https://www.youtube.com/watch?v=XBsplo6NzqQ
Seguido deste que abre uma série de uns 8 vídeos:
https://www.youtube.com/watch?v=7bM4y9hsJS4
A tradução da “Carta ao Pai” que tenho diante de meus olhos
não é a que li impressa em livro de papel, mas a digitalizada em página da
internet - http://www.scientific-socialism.de/KMFEDireitoCAP4Port.htm#_ftnref11
– e já plena de intenções, como fica bem claramente expresso na sua
apresentação:
PRODUÇÕES LITERÁRIAS DEDICADAS À FORMAÇÃO
DE REVOLUCIONÁRIOS MARXISTAS QUE ATUAM NO DOMÍNIO DO DIREITO, DO ESTADO E
DA JUSTIÇA DE CLASSE
KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS SOBRE O DIREITO E
O ESTADO, OS JURISTAS E A JUSTIÇA
Carta ao Pai em Trier :
Ciência do Direito e Filosofia Investigadas na
Própria Realidade,
Com o Próprio Objeto Perscrutado
em seu Desenvolvimento
Concepção e Organização, Compilação e
Tradução
Emil Asturig von München, Agosto de 2006
Para Palestras e Cursos sobre o Tema em
Destaque
Contatar emilvonmuenchen@web.de
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O título do tradutor, cheio de intenções específicas –
FORMAÇÃO DE REVOLUCIONÁRIOS MARXISTAS QUE ATUAM NO DOMÍNIO DO DIREITO, DO
ESTADO E DA JUSTIÇA DE CLASSE -, resume o essencial no desenvolvimento do
pensamento de Marx – Ciência do Direito e Filosofia Investigadas
na Própria Realidade, com o Próprio Objeto Perscrutado em seu Desenvolvimento -.
Aquilo que a maioria dos estudiosos de Marx vão indicar que só começa depois do
Manuscrito de Kreuznach em 1843 já está refletido na Carta ao Pai, datada de 10
de novembro de 1837. Mas, o principal, da posição de Marx, que se encontra
expresso aí, nesta Carta ao Pai, e que pode explicar muito mais do que todas as
demais explicações a respeito das relações de Marx com Hegel, não está
mencionado no título nem foi destacado por meio da citação do desespero e frustração
que Marx na Carta relata ter vivenciado em, pelo menos, duas fases sucessivas,
até chegar ao seu desfecho inexorável que foi sua entrega nos braços de seu
detestável inimigo, o sistema de Hegel. Esta relação de Marx com Hegel, na qual
o materialista Marx descobre que toda sua atividade o conduziu à condição de
escravo/discípulo do sistema de seu odioso inimigo e senhor/mestre idealista
Hegel, é aquilo que transparece e o que resulta de mais importante para
compreender Marx.
Marx começa a Carta a seu pai, que é advogado em Trier, sua
cidade natal, descrevendo a situação na qual se encontra um “ponto de
transição”:
“Em
tais momentos, porém, um indivíduo torna-se lírico, pois toda metamorfose é, em
parte, um canto de cisne e, em parte, a abertura de um novo grande poema que
aspira a adquirir uma postura em cores brilhantes, que estão, porém, ainda
desbotadas.”
Rememora:
“Quando vos
deixei, surgiu para mim um novo mundo, o mundo do amor e, em verdade, no
início, do amor embriagado de saudades e de esperanças vazias.Até mesmo a viagem à Berlim,
que, por sinal, poderia ter-me encantado ao extremo, despertando-me a
observação da natureza, abrasando-me o prazer de viver,
produziu-me frieza, deixando-me visivelmente de mau humor, pois as rochas
que via não eram mais grosseiras, não eram mais impudentes do que os
sentimentos da minha alma, as amplas cidades, não mais vivazes do que o
meu sangue, as refeições dos albergues, não mais sobrecarregadas, não mais
indigeríveis do que os pacotes de fantasias que levava e, finalmente, a
arte, não tão bela quanto Jenny.
Chegando à Berlim,
rompi todos os laços que haviam existido até então, passei a fazer, com
dissabor, raras visitas e procurei afundar-me na ciência e na arte. Em
conformidade com a situação espiritual de outrora, a poesia
lírica havia de constituir, necessariamente, o meu primeiro
projeto, ao menos o mais agradável e mais próximo. Porém,
esta era puramente idealista, tal
como meu posicionamento e todo o desenvolvimento até o presente
momento o demonstraram. Um reino do além, de igual forma distantemente situado
- tal como o meu amor -, passou a ser o meu céu, a minha arte. Todo o real
tornou-se vago e tudo o que é vago não encontra nenhuma fronteira.
