domingo, 9 de outubro de 2016

A emancipação do mestre é o trabalho/obra/maestria do discípulo

A propósito desses cursos que confirmam muita coisa que aprendi lendo Marx, mas que também deixam outras mistificadas como abstrações unilaterais. A partir desse que é muito bom e é seguido de mais 9 vídeos, sendo que o sexto vídeo não consegui achar:

https://www.youtube.com/watch?v=XBsplo6NzqQ 


Seguido deste que abre uma série de uns 8 vídeos:


https://www.youtube.com/watch?v=7bM4y9hsJS4 





A tradução da “Carta ao Pai” que tenho diante de meus olhos não é a que li impressa em livro de papel, mas a digitalizada em página da internet - http://www.scientific-socialism.de/KMFEDireitoCAP4Port.htm#_ftnref11 – e já plena de intenções, como fica bem claramente expresso na sua apresentação:


PRODUÇÕES LITERÁRIAS DEDICADAS À FORMAÇÃO
DE REVOLUCIONÁRIOS MARXISTAS QUE ATUAM NO DOMÍNIO DO DIREITO, DO ESTADO E DA JUSTIÇA DE CLASSE

KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS SOBRE O DIREITO E O ESTADO, OS JURISTAS E A JUSTIÇA

Carta ao Pai em Trier :

Ciência do Direito e Filosofia Investigadas na Própria Realidade,
Com o Próprio Objeto Perscrutado
em seu Desenvolvimento   

KARL MARX[1]

Concepção e Organização, Compilação e Tradução
 Emil Asturig von München, Agosto de 2006

Para Palestras e Cursos sobre o Tema em Destaque

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O título do tradutor, cheio de intenções específicas – FORMAÇÃO DE REVOLUCIONÁRIOS MARXISTAS QUE ATUAM NO DOMÍNIO DO DIREITO, DO ESTADO E DA JUSTIÇA DE CLASSE -, resume o essencial no desenvolvimento do pensamento de Marx – Ciência do Direito e Filosofia Investigadas na Própria Realidade, com o Próprio Objeto Perscrutado em seu Desenvolvimento -. Aquilo que a maioria dos estudiosos de Marx vão indicar que só começa depois do Manuscrito de Kreuznach em 1843 já está refletido na Carta ao Pai, datada de 10 de novembro de 1837. Mas, o principal, da posição de Marx, que se encontra expresso aí, nesta Carta ao Pai, e que pode explicar muito mais do que todas as demais explicações a respeito das relações de Marx com Hegel, não está mencionado no título nem foi destacado por meio da citação do desespero e frustração que Marx na Carta relata ter vivenciado em, pelo menos, duas fases sucessivas, até chegar ao seu desfecho inexorável que foi sua entrega nos braços de seu detestável inimigo, o sistema de Hegel. Esta relação de Marx com Hegel, na qual o materialista Marx descobre que toda sua atividade o conduziu à condição de escravo/discípulo do sistema de seu odioso inimigo e senhor/mestre idealista Hegel, é aquilo que transparece e o que resulta de mais importante para compreender Marx.


Marx começa a Carta a seu pai, que é advogado em Trier, sua cidade natal, descrevendo a situação na qual se encontra um “ponto de transição”:
“Em tais momentos, porém, um indivíduo torna-se lírico, pois toda metamorfose é, em parte, um canto de cisne e, em parte, a abertura de um novo grande poema que aspira a adquirir uma postura em cores brilhantes, que estão, porém, ainda desbotadas.”
Rememora:

Quando vos deixei, surgiu para mim um novo mundo, o mundo do amor e, em verdade, no início, do amor embriagado de saudades e de esperanças vazias.Até mesmo a viagem à Berlim, que, por sinal, poderia ter-me encantado ao extremo, despertando-me a observação da natureza, abrasando-me o prazer de viver, produziu-me frieza, deixando-me visivelmente de mau humor, pois as rochas que via não eram mais grosseiras, não eram mais impudentes do que os sentimentos da minha alma, as amplas cidades, não mais vivazes do que o meu sangue, as refeições dos albergues, não mais sobrecarregadas, não mais indigeríveis do que os pacotes de fantasias que levava e, finalmente, a arte, não tão bela quanto Jenny.

