quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Apresentação do essencial: A consciência ensimesmada e fora de si ou transcendental




No esquema de Kant o conhecimento possível da razão pura é oriundo dos princípios do tempo e do espaço enquanto formas a priori da percepção sensível, ou seja, somos incapazes de perceber as coisas tais como elas são em si mesmas porque os nossos sentidos que são os nossos meios ou instrumentos de percepção se comportam como um aparato interpretativo que projeta em tudo as formas do tempo e do espaço de modo que não vemos como as coisas são nelas mesmas fora das formas do tempo e do espaço que nelas projetamos. Nesse esquema, é claro, as coisas tais como elas são em si já são supostas como sendo fora do tempo e do espaço, logo, como sendo metafísicas em relação às coisas tais como elas são para nós, isto é, inteiramente submetidas às formas do tempo e do espaço, quer dizer, inteiramente físicas.


No esquema de Kant, o mundo físico do tempo e do espaço é um mundo das coisas tais como elas são para nós, ou seja, é um mundo da consciência para si. Já o mundo metafísico fora do tempo e do espaço é um mundo das coisas tais quais elas são em si mesmas e, por isso, também um mundo das coisas tais como elas são em nós fora do tempo e do espaço, ou seja, um mundo da nossa consciência tal qual ela é em si, quer dizer, sem meios ou instrumentos de percepção do tempo e do espaço para nós. O que é existente em nós fora do espaço e do tempo? Será aquilo que sustenta todo o nosso corpo temporal e espacial? Portanto, a consciência em si não é aquilo que vem sendo chamado de alma e que é imortal, invisível, incorporal? Como temos acesso a isso? Supondo que é aquilo que sustenta todo o nosso corpo físico, então só podemos ter acesso por esse mesmo meio de sustentação ou suporte de nosso corpo físico, ou seja, por meio da animação de todo nosso corpo oriunda da alma, certo? Pois é, esta é a suposição de Kant e ele estabelece que este acesso à consciência em si se torna possível e factível através da razão prática que por meio da sua expressão e organização vai elaborando no mundo do espaço e do tempo a presença e o selo ou a encarnação da alma metafísica imortal e incorporal, ou seja, o trabalho (que na filosofia de Kant é tanto dever quanto liberdade) - e no sentido de algo exclusivamente humano (tal qual Marx usará na sua análise da mercadoria, do valor e do capital) - é o que se encontra no cerne desta concepção de Kant.


Hegel parte dos esquemas de Kant tomando como ponto de partida o conhecimento possível da razão pura, ou seja, parte das coisas tais quais elas são para nós, para a nossa consciência dos fenômenos no espaço e no tempo, consciência que chamei acima de consciência para si, mas que aqui no ponto de partida de Hegel é considerada meramente como consciência de algo ou de quaisquer fenômenos. Ele vai fazendo experimentos com esta consciência do espaço e do tempo de modo que ela vai percebendo a fuga do espaço e do tempo e, com ela, a fuga da percepção das coisas para nós, fuga, aliás, inteiramente compatível com as próprias formas do espaço e do tempo, posto que espaço e tempo são mortais e corporais, logo, mutáveis e capazes de desaparecer. Pois bem, ele vai usando estas características inerentes aos fenômenos do tempo e do espaço de rumar para sua desaparição até conseguir fazer a passagem dos fenômenos para as abstrações deles, quer dizer, para as formas espaciais e temporais presentes na consciência, mas ele faz esta passagem como passagem da consciência dos fenômenos para a consciência da consciência dos fenômenos, quer dizer, para a consciência de si, momento a partir do qual ele passa da consciência dos fenômenos como dia, noite, isto, aquilo, enfim, objetos para a a consciência dos fenômenos como senhor/mestre, escravo/discípulo, enfim, sujeitos. Esta passagem é também da história natural para a história social, mas é, basicamente, o uso do trabalho concebido como sendo a atividade mais do que exclusivamente humana, como sendo a atividade do espírito, tanto quanto fenômeno do que chama de consciência de si quanto do númeno - considerado incognoscível para Kant -, que o fenômeno da consciência de si consegue acessar, daí que Hegel consiga, como conhecimento possível, o conhecimento absoluto. Porque ele adentra com o espaço e o tempo no que chama consciência de si (a consciência em si de Kant) de modo que a consciência para si de Kant vai se tornando absoluta com Hegel por ir adentrando e se assenhoreando da consciência em si de Kant e de modo também que Hegel vai diferenciando a consciência de um outro modo (consciência - a consciência para si de Kant - e consciência de si - a consciência para si de Kant -), ainda que permaneça usando a diferença de Kant entre em si e para si, ele faz um uso inovador e próprio dessas diferenças.


