quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Do abstrato para o concreto





Do materialismo inserido num momento específico do desenvolvimento sistêmico da filosofia alemã:


Todo real é racional equivale a dizer que todo real é cognoscível, logo, todo racional é real equivale a dizer que todo cognoscível é real, mas daí se segue que todo irreal é irracional/todo irreal é incognoscível bem como todo irracional é irreal/todo incognoscível é irreal?!


- Não sei, não faço ideia, pelo menos, ainda, mas não sei se virei a fazer ideia.


Kant, pelo que parece, considerava que nem todo real era cognoscível, logo, racional, só admitindo o conhecimento do fenômeno e não o do númeno, ou seja, só aquilo que chega à razão puramente pela percepção sensível do fenômeno pode ser conhecido, já aquilo que vindo da razão chega à percepção sensível do fenômeno só pode ser suposição efetivada pela vontade prática da razão. O que vem da percepção sensível do fenômeno pode ser conhecimento da razão pura e o que é trazido à percepção sensível do fenômeno pode ser suposição escolhida pela vontade da razão prática. O que sai da razão praticamente para a percepção sensível do fenômeno só pode ser realização efetiva do que pode ser suposto e escolhido pela vontade. O real que se torna racional é conhecimento puro da representação e o racional que se torna real é criação prática da vontade.


Então, considerando Kant e Hegel, Marx virou discípulo daquele que tornou todo o real racional, cognoscível ou saber absoluto, quer dizer, daquele que efetivou ao máximo o real como idealismo, mas que deixou nas mãos dos seus discípulos e/ou de seus sucessores tornar todo o racional real, quer dizer, tornar todo idealismo materialismo, logo, deixou para seus sucessores tornar todo o racional real-saber absoluto realização criadora-produção absoluta da prática da vontade. Então, Marx está inserido, no processo de desenvolvimento histórico sistêmico da filosofia alemã, no momento da passagem de todo racional para o real, de todo saber teórico para a produção (criação) prática, logo, o seu materialismo pressupõe e assume “o idealismo” como “uma verdade” (é o que ele diz, por exemplo, na dedicatória de sua tese de doutorado) que o precede e o informa daquilo que quer tornar criação prática, verdade materialista.


A partir de Kant aquilo que vem da percepção sensível do fenômeno para a razão é o que pode ser conhecido e, com Hegel, o fenômeno e o real, com as sucessivas figuras do espírito, chegam ao númeno e se tornam conhecimento absoluto. Desde Kant aquilo que vem da razão para a percepção sensível do fenômeno é o que pode ser produzido/criado, como suposição do númeno, pela vontade da razão prática e, com Hegel, este vir a ser outro - este vir a ser fenômeno e não o próprio númeno - se torna alienação, perda do númeno para o fenômeno na passagem da razão para o real, perda do conhecimento para a suposição, perda do absoluto para o relativo até chegar ao fim da história e vir a ser perda do conhecimento absoluto para a suposição absoluta. A alienação e/ou a realização efetiva do conhecimento absoluto, quer dizer, a passagem do conhecimento absoluto da razão pura para a suposição absoluta da razão prática, já que aquilo que aparece como fim da história do conhecimento absoluto no âmbito da razão pura vai aparecer como fim da história da suposição absoluta no âmbito da razão prática significa uma perda absoluta do númeno para o fenômeno em que sentido? O númeno morre, desaparece, se dissolve e só vive, aparece, se realiza o fenômeno? O númeno permanece imortal, essencial, indissolvível e sem vínculo com o fenômeno que só permanece mortal, existência, dissolução? No primeiro caso, não existe mais o númeno e sim apenas o fenômeno absoluto do vir a ser. No segundo caso, o númeno permanece existindo mas distante do vínculo com o fenômeno absoluto do vir a ser. Em ambos os casos, ocorre uma perda do foco no númeno e um aumento do foco no fenômeno, melhor, uma perda no foco da passagem do real fenomênico para o racional numênico e um aumento do foco na passagem do racional numênico para o real fenomênico, melhor, um aumento do foco da ausência de racionalidade numênica para o real fenomênico e um aumento do foco da racionalidade numênica alienada para o real fenomênico apropriado. No primeiro caso, se supõe Nietzsche com sua escuta de "Deus está morto!" e da irracionalidade para a prática do real fenomênico. No segundo, se supõe Marx com sua inversão dialética de modo a trazer a racionalidade alienada para efetivar-se realmente na prática fenomênica. Num caso é a razão que está morta junto com a divindade e no outro é a razão que está alienada junto com a divindade. O primeiro quer trazer à vida prática a irracionalidade super-humana porque a razão morreu com a divindade e o segundo quer trazer à vida prática a racionalidade humana que foi alienada com a divindade.



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