Chegando à Berlim, rompi todos os laços que haviam existido até então, passei a fazer, com dissabor, raras visitas e procurei afundar-me na ciência e na arte. Em conformidade com a situação espiritual de outrora, a poesia lírica havia de constituir, necessariamente, o meu primeiro projeto, ao menos o mais agradável e mais próximo. Porém, esta era puramente idealista, tal como meu posicionamento e todo o desenvolvimento até  o presente momento o demonstraram. Um reino do além, de igual forma distantemente situado - tal como o meu amor -, passou a ser o meu céu, a minha arte. Todo o real tornou-se vago e tudo o que é vago não encontra nenhuma fronteira.
Ataques ao presente, sentimento impactado de modo amplo e informe, nada de natural, tudo construído a partir da lua, o pleno oposto daquilo que existe e daquilo que deve ser, reflexões retóricas em vez de pensamento poético, talvez, porém, um certo calor do sentimento e da luta pelo ímpeto caracterizam todas as poesias dos três primeiros volumes, por mim enviados e recebidos por Jenny. Toda a extensão de uma ansiedade que não conhece nenhuma fronteira manifesta-se em diversas formas e faz da poesia uma extensão. Então, a poesia podia e devia ser apenas um acompanhamento.”

A insatisfação de Marx com a expressão de seus sentimentos é sua insatisfação com sua prática do “idealismo”, onde nada é “natural”, materialista e tudo fica reduzido à “retórica” e não é prática verdadeiramente poética, quer dizer, natural, materialista, de modo que reduz a “poesia” a uma “extensão”, no máximo a “um acompanhamento do calor do sentimento e da luta pelo ímpeto”. Mas ele foi lá para estudar direito:

“Tive de estudar a Ciência do Direito e senti, sobretudo, o incitamento de bater-me com a Filosofia. Ambas foram de tal maneira relacionadas que tratei, em parte, Heineccius, Thibaut e as fontes de modo puramente acrítico, de modo meramente escolástico - assim, p.ex., traduzi os dois primeiros livros das Pandectas para o alemão -, e, em parte, procurei fazer passar uma Filosofia do Direito pelo domínio do Direito.[2]
À guisa de introdução, prefaciei algumas proposições metafísicas e conduzi essa obra infeliz até o Direito Público, de modo a elaborar um traballho de aproximadamente 300 páginas.[3]

“A luta do ímpeto” é “o incitamento de bater-me com a filosofia”, ou seja, Marx quer a filosofia como arma/instrumento/espada com a qual se bate, com a qual luta e, desse modo, ele acaba reduzindo o Direito a mero canal/meio/espaço que usa para no interior dele se bater e brilhar com a filosofia do direito, a qual, por sua vez, apenas usa o espaço do Direito, mas, na verdade, ignora efetivamente o Direito. Mas, com a luta do ímpeto de se bater com a filosofia ele desenvolveu um escrito com cerca de 300 páginas.

Aqui, surgiu, sobretudo, de modo perturbador, o mesmo antagonismo, existente entre ser e dever ser, próprio do idealismo, tornando-se a matriz da divisão subseqüente, irrecuperavelmente incorreta.
De início, apareceu a Metafísica do Direito - assim por mim piedosamente denominada -, i.e. os fundamentos, as reflexões, as definições conceituais, divorciada de todo Direito real e de toda forma real do Direito, tal como haveria de aparecer em Fichte, apenas que de modo mais moderno e sem conteúdo, em meu trabalho.[4]

Nisso, a forma acientífica do dogmatismo matemático, em que o sujeito roda em torno da coisa, refletindo, para cá e para lá, sem que a própria coisa assuma sua forma, como algo abundantemente vivo e em desenvolvimento, era um obstáculo, colocado de antemão, à apreensão da verdade.

{Alguma referência ao sistema heliocêntrico de Copérnico que serve de modelo para Kant desenvolver a revolução copernicana no âmbito do conhecimento?!}

O triângulo permite ao matemático construir e comprovar, permanece, porém, mera representação no espaço, não se desenvolvendo subseqüentemente em nada. 

É necessário que o coloquemos ao lado de outras coisas, para que assuma, então, outras posições, e esse diferenciar em relação ao mesmo ali colocado, confere-lhe diversas relações e verdades.

Pelo contrário, na expressão concreta do mundo do pensamento vivo, tal como é o Direito, o Estado, a Natureza, a inteira Filosofia, deve o próprio objeto ser perscrutado em seu desenvolvimento. Divisões arbitrárias não se podem imiscuir. A razão da própria coisa deve, enquanto algo em si mesmo antagônico, desenvolver-se e encontrar a sua unidade em si mesma.”