Ataques ao
presente, sentimento impactado de modo amplo e informe, nada de
natural, tudo construído a partir da lua, o pleno oposto daquilo
que existe e daquilo que deve ser, reflexões retóricas em vez
de pensamento poético, talvez, porém, um certo calor do
sentimento e da luta pelo ímpeto caracterizam todas as poesias dos três
primeiros volumes, por mim enviados e recebidos por Jenny. Toda
a extensão de uma ansiedade que não conhece nenhuma fronteira
manifesta-se em diversas formas e faz da “poesia” uma “extensão”. Então, a poesia
podia e devia ser apenas um acompanhamento.”
A insatisfação de Marx com a expressão de seus sentimentos é
sua insatisfação com sua prática do “idealismo”, onde nada é “natural”,
materialista e tudo fica reduzido à “retórica” e não é prática verdadeiramente
poética, quer dizer, natural, materialista, de modo que reduz a “poesia” a uma “extensão”,
no máximo a “um acompanhamento do calor do sentimento e da luta pelo ímpeto”.
Mas ele foi lá para estudar direito:
“Tive de estudar a Ciência do Direito e
senti, sobretudo, o incitamento de bater-me com a Filosofia.
Ambas foram de tal maneira relacionadas que tratei, em parte, Heineccius, Thibaut e as
fontes de modo puramente acrítico, de modo meramente escolástico - assim,
p.ex., traduzi os dois primeiros livros das Pandectas para o
alemão -, e, em parte, procurei fazer passar uma Filosofia
do Direito pelo domínio do Direito.[2]
À guisa de introdução, prefaciei algumas
proposições metafísicas e conduzi essa obra infeliz até o Direito
Público, de modo a elaborar um traballho de aproximadamente 300 páginas.[3]”
“A luta do ímpeto” é “o incitamento de bater-me com a
filosofia”, ou seja, Marx quer a filosofia como arma/instrumento/espada com a
qual se bate, com a qual luta e, desse modo, ele acaba reduzindo o Direito a
mero canal/meio/espaço que usa para no interior dele se bater e brilhar com a
filosofia do direito, a qual, por sua vez, apenas usa o espaço do Direito,
mas, na verdade, ignora efetivamente o Direito. Mas, com a luta do ímpeto de se
bater com a filosofia ele desenvolveu um escrito com cerca de 300 páginas.
“Aqui, surgiu, sobretudo, de modo
perturbador, o mesmo antagonismo, existente entre ser e dever ser,
próprio do idealismo, tornando-se a matriz da divisão
subseqüente, irrecuperavelmente incorreta.
De início,
apareceu a Metafísica do Direito - assim por
mim piedosamente denominada -, i.e. os fundamentos, as reflexões, as
definições conceituais, divorciada de todo Direito
real e de toda forma real do Direito, tal como
haveria de aparecer em Fichte, apenas que de modo mais
moderno e sem conteúdo, em meu trabalho.[4]
Nisso, a forma
acientífica do dogmatismo matemático, em que o sujeito roda
em torno da coisa, refletindo, para cá e para lá, sem que a própria
coisa assuma sua forma, como algo abundantemente vivo e em
desenvolvimento, era um obstáculo, colocado de antemão, à apreensão
da verdade.
{Alguma referência ao sistema heliocêntrico de Copérnico que serve de modelo para Kant desenvolver a revolução copernicana no âmbito do conhecimento?!}
O triângulo
permite ao matemático construir e comprovar, permanece, porém,
mera representação no espaço, não se desenvolvendo subseqüentemente em
nada.
É necessário que o
coloquemos ao lado de outras coisas, para que assuma, então, outras
posições, e esse diferenciar em relação ao mesmo ali colocado, confere-lhe
diversas relações e verdades.
Pelo contrário, na
expressão concreta do mundo do pensamento vivo, tal como é o Direito,
o Estado, a Natureza, a inteira Filosofia,
deve o próprio objeto ser perscrutado em seu desenvolvimento. Divisões
arbitrárias não se podem imiscuir. A razão da própria coisa deve,
enquanto algo em si mesmo antagônico, desenvolver-se e encontrar a sua unidade
em si mesma.”
