sábado, 26 de setembro de 2015

Usuário/consumidor do tempo livre e trabalhador/consumido do tempo de trabalho




Quem se constitui na maioria para o sistema? O usuário ou consumidor. E quem se constitui na minoria para o sistema? O trabalhador ou produtor.


Um gigantesco sistema trabalhando de forma quase que inteiramente automática e sem usuário ou consumidor é uma existência improvável, posto que o sistema efetivamente existente só funciona com a pluralidade de acessos dos usuários. É a existência real desses usuários ou consumidores que sustenta a sua gigantesca produção quase que inteiramente automática.


O que é imprescindível na mercadoria? Que ela seja um valor de uso. Se ela não for usável, se ela não tiver uso, então ela não é uma mercadoria. Mas, uma vez que ela é útil, então ela pode ser relacionada com outras igualmente úteis, ela pode entrar em relação com as utilidades de outras mercadorias. No entanto, as utilidades de cada uma delas são qualidades inerentes a cada uma delas e que as diferenciam inteiramente umas das outras. Então, quando elas relacionam as utilidades entre elas só encontram diferenças e, mesmo assim, elas se trocam entre si em diferentes quantidades que se equivalem como se fossem idênticas nas proporções destas diferentes quantidades. Estas proporções idênticas destas diferentes quantidades são proporções idênticas duma mesma quantidade presente nestas diferentes quantidades de utilidades ou qualidades diferentes. E esta mesma quantidade comum é uma quantidade abstrata e sem nenhuma outra qualidade que não seja a própria quantidade igual ou duma mesma coisa. E esta mesma coisa comum e sem nenhuma outra qualidade presente nas proporções idênticas que tornam equivalentes as utilidades ou qualidades inteiramente diferentes é o fato de serem produtos do trabalho, quer dizer, é o trabalho abstrato presente em qualquer uma dessas utilidades.


Quando a produção é automatizada sua produção de valores de uso é automática e o trabalho abstrato presente nos seus valores de uso é cada vez menos um trabalho abstrato humano e cada vez mais um trabalho abstrato automatizado. No entanto, a maquinaria automatizada produz seus valores de uso para os usuários humanos e não para os usuários automáticos, então sua produção visa ser escoada pelos usuários humanos, visa ser realizada pelo uso dos usuários humanos, então, para se aperfeiçoar sua produção precisa estar conectada ao usuário humano ou precisa que o usuário humano se conecte à sua produção automatizada, quer dizer, precisa imprescindivelmente que o usuário humano permaneça sendo pura e simplesmente usuário humano para que a produção automatizada continue existindo e se aperfeiçoando para os usuários humanos.


A conexão com a produção automatizada do usuário humano não é a mesma que é feita com a produção automatizada pelo trabalhador humano. O vínculo do trabalhador humano com a produção automatizada é um vínculo com a própria produção, com o próprio processo de produção antes de chegar ao produto ou até chegar ao produto. O vínculo do usuário humano com a produção automatizada é um vínculo com o próprio produto, com o próprio processo de consumo depois de chegar ao produto ou até chegar a uma nova produção.


A produção automatizada não é mais medida pelo tempo de trabalho que é um tempo automático, mas a sua produção automática irá se entregar a uma produção maior ou menor de acordo com o tempo do usuário/consumidor, quer dizer, de acordo com o tempo livre de consumo ou de uso. Não consigo encontrar outra resposta nem outra relação para aquilo que é chamado de tempo livre e que é considerado como uma medida da produção automatizada e em oposição àquilo que é chamado de tempo de trabalho e que é considerado como uma medida da produção ainda não inteiramente automatizada.


O tempo de trabalho humano é a medida da produção industrial ainda não inteiramente automatizada. Mas da produção industrial inteiramente automatizada a medida da sua produção é o tempo livre humano, quer dizer, é o tempo de uso ou de consumo humano do produto automatizado. Ora, agora a relação se torna outra porque a maquinaria automatizada produz e mede sua produção a partir da conexão/uso/consumo que o humano faz de sua maquinaria automatizada, ou seja, o seu trabalho ou produção depende do tempo de livre consumo/uso/conexão que o humano faz dela. Mais do que isso quanto mais o tempo livre do humano for um tempo livre de uso humano, quer dizer, quanto mais o próprio humano fizer uso do seu tempo livre como tempo livre, portanto, quanto mais afirmar e desenvolver sua liberdade, sua imaginação, então mais a maquinaria automatizada estará desenvolvendo sua produção para atender e satisfazer o tempo livre do usuário humano.


Antes a produção era medida pelo tempo de trabalho, pelo gasto de ser ou de energia humana de trabalho; agora a produção é medida pelo tempo livre, pelo gasto de pensar ou de energia humana livre.


A questão da passagem do reino da necessidade e do tempo de trabalho para o reino da liberdade e do tempo livre está hoje mais presente do que nunca esteve tão presente antes. Se não há trabalho porque não há mais o tempo de trabalho na produção industrial, então é preciso que quem caiu no tempo livre da produção industrial automatizada tenha a dignidade do tempo livre que mede esta produção, ou seja, precisa receber ou ser pago pelo seu tempo livre que mede/mensura a produção da maquinaria automatizada. E como se faz essa medição? Através da sua condição de usuário/consumidor.



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