Do materialismo inserido num momento específico do desenvolvimento
sistêmico da filosofia alemã:
Todo real é racional equivale a dizer que todo real é cognoscível,
logo, todo racional é real equivale a dizer que todo cognoscível é real, mas
daí se segue que todo irreal é irracional/todo irreal é incognoscível bem como
todo irracional é irreal/todo incognoscível é irreal?!
- Não sei, não faço ideia, pelo menos, ainda, mas não sei se virei
a fazer ideia.
Kant, pelo que parece, considerava que nem todo real era
cognoscível, logo, racional, só admitindo o conhecimento do fenômeno e não o do
númeno, ou seja, só aquilo que chega à razão puramente pela percepção sensível
do fenômeno pode ser conhecido, já aquilo que vindo da razão chega à percepção
sensível do fenômeno só pode ser suposição efetivada pela vontade prática da
razão. O que vem da percepção sensível do fenômeno pode ser conhecimento da
razão pura e o que é trazido à percepção sensível do fenômeno pode ser
suposição escolhida pela vontade da razão prática. O que sai da razão
praticamente para a percepção sensível do fenômeno só pode ser realização
efetiva do que pode ser suposto e escolhido pela vontade. O real que se torna
racional é conhecimento puro da representação e o racional que se torna real é
criação prática da vontade.
Então, considerando Kant e Hegel, Marx virou discípulo daquele que
tornou todo o real racional, cognoscível ou saber absoluto, quer dizer, daquele
que efetivou ao máximo o real como idealismo, mas que deixou nas mãos dos seus
discípulos e/ou de seus sucessores tornar todo o racional real, quer dizer,
tornar todo idealismo materialismo, logo, deixou para seus sucessores tornar
todo o racional real-saber absoluto realização criadora-produção absoluta da
prática da vontade. Então, Marx está inserido, no processo de desenvolvimento
histórico sistêmico da filosofia alemã, no momento da passagem de todo racional
para o real, de todo saber teórico para a produção (criação) prática, logo, o
seu materialismo pressupõe e assume “o idealismo” como “uma verdade” (é o que
ele diz, por exemplo, na dedicatória de sua tese de doutorado) que o precede e
o informa daquilo que quer tornar criação prática, verdade materialista.
A partir de Kant aquilo que vem da percepção sensível do fenômeno
para a razão é o que pode ser conhecido e, com Hegel, o fenômeno e o real, com
as sucessivas figuras do espírito, chegam ao númeno e se tornam conhecimento
absoluto. Desde Kant aquilo que vem da razão para a percepção sensível do
fenômeno é o que pode ser produzido/criado, como suposição do númeno, pela
vontade da razão prática e, com Hegel, este vir a ser outro - este vir a ser
fenômeno e não o próprio númeno - se torna alienação, perda do númeno para o
fenômeno na passagem da razão para o real, perda do conhecimento para a
suposição, perda do absoluto para o relativo até chegar ao fim da história e
vir a ser perda do conhecimento absoluto para a suposição absoluta. A alienação
e/ou a realização efetiva do conhecimento absoluto, quer dizer, a passagem do conhecimento
absoluto da razão pura para a suposição absoluta da razão prática, já que
aquilo que aparece como fim da história do conhecimento absoluto no âmbito da
razão pura vai aparecer como fim da história da suposição absoluta no âmbito da
razão prática significa uma perda absoluta do númeno para o fenômeno em que
sentido? O númeno morre, desaparece, se dissolve e só vive, aparece, se realiza
o fenômeno? O númeno permanece imortal, essencial, indissolvível e sem vínculo
com o fenômeno que só permanece mortal, existência, dissolução? No primeiro
caso, não existe mais o númeno e sim apenas o fenômeno absoluto do vir a ser.
No segundo caso, o númeno permanece existindo mas distante do vínculo com o
fenômeno absoluto do vir a ser. Em ambos os casos, ocorre uma perda do foco no
númeno e um aumento do foco no fenômeno, melhor, uma perda no foco da passagem
do real fenomênico para o racional numênico e um aumento do foco na passagem do
racional numênico para o real fenomênico, melhor, um aumento do foco da ausência
de racionalidade numênica para o real fenomênico e um aumento do foco da
racionalidade numênica alienada para o real fenomênico apropriado. No primeiro
caso, se supõe Nietzsche com sua escuta de "Deus está morto!" e da
irracionalidade para a prática do real fenomênico. No segundo, se supõe Marx
com sua inversão dialética de modo a trazer a racionalidade alienada para
efetivar-se realmente na prática fenomênica. Num caso é a razão que está morta
junto com a divindade e no outro é a razão que está alienada junto com a
divindade. O primeiro quer trazer à vida prática a irracionalidade super-humana
porque a razão morreu com a divindade e o segundo quer trazer à vida prática a
racionalidade humana que foi alienada com a divindade.