Marx critica ainda
mais o seu escrito dizendo que ele assume uma característica do idealismo, em
especial, o do de (Kant e) Fichte que se baseia no antagonismo entre ser e
dever ser. E aí ele faz a denúncia principal, desse idealismo presente no seu
próprio escrito: “a matriz da divisão subsequente, irrecuperavelmente
incorreta”. Qual? Aquela que, no início, põe "a Metafísica do Direito, isto é, os
fundamentos, as reflexões, as definições conceituais divorciada de todo Direito real e de toda forma real do Direito". E a isso ele chama de forma acientífica
do dogmatismo matemático, por meio da qual o sujeito roda em torno da coisa,
refletindo, para lá e para cá, sem que a própria coisa assuma sua forma, como
algo abundantemente vivo e em desenvolvimento. Marx assinala aquilo que ele
mais quer: o desenvolvimento autônomo da própria coisa e/ou o desenvolvimento
autônomo do próprio materialismo. E argumentando com a própria matemática
contra a forma acientífica do dogmatismo ele mostra que o triângulo permanece
pura abstração matemática sem consequência se não é combinado com outras
figuras e se não desenvolve uma diversidade de relações com elas, ou seja, se
não for considerado e tomado mera e exclusivamente como uma figura isolada e
conceitual, mas sim como uma figura “junta e misturada” na própria coisa, no
próprio objeto, porque só na “expressão concreta do mundo do pensamento vivo,
tal como é o Direito, o Estado, a Natureza, a inteira Filosofia,
deve o próprio objeto ser perscrutado em seu desenvolvimento. Divisões
arbitrárias não podem se imiscuir. A razão da própria coisa deve, enquanto algo
em si mesmo antagônico, desenvolver-se e encontrar a unidade em si mesma.” É
aqui que aparece o cerne do que é defendido por Marx e que se tornou o título e
o foco desta tradução de sua Carta ao Pai. Aqui Marx mostra seu pensamento e o
método de investigação que defende.
Mas, a Carta dele
continua com uma descrição pormenorizada da sequência do seu escrito de 300
páginas até que pára por não ver sentido em descrever algo que ele já abandonou
e não quer mais desenvolver. Porém, este abandono e este não querer mais fica
explicitado como abandono e não querer mais a filosofia de Kant com a qual ele
desenvolveu tudo o que abandonou e não quer mais.
“Na conclusão do Direito Privado Material,
vi a falsidade do todo que, no esquema fundamental, faz fronteira com o
de Kant, dele se esquivando totalmente na execução, e, mais
uma vez, tornou-se-me claro que sem a Filosofia não
seria possível penetrar.[6]
Assim, permiti-me,
com boa consciência, lançar-me novamente nos braços da Filosofia e
redigi um novo sistema metafísico fundamental, em
cuja conclusão fui forçado a admitir, novamente, o equívoco das
suas (EvM.: i.e. as de Kant) e de todas as minhas
pretensões precedentes. No curso dessa atividade, havia-me
apropriado do hábito de fazer excertos de todos os livros que lia, tais
como o “Laokoon”, de Lessing, o “Erwin”, de
Solger, a história da arte deWinckelmann, a história
alemã de Luden e, dessa forma, adiconalmente, rabiscar
reflexões.[7]”
Aqui Marx está
falando de sua última tentativa de sair do idealismo kantiano por meio do
exercício desse mesmo idealismo, mas também está dizendo que foi “forçado a
admitir, novamente o equívoco das suas (EvM.: i.e. as de Kant) e todas as minhas
pretensões precedentes”, quer dizer, ele está falando a seu Pai, formado no
kantismo, e que o formou: estar admitindo o equívoco das pretensões de seu pai
e das suas próprias pretensões. Além disso, ele se refere a um hábito salutar
de dar voz ao objeto estudado, à coisa estudada, que lhe permite com tal
aceitação dos direitos de seu objeto desenvolver o seu direito de “rabiscar
reflexões". Esta novidade do seu hábito é um avanço na aproximação do que visa,
a investigação do objeto no campo do seu próprio desenvolvimento.
