quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Origem da emancipação humana de Marx: a tese de doutorado






Para quem a sensibilidade é o princípio ela é irrefutável e a idealidade é refutável e para quem a idealidade é o princípio a sensibilidade é refutável e a idealidade é irrefutável.



Quem tem a sensibilidade por princípio irrefutável precisa elaborar aquilo que é o seu princípio refutável e insuficiente, ou seja, precisa elaborar a idealidade. E quem tem a idealidade por princípio irrefutável precisa elaborar aquilo que é o seu princípio refutável e insuficiente, ou seja, precisa elaborar a sensibilidade. Quem elabora a idealidade se entrega à filosofia e quem elabora a sensibilidade se entrega à ciência positiva, ao conhecimento empírico.



Os átomos e o vazio são os princípios da idealidade insuficiente e refutável de quem tem por princípio a sensibilidade irrefutável. E os átomos e o vazio são os princípios suficientes e irrefutáveis da idealidade de quem tem de elaborar a insuficiência e a refutabilidade da sensibilidade.



Estamos diante de duas formas de elaboração dos átomos e do vazio, duas formas de elaboração do atomismo, duas formas de elaboração da filosofia da natureza.



Numa os átomos e o vazio precisam ser suficientemente elaborados na idealidade e noutra os átomos e o vazio precisam ser suficientemente elaborados na sensibilidade.



Ora, o processo de encontro e elaboração dos átomos e do vazio se faz quase que completamente no interior da idealidade, mas, certamente, como eles são tidos como os princípios de toda a Natureza, então, eles também chegam até à sensibilidade. O que tende a ocorrer com as duas formas de elaborar os átomos e o vazio? Uma tende a se fixar na elaboração mais completa e perfeita do atomismo no interior da idealidade e a outra, para quem os átomos e o vazio são irrefutáveis, tende a se deslocar do interior da idealidade e a se lançar na busca dos átomos e do vazio na sensibilidade.



Certamente que o encontro e a elaboração dos átomos e do vazio no interior da idealidade requer pensar as relações do átomo com o vazio, do vazio com os átomos e dos átomos entre si e, com isso, pensar os movimentos do átomo, as suas qualidades, as suas condições de átomos-princípios que se encontram soltos no vazio e átomos-elementos que se encontram associados em composições que saem do espaço vazio insensível para o espaço pleno sensível, as suas condições de átomos-princípios soltos e atemporais no vazio e de átomos-elementos associados em composições de espaço pleno e tempo de plenitude que saem do vazio insensível para o espaço-tempo sensível e, finalmente, se pensa na passagem dos átomos no vazio para a dos corpos celestes no espaço cósmico.



As diferenças entre as duas formas de elaboração do atomismo vão aparecendo desde o início em todos os momentos do processo de elaboração, mas é, quando chega na passagem dos átomos e do vazio para sua realização efetiva dos corpos celestes e do espaço cósmico, que aparece a grande surpresa. As duas formas de elaboração dos átomos e do vazio concordam que os corpos celestes e o espaço cósmico não são os átomos e o vazio e estão sujeitos à decomposição e dissolução que os faz retornar aos átomos e ao vazio. Porém, aparece uma grande surpresa com a elaboração que tem a sensibilidade por princípio irrefutável porque ela simplesmente dissolve e destrói os átomos e o vazio como princípios que permanecem ao fim de toda dissolução do sensível porque, a seu ver, os átomos e o vazio são princípios da idealidade, logo, refutáveis, e, como tais, eles não podem refutar a sensibilidade que é o princípio irrefutável, mas, por outro lado, é perfeitamente aceitável que, nesse momento, se afirme, como princípio da idealidade suficiente e irrefutável, a consciência de si que elaborou todo o sistema atomista até à dissolução do sistema atomista, porque, desse modo, ela permanece como princípio da idealidade (“suficiente e irrefutável”) do princípio suficiente e irrefutável da sensibilidade. Já com a elaboração que tem a idealidade por princípio irrefutável não ocorre nenhuma surpresa, porque ela apenas considera que a refutação de todo o mundo sensível, de modo que só restem os átomos e o vazio como relíquias e/ou como elementos que eternamente retornam, é a realização efetiva da idealidade irrefutável como princípio irrefutável da sensibilidade por se tornar sensível eterno retorno dos elementos ou das relíquias atomistas: Os átomos e o vazio.



Então, quem tem por princípio irrefutável a sensibilidade dissolve o atomismo no vazio e fica com a consciência de si que afirma como sendo a idealidade sensível. E quem tem por princípio irrefutável a idealidade dissolve tudo no vazio e dissolve o próprio vazio no atomismo e fica com a consciência atomista para si que afirma como sendo a idealidade sensível. A idealidade sensível do primeiro é a consciência de si imanente e a idealidade sensível do segundo é a consciência para si transcendente. Quem tem por princípio irrefutável a sensibilidade alcança a autonomia e a liberdade com a entrega à tutela da sua própria consciência de si imanente. Quem tem por princípio irrefutável a idealidade alcança a heteronomia e a tutela com a entrega à autonomia e à liberdade duma consciência para si transcendente.



A partir desse momento de dissolução do atomismo para um e de eterno retorno do atomismo para o outro é que começa a prática, no sentido de início do momento que sucede à realização completa do sistema teórico, logo, a prática do primeiro é a aplicação da atividade crítica da consciência de si imanente no desenvolvimento da idealidade sensível, enquanto que a prática do segundo é a aplicação crítica da consciência para si transcendente no desenvolvimento da idealidade sensível. Aquele que dissolveu o sistema atomista não vai mais desenvolver na prática o atomismo nem a filosofia da natureza e vai sim desenvolver a sabedoria da consciência de si do princípio irrefutável da sensibilidade, logo, vai desenvolver a sabedoria de como melhor desfrutar do princípio irrefutável da sensibilidade, a sabedoria duma vida feliz. Aquele que dissolveu tudo no sistema atomista só vai permanecer desenvolvendo o sistema atomista e a filosofia da natureza como tutela da consciência para si do princípio irrefutável da idealidade, logo, vai desenvolver a tutela de como melhor se disciplinar pelo princípio irrefutável da idealidade, a tutela duma vida infeliz.



Eis o cerne do problema da emancipação desde a tese de doutorado de Marx até à publicação de toda sua obra restante.


Ver o desenvolvimento completo até aqui no post "Sujeito real, sujeito prático e sujeito metafísico?!"





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