O espírito e o trabalho do espírito são um aprofundamento da razão prática da consciência em si de Kant, mas de um modo não-kantiano, melhor, de um modo que supera Kant ao tornar a razão pura capaz de adentrar e se aprofundar na razão prática de modo que a consciência para si de Kant, limitada aos fenômenos, vai quebrando os limites kantianos ao ir adentrando na alma numênica e, assim, vai se tornando absoluta até concluir sua jornada de consciência para si da consciência em si do chamado espírito, melhor, como consciência de si do próprio espirito particular de Hegel e do espírito próprio e absoluto de Deus. Desse modo, a razão pura vem a conhecer a razão prática e o conhecimento da coisa para si se torna conhecimento da coisa em si, a qual, por sua vez, é revelada como sendo espírito, logo, a coisa em si não é exatamente uma coisa e sim a objetivação duma idéia, duma subjetividade, logo, se trata dum idealismo ou subjetivismo objetivo que é o proclamado espírito absoluto.


Schopenhauer também parte dos esquemas de Kant, mas de maneira diametralmente oposta à de Hegel, porque ele simplesmente parte da razão prática da consciência em si que é sim a alma, mas, nela, é também o desejo, mas este tende a ser unilateral e, por isso, ele parte da vontade que tende a ser mais omnilateral (abarcando, como em Kant, tanto a liberdade quanto o dever). Porém, ele não vai restringir a alma e sua vontade exclusivamente à prática da liberdade e do dever tal qual concebeu Kant, isto é, apenas como efetivação real da prática da moral de modo que só há percepção prática da vontade se desenvolvendo como liberdade e dever do bem, quer dizer, do que é moralmente aceito. Ele vai ampliar a percepção prática da alma e da vontade se desenvolvendo para além da moral e da religião, quer dizer, mais especificamente se desenvolvendo como arte. Ele se ocupa, portanto, com o trabalho de elaboração da razão prática para a satisfação ampla e completa da vontade, mas, tendo claro, aí, que a vontade é trágica e proporciona tanto felicidade quanto infelicidade, tanto alegria quanto tristeza, tanto bem quanto mal. Ele olha para a história humana moral e religiosa e vê um embate da vontade com a representação, da razão prática com a razão pura e conclui que só a arte consegue elaborar uma representação que traz à tona da maneira mais ampla e completa a efetivação real da vontade da consciência em si da coisa em si, ou seja, a razão prática da consciência em si através da arte adentra na razão pura da consciência para si e se faz e deixa conhecer como prática artística.


No esquema de Kant se parte das coisas como elas são para nós, melhor, das coisas como elas são para a consciência, ou seja, existe um abismo inacessível às coisas tais quais elas são em si porque as coisas tais quais elas são para a consciência são inseparáveis da consciência, quer dizer, são ensimesmadas na consciência, ou seja, a consciência para si que só percebe as coisas tais quais são para si é uma consciência separada, isolada, ensimesmada, cega ou cética para a percepção ou conhecimento das coisas tais quais elas são em si mesmas. Por outro lado, as coisas, tais quais elas são em si mesmas e que são incognoscíveis para a ensimesmada consciência para si, existem tais quais elas são para elas mesmas e a ensimesmada consciência para si admite esta existência e sua limitação ou impossibilidade de conhecer esta existência, mas, com isso, se percebe obrigada a crer nesta existência e a supor, fazer hipóteses, especular ou imaginar como ela seria e qual seria a forma desta existência que proporcionaria maior satisfação para a ensimesmada consciência para si. Ora, não há como escapar da configuração determinada por estes esquemas de Kant: A figura de Édipo, aquele cujo conhecimento dos fenômenos é abrangente mas igualmente cego por não perceber sua condição de mero instrumento do destino determinado pelos númenos, deuses ou coisas tais quais elas são em si mesmas. E, quando descobre no conhecimento dos fenômenos que pura e simplesmente ignorava as coisas tais quais elas são em si, como númenos ou deuses, quer dizer, imortais e incorporais, ele se cega e procura se limitar a seguir a razão prática da consciência em si, quer dizer, da consciência que crê nas coisas tais quais elas são em si e procura supor e imaginar qual a melhor maneira de agir e se comportar que esteja de acordo com a crença, a encarnação e a satisfação das coisas tais quais elas são em si mesmas.


Hegel e Schopenhauer fazem elaborações dos esquemas de Kant, logo, da figura de Édipo. Esse processo, como se sabe, vai chegar em Freud e aí se tornar consciência dos esquemas estruturais aos quais se dedicam as elaborações da consciência humana, melhor, da psiquê humana. Mas, isso é outra história e ainda não chegamos nela. Precisamos parar aqui nessa apresentação do essencial para podermos vir a prosseguir após um período de espaço e tempo de ruminação ou elaboração internas.






Nenhum comentário: