sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

"...a chave da verdadeira história da filosofia grega"!?!?



Está muito difícil continuar depois da "Apresentação do essencial" porque ainda que Marx seja aquele que mais leio também é o que menos consigo definir. Podia dizer que consigo definir quem nas minhas leituras está mais distante porque a hipermetropia me permite percebê-lo melhor ou então recorrer ao velho argumento que diz que a proximidade e também a especialização cai no abismo das particularidades quânticas ou em profusão e impede a visão do todo, melhor, da singularidade qualitativa ou da individualidade específica que define cada um.


Mesmo assim eu preciso superar esta dificuldade e Marx já dizia que “a humanidade só se coloca problemas que pode resolver ou que está prestes a resolver”, com isso em mente fica mais fácil se colocar problemas, entrar numa situação problemática e, até mesmo, se tornar problemático, já que se tem a perspectiva de resolver a problemática ou estar prestes a mudar e sair da condição de problemático.


Porém, com isso em mente, também fica claro que: “Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que orientam a teoria para o misticismo encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática.” (8ª d'As “Teses Sobre Feuerbach” de Karl Marx’, de Georges Labica, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1990). Então, o indivíduo que se torna problemático encontra “sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática”.


“Todos os mistérios” ou problemas “que orientam a teoria para o misticismo” ou para o problemático “encontram sua solução racional na prática humana e na compreensão desta prática”.


E o problema é basicamente definir a posição teórica de Marx em relação precisamente à prática. Então, antes de tudo, precisamos colocar ou tornar claro o problema e temos de começar por onde achamos que a posição teórica de Marx mais se coloca à mostra, isto é, precisamos começar por sua tese de doutorado: “Diferenças entre as filosofias da Natureza de Demócrito e de Epicuro”.


Marx dedica a tese de doutorado a seu sogro, Ludwig von Westphalen, e na dedicatória ele diz: “Vós, meu amigo paternal, vós fostes sempre para mim um vivo argumentum ad oculos (demonstração evidente) de que o idealismo não é uma ficção, mas uma verdade.” – Este tipo de argumento vivo aos olhos ou de argumento vivo aos olhos nus é o preferido de Marx e é com ele que defende a sua própria posição em diferentes momentos como inseparável do movimento vivo do proletariado -. Com essa dedicatória Marx deixa clara a sua relação com o idealismo, não só o de seu sogro, mas principalmente o de Hegel, por isso é bom ler a sua descrição desta relação:


“Vós me desculpareis, meu muito caro amigo paternal, por colocar vosso nome tão bem-amado no topo duma brochura insignificante. Eu não tenho a paciência de esperar uma outra ocasião para vos dar um fraco testemunho de minha afeição.


“Possam, todos aqueles que duvidam da ideia como eu, ter a felicidade de admirar um velho pleno de força juvenil, que saúda cada progresso de nossa época com a mistura de entusiasmo e de prudência que caracteriza a verdade, e que, pleno deste idealismo profundamente convicto e luminosos que só conhece a verdade e que diante do qual comparecem todos os espíritos do mundo, não recuando jamais de medo diante das sombras dos fantasmas retrógrados nem diante do céu frequentemente cheio de sombrias nuvens de nossa época, mas que, com uma energia divina e um olhar duma segurança viril, não cessou de contemplar através de todos os seus disfarces o empíreo (morada dos deuses) que abrasa no coração do mundo. Vós, meu amigo paternal, vós fostes sempre para mim um vivo argumentum ad oculos (demonstração evidente) de que o idealismo não é uma ficção, mas uma verdade.


“O bem-estar físico, eu não tenho necessidade de desejá-lo a vós. Porque é o espírito, o grande médico mágico, a quem vós vos confiastes.” (“DIFFRÉRENCE DE LA PHILOSOPHIE DE NATURE CHEZ DÉMOCRITE ET ÉPICURE”, traduction, introduction et notes par Jacques PONNIER, Éditions Ducros, Bordeaux – FRANCE, 1970, p. 206 / todas as citações a seguir são provenientes desta tradução de PONNIER).


A tese de doutorado "Diferenças entre as filosofias da Natureza de Demócrito e de Epicuro" é a obra na qual Marx assume sua posição própria, singular, específica no contexto filosófico no qual se encontra, quer dizer, no contexto da filosofia européia alemã.


Mas no prefácio ele assume que conseguiu resolver um problema da história da filosofia grega que, até antes de sua tese, permanecia insolúvel. Que problema é esse? Ele diz "que para o objeto deste estudo não existem trabalhos anteriores que possam ser utilizados de alguma maneira. As cavaqueiras de Cícero e de Plutarco até agora tem sido repetidas. Gassendi, que liberou Epicuro do interdito com qual o haviam fulminado os Pais da Igreja e toda a Idade Média, época da desrazão realizada, não apresenta mais do que um momento interessante na sua exposição. Ele busca acomodar sua fé católica com sua ciência pagã, Epicuro com a Igreja, o que é seguramente trabalho perdido. É como se quisesse lançar o hábito usado duma freira cristã sobre o corpo esplêndido e florescente da Laís grega. Longe de poder nos instruir sobre a filosofia de Epicuro é antes de Epicuro que Gassendi toma lições de filosofia." (ver no Wikipedia sobre Laís de Corinto, hetera e Aristipo - http://es.wikipedia.org/wiki/Lais_de_Corinto, http://es.wikipedia.org/wiki/Hetera, http://es.wikipedia.org/wiki/Ar%C3%ADstipo - para ter uma ideia de tudo que está condensado nessa passagem do prefácio de Marx).


O problema então é a filosofia de Epicuro!?


"Não se poderá ver neste estudo mais do que um esboço dum escrito mais importante no qual eu exporei em detalhe o ciclo das filosofias epicurista, estoica e cética na sua conexão com o conjunto da especulação grega." Parece que é ela enquanto esboço de algo mais importante, ainda que com ela ele creia ter resolvido um problema até então insolúvel da história da filosofia grega.


Ele avança um pouco mais no prefácio dizendo que "Hegel, é verdade, determinou no conjunto com exatidão o elemento geral destes sistemas (o ciclo das filosofias epicurista, estoica e cética), mas o plano de grandeza e de ousadia de sua história da filosofia, data de nascimento propriamente dita da história da filosofia, o impediu de entrar no detalhe; por outro lado, a ideia que ele se fazia do que chamava de especulativo par excellence impediu este pensador gigantesco de reconhecer nestes sistemas a alta importância que eles teem para a história da filosofia grega e para o espírito grego em geral. Estes sistemas são a chave da verdadeira história da filosofia grega."


Ele diz ainda no prefácio que acrescentou "em apêndice uma crítica da polêmica conduzida por Plutarco contra a teologia de Epicuro porque esta polêmica não é um fenômeno isolado, mas a representante duma espécie: ela representa a relação do entendimento teologizante para com a filosofia de maneira muito pertinente."


Para justificar esse seu apêndice ele cita como reforço "uma passagem de David Hume: 'É certamente uma forma de injúria para a filosofia ser constrangida, ela cuja autoridade soberana deveria ser reconhecida em todos os lugares, a defender sua causa a toda hora em razão das consequências que ela acarreta tendo de se justificar aos pés de toda arte e de toda a ciência que ela venha a chocar. A gente pensa então num rei que seria acusado de alta traição a propósito de seus próprios assuntos.'"


Ele termina comparando o que chama de "grito de Epicuro" com duas passagens do "Prometeu Acorrentado", de Ésquilo. Epicuro: "'Ímpio não é aquele que faz tabula rasa dos deuses da multidão, mas sim aquele que adorna os deuses das representações da multidão'[Diog. X 123]". Afirmação claramente iluminista em relação ao politeísmo dos antigos gregos."A filosofia não se esconde. Ela faz sua a profissão de fé de Prometeu: '(...) eu tenho ódio por todos os deuses'. [Ésquilo 975] esta profissão de fé é sua própria bandeira que ela opõe a todos os deuses do céu e da terra que não reconhecem a consciência humana de si como divindade suprema. Esta consciência humana não tem rival.


"Mas aos tristes senhores que jubilam com o espetáculo da aparente degradação da situação social da filosofia, ela faz sua por sua vez a resposta que Prometeu fez a Hermes: 'Saiba que eu não trocarei minha miséria pela tua escravidão. Eu amo mais estar ligado a esta rocha do que ser o mensageiro fiel de Zeus, teu pai!'. [Ésquilo 966]


"No calendário filosófico, Prometeu ocupa o primeiro lugar entre os santos e mártires."


Ele diz que resolveu um problema da história da filosofia grega, que sua solução não tem predecessores, que encontrou em Epicuro seu objeto de estudo, que Epicuro é parte integrante da chave para a "verdadeira história da filosofia grega" e que a característica desta chave é revelar a filosofia como a afirmação iluminista da consciência humana de si, revelar que a filosofia grega é afirmação da singularidade do pensamento humano.


Mas ele começa a primeira parte de sua tese, "Diferença, do ponto de vista geral, da filosofia da Natureza de Demócrito e de Epicuro", mostrando que seu objeto vem à tona num contexto de fim da história objetiva da filosofia grega, quer dizer, num contexto onde só aparece a forma subjetiva da filosofia grega, mais ainda num contexto que mostra a continuidade da história subjetiva da filosofia grega, a qual, aliás, como forma subjetiva, consegue migrar para Roma e não tão só para Roma já que o mundo moderno também "concedeu pleno direito de cidadania intelectual" para o epicurismo, o estoicismo e o ceticismo, ou seja, estas formas subjetivas atravessam a história da filosofia geral por serem as bases ou suportes subjetivos da filosofia e de sua história. Num certo sentido, o do eterno retorno, elas parecem não ter história e, na verdade, elas não possuem história objetiva, mas a cada retorno de suas subjetividades elas fazem a sua história subjetiva porque trazem e realizam efetivamente diferenças, inovações e não repetições de suas subjetividades, portanto, elas trazem autênticas subjetividades históricas e só como farsas é que podem ser vistas como retorno exclusivo da repetição, da conservação e da imutabilidade eterna.


- A gente é levado a se perguntar se a história subjetiva da filosofia começa a ter vez "sempre" a partir da constituição na história objetiva de um império mundial, seja alexandrino, seja romano, seja capitalista moderno? Se ela só tem vez nas passagens da história objetiva de um império mundial para outro ou se tais condições objetivas apenas possibilitam a emergência, o vir à tona ou o vir a ser das condições históricas subjetivas da comunidade humana mundial? -.


No entanto, ele está ocupado em mostrar que o aparecimento destas subjetividades no fim da história objetiva da filosofia grega é a chave para a compreensão da "verdadeira história da filosofia grega" e é aí que ele traz à tona aquilo que para estes sistemas filosóficos (epicurismo, estoicismo e ceticismo) é "a realidade efetiva da verdadeira ciência": O Sábio. Estes sistemas filosóficos visam ir além da filosofia no sentido de realizá-la efetivamente, ou seja, não querem ficar apenas no amor ao saber (filosofia/teoria) e se propõem realizar efetivamente o saber desse amor (sabedoria/prática). E Marx observa que a filosofia grega tem "com os Sete Sábios seu começo mítico", que "no ponto central desta filosofia" o Sábio "se encarna em Sócrates, seu demiurgo" e também é com ele que ela chega a seu fim ou à sua morte objetiva sob a forma "do pôr de sol" que, migrando, tem sua continuidade ou sua vida sob a forma do "nascer do sol". Então, a chave da "verdadeira história da filosofia grega" é a figura ou forma subjetiva do Sábio e, cada um destes sistemas, cuida de realizar efetivamente ou encarnar a figura do Sábio de acordo com sua forma subjetiva epicurista, estoica ou cética.