Uma outra forma de abordar isso pode ser a seguinte: O
conhecimento do fenômeno pela razão pura iniciado por Kant é continuado por
Hegel, na Fenomenologia do Espírito ou no conhecimento do espírito como
fenômeno, através do conhecimento da série dos espíritos (númenos) da razão pura
que se tornam fenômenos cognoscíveis até chegar ao espírito absoluto (númeno
absoluto) da razão pura que se tornou fenômeno do saber absoluto do espírito
absoluto. Enquanto o conhecimento com Kant se constitui num saber limitado do
fenômeno porque o númeno permanece fora e à parte do fenômeno, já com Hegel o
conhecimento se constitui num saber cada vez mais abrangente até se constituir
em saber absoluto porque o númeno passa para dentro e, assim, a fazer parte
integrante do fenômeno, ainda que, desse modo, também se aliene de sua condição
de númeno. O que se destaca aqui ao chegar ao fenômeno do saber absoluto é o
fim da história e, com ela, talvez, aquilo que se tornará afirmação filosófica
de Nietzsche, o eterno retorno, posto que a história acabou e seu fim apenas
pode retornar eternamente como ciclo do fenômeno do saber absoluto. Porém, o
que chega ao fim da história é o fenômeno do saber absoluto, do saber teórico.
Por sinal Nietzsche não reivindica apenas o eterno retorno, mas também
reivindica o fim do homem teórico em prol da emergência do homem prático.
A crença, a fé, a escolha, a vontade que, pela razão prática,
produz o suposto númeno como fenômeno foi iniciada por Kant, ou seja, a
racionalidade que se torna real foi iniciada por Kant como racionalidade
alienada do númeno que, apostando na sua alienação, se faz fenômeno da crença.
Hegel conseguiu fazer do fenômeno real que se torna conhecimento absoluto,
logo, conhecimento do fenômeno e do númeno, um fenômeno, isto é, conseguiu
fazer do conhecimento absoluto uma alienação da racionalidade absoluta e, desse
modo, a passagem do racional para o real, do númeno para o fenômeno sob a essa
forma da alienação foi desenvolvida como uma decadência da teoria que cai na prática
e nela se perde. Então, a difusão do fenômeno do conhecimento absoluto se faz
como uma vulgarização, uma decadência que é perda na prática do espírito do
saber absoluto, logo, só por meio do retorno à passagem do real ao racional se
torna possível retomar e eternizar a elevação obtida com a conquista do fenômeno
do saber absoluto. Noutras palavras, ao que parece, Hegel concebeu a passagem
da racionalidade do fenômeno teórico do saber absoluto para a realidade do
fenômeno prático da crença absoluta como passagem do conhecimento para a
religião, passagem da ciência para a ideologia. Porque isso? Porque sua
limitação foi precisamente a conquista do saber absoluto, quer dizer, conquista
da passagem do real à racionalidade absoluta, mas não conseguiu superar essa
conquista da racionalidade absoluta fazendo a passagem dessa racionalidade
absoluta para a realidade absoluta precisamente porque para Hegel a
racionalidade absoluta era vista como a realidade absoluta, ou seja, apenas a
racionalidade, o saber, a ideia, enfim, apenas o idealismo é realidade absoluta.
Hegel ficou preso na sua limitação idealista e sem conseguir realizar
efetivamente e/ou de forma materialista a segunda parte de seu próprio programa
filosófico que é a passagem de todo racional ao real.
Esta passagem do racional ao real é assumida por Marx como
desenvolvimento do materialismo, como passagem da teoria à prática, como
mudança do terreno do espírito para o terreno da força humana de trabalho, como
passagem do saber absoluto realizado na teoria da ideia para o saber absoluto
realizado na prática da matéria, portanto, assumiu essa passagem do racional ao
real como passagem do idealismo para o materialismo e, assim, assumiu que a
realização efetiva da filosofia idealista de Hegel era o fim do idealismo e o
início do materialismo. Por isso, o fim da história do idealismo hegeliano é o
início da história materialista. Marx reivindica a prática como superação da
ideologia, na qual o idealismo fica acorrentado em eterno retorno do fim da
história, reivindica a prática como ciência materialista da continuidade da história
do racional/da racionalidade que se torna efetivamente real/realidade, logo, que
se torna igualmente prática humana comum da inteligência geral/do intelecto
geral e/ou prática da comunidade humana do intelecto geral/da inteligência
geral. E em que momento desse processo de realização efetiva da racionalidade
na prática da realidade nós estamos quando escrevemos e publicamos aqui nesse
espaço-tempo virtual?!
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