidos para conhecer e calcular os dados do mundo existente no qual me situo. Esta minha "ignorância deliberada" me manteve fixado em interpretar o mundo, melhor, em tentar concebê-lo abstratamente, recorrendo ao mínimo das impressões dos sentidos e ao máximo da imaginação abstrata ao meu alcance ou de que sou capaz.
Ora, este meu caminho é precisamente o caminho do desenvolvimento do interdito, melhor, dos sentidos que se desviam e se impossibilitam de contatar com a prática positiva porque se fixam na possibilidade de contato "quase" exclusivo com a prática abstrata ou conceitual. Este caminho do interdito é um caminho que parece não andar e sim se afundar numa realidade supostamente "atemporal" na qual "todo o tempo" é um "tempo de trabalho abstrato", ou seja, no fundo, é um caminho para fundar e afundar na "essência" da "positividade abstrata da mercadoria ou capital", o chamado "valor". Mais do que isso, também é um caminho "moralista" na medida que corta todos os laços com os valores de uso, sensíveis ou positivos e se fixa na troca de todos os sensíveis, positivos e úteis exclusivamente pelo "valor".
Qual o resultado disso? A configuração do interdito num tamanho isolamento que só lhe resta a consciência de sua interdição e com ela, talvez, a possibilidade de contemplar o mundo sensível, positivo dos valores de uso com interesse, ou seja, a possibilidade de consciente de sua interdição passar a ter consciência e a observar o mundo via noticiário, observação etc. Noutras palavras, o interdito, talvez, possa iniciar a troca de sua interdição, de sua realidade "quase" exclusivamente abstrata pelos valores úteis, sensíveis, positivos, isto é, pode iniciar o aprendizado de saída da interdição ao assumir a manutenção e reprodução de sua interdição como uma atividade sensível, positiva, útil, o que significa iniciar não apenas trocas com os valores de uso mas inserir sua atividade abstrata, negativa, de troca como uma atividade útil dentre outras atividades de troca, saindo de sua condição de reduzido a mero meio de troca para a condição de produtor dum valor de uso não mais exclusivamente para a troca e sim para a reprodução da energia humana dispendida com o tempo de trabalho abstrato de modo a desfrutar de tempo de repouso concreto ou tempo livre do trabalho abstrato, do trabalho e da abstração.
Como se faz isso, aqui e agora? Meramente sendo uma emissão de mensagens, de interpretações, melhor, de consciência da interdição na qual se está e usando esse meio da internet de expressão e organização da interdição consciente de si. Trata-se de emitir a consciência de estar prisioneiro e precisando de liberdade, de socorro dentro da própria máquina de aprisionamento comum dos demais solitários, sejam eles conscientes ou não de sua prisão. Mas, trata-se também de algo mais, porque, certamente, existem aqueles que são supostamente livres da interdição, ainda que, dentre eles, prepondere aqueles que acreditam ser livres por estarem manipulando os demais, deve restar algum espaço para aqueles que se dedicaram aos valores de uso, à sensibilidade, à positividade e aprenderam a desenvolver a superação de limites, a desenvolver a liberdade da atividade sensivelmente humana e que, conquistaram a liberdade e a consciência dessa liberdade e não a interdição e a consciência dessa interdição. Certamente que esta é mais uma suposição da imaginação abstrata. Mais um sonho do interdito?! A realidade do interdito são os sonhos que ele visa elaborar como sendo a realidade, como sendo os sonhos que se sonha junto com os demais ou a interpretação correspondente ao real, mesmo assim, a realidade do interdito permanece sendo a realidade dos sonhos. Mas, ele se pergunta, volta e meia, quais são os sonhos da realidade? Supondo com isso que está perguntado quais são os sonhos do não-interdito ou quais são os sonhos do liberto?
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