{Essa passagem contrasta com a da sua tese de doutorado, onde faz uma dedicatória a seu sogro, revelando a sua "felicidade", porque, sendo um "daqueles que duvidam da ideia", aprendeu com seu "muito querido amigo paternal" que o "idealismo não é uma ficção mas sim uma verdade" por ser capaz de "contemplar o empíreo que, apesar de seus disfarces, arde no coração do mundo". Na tese de doutorado ele retoma o que na Carta está expresso mais adiante: Se os Deuses haviam, anteriormente, habitado a terra, tornavam-se, agora, o centro da mesma". Ver: http://www.outrafrequencia.org/2015/05/marx-karl-as-filosofias-da-natureza-em.html , página 121}
“ Em fins de
setembro, procurei novamente por danças das musas e música das sátiras e,
já nesse caderno que vos enviei, o idealismo penetra mediante humor
forçado (“Scorpion
e Felix”), mediante drama fantástico, fracassado (“Oulanem”), até que se transforma, finalmente, de modo
pleno, em uma arte formal pura, na maioria das partes, sem objetos estimulantes,
sem dinâmica tempestuosa de idéias. Entretanto, essas últimas poesias são as
únicas, nas quais resplandeceu diante de mim, repentinamente, tal como através
de um golpe mágico - oh ! o golpe foi, de início, esmagador - o reino da
verdadeira poesia, à maneira de um palácio de fadas distante, sendo que todas
as minhas criações dissolveram-se no nada.”
Marx descobre e
confessa que o mundo da poesia não é para ele e que esta sua arte poética é uma
arte formal pura, quer dizer, precisamente aquilo que está tentando superar no
âmbito de seus escritos que se batem com a filosofia por meio da construção o
mais próxima possível duma ciência conteudística pura.
“Partindo do
idealismo, o qual, dito de passagem, comparei e enriqueci com o idealismo de Kant e o de Fichte, cheguei ao ponto, então, de investigar a idéia, na
realidade mesma. Se os Deuses haviam,
anteriormente, habitado a terra, tornavam-se, agora, o centro da
mesma. Havia lido fragmentos da Filosofia de Hegel, cuja melodia rochosa grotesca não agradou.[9]
Mais uma vez, quis
mergulhar no mar, porém com o propósito determinado de constatar que a
natureza do espírito é tão necessária, concreta e
firmemente fundada quanto a natureza do corpo, bem como pretendendo não
mais praticar artes de esgrima, senão segurar a pérola genuína diante
da luz do sol. Escrevi um diálogo de aproximadamente 24 páginas : ” Cleanthes ou o Ponto de Partida e a
Necessária Continuação da Filosofia”.[10]”
O que mais chama a atenção aqui nesta
tradução não é que Marx afirme que partiu do “investigar a ideia na realidade
mesma”, mas sim que qualifique Hegel de “melodia rochosa grotesca”
desagradável. Porque, lá no início da Carta ele diz que “as rochas que via
não eram mais grosseiras, não eram mais impudentes do que os sentimentos da
minha alma, as amplas cidades, não mais vivazes do que o meu sangue, as
refeições dos albergues, não mais sobrecarregadas, não mais indigeríveis do que
os pacotes de fantasias que levava e, finalmente, a arte, não
tão bela quanto Jenny”. A melodia rochosa de Marx terá de vir a ser
mais grotesca e desagradável que a de Hegel?! Mas quem foi Cleanthes? Um
estoico grego que trouxe o materialismo para o estoicismo e que se mantinha por
meio do trabalho físico, braçal e não por meio do trabalho intelectual, ao
contrário, era seu trabalho físico que garantia o sustento para que pudesse se
dedicar ao trabalho intelectual da filosofia junto a seu mestre Zeno (Zenão de
Cítio) [ver: https://www.google.com.br/webhp?sourceid=chrome-instant&ion=1&espv=2&ie=UTF-8#q=cleanto%20de%20assos
; https://pt.wikipedia.org/wiki/Cleantes_de_Assos
].
“Aqui, arte e saber,
que estavam inteiramente separados, unificaram-se, em certa medida,
e, como um vigoroso andarilho, marchei rumo à própria obra, rumo a um
desenvolvimento filosófico-dialético da divindade, tal como
manifestada enquanto conceito em si, enquanto
religião, natureza, história. Minha última proposição foi o início
do sistema de Hegel.
E esse trabalho, para o qual
me familiarizarei, em certa extensão, com a Ciência da
Natureza, Schelling e a História - o
que me provocou infinita dor de cabeça, estando redigido de
tal modo (uma vez que deveria constituir uma nova lógica) que,
agora, nem mesmo eu consigo me recordar de ter alimentado esse
meu filho predileto, sob o brilho da lua -, esse meu trabalho conduz-me,
tal como uma falsa sereia, aos braços do inimigo.[11]
Devido a esse meu desgosto, não pude pensar em
absolutamente nada durante alguns dias. Corri como um louco pelo jardim, junto
à água imunda do Spree."Lavei a alma e dilui o
chá". Aderi até mesmo a uma sessão de caça, com o dono de minha
pensão. Disparei rumo a Berlim, querendo abraçar cada um dos transeuntes das
esquinas.”
