Estudar é viver com os mortos. Isso é mais verdadeiro ainda
quando o estudo é solitário e quem o faz não encontra outros vivos com os quais
compartilhar, discutir e elaborar o estudo. O mundo erudito é um mundo desse
tipo. No entanto, os eruditos vivos não só conhecem os eruditos mortos, mas
também convivem com eruditos no mundo erudito dos vivos. O mundo autodidata
também é um mundo desse tipo. Aparentemente a solidão do estudo autodidata é
ainda maior porque a sua pretensão é a de aprender a partir de si mesmo, a
partir de sua própria solidão e é a de aprender consigo mesmo, com sua própria
solidão. O autodidata pode ser muito bem-sucedido quando o seu estudo é a
mudança das circunstâncias, logo, um conhecimento do mundo dos vivos, um
conhecimento focado na atualidade da vida, até porque aí suas novidades,
invenções e descobertas que mudam as circunstâncias são imediatamente
compartilhadas com os vivos, mas pode passar a ter dificuldade quando o seu
estudo é da educação porque ele precisa ser educado, quer dizer, aprender com a
educação para estudar a educação, ou seja, ele precisa de um outro que não ele
mesmo, logo, de um outro que não seja a sua exclusiva atividade autodidata, mas
sendo este outro o conjunto do conhecimento do mundo dos mortos, então a sua
atividade de aprendizado autodidata com os mortos se torna ainda mais solitária
do que a atividade do erudito, porque o erudito conta com o auxílio de outros
eruditos vivos para estudar o conhecimento dos mortos, enquanto que o
autodidata só conta consigo mesmo e só pode recorrer à sua própria vivacidade
para obter conhecimentos vivos que o ajudem a estudar o conhecimento dos
mortos. O resultado dessa diferença entre o erudito e o autodidata é bastante
conhecido e difundido como sendo, por um lado, o da diferença entre alguém que
conhece e domina diversos saberes, quer dizer, que possui a habilidade e
domínio de diversas ciências e, por isso, exibe um conhecimento positivo de
todos esses saberes e, assim, é chamado de erudito, e, por outro lado, como
sendo o de alguém que, acessando diversos saberes e diversas ciências,
desenvolve a habilidade de conhecer o pensamento íntimo (o espírito, a
temática, o assunto) presente e em desenvolvimento nessas diversas ciências e,
por isso, exibe um conhecimento filosófico de todos esses saberes e, assim, é
chamado de autodidata.
Qual a consequência dessa diferença? Evidentemente ambos
conhecem as ciências e os saberes que são os objetos produzidos pela atividade
de conhecimento dos mortos e dos vivos, mas, aparentemente, uns vão se
apropriar disso como conhecimentos positivos ou meios de produção e outros vão
se apropriar disso como conhecimentos filosóficos ou forças humanas de
trabalho, de modo que uns se apropriam do capital e/ou trabalho morto do
conhecimento, enquanto que outros se apropriam da atividade de trabalho e/ou do
trabalho vivo do conhecimento.
De modo que, com o erudito, toda a
tradição positiva das gerações mortas se concretiza na atualidade, enquanto que,
com o autodidata, toda a tradição filosófica das gerações mortas se concretiza
na atualidade. Consequentemente, a atividade erudita é a da concretização
positiva do mundo e a atividade autodidata é a da concretização filosófica do
mundo, logo, o erudito pode ser visto como quem concretiza a interpretação do
mundo positivo de diferentes maneiras positivas e o autodidata pode ser visto
como quem concretiza a mudança do mundo humano da mesma maneira humana. Ou
ainda, ao contrário, o erudito é aquele que concretiza/interpreta o mundo
positivo e dissolve/muda o mundo humano, enquanto que o autodidata é aquele que
concretiza/interpreta o mundo humano e dissolve/muda o mundo positivo. Então,
para o erudito ou para o saber absoluto o que importa é interpretar/concretizar
o mundo (positivo) de diferentes maneiras, já para o autodidata ou para o saber
humano o que importa é mudar o mundo (positivo), ainda que para o erudito ou
para o saber absoluto também importe dissolver/mudar o mundo (humano) de forma
absolutamente positiva e para o autodidata ou para o saber humano também
importe interpretar/concretizar o mundo (humano) de maneira absolutamente
humana.
Que grande recompensa a da minha solidão, aqui no blog e na vida, por poder dizer que ando sempre na companhia da humanidade filosófica abstrata. Que miséria!!!! Onde, como e quando saio da solidão e posso encontrar a riqueza da humanidade filosófica concreta. Porque só permaneço na miséria dessa humanidade filosófica abstrata?! Porque não encontro nem ando por aí na companhia da riqueza da humanidade filosófica concreta?! Porque me encontro na menoridade, tutelado pela emancipação política do poder positivo erudito e interdito da saída da menoridade com a ousadia do uso próprio da emancipação humana do poder filosófico autodidata?! Porque aguardo e insisto em aguardar com estas minhas mensagens engarrafadas e lançadas no oceano do ciberespaço?! Porque aguardo e insisto em acreditar que virão respostas?! Porque aguardo e insisto em acreditar que, em algum lugar e momento, minhas mensagens encontrarão humanos filosóficos concretos libertos que, respondendo, me darão a riqueza de concretizar a liberdade de minha humanidade filosófica?! Porque aguardo respostas e insisto em acreditar que elas virão tal qual um crente, um beato?! [Ver: http://www.outrafrequencia.org/2015/05/marx-karl-as-filosofias-da-natureza-em.html ; página 30]
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