Marx critica ainda mais o seu escrito dizendo que ele assume uma característica do idealismo, em especial, o do de (Kant e) Fichte que se baseia no antagonismo entre ser e dever ser. E aí ele faz a denúncia principal, desse idealismo presente no seu próprio escrito: “a matriz da divisão subsequente, irrecuperavelmente incorreta”. Qual? Aquela que, no início, põe "a Metafísica do Direito, isto é, os fundamentos, as reflexões, as definições conceituais divorciada de todo Direito real e de toda forma real do Direito". E a isso ele chama de forma acientífica do dogmatismo matemático, por meio da qual o sujeito roda em torno da coisa, refletindo, para lá e para cá, sem que a própria coisa assuma sua forma, como algo abundantemente vivo e em desenvolvimento. Marx assinala aquilo que ele mais quer: o desenvolvimento autônomo da própria coisa e/ou o desenvolvimento autônomo do próprio materialismo. E argumentando com a própria matemática contra a forma acientífica do dogmatismo ele mostra que o triângulo permanece pura abstração matemática sem consequência se não é combinado com outras figuras e se não desenvolve uma diversidade de relações com elas, ou seja, se não for considerado e tomado mera e exclusivamente como uma figura isolada e conceitual, mas sim como uma figura “junta e misturada” na própria coisa, no próprio objeto, porque só na “expressão concreta do mundo do pensamento vivo, tal como é o Direito, o Estado, a Natureza, a inteira Filosofia, deve o próprio objeto ser perscrutado em seu desenvolvimento. Divisões arbitrárias não podem se imiscuir. A razão da própria coisa deve, enquanto algo em si mesmo antagônico, desenvolver-se e encontrar a unidade em si mesma.” É aqui que aparece o cerne do que é defendido por Marx e que se tornou o título e o foco desta tradução de sua Carta ao Pai. Aqui Marx mostra seu pensamento e o método de investigação que defende.

Mas, a Carta dele continua com uma descrição pormenorizada da sequência do seu escrito de 300 páginas até que pára por não ver sentido em descrever algo que ele já abandonou e não quer mais desenvolver. Porém, este abandono e este não querer mais fica explicitado como abandono e não querer mais a filosofia de Kant com a qual ele desenvolveu tudo o que abandonou e não quer mais.

Na conclusão do Direito Privado Material, vi a falsidade do todo que, no esquema fundamental, faz fronteira com o de Kant, dele se esquivando totalmente na execução, e, mais uma vez, tornou-se-me claro que sem a Filosofia não seria possível penetrar.[6]

Assim, permiti-me, com boa consciência, lançar-me novamente nos braços da Filosofia e redigi um novo sistema metafísico fundamental, em cuja conclusão fui forçado a admitir, novamente, o equívoco das suas (EvM.: i.e. as de Kant) e de todas as minhas pretensões precedentes.  No curso dessa atividade, havia-me apropriado do hábito de fazer excertos de todos os livros que lia, tais como o “Laokoon”, de Lessing, o “Erwin”, de Solger, a história da arte deWinckelmann, a história alemã de Luden e, dessa forma, adiconalmente, rabiscar reflexões.[7]


Aqui Marx está falando de sua última tentativa de sair do idealismo kantiano por meio do exercício desse mesmo idealismo, mas também está dizendo que foi “forçado a admitir, novamente o equívoco das suas (EvM.: i.e. as de Kant) e todas as minhas pretensões precedentes”, quer dizer, ele está falando a seu Pai, formado no kantismo, e que o formou: estar admitindo o equívoco das pretensões de seu pai e das suas próprias pretensões. Além disso, ele se refere a um hábito salutar de dar voz ao objeto estudado, à coisa estudada, que lhe permite com tal aceitação dos direitos de seu objeto desenvolver o seu direito de “rabiscar reflexões". Esta novidade do seu hábito é um avanço na aproximação do que visa, a investigação do objeto no campo do seu próprio desenvolvimento.