O desespero e a frustração de Marx é a situação
trágica a que chegou. No momento preciso que consegue um avanço do seu modo
próprio de filosofar ele só consegue se desenvolver até chegar na porta de
entrada do sistema do filósofo cuja desagradável melodia rochosa grotesca
odeia. Sua tragédia é saber que o seu melhor o conduz para os braços do seu
inimigo. Sua tragédia é saber que se tornou, a contragosto, discípulo (escravo)
do sistema do mestre (senhor) Hegel. Essa sua frustração que quase o enlouquece
é uma passagem para a condição de discípulo de Hegel muito diferente daquela
que ele observa nos demais discípulos de Hegel e que ele descreverá numa nota
de sua tese de doutorado [Conferir em http://www.outrafrequencia.org/2015/05/marx-karl-as-filosofias-da-natureza-em.html ; páginas 157-162]. Nota que eles aderiram ao sistema de Hegel
cheios de entusiasmo e satisfação, mas, agora, depois da morte do mestre, eles
o acusam de cultivar uma intenção escondida e de, assim, ter enganado a todos
os discípulos. É nessa hora que Marx, o discípulo contrariado de Hegel, assume
que não desconfia de Hegel nem considera que ele cultive uma intenção
escondida, mas considera sim que Hegel desenvolveu seu sistema ao máximo e que
o único problema que percebe como limitação do seu sistema é a sua consciência filosófica íntima que
só admitindo o idealismo, deixa de fora o materialismo sob a forma de uma
consciência exotérica, quer dizer, de uma consciência que não foi compreendida/pensada/conhecida
na sua interioridade, na sua objetividade, logo, não foi investigada como coisa
que se desenvolve por si mesma, logo, precisamente como aquela consciência
materialista que o próprio Marx quer desenvolver na sua investigação do objeto,
da coisa, do movimento real.
{A crise de Marx lembra a de Nietzsche, mas enquanto um perde para sempre, já o outro adentra para sempre no mundo poético, enquanto um quer abraçar os transeuntes, o outro quer ainda maior solidão, enquanto um chega até a caçar, o outro chora copiosamente pelo fim dos maus tratos a um animal doméstico, enquanto um, contrariado, se torna discípulo do sistema inimigo, já o outro, favorecido, como um destino, se torna mestre anunciador do seu próprio sistema do super-homem, enquanto um desenvolve uma atividade que tende a se tornar saudável normalidade do sistema social humano, o outro desenvolve uma atividade que tende a ser enlouquecedora anormalidade do sistema antissocial anti-humano ou grande saúde do louco e solitário sistema do super-homem.}
“Logo a seguir, empreendi apenas estudos positivistas : o estudo sobre “A
Posse” de Savigny e sobre o Direito Criminal, de Feuerbach e Grolmann, o De
verborum significatione, de Cramer, o Sistema das Pandectas, de Wening-Ingenheims, e a Doctrina pandectarum, de Mühlenbruch, nos quais ainda continuo trabalhando, e, finalmente, títulos
esparsos de Processo Civil e, sobretudo, Direito Eclesiástico, de Lauterbach, dos quais a primeira parte, ”Concordia discordantium canonum”, de Gratian, li quase completamente
no corpus, elaborando excertos, como também o fiz com o
suplemento ”Institutiones”, de Lancelotti.[12]
Em seguida, traduzi, em parte, a ”Retórica”, de Aristóteles, li do célebre Baco v. Verulam seu ”De dignitate et augumentis scientiarum”, ocupei-me bastante com Reimarus, cujo livro ”Do Impulso Artístico dos Animais” analisei com prazer,
resvalei também no Direito Alemão, porém, principalmente, apenas na medida em que
examinei as Capitulares dos Reis Francos e as cartas dos Papas a eles dirigidas.[13]
Por encontrar-me perturbado com a doença de Jenny e com os meus baldados e
fracassados trabalhos espirituais, pelo aborrecimento dilacerante de ter
de construir para mim mesmo um ídolo a partir de uma visão que
odiava, fiquei doente, meu caro pai, tal como já lhe escrevi precedentemente.
Uma vez recuperado, queimei todas as poesias e materiais sobre novelas
etc., na loucura de acreditar que disso me
poderia livrar inteiramente, sendo que, até agora, de
nenhuma forma, dei provas do contrário.