- Então, "a verdadeira história da filosofia grega" é o chamado "milagre grego"? Se a forma subjetiva humana, por ser o suporte da singularidade do pensamento humano, melhor, por ser o suporte da singularidade humana do pensamento, for considerada um milagre, então a "verdadeira história da filosofia grega" é sim o "milagre" da forma subjetiva que se conhece e se sabe como o suporte da singularidade humana do pensamento, quer dizer, da subjetividade consciente de si, logo, o "milagre" da forma subjetiva da consciência de si -.


Para mostrar que se trata duma história subjetiva da filosofia grega Marx decide escolher seu objeto de estudo como "exemplo de um só aspecto: sua relação com a especulação anterior". E ele escolhe a relação entre a filosofia da Natureza de Demócrito e de Epicuro objetivando desenvolver uma diferença entre elas favorável a Epicuro e depois dum levantamento das opiniões inteiramente desfavoráveis a Epicuro, ainda que divergentes entre si, ele ressalta que todos concordam num ponto: "Epicuro copiou sua física da de Demócrito".


- O sistema e os princípios atomistas de Epicuro são os mesmos de Demócrito e, no entanto, são tão completamente divergentes que fica parecendo que Epicuro é incapaz de fazer um desenvolvimento objetivo da filosofia da Natureza de Demócrito e que, de maneira subjetivista e arbitrária, ele simplesmente distorce e destrói a filosofia da Natureza de Demócrito -.


Ele passa então a enfrentar as "Dificuldades relativas à identidade da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro". E é aqui que começa a aparecer a analogia do que ele está fazendo com os atomistas gregos com a analogia que ele faz da sua própria situação crítica e iluminista com a situação do criticismo e iluminismo de Kant. Epicuro é pós-aristotélico e ele, Marx, é pós-hegeliano. Demócrito é pré-socrático e Aristóteles é a efetivação em Alexandre do rei-filósofo sonhado por Platão a partir de Sócrates. Kant é o criticismo e o iluminismo pré-revolução francesa e Hegel é a efetivação da revolução francesa e da era napoleônica. O pós-aristotélico Epicuro se volta para a retomada crítica da física atomista do pré-socrático Demócrito e o pós-hegeliano Marx se volta para a retomada crítica do criticismo iluminista pré-revolução francesa de Kant.


Ele começa por aquilo que ele chama de diferença nos juízos teóricos de Demócrito e Epicuro.


Demócrito é cético e para ele o "fenômeno não é um fenômeno objetivo, mas uma aparência subjetiva.", ou seja, à maneira de Kant todo o sensível é apenas subjetividade a priori ou aparência para nós mas não coisa em si ou objetivamente sensível. Mas, por outro lado, "os átomos e o vazio são de verdade", mas eles são insensíveis, invisíveis e só podem ser considerados ideias, abstrações sem nenhum outra objetividade ou concretude e, por isso, "o fenômeno sensível é o único objeto verdadeiro", então Demócrito só poderá fazer ciência a partir do objeto realmente existente que é o fenômeno sensível, quer dizer, a partir da aparência subjetiva que é o único objeto existente, daí que sua prática científica seja a "observação empírica", "o saber positivo", "a erudição". Esse conhecimento acumulado é o conhecimento possível das coisas tais quais elas são para nós, quer dizer, para a aparência subjetiva e não como elas são invisível e insensivelmente em si mesmas, quer dizer, na sua realidade abstrata como ideias. É também por aí, "na relação da sua consciência particular com o mundo", quer dizer, "a relação do pensamento para o ser" que se manifesta a "forma de reflexão" de Demócrito e esta é a necessidade, ou seja, tudo acontece sob a forma do determinismo porque não há alternativa já que os átomos e o vazio permanecem sendo abstratas ideias e os fenômenos sensíveis permanecem sendo aparência subjetiva, quer dizer, não conseguem ser determinados de outro modo.


Epicuro é dogmático e para ele "não há nada que possa refutar a percepção sensível; nem o semelhante ao semelhante por causa de sua validade semelhante, nem o dessemelhante ao dessemelhante porque eles não opinam sobre a mesma coisa, nem o conceito, porque o conceito depende das percepções sensíveis", de modo que "o mundo sensível para ele é um fenômeno objetivo" e o conceito é uma essência subjetiva dependente do fenômeno objetivo, ou seja, o sensível é objetivo e a percepção dele nos fornece a sua essência subjetiva, a coisa objetiva tal qual ela é em si se torna coisa subjetiva tal qual ela é em nós e, assim, os átomos e o vazio são considerados princípios oriundos dos fenômenos objetivos, portanto, são as essências subjetivas das quais eu disponho para a minha prática científica de me desenvolver por mim mesmo como autodidata, logo, filosofando e da mesma maneira que os princípios se desenvolvem, quer dizer, livremente. Ora, para que seja efetivamente a liberdade a "forma de reflexão" de Epicuro, é preciso que os fenômenos objetivos sejam apenas circunstâncias fortuitas e que a essência subjetiva dependa do nosso arbítrio , quer dizer, que o acaso e a livre determinação sejam possíveis. Os fenômenos objetivos mudam segundo o acaso de ser mas também mudam ao acaso do pensamento, melhor, de acordo com a vontade da essência subjetiva, ou seja, os fenômenos objetivos podem ser suprimidos e determinados de outro modo, ou seja, a realidade objetiva não é uma necessidade e pode ser suprimida para que a essência subjetiva se realize efetivamente.