{Essa passagem contrasta com a da sua tese de doutorado, onde faz uma dedicatória a seu sogro, revelando a sua "felicidade", porque, sendo um "daqueles que duvidam da ideia", aprendeu com seu "muito querido amigo paternal" que o "idealismo não é uma ficção mas sim uma verdade" por ser capaz de "contemplar o empíreo que, apesar de seus disfarces, arde no coração do mundo". Na tese de doutorado ele retoma o que na Carta está expresso mais adiante: Se os Deuses haviam, anteriormente, habitado a terra, tornavam-se, agora, o centro da mesma". Ver: http://www.outrafrequencia.org/2015/05/marx-karl-as-filosofias-da-natureza-em.html , página 121}


 Em fins de setembro, procurei novamente por danças das musas e música das sátiras e, já nesse caderno que vos enviei, o idealismo penetra mediante humor forçado (Scorpion e Felix), mediante drama fantástico, fracassado (Oulanem), até que se transforma, finalmente, de modo pleno, em uma arte formal pura, na maioria das partes, sem objetos estimulantes, sem dinâmica tempestuosa de idéias. Entretanto, essas últimas poesias são as únicas, nas quais resplandeceu diante de mim, repentinamente, tal como através de um golpe mágico - oh ! o golpe foi, de início, esmagador - o reino da verdadeira poesia, à maneira de um palácio de fadas distante, sendo que todas as minhas criações dissolveram-se no nada.”


Marx descobre e confessa que o mundo da poesia não é para ele e que esta sua arte poética é uma arte formal pura, quer dizer, precisamente aquilo que está tentando superar no âmbito de seus escritos que se batem com a filosofia por meio da construção o mais próxima possível duma ciência conteudística pura.


“Partindo do idealismo, o qual, dito de passagem, comparei e enriqueci com o idealismo de Kant e o de Fichte, cheguei ao ponto, então, de investigar a idéia, na realidade mesma. Se os Deuses haviam, anteriormente, habitado a terra, tornavam-se, agora, o centro da mesma. Havia lido fragmentos da Filosofia de Hegel, cuja melodia rochosa grotesca não agradou.[9]

Mais uma vez, quis mergulhar no mar, porém com o propósito determinado de constatar que a natureza do espírito é tão necessária, concreta e firmemente fundada quanto a natureza do corpo, bem como pretendendo não mais praticar artes de esgrima, senão segurar a pérola genuína diante da luz do sol. Escrevi um diálogo de aproximadamente 24 páginas :  Cleanthes ou o Ponto de Partida e a Necessária Continuação da Filosofia”.[10]

O que mais chama a atenção aqui nesta tradução não é que Marx afirme que partiu do “investigar a ideia na realidade mesma”, mas sim que qualifique Hegel de “melodia rochosa grotesca” desagradável. Porque, lá no início da Carta ele diz que “as rochas que via não eram mais grosseiras, não eram mais impudentes do que os sentimentos da minha alma, as amplas cidades, não mais vivazes do que o meu sangue, as refeições dos albergues, não mais sobrecarregadas, não mais indigeríveis do que os pacotes de fantasias que levava e, finalmente, a arte, não tão bela quanto Jenny”. A melodia rochosa de Marx terá de vir a ser mais grotesca e desagradável que a de Hegel?! Mas quem foi Cleanthes? Um estoico grego que trouxe o materialismo para o estoicismo e que se mantinha por meio do trabalho físico, braçal e não por meio do trabalho intelectual, ao contrário, era seu trabalho físico que garantia o sustento para que pudesse se dedicar ao trabalho intelectual da filosofia junto a seu mestre Zeno (Zenão de Cítio) [ver: https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=cleanto%20de%20assos ; https://pt.wikipedia.org/wiki/Cleantes_de_Assos ].

 

 

Aqui, arte e saber, que estavam inteiramente separados, unificaram-se, em certa medida, e, como um vigoroso andarilho, marchei rumo à própria obra, rumo a um desenvolvimento filosófico-dialético da divindade, tal como manifestada enquanto conceito em si, enquanto religião, natureza, história. Minha última proposição foi o início do sistema de Hegel.



E esse trabalho, para o qual me familiarizarei, em certa extensão, com a Ciência da NaturezaSchelling e a História - o que me provocou infinita dor de cabeça, estando redigido de tal modo (uma vez que deveria constituir uma nova lógica) que, agora, nem mesmo eu consigo me recordar de ter alimentado esse meu filho predileto, sob o brilho da lua -, esse meu trabalho conduz-me, tal como uma falsa sereia, aos braços do inimigo.[11]


Devido a esse meu desgosto, não pude pensar em absolutamente nada durante alguns dias. Corri como um louco pelo jardim, junto à água imunda do Spree."Lavei a alma e dilui o chá". Aderi até mesmo a uma sessão de caça, com o dono de minha pensão. Disparei rumo a Berlim, querendo abraçar cada um dos transeuntes das esquinas.”