Durante minha doença, conheci Hegel do início ao fim, juntamente com a maioria de seus discípulos.[14]
Através de diversos encontros com amigos, ocorridos em Stralow, fui dar em um Clube de Doutores, no qual se encontravam alguns livres docentes e meu amigo mais íntimo
de Berlim, Dr. Rutenberg.[15]
Aqui, em meio a debates, revelaram-se muitas concepções
reticentes, sendo que me acorrentei, cada vez mais firmemente, à filosofia do mundo atual, da qual pensei escapar. Porém, todo a
riqueza de sons tornou-se silenciosa e uma verdadeira fúria de
ironia envolveu-me, tal como se pudesse isso suceder bem facilmente,
depois de tantas coisas repudiadas. Ademais, havia o silêncio de Jenny e não pude tranquilizar-me até que alcançara a
modernidade e o ponto de vista da concepção científica atual, por meio de
algumas produções de má qualidade, tal como ”The Visit (A Visita)” etc. [16] ”
Ele mostra que se recupera de suas crises
trabalhando sobre estudos positivos, algo que se repete. Também mostra que ele
foi abraçar não meramente os transeuntes de Berlim e sim os discípulos da
filosofia de sua época, os hegelianos, estudou as obras de Hegel e se
acorrentou profundamente no conhecimento dos discípulos da filosofia atual da
qual tinha pretendido se livrar. O que mais teme é perder Jenny, que adoeceu e
ficou em silêncio e isso, talvez, depois de ter perdido a poesia para sempre,
depois de ter sido derrotado por seu inimigo e dele ter se tornado discípulo
(escravo) e ele acha que pode manter Jenny alcançando “a modernidade e o ponto de
vista da concepção científica atual”. Mais uma crise se avizinha.
{Jenny é a filha do idealista hegeliano ao qual dedica sua tese. Ela mesma é a "coisa" ou o "objeto" que se desenvolve autonomamente, ela mesma é a matéria pela qual Marx arde de paixão, ela mesma é o materialismo de Marx. E Jenny, o seu materialismo, é a modernidade e o ponto de vista da concepção científica atual.}
“Se, talvez, nem lhe tenha apresentado aqui, meu caro
pai, esse último semestre por inteiro nem penetrado, de modo
claro, em todas as particularidades, obscurecendo também todos os matizes,
perdoe-me por minha ansiedade de falar sobre o presente.
H. v. Chamisso enviou-me um bilhete extremamente insignificante,
comunicando-me que "lamenta
não poder o Almanaque utilizar minhas contribuições, por este já se
encontrar inteiramente impresso, desde muito tempo.” [17]
Engoli-o, com irritação. O livreiro Wigand remeteu o meu plano ao Sr. Schmidt, editor da casa empresarial de Wunder, que vende bons queijos e má
literatura. Sua carta anexo à presente. O Sr. Schmidt ainda
não respondeu. Entretanto, não abandonarei, de nenhuma forma, o plano em
questão, já que todas as celebridades estéticas da Escola de Hegel prometeram-me a sua cooperação,
mediante a intermediação seja do Professor Bauer, que desempenha entre eles um importante papel, seja do meu
coadjutor Dr. Rutenberg. [18] ”
Marx no fim da Carta aborda aquilo que
preocupa um Pai. Como o filho se sustentará. O “Almanaque de Musas” do qual foi
descartado é similar ao mundo poético das musas do qual se sentiu descartado
para sempre. Já o plano que não pretende abandonar de forma nenhuma, o de
publicar um jornal de crítica teatral, já que conta com a cooperação do
movimento hegeliano ou da filosofia do mundo atual.
“No que
concerne, então, à questão da carreira junto à fazenda pública, conheci, meu
caro pai, recentemente, um assessor chamado Schmidthänner que me aconselhou a
passar a atuar como juiz assessor, depois do terceiro exame de Direito, o
que tanto mais aceitaria, na medida em que prefiro realmente a Ciência
do Direito a todas Ciências
da Administração. Esse senhor disse-me que
ele mesmo e muitos outros chegaram até o posto de assessor junto ao Supremo
Tribunal Estadual da Vestfália em três anos, o que não teria sido difícil.
É possível entender isso, quando se trata de muitos tipos de
trabalho, já que, naVestfália, os estágios não são rigidamente determinados, tal
como em Berlim e alhures.
Posteriormente,
obtendo-se, como assessor, um título de Doutor, existirão também perspectivas muito mais
fáceis de poder atuar, imediatamente, comoProfessor
Extraordinário, tal como ocorreu com H.
Gärtner, em Bonn, que escreveu um trabalho medíocre sobre códigos de
província e, ademais disso, não é senão conhecido por ser um adepto da Escola
dos Juristas Hegelianos.”