Estas duas formas subjetivas, a de Demócrito e a de Epicuro, partilham dos mesmos princípios, os átomos e o vazio, mas são antagônicas em tudo. A subjetividade de Demócrito é teoricamente cética, praticamente empírica e reflexivamente escrava ou marionete do determinismo do mundo existente. A subjetividade de Epicuro é teoricamente dogmática, praticamente filosófica e reflexivamente liberta e livremente determinada ao acaso do pensamento que muda o mundo e a existência ao acaso do ser.


Ora, os mesmos princípios atomistas se desenvolvem de acordo com duas subjetividades antagônicas. A subjetividade de Demócrito para a qual o mundo sensível é mera aparência ou ficção subjetiva se lança na prática empírica desse mundo e termina concluindo que o mundo por ser determinado pela necessidade está destinado a ser uma cadeia de condições, causas, razões etc. que fazem com que seja tal qual é. A subjetividade de Epicuro para a qual o mundo sensível é fenômeno objetivo se fixa na prática filosófica da essência subjetiva e termina concluindo que o mundo por ser determinado pelo acaso está livre para pelo acaso do pensamento deixar de ser tal qual é e vir a ser outro ao acaso de ser.


Marx escreveu dois capítulos, "Diferença principal geral da filosofia da Natureza de Demócrito e de Epicuro" e "Resultado", com os quais finalizou a primeira parte de sua tese, mas ambos foram perdidos e só restaram algumas notas,as quais, muito possivelmente eram do capítulo referente à "Diferença principal geral" entre as duas subjetividades atomistas. Porquê? Porque neles aparece uma argumentação que retoma a que foi desenvolvida nas "Dificuldades relativas à identidade da filosofia da Natureza de Demócrito e de Epicuro" e mais detidamente em relação ao que chamou de "forma de reflexão" de cada um deles.


Vejamos a primeira nota:


"1. Que este procedimento moral aniquila todo desinteresse teórico e prático Plutarco nos fornece uma prova histórica assustadora na sua biografia de Mário. Após ter descrito o fim terrível dos Címbrios ele conta que o número de cadáveres era tal que os Massaliotas (Marselheses) podiam adubar com eles suas vinhas. Ele acrescenta que a chuva tendo sobrevindo este ano tinha sido o mais fértil em vinhos e frutos. Ora, quais são as reflexões às quais se entrega o nobre historiador a propósito da desaparição trágica deste povo? Plutarco acha moral da parte de Deus ter deixado perecer e apodrecer todo um grande e nobre povo para proporcionar aos filistinos marselheses uma rica colheita de frutos. Assim então, até mesmo a transformação de um povo num montão de estrume proporciona a ocasião desejada para se deleitar com o devaneio moral."


O tal procedimento moral está claramente ligado à forma de reflexão pela necessidade, pelo destino, quer dizer, pelo determinismo já que tudo precisa ser aceito tal qual foi determinado, mesmo que seja a mais terrível das determinações, quer dizer, mesmo que seja daquelas que mais contrariam a subjetividade e a ela impõem a escravidão.


Ele certamente estava se referindo a essa consequência do determinismo quando fez esta citação. Uma passagem das "Dificuldades..." defendendo a forma de reflexão de Epicuro, isto é, o acaso esclarece bem isso: "O epicurista Dennis diz a mesma coisa em Cícero a propósito da filosofia estoica: 'Que se deve pensar duma filosofia para a qual, como para as velhas comadres ignorantes, tudo parece se produzir pelo fatum (destino)?... Epicuro nos libertou e nos instalou na liberdade.'".


Mas esta é apenas a primeira e mais curta de duas notas que são observações do próprio Marx. E a segunda nota é muito mais importante porque nela Marx faz observações sobre o seu próprio contexto, que é o do movimento dos jovens hegelianos. Porém, aí o procedimento moral, que está claro na nota a respeito de Plutarco e na passagem do epicurista Dennis a respeito da filosofia estoica citada por Cícero, se torna mais obscuro porque ele se tornou uma observação crítica tão habitual e corriqueira no sentido da denúncia que acusa a toda hora e sem qualquer prova qualquer pensamento ou pensador que contrarie e deprima o denunciante e acusador. Ou seja, a mais nova forma do procedimento moral de Plutarco e da filosofia estoica é a do crítico do moralismo que percebe uma acomodação moral em tudo aquilo que não funciona como era de se esperar que funcionasse. O crítico esquece de verificar porque aquilo funcionava antes e nas mãos de quem o produziu e também se esquece de perguntar porque aquilo não funciona agora e nas suas mãos de crítico. Ou seja, se esquece que um pensamento ou um pensador do passado pode perfeitamente não ter pensado o presente e não ser um pensamento adequado para o presente se não levar em conta as modificações que precisa sofrer para poder servir ou corresponder ao presente ou ainda a completa superação que precisa sofrer, isto é, a completa libertação que os pensadores do presente precisam fazer do pensamento e do pensador do passado para poderem funcionar no presente, quer dizer, em graus diferentes, que é o pensador do presente que está acomodado e se esquece de fazer o seu trabalho crítico para poder funcionar no presente porque ele "pensador do presente" adotou o pensamento e o pensador do passado como solução do presente esquecendo que a atividade do pensamento e do pensador do passado era de enfrentamento da sua realidade imediata que era o seu passado e não o presente e a atualidade do "pensador do presente". Este "pensador do presente" não estabeleceu o mesmo tipo de relação que Epicuro estabeleceu com Demócrito, isto é, ainda que este "pensador do presente" tenha buscado os seus princípios num pensamento e pensador do passado para aí fazer a sua morada e refúgio ele não o fez da mesma maneira que Epicuro, já que Epicuro adotou e desenvolveu os mesmos princípios mas de maneira inteiramente diversa e, até mesmo, antagônica à de Demócrito.


