Para quem a sensibilidade é o princípio ela é irrefutável e
a idealidade é refutável e para quem a idealidade é o princípio a sensibilidade
é refutável e a idealidade é irrefutável.
Quem tem a sensibilidade por princípio irrefutável precisa
elaborar aquilo que é o seu princípio refutável e insuficiente, ou seja,
precisa elaborar a idealidade. E quem tem a idealidade por princípio
irrefutável precisa elaborar aquilo que é o seu princípio refutável e
insuficiente, ou seja, precisa elaborar a sensibilidade. Quem elabora a
idealidade se entrega à filosofia e quem elabora a sensibilidade se entrega à
ciência positiva, ao conhecimento empírico.
Os átomos e o vazio são os princípios da idealidade
insuficiente e refutável de quem tem por princípio a sensibilidade irrefutável.
E os átomos e o vazio são os princípios suficientes e irrefutáveis da
idealidade de quem tem de elaborar a insuficiência e a refutabilidade da
sensibilidade.
Estamos diante de duas formas de elaboração dos átomos e do
vazio, duas formas de elaboração do atomismo, duas formas de elaboração da
filosofia da natureza.
Numa os átomos e o vazio precisam ser suficientemente elaborados
na idealidade e noutra os átomos e o vazio precisam ser suficientemente
elaborados na sensibilidade.
Ora, o processo de encontro e elaboração dos átomos e do
vazio se faz quase que completamente no interior da idealidade, mas,
certamente, como eles são tidos como os princípios de toda a Natureza, então,
eles também chegam até à sensibilidade. O que tende a ocorrer com as duas
formas de elaborar os átomos e o vazio? Uma tende a se fixar na elaboração mais
completa e perfeita do atomismo no interior da idealidade e a outra, para quem
os átomos e o vazio são irrefutáveis, tende a se deslocar do interior da
idealidade e a se lançar na busca dos átomos e do vazio na sensibilidade.
Certamente que o encontro e a elaboração dos átomos e do
vazio no interior da idealidade requer pensar as relações do átomo com o vazio,
do vazio com os átomos e dos átomos entre si e, com isso, pensar os movimentos
do átomo, as suas qualidades, as suas condições de átomos-princípios que se
encontram soltos no vazio e átomos-elementos que se encontram associados em
composições que saem do espaço vazio insensível para o espaço pleno sensível,
as suas condições de átomos-princípios soltos e atemporais no vazio e de
átomos-elementos associados em composições de espaço pleno e tempo de plenitude
que saem do vazio insensível para o espaço-tempo sensível e, finalmente, se
pensa na passagem dos átomos no vazio para a dos corpos celestes no espaço
cósmico.
As diferenças entre as duas formas de elaboração do atomismo
vão aparecendo desde o início em todos os momentos do processo de elaboração,
mas é, quando chega na passagem dos átomos e do vazio para sua realização
efetiva dos corpos celestes e do espaço cósmico, que aparece a grande surpresa.
As duas formas de elaboração dos átomos e do vazio concordam que os corpos
celestes e o espaço cósmico não são os átomos e o vazio e estão sujeitos à
decomposição e dissolução que os faz retornar aos átomos e ao vazio. Porém,
aparece uma grande surpresa com a elaboração que tem a sensibilidade por
princípio irrefutável porque ela simplesmente dissolve e destrói os átomos e o
vazio como princípios que permanecem ao fim de toda dissolução do sensível
porque, a seu ver, os átomos e o vazio são princípios da idealidade, logo,
refutáveis, e, como tais, eles não podem refutar a sensibilidade que é o
princípio irrefutável, mas, por outro lado, é perfeitamente aceitável que,
nesse momento, se afirme, como princípio da idealidade suficiente e irrefutável,
a consciência de si que elaborou todo o sistema atomista até à dissolução do
sistema atomista, porque, desse modo, ela permanece como princípio da
idealidade (“suficiente e irrefutável”) do princípio suficiente e irrefutável
da sensibilidade. Já com a elaboração que tem a idealidade por princípio
irrefutável não ocorre nenhuma surpresa, porque ela apenas considera que a
refutação de todo o mundo sensível, de modo que só restem os átomos e o vazio como
relíquias e/ou como elementos que eternamente retornam, é a realização efetiva
da idealidade irrefutável como princípio irrefutável da sensibilidade por se
tornar sensível eterno retorno dos elementos ou das relíquias atomistas: Os
átomos e o vazio.
Então, quem tem por princípio irrefutável a sensibilidade
dissolve o atomismo no vazio e fica com a consciência de si que afirma como
sendo a idealidade sensível. E quem tem por princípio irrefutável a idealidade
dissolve tudo no vazio e dissolve o próprio vazio no atomismo e fica com a
consciência atomista para si que afirma como sendo a idealidade sensível. A
idealidade sensível do primeiro é a consciência de si imanente e a idealidade
sensível do segundo é a consciência para si transcendente. Quem tem por
princípio irrefutável a sensibilidade alcança a autonomia e a liberdade com a
entrega à tutela da sua própria consciência de si imanente. Quem tem por
princípio irrefutável a idealidade alcança a heteronomia e a tutela com a entrega
à autonomia e à liberdade duma consciência para si transcendente.
A partir desse momento de dissolução do atomismo para um e
de eterno retorno do atomismo para o outro é que começa a prática, no sentido
de início do momento que sucede à realização completa do sistema teórico, logo,
a prática do primeiro é a aplicação da atividade crítica da consciência de si
imanente no desenvolvimento da idealidade sensível, enquanto que a prática do
segundo é a aplicação crítica da consciência para si transcendente no
desenvolvimento da idealidade sensível. Aquele que dissolveu o sistema atomista
não vai mais desenvolver na prática o atomismo nem a filosofia da natureza e
vai sim desenvolver a sabedoria da consciência de si do princípio irrefutável
da sensibilidade, logo, vai desenvolver a sabedoria de como melhor desfrutar do
princípio irrefutável da sensibilidade, a sabedoria duma vida feliz. Aquele que
dissolveu tudo no sistema atomista só vai permanecer desenvolvendo o sistema
atomista e a filosofia da natureza como tutela da consciência para si do
princípio irrefutável da idealidade, logo, vai desenvolver a tutela de como
melhor se disciplinar pelo princípio irrefutável da idealidade, a tutela duma
vida infeliz.
Eis o cerne do problema da emancipação desde a tese de
doutorado de Marx até à publicação de toda sua obra restante.
Ver o desenvolvimento completo até aqui no post "Sujeito real, sujeito prático e sujeito metafísico?!"
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