Onde o
jovem Marx afirma resistir firmemente é no plano de publicar um jornal de
crítica teatral, mas também pode ser a afirmação de publicar um jornal de
crítica do mundo, logo, o plano de trabalhar em jornal pode ser aquele ao qual
ele pretende se dedicar.
Quando, no final, defende junto ao pai o se dedicar
à Jurisprudência ou à Ciência do Direito e não à Ciência da Administração Marx
avança a ideia de, além de ser juiz, vir a ser professor universitário e,
curiosamente, é apenas a esse plano de ser professor universitário que os
estudiosos de Marx se referem. Ora, porque será que Marx no “Prefácio” à “Contribuição
à Crítica da Economia Política” permanece fiel a esta sua preferência pela Jurisprudência: “O objecto dos meus estudos especializados era a
jurisprudência, à qual me dediquei como disciplina complementar da filosofia e
da história.”
[ver: http://guy-debord.blogspot.com.br/2009/06/karl-marx-prefacio-critica-da-economia.html
].
Porque
ele remete para os seus planos dessa época? É porque tem saudades de sua
juventude e de seu pai?! Pode ser, porém, pode ser ainda mais provável que sua
atividade jornalística à frente da Gazeta Renana tenha sido precisamente a de
um estudioso especializado em Jurisprudência ou Ciência do Direito. A
característica crítica de seus artigos pode ter sido precisamente a de um estudioso
especializado em jurisprudência que a aplicava “como disciplina complementar da
filosofia e da história”, ou seja, só veio a mudar o seu foco da jurisprudência
para a crítica da economia política junto com e a partir do desenvolvimento dos
conflitos da sociedade civil burguesa que era precisamente a coisa ou do objeto
de sua atividade jornalística. E aí percebeu que sua própria atividade de
estudioso especializado em jurisprudência de modo complementar à história e à
filosofia precisava ser submetida à crítica. E esta crítica assumia a forma de
uma “Crítica da filosofia do direito de Hegel” e com ela também a forma de uma
crítica da filosofia da história e do próprio sistema filosófico de Hegel. Percebeu
que por aí se dava o desenvolvimento pelo qual vinha lutando desde a época de
sua Carta ao Pai e que tinha desenvolvido como advento da consciência de si materialista na sua tese de
doutorado sobre “As diferenças entre as filosofias da Natureza de Demócrito e de
Epicuro”. No desenvolvimento da sua crítica da economia política fica nítida a
aparição da luta antagônica de duas consciências de si (de classes) no âmbito
da economia política de um modo que muito se assemelha com o do antagonismo
entre o atomismo de Demócrito e o de Epicuro. A luta entre sistemas atomistas
ou a luta entre posições sistemáticas no mesmo âmbito do atomismo muito se
assemelha à luta entre posições sistemáticas no mesmo âmbito da produção
econômica.
Para
que tudo isso? Para que escrever sobre esta Carta ao Pai? Porque os estudiosos
de Marx vivem de fazer cortes epistemológicos os mais diversos no seu
pensamento e no desenvolvimento de seu sistema de pensamento e, com isso,
chamam a atenção para as contradições que aparecem num pensador como Marx, por
exemplo, como se explica que sua tese sobre o atomismo grego mostre de forma
antecipada aquilo que, mais tarde, virá aparecer nesse mesmo pensador como luta
de classes no âmbito da produção social? Ou ainda, mostre com tais contradições
uma dificuldade para explicar como Marx podia ter consciência de suas
limitações na Carta ao Pai e, além disso, mostrar aí que era um crítico desses
cortes e/ou dessas abstrações unilaterais que terminam por conduzir àquilo que
lembra e se assemelha ao que denominou de “forma acientífica do dogmatismo matemático”.
O
desenvolvimento de Marx é também o desenvolvimento do seu trabalho, quer dizer,
da sua produção, ou seja, ele assume que precisa ser discípulo de Hegel para
poder vir a desenvolver àquilo que melhor desenvolveu e que foi a investigação
do objeto na sua própria realidade, porque o seu melhor estudo vivo terminou
ali onde começava o de Hegel, então, ele precisava assumir seu discipulado para
desenvolver esse objeto, a filosofia de Hegel, na sua própria realidade, quer
dizer, como dirá na “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”:
Ele precisará realizar a filosofia do direito de Hegel para poder se libertar
do seu sistema. E essa novidade que muitos estudiosos destacam como sendo
absolutamente revolucionária/inovadora já se encontrava presente numa nota da
tese de doutorado de Marx [ver: http://www.outrafrequencia.org/2015/05/marx-karl-as-filosofias-da-natureza-em.html
, página 160].