Vejamos a longa e, talvez, a mais importante passagem da tese de doutorado de Marx que é a nota 2:


"2. Mesmo no que se refere a Hegel é, da parte de seus discípulos, simples ignorância quando eles explicam tal ou tal determinação de seu sistema pela acomodação ou qualquer coisa do gênero, numa palavra moralmente. Eles esquecem que não faz muito tempo que, como se pode lhes demonstrar de maneira evidente segundo seus próprios escritos, eles aderiram com entusiasmo a todas suas determinações unilaterais.


"Se eles tivessem sido realmente seduzidos pela ciência que eles receberam inteiramente pronta ao ponto de se assenhorear dela com uma confiança ingênua e não crítica, qual não é sua falta de consciência ao reprovar ao mestre por nutrir uma intenção escondida por detrás de sua pesquisa, ele para quem a ciência não estava inteiramente feita, mas em vir a ser, ele cujo coração espiritual mais íntimo não cessou de bater antes que ele tivesse atingido os limites extremos desta ciência. Eles lançam a suspeita de preferência sobre eles mesmos e fazem crer que antes eles não levavam a coisa a sério; é seu próprio estado passado que eles combatem, parecendo atribuí-lo inteiramente a Hegel: mas eles esquecem, ao fazê-lo, que ele estava numa relação imediata e substancial com seu sistema, enquanto que eles estão, em referência a este sistema, numa relação de reflexão."


Aqui, me parece é o lugar para citar uma passagem de Marx da sua "Carta ao Pai" porque nela aparece a situação beirando à tragédia na qual ele se viu obrigado a ser discípulo de Hegel. É curioso que com ele tenha ocorrido uma adesão resultante não do entusiasmo e sim da depressão, não da confiança ingênua no mestre e sim do desgosto crítico consigo mesmo. Vejamos:


"Partindo do idealismo, o qual, dito de passagem, comparei e enriqueci com o idealismo de Kant e o de Fichte, cheguei ao ponto, então, de investigar a idéia, na realidade mesma. Se os Deuses haviam, anteriormente, habitado a terra, tornavam-se, agora, o centro da mesma. Havia lido fragmentos da Filosofia de Hegel, cuja melodia rochosa grotesca não agradou.[9]


{Esta passagem da carta remete para a dedicatória ao sogro que Marx faz de sua tese, ou seja, tal qual seu sogro ele também fez do idealismo uma verdade.}


"Mais uma vez, quis mergulhar no mar, porém com o propósito determinado de constatar que a natureza do espírito é tão necessária, concreta e firmemente fundada quanto a natureza do corpo, bem como pretendendo não mais praticar artes de esgrima, senão segurar a pérola genuína diante da luz do sol.


"Escrevi um diálogo de aproximadamente 24 páginas : ”Cleanthes ou o Ponto de Partida e a Necessária Continuação da Filosofia”.[10]


"Aqui, arte e saber, que estavam inteiramente separados, unificaram-se, em certa medida, e, como um vigoroso andarilho, marchei rumo à própria obra, rumo a um desenvolvimento filosófico-dialético da divindade, tal como manifestada enquanto conceito em si, enquanto religião, natureza, história.


"Minha última proposição foi o início do sistema de Hegel.


{Aqui ele se assumiu aquém de Hegel}


"E esse trabalho, para o qual me familiarizarei, em certa extensão, com a Ciência da Natureza, Schelling e a História - o que me provocou infinita dor de cabeça, estando redigido de tal modo (uma vez que deveria constituir uma nova lógica) que, agora, nem mesmo eu consigo me recordar de ter alimentado esse meu filho predileto, sob o brilho da lua -, esse meu trabalho conduz-me, tal como uma falsa sereia, aos braços do inimigo.[11]


{Hegel é o seu inimigo e ele caiu nos braços dele}


"Devido a esse meu desgosto, não pude pensar em absolutamente nada durante alguns dias. Corri como um louco pelo jardim, junto à água imunda do Spree. "Lavei a alma e dilui o chá". Aderi até mesmo a uma sessão de caça, com o dono de minha pensão. Disparei rumo a Berlim, querendo abraçar cada um dos transeuntes das esquinas.


{A crise de Marx ocorre por "levar a coisa a sério"}


"Logo a seguir, empreendi apenas estudos positivistas : o estudo sobre “A Posse” de Savigny e sobre o Direito Criminal, de Feuerbach e Grolmann, o De verborum significatione, de Cramer, o Sistema das Pandectas, de Wening-Ingenheims, e a Doctrina pandectarum, de Mühlenbruch, nos quais ainda continuo trabalhando, e, finalmente, títulos esparsos de Processo Civil e, sobretudo, Direito Eclesiástico, de Lauterbach, dos quais a primeira parte, ”Concordia discordantium canonum”, de Gratian, li quase completamente no corpus, elaborando excertos, como também o fiz com o suplemento ”Institutiones”, de Lancelotti.[12]


"Em seguida, traduzi, em parte, a ”Retórica”, de Aristóteles, li do célebre Baco v. Verulam seu ”De dignitate et augumentis scientiarum”, ocupei-me bastante com Reimarus, cujo livro ”Do Impulso Artístico dos Animais” analisei com prazer, resvalei também no Direito Alemão, porém, principalmente, apenas na medida em que examinei as Capitulares dos Reis Francos e as cartas dos Papas a eles dirigidas.[13]


"Por encontrar-me perturbado com a doença de Jenny e com os meus baldados e fracassados trabalhos espirituais, pelo aborrecimento dilacerante de ter de construir para mim mesmo um ídolo a partir de uma visão que odiava, fiquei doente, meu caro pai, tal como já lhe escrevi precedentemente. Uma vez recuperado, queimei todas as poesias e materiais sobre novelas etc., na loucura de acreditar que disso me poderia livrar inteiramente, sendo que, até agora, de nenhuma forma, dei provas do contrário.


