O espantoso aí é a contradição. Porque é uma contradição que a consciência da coisa para si ou a consciência sensível e, por isso, capaz de conhecer e fazer ciência tenha necessidade da consciência da coisa de si ou da consciência ideal/racional e, por isso, capaz crer e de criar a coisa de acordo com sua crença, para poder fazer ciência/conhecer e, por sua vez, que a consciência capaz de crer e de criar de acordo com sua crença seja considerada científica e conhecimento e não religião/ideologia e arte/técnica ou criação artística/tecnológica. É espantoso porque a consciência sensível e capaz de conhecer precisa recorrer à consciência idealizadora/racionalizadora e capaz de crença criadora para ser considerada científica, enquanto que esta crença criadora precisa recorrer à consciência sensível e capaz de conhecimento (sensível) para obter a energia sensível que faz funcionar e desenvolver sensivelmente sua crença criadora por meio duma prática religiosa (ou com todas as características de ritual religioso) que é a prática da jornada (tempo) de trabalho humano.
Esta espantosa contradição deixa claro que a consciência da coisa de si criadora de crença é capaz das mais diversas criações de crenças e/ou de crenças criadoras, então, os mitos, os deuses, as religiões, as artes, as técnicas, as ideologias, as tecnologias são crenças criadoras que se sucedem e se completam. E, por outro lado, também deixa claro que a consciência da coisa para si sensivelmente cognitiva/cognitivamente sensível se encontra em situação de exploração nas mais diversas épocas e ainda em situação de se libertar da dominação e exploração da consciência da coisa de si criadora de crença. A exploração da ciência é a exploração da força humana de trabalho e ela é sempre conduzida pela exploradora crença criativa. A libertação da ciência da exploração e o seu livre desenvolvimento independente de sua condução por qualquer crença criativa parece se tratar de algo da ordem do impensável, mas é precisamente aquilo que precisa ser pensado para que possa efetivamente ocorrer uma emancipação da ciência e/ou da força humana de trabalho. E, talvez, seja aí que apareça a necessidade de pensar/abordar a relação da ciência da sensibilidade da coisa para si e a relação da crença da idealidade/racionalidade da coisa de si, quer dizer, de ambas com o inconsciente da realidade da coisa em si.
A sensibilidade é ciência da coisa para si, a idealidade ou
racionalidade é crença na coisa de si e a realidade é inconsciência da coisa em
si, melhor, o real é a coisa em si inconsciente.
A sensibilidade é ciência da coisa para si que vê, ouve, cheira, saboreia e sente tateando, doendo, gozando, mas também imaginando, sonhando, alucinando, logo, é ciência da coisa para si externa e internamente sensível.
A sensibilidade é ciência da coisa para si que vê, ouve, cheira, saboreia e sente tateando, doendo, gozando, mas também imaginando, sonhando, alucinando, logo, é ciência da coisa para si externa e internamente sensível.
A idealidade ou a racionalidade é crença na coisa de si que elabora e inventa internamente para, em seguida, interpretar (em seu duplo sentido de compreender de determinada forma e de atuar e agir da forma determinada) e aplicar (tornar a coisa inventada sensível) externamente.
A realidade é inconsciência da coisa em si ou o real é a coisa em si inconsciente que a sensibilidade admite existir como suporte e origem da ciência da própria sensibilidade da coisa para si e que, por sua vez, a idealidade/racionalidade admite existir como suporte e origem da crença da própria idealidade/racionalidade da coisa de si.
Na relação da sensibilidade da coisa para si com a realidade da coisa em si a ciência recebe a coisa para si que inconscientemente foi doada pela coisa em si.
Na relação da idealidade/racionalidade da coisa de si com a realidade da coisa em si a crença dá a coisa de si para que seja recebida inconscientemente pela coisa em si.
Para a consciência sensível da coisa para si a criatividade da coisa em si é inconsciente, insensível, logo, é um mistério por não ser cognoscível, mas ainda assim a criatividade ou a criação se situa na coisa em si inconsciente, insensível.