O desespero e a frustração de Marx é a situação trágica a que chegou. No momento preciso que consegue um avanço do seu modo próprio de filosofar ele só consegue se desenvolver até chegar na porta de entrada do sistema do filósofo cuja desagradável melodia rochosa grotesca odeia. Sua tragédia é saber que o seu melhor o conduz para os braços do seu inimigo. Sua tragédia é saber que se tornou, a contragosto, discípulo (escravo) do sistema do mestre (senhor) Hegel. Essa sua frustração que quase o enlouquece é uma passagem para a condição de discípulo de Hegel muito diferente daquela que ele observa nos demais discípulos de Hegel e que ele descreverá numa nota de sua tese de doutorado [Conferir em http://www.outrafrequencia.org/2015/05/marx-karl-as-filosofias-da-natureza-em.html ; páginas 157-162]. Nota que eles aderiram ao sistema de Hegel cheios de entusiasmo e satisfação, mas, agora, depois da morte do mestre, eles o acusam de cultivar uma intenção escondida e de, assim, ter enganado a todos os discípulos. É nessa hora que Marx, o discípulo contrariado de Hegel, assume que não desconfia de Hegel nem considera que ele cultive uma intenção escondida, mas considera sim que Hegel desenvolveu seu sistema ao máximo e que o único problema que percebe como limitação do seu sistema é a sua consciência filosófica íntima que só admitindo o idealismo, deixa de fora o materialismo sob a forma de uma consciência exotérica, quer dizer, de uma consciência que não foi compreendida/pensada/conhecida na sua interioridade, na sua objetividade, logo, não foi investigada como coisa que se desenvolve por si mesma, logo, precisamente como aquela consciência materialista que o próprio Marx quer desenvolver na sua investigação do objeto, da coisa, do movimento real. 


{A crise de Marx lembra a de Nietzsche, mas enquanto um perde para sempre, já o outro adentra para sempre no mundo poético, enquanto um quer abraçar os transeuntes, o outro quer ainda maior solidão, enquanto um chega até a caçar, o outro chora copiosamente pelo fim dos maus tratos a um animal doméstico, enquanto um, contrariado, se torna discípulo do sistema inimigo, já o outro, favorecido, como um destino, se torna mestre anunciador do seu próprio sistema do super-homem, enquanto um desenvolve uma atividade que tende a se tornar saudável normalidade do sistema social humano, o outro desenvolve uma atividade que tende a ser enlouquecedora anormalidade do sistema antissocial anti-humano ou grande saúde do louco e solitário sistema do super-homem.}



“Logo a seguir, empreendi apenas estudos positivistas : o estudo sobre A Posse” de Savigny e sobre o Direito Criminal, de Feuerbach e Grolmann, De verborum significatione, de Cramer, o Sistema das Pandectas, de Wening-Ingenheims, e a Doctrina pandectarum, de Mühlenbruchnos quais ainda continuo trabalhando, e, finalmente, títulos esparsos de Processo Civil e, sobretudo, Direito Eclesiástico, de Lauterbach, dos quais a primeira parte, ”Concordia discordantium canonum”, de Gratian, li quase completamente no corpus, elaborando excertos, como também o fiz com o suplemento ”Institutiones”, de Lancelotti.[12]

 

Em seguida, traduzi, em parte, a ”Retórica”, de Aristóteles, li do célebre Baco v. Verulam seu ”De dignitate et augumentis scientiarum”, ocupei-me bastante com Reimarus, cujo livro ”Do Impulso Artístico dos Animais” analisei com prazer, resvalei também no Direito Alemão, porém, principalmente, apenas na medida em que examinei as Capitulares dos Reis Francos e as cartas dos Papas a eles dirigidas.[13]  

 

 

Por encontrar-me perturbado com a doença de Jenny e com os meus baldados e fracassados trabalhos espirituais, pelo aborrecimento dilacerante de ter de construir para mim mesmo um ídolo a partir de uma visão que odiava, fiquei doente, meu caro pai, tal como já lhe escrevi precedentemente. Uma vez recuperado, queimei todas as poesias e materiais sobre novelas etc., na loucura de acreditar que disso me poderia livrar inteiramente, sendo que, até agora, de nenhuma forma, dei provas do contrário.