{Aqui ele assume a disciplina que o discípulo precisa assumir, assume como seu mestre filosófico aquele a quem odeia: Hegel. E no que vem a seguir mostra o quão profundamente se desenvolveu nessa disciplina como discípulo desencantado e sem alternativa de liberdade/libertação.}


"Durante minha doença, conheci Hegel do início ao fim, juntamente com a maioria de seus discípulos.[14]


"Através de diversos encontros com amigos, ocorridos em Stralow, fui dar em um Clube de Doutores, no qual se encontravam alguns livres docentes e meu amigo mais íntimo de Berlim, Dr. Rutenberg.[15]


"Aqui, em meio a debates, revelaram-se muitas concepções reticentes, sendo que me acorrentei, cada vez mais firmemente, à filosofia do mundo atual, da qual pensei escapar. Porém, toda a riqueza de sons tornou-se silenciosa e uma verdadeira fúria de ironia envolveu-me, tal como se pudesse isso suceder bem facilmente, depois de tantas coisas repudiadas. Ademais, havia o silêncio de Jenny e não pude tranquilizar-me até que alcançara a modernidade e o ponto de vista da concepção científica atual, por meio de algumas produções de má qualidade, tal como ”The Visit (A Visita)” etc. [16]"


(Ver a "Carta ao Pai" copiando e colando este link na barra de endereços:
http://www.scientific-socialism.de/KMFEDireitoCAP4Port.htm#_ftnref11)


Continuando a nota 2 da tese de doutorado:


"Que um filósofo cometa tal ou tal inconsequência sob o império de tal ou tal acomodação é pensável; ele mesmo pode ter consciência disso. Mas aquilo de que ele pode não ter consciência é que a possibilidade duma tal acomodação aparente tem sua raiz mais íntima numa insuficiência ou numa compreensão insuficiente de seu princípio ele mesmo. Se então um filósofo se tiver realmente acomodado seus discípulos deverão explicar a partir da consciência íntima e essencial deste filósofo aquilo que revestia para ele mesmo a forma duma consciência exotérica. Desta maneira aquilo que aparece como um progresso da consciência é ao mesmo tempo um progresso da ciência. Não se suspeita da consciência particular do filósofo mas se constrói a forma essencial de sua consciência, se a eleva a uma figura e a uma significação determinadas e assim ao mesmo se a ultrapassa."


{Quando Marx se descobriu aquém de Hegel ele percorreu todo este caminho na condição de quem se tornou consciente da insuficiência de sua compreensão de seu princípio ele mesmo, mais ainda, descobriu que Hegel era a consciência exotérica para ele, logo, que estava obrigado a conhecê-lo íntima e essencialmente para poder vir a compreender suficientemente o seu próprio princípio, isto é, poder saber o que é consciência exotérica para o próprio Hegel e, de preferência, que esta consciência exotérica para o próprio Hegel seja a consciência íntima e essencial do próprio discípulo Marx que conseguiu compreender seu próprio princípio e pode agora vir a desenvolvê-lo por conta própria.}


"Eu considero além disso essa virada para a não-filosofia duma grande parte da escola hegeliana como um fenômeno que acompanhará sempre a passagem da disciplina para a liberdade.


"É uma lei psicológica para o espírito teórico, tornado livre em si mesmo, que se transforme em energia prática, saia como vontade do reino das sombras do Amênti e se volte contra a realidade que existe sem ele. (Mas é importante, do ponto de vista da filosofia, especificar melhor os lados desta relação, porque a partir do modo determinado desta conversão, se pode fazer retorno sobre a determinidade imanente e o caráter histórico e mundial duma filosofia. Nós vemos aqui por assim dizer seu curriculum vitae reduzido ao essencial, levado à sua extremidade subjetiva.) Mas a prática da filosofia é ela mesma teórica. É a crítica que mede a existência singular para a essência, a realidade efetiva particular para a ideia. Mas esta realização imediata (Realisierung) da filosofia é, segundo sua essência mais íntima, afligida por contradições, e esta essência que é sua toma forma no fenômeno e imprime nele seu selo."


{A virada para a prática é também uma virada para a crítica. Mais tarde, nas suas "Teses sobre Feuerbach", ele vai se referir à virada para a atividade "prático-crítica". Mas aqui o essencial é que se trata duma retomada do criticismo-iluminismo de Kant, mas à maneira da retomada do atomismo de Demócrito por Epicuro.}


"Quando a filosofia, como vontade, se volta contra o mundo fenomenal, o sistema cai na situação duma totalidade abstrata, ele se tornou um lado do mundo, ao qual se opõe um outro lado. Sua relação com o mundo é uma relação de reflexão. Animado do desejo de se realizar ele entra em luta com o Outro. A auto-satisfação e a perfeição circular que lhes eram interiores são quebradas. O que era luz interior se torna chama devoradora que se volta para o exterior. Daí resulta como consequência que o devir-filosófico do mundo é ao mesmo tempo um devir-mundano da filosofia, que a realização efetiva da filosofia é ao mesmo tempo sua perda, que aquilo que ela combate no exterior é seu próprio defeito interior, e é justamente no curso desta luta que ela cai nas fraquezas que ela combatia como fraqueza no seu contrário, não podendo suprimir estas fraquezas sem nelas cair. Aquilo que se opõe a ela e aquilo que ela combate é sempre aquilo que ela é ela mesma, estando os fatores apenas invertidos.