Para a consciência ideal/racional criadora da coisa de si a criatividade da coisa em si também é inconsciente, insensível, logo, também é um mistério por não ser cognoscível, mas ainda que a criatividade ou a criação pura e absoluta se situe na coisa em si inconsciente, insensível, ela também se situa como criatividade ou criação prática e relativa na própria consciência racional criadora da coisa de si e, por isso, a consciência racional criadora da coisa de si especula e/ou aposta em todas as qualidades que contrariam a sensibilidade conhecedora da coisa para si e a racionalidade criadora da coisa de si para que sejam as qualidades do real inconsciente criador da coisa em si.
Para a consciência sensível o conhecimento está limitado ao sensível e quanto à coisa em si real e inconsciente não há como saber, mas se tiver conhecimento este conhecimento está além do sensível.
Para a consciência racional a criatividade está limitada à racionalidade prática e quanto à coisa em si real e inconsciente não há como limitar à racionalidade, mas se tiver racionalidade esta racionalidade é absoluta, além da prática e não limitada à prática.
Ambas as consciências, a sensível e a racional, concordam num ponto que é considerar que a coisa em si inconsciente é muito mais abrangente por ser criadora do real que está além do sensível e do racional.
O critério, melhor, o princípio da consciência da sensibilidade para si é a sensibilidade e o princípio da consciência da racionalidade de si é a racionalidade. Para a primeira consciência a coisa para si é sensível e para a segunda consciência a coisa de si é racional. A primeira consciência sente falta e busca a coisa de si racional e na coisa de si racional ela busca a sensibilidade de si e/ou a sensibilidade da consciência de si. A segunda consciência raciocina que falta e busca a coisa para si sensível e na coisa para si sensível ela busca a racionalidade para si e/ou a racionalidade da consciência para si. Desse modo, dá para entender que, na tese de Marx sobre o atomismo grego, Epicuro na sua busca se satisfaça com a dissolução do atomismo e do mundo racional insensível por ter o encontro sensível da consciência de si. E também dá para entender que Demócrito se frustre com a eternidade do atomismo e do mundo racional por ter o encontro racional duma consciência para si. Epicuro se satisfaz com encontrar sensivelmente a sua consciência de si, enquanto Demócrito se frustra com encontrar racionalmente uma outra consciência para si. Epicuro se desenvolve como autodidata por dispor sensivelmente de sua consciência de si e Demócrito se desenvolve eruditamente por precisar racionalmente de uma outra consciência para si. Epicuro se desenvolve como consciência de si sem mestre e seus discípulos são, antes de tudo, amigos, associados no filosofar da consciência de si. Demócrito se desenvolve como consciência para si com diversos mestres e desenvolve a si mesmo como discípulo de todos eles até chegar à maestria em todas as disciplinas e, assim, se tornar, antes de tudo, um campeão sem igual em todos os saberes, um grande e solitário praticante do conhecer da consciência para si.
Este estudo de Marx das diferenças entre os dois filósofos
do atomismo grego se torna modelo da análise sistêmica de Marx das classes
sociais que disputam o processo de produção capitalista. A classe proletária ou
dos trabalhadores estaria voltada e, até mesmo, “destinada” para desenvolver o
sistema capitalista tal qual Epicuro desenvolveu o sistema atomista, isto é,
desenvolvendo a consciência de si como associação dos indivíduos livres que
culmina na dissolução do capitalismo tal qual Epicuro desenvolveu a consciência
de si como associação dos amigos que culmina na dissolução do atomismo. A
classe burguesa ou dos capitalistas se voltaria e, até mesmo, “se destinaria” a
desenvolver o sistema capitalista tal qual Demócrito desenvolveu o sistema
atomista, isto é, desenvolvendo a consciência para si como capital sem igual em
todos os setores que culmina na dissolução da consciência de si, na grande
solidão sem igual.
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