 

 

Durante minha doença, conheci Hegel do início ao fim, juntamente com a maioria de seus discípulos.[14]

 

 

Através de diversos encontros com amigos, ocorridos em Stralow, fui dar em um Clube de Doutores, no qual se encontravam alguns livres docentes e meu amigo mais íntimo de Berlim, Dr. Rutenberg.[15] 

 

 

 

Aqui, em meio a debates, revelaram-se muitas concepções reticentes, sendo que me acorrentei, cada vez mais firmemente, à filosofia do mundo atual, da qual pensei escapar. Porém, todo a riqueza de sons tornou-se silenciosa e uma verdadeira fúria de ironia envolveu-me, tal como se pudesse isso suceder bem facilmente, depois de tantas coisas repudiadas. Ademais, havia o silêncio de Jenny e não pude tranquilizar-me até que alcançara a modernidade e o ponto de vista da concepção científica atual, por meio de algumas produções de má qualidade, tal como ”The Visit (A Visita)” etc. [16]

 

 

Ele mostra que se recupera de suas crises trabalhando sobre estudos positivos, algo que se repete. Também mostra que ele foi abraçar não meramente os transeuntes de Berlim e sim os discípulos da filosofia de sua época, os hegelianos, estudou as obras de Hegel e se acorrentou profundamente no conhecimento dos discípulos da filosofia atual da qual tinha pretendido se livrar. O que mais teme é perder Jenny, que adoeceu e ficou em silêncio e isso, talvez, depois de ter perdido a poesia para sempre, depois de ter sido derrotado por seu inimigo e dele ter se tornado discípulo (escravo) e ele acha que pode manter Jenny alcançando “a modernidade e o ponto de vista da concepção científica atual”. Mais uma crise se avizinha.



{Jenny é a filha do idealista hegeliano ao qual dedica sua tese. Ela mesma é a "coisa" ou o "objeto" que se desenvolve autonomamente, ela mesma é a matéria pela qual Marx arde de paixão, ela mesma é o materialismo de Marx. E Jenny, o seu materialismo, é a modernidade e o ponto de vista da concepção científica atual.

 

 

Se, talvez, nem lhe tenha apresentado aqui, meu caro pai, esse último semestre por inteiro nem penetrado, de modo claro, em todas as particularidades, obscurecendo também todos os matizes, perdoe-me por minha ansiedade de falar sobre o presente.

 

 

H. v. Chamisso enviou-me um bilhete extremamente insignificante, comunicando-me que "lamenta não poder o Almanaque utilizar minhas contribuições, por este já se encontrar inteiramente impresso, desde muito tempo.” [17]

 

 

Engoli-o, com irritação. O livreiro Wigand remeteu o meu plano ao Sr. Schmidt, editor da casa empresarial de Wunder, que vende bons queijos e má literatura. Sua carta anexo à presente. O Sr. Schmidt ainda não respondeu. Entretanto, não abandonarei, de nenhuma forma, o plano em questão, já que todas as celebridades estéticas da Escola de Hegel prometeram-me a sua cooperação, mediante a intermediação seja do Professor Bauer, que desempenha entre eles um importante papel, seja do meu coadjutor Dr. Rutenberg. [18]

 

 

 

Marx no fim da Carta aborda aquilo que preocupa um Pai. Como o filho se sustentará. O “Almanaque de Musas” do qual foi descartado é similar ao mundo poético das musas do qual se sentiu descartado para sempre. Já o plano que não pretende abandonar de forma nenhuma, o de publicar um jornal de crítica teatral, já que conta com a cooperação do movimento hegeliano ou da filosofia do mundo atual.

 

 

 

“No que concerne, então, à questão da carreira junto à fazenda pública, conheci, meu caro pai, recentemente, um assessor chamado Schmidthänner que me aconselhou a passar a atuar como juiz assessor, depois do terceiro exame de Direito, o que tanto mais aceitaria, na medida em que prefiro realmente a Ciência do Direito a todas Ciências da Administração. Esse senhor disse-me que ele mesmo e muitos outros chegaram até o posto de assessor junto ao Supremo Tribunal Estadual da Vestfália em três anos, o que não teria sido difícil. É possível entender isso, quando se trata de muitos tipos de trabalho, já que, naVestfália, os estágios não são rigidamente determinados, tal como em Berlim e alhures.

 

Posteriormente, obtendo-se, como assessor, um título de Doutor, existirão também perspectivas muito mais fáceis de poder atuar, imediatamente, comoProfessor Extraordinário, tal como ocorreu com H. Gärtner, em Bonn, que escreveu um trabalho medíocre sobre códigos de província e, ademais disso, não é senão conhecido por ser um adepto da Escola dos Juristas Hegelianos.”