"Eis o primeiro lado, quando nós consideramos a coisa do ponto de vista puramente objetivo como a realização imediata (Realisierung) da filosofia. Mas ela também tem aquilo que não é nada além duma outra forma, um lado subjetivo. É a relação do sistema filosófico, que se realiza efetivamente, com seus suportes espirituais, com as consciências de si singulares nas quais aparece seu progresso. Resulta desta relação, que faz que a filosofia na sua realização imediata se oponha ao mundo, que estas consciências de si singulares tenham sempre uma exigência de dois gumes, um voltado contra o mundo, o outro voltado contra a filosofia ela mesma. Com efeito, aquilo que aparece na coisa como uma relação em si mesma invertida, aparece nelas como uma exigência e um ato duplos, em contradição com elas mesmas. Liberando o mundo da não-filosofia, estas consciências se liberam elas mesmas da filosofia que, como sistema determinado, as acorrentava. Mas como elas mesmas não são concebidas senão no ato e na energia imediata do desenvolvimento e como elas, do ponto de vista teórico, ainda não ultrapassaram este sistema, elas se ressentem da contradição da identidade plástica do sistema consigo-mesmas e não sabem que se voltando contra ele elas não fazem mais do realizar efetivamente seus diversos momentos.


"Enfim, este ser-desdobrado da consciência de si filosófica se apresenta como a luta de duas tendências se opondo entre elas da maneira mais extrema, das quais uma, o partido liberal, como podemos designá-lo em geral, se atém, como determinação principal, ao conceito e ao princípio da filosofia, enquanto que o outro retem o não-conceito, o momento da realidade. Esta segunda direção é a filosofia positiva. A atividade da primeira é a crítica, logo justamente o ato se-voltar-para-o-exterior da filosofia; a atividade da segunda é o ensaio de filosofar, logo o ato de se-voltar-em-si da filosofia, porque ela concebe o defeito como imanente à filosofia, enquanto que a primeira concebe o defeito como defeito do mundo que ela trata de tornar filosófico. Cada um destes partidos faz precisamente aquilo que o outro quer fazer e aquilo que ele não quer fazer ele mesmo. Mas o primeiro tem consciência, no seio de sua contradição íntima, do princípio em geral e de sua finalidade. No segundo aparece o capricho, a loucura or assim dizer, como tal. Para aquilo que se refere ao conteúdo, só o partido liberal, porque partido do conceito, alcança progressos reais, enquanto que a filosofia positiva só chega mesmo a exigências e a tendências cuja forma contradiz o significado.


"Aquilo que de início apareceu como uma relação invertida e uma divisão hostil da filosofia e do mundo vem a ser em seguida uma cisão da consciência de si filosófica singular contida nela mesma e aparece enfim como uma separação exterior e um ser-desdobrado da filosofia, como duas tendências filosóficas opostas.


"É natural que surja ainda uma multidão de formações subordinadas, gementes, sem individualidade, que se abrigam detrás duma gigantesca figura filosófica do passado, - mas não demora para que se perceba o asno sob a pele do leão, a voz lamuriante dum manequim de hoje e de ontem furada, num contraste cômico, sob a possante voz que atravessa os séculos (aquela de Aristóteles por exemplo), da qual ela se faz despropositadamente o órgão; é como se um mudo quisesse se proporcionar a voz por meio dum enorme porta-voz, - ou bem nós vemos algum liliputiano, armado de binóculos, instalado no pequeno canto do posterior do gigante, anunciar ao mundo todo maravilhado que nova perspectiva espantosa se descobre de seu punctum visus (ponto de vista) e fazer esforços risíveis para explicar que não é no coração palpitante, mas na região firme e sólida sobre a qual ele está que se encontra o ponto de Arquimedes (grego no original...: lá onde eu devo estar), ponto pelo qual o mundo é suspenso por gonzos. Assim nascem os filósofos-cabelos, os filósofos-unhas, os filósofos-dedos do pé, os filósofos-excrementos etc, que, no homem-mundo místico de Swedenborg ocupará um posto ainda mais baixo. Mas, conforme a sua essência, todos estes mini-moluscos caem, como no seu elemento, nas duas direções que eu indiquei. Quanto a estas direções elas mesmas eu explicarei alhures de maneira mais completa a relação entre elas e a filosofia hegeliana, assim como os diversos momentos históricos nos quais se apresenta este desenvolvimento."


Aqui no fim da nota percebemos que Marx fez isso mais tarde, especialmente com seus livros "A Sagrada Família" e "A Ideologia Alemã".


Psicologicamente é retomada a diferença de Epicuro e de Demócrito em relação a um mesmo sistema filosófico na diferença da tendência liberal do conceito da tendência positivista da realidade.