“Porém,
meu caro e bom pai, não seria possível tratar disso tudo pessoalmente com você
?
O estado de Eduard, o
sofrimento da minha amada mãezinha, o seu próprio mal-estar - ainda que
espere não seja grave -, tudo isso faz com que deseje apressar-me a ir encontrar-vos,
em verdade torna isso quase uma necessidade. Já estaria aí convosco, caso não
duvidasse fortemente do seu assentimento e permissão. Creia-me,
meu querido e amado pai, não me sinto impelido por nenhum propósito
egoísta (muito embora me resultaria bem-aventurado poder
rever Jenny), porém existe um sentimento que me move e
que não posso declarar. Para mim, seria, até mesmo, em diversos
sentidos, um passo muito duro, porém, tal como me escreve minha única e
doce Jenny, todas essas considerações perdem a
importância, em face do cumprimento dos deveres que são
sagrados.
Seja lá o modo como venha a decidir isso,
peço-lhe, meu caro pai, não mostrar essa carta - no mínimo essa página - a
minha mãe angelical. Minha chegada repentina poderia ajudar, quem sabe, a
recuperar essa grande e maravilhosa mulher. Minha carta à mamãe foi
escrita muito antes da chegada da estimada carta de Jenny e,
assim, talvez, tenha eu escrito, inconscientemente, demais sobre
assuntos que não são absolutamente adequados ou o são apenas
muito pouco.[19]
Na esperança de que, gradualmente,
dissipem-se as núvens que se acumularam sobre nossa família, que a
mim me seja permitido, sofrer e chorar convosco e, talvez, em vossa
proximidade, dar provas de minha profunda e íntima simpatia, provas de meu
incomensurável amor, que, freqüentemente, posso apenas expressar de modo
tão ruim;
Na esperança de que você, meu caro e eternamente
amado pai, tendo em conta o aspecto do meu estado de ânimo por
demais agitado, perdoe-me, onde meu coração aparenta, freqüentemente, ter-se
equivocado, enquanto meu espírito combativo acomete, e desejando que
também você se recupere plenamente, de sorte que possa
eu o apertar em meu coração e declarar-lhe todos os meus
pensamentos, subscrevo-me,
seu filho que o ama eternamente
Karl
P.S. : Perdoe, meu caro pai, minha letra ilegível e
o meu mau estilo. Já são quase 4 horas da manhã, a vela já se extinguiu
inteiramente e meus olhos estão turvos. Um verdadeiro sobressalto apoderou-se
de mim. Não serei capaz de acalmar os espectros turbulentos, até
que me encontre na vossa amada proximidade.
Cumprimente, por favor, minha doce e maravilhosa Jenny.
Já li sua carta 12 vezes e nela sempre descubro novos estímulos.
Em todos os sentidos - incluindo o artístico - é a mais bela carta
que posso imaginar ter sido redigida por uma mulher.”
Quem é Eduard? Um irmão de Marx? Certamente um
parente com problema de saúde. A mãe também está com problema de saúde e existe
algum conflito afetivo maior entre Marx e ela, pelo que deduz dessas passagens
finais da Carta. Também o pai está com um problema de saúde. E porque ele não
quer que Marx vá a seu encontro?! Por causa da mãe de Marx, sua esposa?! Existe
conflito dela com Jenny?! Sobre o quê Marx não pode falar?! Algum problema com
sua mãe?! Ou a suspeita de que seu pai está à beira da morte?! Todos os cuidados
afetivos que Marx declara nessa parte final de sua Carta são uma despedida de
seu Pai?! Bem como uma luta pela aceitação plena de Jenny como sua amada
incontestável?!
O desenvolvimento do pensamento de Marx pode e
merece ser compreendido como o próprio Marx compreendia o desenvolvimento do
pensamento: Como um movimento de emancipação do sujeito que é obra do próprio
sujeito. Em que sentido? No sentido de desenvolvimento de um trabalho de
emancipação que se desenvolve de forma progressiva e, às vezes, tendo de
enfrentar e resistir sob situações regressivas.
{Aqui no fim ele se refere a Carta que recebeu de Jenny, que releu umas 12 vezes. Deve ter sido posterior ao alcance que teve da modernidade e do ponto de vista da concepção científica da atualidade.Ela é muito mais desenvolta que seu pai e que seu muito querido amigo paternal e exige dele maior rigor com seu pensamento para que a encontre e desfrute de seu materialismo de modo a poder realizar seu próprio materialismo.}
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