 

 

 

Onde o jovem Marx afirma resistir firmemente é no plano de publicar um jornal de crítica teatral, mas também pode ser a afirmação de publicar um jornal de crítica do mundo, logo, o plano de trabalhar em jornal pode ser aquele ao qual ele pretende se dedicar.

 

 

Quando, no final, defende junto ao pai o se dedicar à Jurisprudência ou à Ciência do Direito e não à Ciência da Administração Marx avança a ideia de, além de ser juiz, vir a ser professor universitário e, curiosamente, é apenas a esse plano de ser professor universitário que os estudiosos de Marx se referem. Ora, porque será que Marx no “Prefácio” à “Contribuição à Crítica da Economia Política” permanece fiel a  esta sua preferência pela Jurisprudência: “O objecto dos meus estudos especializados era a jurisprudência, à qual me dediquei como disciplina complementar da filosofia e da história.” [ver: http://guy-debord.blogspot.com.br/2009/06/karl-marx-prefacio-critica-da-economia.html ].

 

 

Porque ele remete para os seus planos dessa época? É porque tem saudades de sua juventude e de seu pai?! Pode ser, porém, pode ser ainda mais provável que sua atividade jornalística à frente da Gazeta Renana tenha sido precisamente a de um estudioso especializado em Jurisprudência ou Ciência do Direito. A característica crítica de seus artigos pode ter sido precisamente a de um estudioso especializado em jurisprudência que a aplicava “como disciplina complementar da filosofia e da história”, ou seja, só veio a mudar o seu foco da jurisprudência para a crítica da economia política junto com e a partir do desenvolvimento dos conflitos da sociedade civil burguesa que era precisamente a coisa ou do objeto de sua atividade jornalística. E aí percebeu que sua própria atividade de estudioso especializado em jurisprudência de modo complementar à história e à filosofia precisava ser submetida à crítica. E esta crítica assumia a forma de uma “Crítica da filosofia do direito de Hegel” e com ela também a forma de uma crítica da filosofia da história e do próprio sistema filosófico de Hegel. Percebeu que por aí se dava o desenvolvimento pelo qual vinha lutando desde a época de sua Carta ao Pai e que tinha desenvolvido como advento da consciência de si materialista na sua tese de doutorado sobre “As diferenças entre as filosofias da Natureza de Demócrito e de Epicuro”. No desenvolvimento da sua crítica da economia política fica nítida a aparição da luta antagônica de duas consciências de si (de classes) no âmbito da economia política de um modo que muito se assemelha com o do antagonismo entre o atomismo de Demócrito e o de Epicuro. A luta entre sistemas atomistas ou a luta entre posições sistemáticas no mesmo âmbito do atomismo muito se assemelha à luta entre posições sistemáticas no mesmo âmbito da produção econômica.

 

 

Para que tudo isso? Para que escrever sobre esta Carta ao Pai? Porque os estudiosos de Marx vivem de fazer cortes epistemológicos os mais diversos no seu pensamento e no desenvolvimento de seu sistema de pensamento e, com isso, chamam a atenção para as contradições que aparecem num pensador como Marx, por exemplo, como se explica que sua tese sobre o atomismo grego mostre de forma antecipada aquilo que, mais tarde, virá aparecer nesse mesmo pensador como luta de classes no âmbito da produção social? Ou ainda, mostre com tais contradições uma dificuldade para explicar como Marx podia ter consciência de suas limitações na Carta ao Pai e, além disso, mostrar aí que era um crítico desses cortes e/ou dessas abstrações unilaterais que terminam por conduzir àquilo que lembra e se assemelha ao que denominou de “forma acientífica do dogmatismo matemático”.

 

 

O desenvolvimento de Marx é também o desenvolvimento do seu trabalho, quer dizer, da sua produção, ou seja, ele assume que precisa ser discípulo de Hegel para poder vir a desenvolver àquilo que melhor desenvolveu e que foi a investigação do objeto na sua própria realidade, porque o seu melhor estudo vivo terminou ali onde começava o de Hegel, então, ele precisava assumir seu discipulado para desenvolver esse objeto, a filosofia de Hegel, na sua própria realidade, quer dizer, como dirá na “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”: Ele precisará realizar a filosofia do direito de Hegel para poder se libertar do seu sistema. E essa novidade que muitos estudiosos destacam como sendo absolutamente revolucionária/inovadora já se encontrava presente numa nota da tese de doutorado de Marx [ver: http://www.outrafrequencia.org/2015/05/marx-karl-as-filosofias-da-natureza-em.html , página 160].