A tendência liberal do conceito tal qual Epicuro está segura de si por estar segura de que sua sensibilidade é fenômeno objetivo, isto é, sua sensibilidade é tal qual a sensibilidade objetiva é em si, por isso, está segura de que recebe ou se apropria sensivelmente da essência subjetiva do fenômeno objetivo e, portanto, está segura de que o conceito essencialmente subjetivo depende sensivelmente da percepção objetiva do fenômeno, ou seja, a fonte da essência subjetiva ou do conceito é a percepção sensível do fenômeno objetivo tal qual ele é em si mesmo e, por isso, por estar segura da objetividade sensível do fenômeno esta tendência tal qual Epicuro se dedica à elaboração, aperfeiçoamento e desenvolvimento da essência subjetiva ou do conceito, seja filosofando tal qual o fez Epicuro, seja criticando o mundo, já que, em ambos os casos, é a essência subjetiva ou o conceito que vai se elaborando, aperfeiçoando, desenvolvendo e mudando seja teoricamente como consciência essencialmente subjetiva de si, seja praticamente como mudança essencialmente subjetiva do fenômeno objetivo mundano.


A tendência positivista da realidade tal qual Demócrito está insegura de si por estar insegura de que sua sensibilidade seja fenômeno objetivo, isto é, não está segura de sua sensibilidade ser tal qual a sensibilidade objetiva é em si, por isso, por estar insegura, considera que recebe ou se apropria sensivelmente da aparência subjetiva do fenômeno tal qual ele é para sua sensibilidade subjetiva aparente mas não tal qual ele é objetivamente em si e, portanto, considera que a coisa ou a objetividade em si independe da sensibilidade subjetiva e aparente do fenômeno, ou seja,a fonte da coisa em si ou da positividade não é a percepção sensível da aparência subjetiva do fenômeno tal qual ele é para nós e fora de si mesmo e, por isso, por estar insegura da objetividade sensível do fenômeno que não passa de aparência subjetiva de sensibilidade esta tendência tal qual Demócrito se dedica à elaboração, aperfeiçoamento e desenvolvimento da aparência subjetiva da positividade, seja acumulando conhecimentos das aparências subjetivas das positividades do mundo tal qual fez Demócrito, seja interpretando ou filosofando o mundo, já que em ambos os casos, é a aparência subjetiva ou a positividade aparente que vai se elaborando, aperfeiçoando, desenvolvendo e mudando seja praticamente como consciência da aparência subjetiva de si, seja teoricamente como interpretação da aparência subjetiva da coisa ou objetividade mundana para nós.


Ambas as tendências desenvolvem suas formas subjetivas, subjetividades ou consciências de si. Mas o partido do conceito faz este desenvolvimento como um autêntico desenvolvimento de sua essência subjetiva e o partido positivista faz este desenvolvimento como desenvolvimento de sua aparência subjetiva, duma autêntica farsa. O conteúdo do fenômeno objetivo é a essência subjetiva, portanto, o partido do conceito faz desenvolvimento autêntico do conteúdo. A forma aparente do fenômeno 'objetivo' é a aparência subjetiva, portanto, o partido da positividade faz desenvolvimento da forma aparente da aparência subjetiva, quer dizer, faz desenvolvimento da forma aparente para si e sem nenhum conteúdo, exceto a aparência para si, subjetiva, logo, só desenvolve o que não é essencial e este é o desenvolvimento da subjetividade inessencial, aparente, farsante ou fora de si. Daí que seja também o desenvolvimento do capricho e da loucura.


Mas, mesmo assim, aqui, nessa primeira parte da tese de doutorado de Marx, ficamos sem saber o que Epicuro e Demócrito fazem com os princípios, com os átomos e o vazio. Em princípio, supomos que Demócrito, ao se entregar ao saber positivo e culminar no determinismo da positividade aparente, deixa de lado o desenvolvimento dos princípios atomistas. E, ao contrário, supomos que Epicuro, ao se entregar ao saber filosófico e culminar no acaso, supressão e transformação da realidade efetiva, se fixa no desenvolvimento dos princípios atomistas. Porém, só supomos porque o que vimos em ação nessa primeira parte da tese de doutorado de Marx não foram os princípios dos átomos e do vazio, pelo menos, não explicitamente.


E a segunda parte da tese de Marx se chama "Diferença, do ponto de vista particular, das físicas de Demócrito e de Epicuro", portanto, é nela que ele irá expor e nos fazer acompanhar o que Epicuro e Demócrito fazem com os átomos e o vazio, os princípios que partilham para construir suas físicas inteiramente antagônicas.


Evidentemente eu busco com estes textos encontrar outras subjetividades dispostas a fazer este tipo de pesquisa ou, pelo menos, dispostas a estimular este tipo de pesquisa. Caso contrário, a tendência é eu supor que me encontro interdito, na melhor perspectiva, por não encontrar nenhum epicurista e partidário do conceito entre o público leitor, mas, na pior perspectiva, é eu deduzir que me encontro interdito não só por não encontrar ninguém entre o público leitor na condição de Demócrito e de partidário da positividade e sim por eu me encontrar nesta condição de Demócrito e dos partidários da positividade como, por exemplo, Kant, daí, inclusive, ao contrário do que disse no início deste texto, a facilidade para definir Kant, Demócrito e os partidários da positividade, ou seja, daí a facilidade de eu me encontrar no limiar do abismo, da loucura e da tragédia. Tudo bem, posso admitir isso e, desse modo, consciente da falha, intentar precisamente minha libertação através deste tipo de pesquisa, ainda que correndo o risco de, em lugar de me libertar, apenas me aprisionar ainda mais profundamente no meu defeito.


Conclusão: Estou pedindo aos leitores, se é que existem e se dispõem, que se manifestem, seja para o bem ou para o mal, quer dizer, seja a partir do prazer ou da dor, já que é com estas duas últimas que se faz ciência de si, enquanto que com o bem e o mal já se está fazendo um procedimento para além da ciência, melhor, já se está acrescentando ignorância superior e transcendente à ciência igual e imanente.



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