 

 

Porém, meu caro e bom pai, não seria possível tratar disso tudo pessoalmente com você ?

 

O estado de Eduardo sofrimento da minha amada mãezinha, o seu próprio mal-estar - ainda que espere não seja grave -, tudo isso faz com que deseje apressar-me a ir encontrar-vos, em verdade torna isso quase uma necessidade. Já estaria aí convosco, caso não duvidasse fortemente do seu assentimento e permissão. Creia-me, meu querido e amado pai, não me sinto impelido por nenhum propósito egoísta (muito embora me resultaria bem-aventurado poder rever Jenny), porém existe um sentimento que me move e que não posso declarar.  Para mim, seria, até mesmo, em diversos sentidos, um passo muito duro, porém, tal como me escreve minha única e doce Jenny, todas essas considerações perdem a importância, em face do cumprimento dos deveres que são sagrados.  

Seja lá o modo como venha a decidir isso, peço-lhe, meu caro pai, não mostrar essa carta - no mínimo essa página - a minha mãe angelical. Minha chegada repentina poderia ajudar, quem sabe, a recuperar essa grande e maravilhosa mulher. Minha carta à mamãe foi escrita muito antes da chegada da estimada carta de Jenny e, assim, talvez, tenha eu escrito, inconscientemente, demais sobre assuntos que não são absolutamente adequados ou o são apenas muito pouco.[19]

Na esperança de que, gradualmente, dissipem-se as núvens que se acumularam sobre nossa família, que a mim me seja permitido, sofrer e chorar convosco e, talvez, em vossa proximidade, dar provas de minha profunda e íntima simpatia, provas de meu incomensurável amor, que, freqüentemente, posso apenas expressar de modo tão ruim;

Na esperança de que você, meu caro e eternamente amado pai, tendo em conta o aspecto do meu estado de ânimo por demais agitado, perdoe-me, onde meu coração aparenta, freqüentemente, ter-se equivocado, enquanto meu espírito combativo acomete, e desejando que também você se recupere plenamente, de sorte que possa eu o apertar em meu coração e declarar-lhe todos os meus pensamentos, subscrevo-me,
      
seu filho que o ama eternamente

Karl

P.S. : Perdoe, meu caro pai, minha letra ilegível e o meu mau estilo. Já são quase 4 horas da manhã, a vela já se extinguiu inteiramente e meus olhos estão turvos. Um verdadeiro sobressalto apoderou-se de mim. Não serei capaz de acalmar os espectros turbulentos, até que me encontre na vossa amada proximidade.
Cumprimente, por favor, minha doce e maravilhosa Jenny. Já li sua carta 12 vezes e nela sempre descubro novos estímulos. Em todos os sentidos - incluindo o artístico - é a mais bela carta que posso imaginar ter sido redigida por uma mulher.”


Quem é Eduard? Um irmão de Marx? Certamente um parente com problema de saúde. A mãe também está com problema de saúde e existe algum conflito afetivo maior entre Marx e ela, pelo que deduz dessas passagens finais da Carta. Também o pai está com um problema de saúde. E porque ele não quer que Marx vá a seu encontro?! Por causa da mãe de Marx, sua esposa?! Existe conflito dela com Jenny?! Sobre o quê Marx não pode falar?! Algum problema com sua mãe?! Ou a suspeita de que seu pai está à beira da morte?! Todos os cuidados afetivos que Marx declara nessa parte final de sua Carta são uma despedida de seu Pai?! Bem como uma luta pela aceitação plena de Jenny como sua amada incontestável?!



O desenvolvimento do pensamento de Marx pode e merece ser compreendido como o próprio Marx compreendia o desenvolvimento do pensamento: Como um movimento de emancipação do sujeito que é obra do próprio sujeito. Em que sentido? No sentido de desenvolvimento de um trabalho de emancipação que se desenvolve de forma progressiva e, às vezes, tendo de enfrentar e resistir sob situações regressivas.



{Aqui no fim ele se refere a Carta que recebeu de Jenny, que releu umas 12 vezes. Deve ter sido posterior ao alcance que teve da modernidade e do ponto de vista da concepção científica da atualidade.Ela é muito mais desenvolta que seu pai e que seu muito querido amigo paternal e exige dele maior rigor com seu pensamento para que a encontre e desfrute de seu materialismo de modo a poder realizar seu próprio materialismo.}





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