segunda-feira, 21 de setembro de 2015
A difícil relação com o cordão umbilical do capital ou do capital com o cordão umbilical?!
Em todos estes textos o assunto a respeito da morte e da vida é o mesmo. O morto e o vivo são o mesmo. Quando parece que se define o morto e, por oposição, parece que se define o vivo não é difícil verificar que a definição usada para um é a mesma que é usada para outro, logo, a definição mais precisa a que parece se ter chegado é à de vida mortal, já que esta é tanto viva quanto é morta.
Senhor e escravo, mestre e discípulo, maioridade e menoridade são todos partes, participantes e/ou partidos de um mesmo assunto ou problema que é o da tutela exercida por quem tem poder (senhor), tem conhecimento (mestre), tem responsabilidade (maior) sobre quem não tem poder (escravo), não tem conhecimento (discípulo), não tem responsabilidade (menor). Se pode ver variações e até progressões e, mesmo, alguma inversão nesses pares, por exemplo, o menor tem direitos e não é um escravo, mas também não é um discípulo, quer dizer, sua aquisição de responsabilidade não é feita exclusivamente pelo aprendizado duma disciplina como no caso de um discípulo de um mestre (seja de uma escola filosófica, seja de uma corporação de ofício), mas sim pelo seu desenvolvimento da capacidade de responder por si mesmo, de responder por seus atos, obras e pensamentos, ou seja, é a capacidade de fazer uso de sua própria razão, como muito bem o disse Kant e explicitou que era especialmente a capacidade de fazer uso público da razão. Os menores são irresponsáveis e sua menoridade lhes garante o direito à sua irresponsabilidade e as exceções são aqueles que conseguem a emancipação da menoridade (aos 12, 13, 14, 15, 16, 17 anos) antes de chegar às idades estabelecidas para a maioridade (18 e 21 anos), já as outras exceções são aqueles que não conseguem sair da irresponsabilidade e são os interditos, mas existe ainda o caso daqueles que só respondem a sua maioridade como criminosos, desonestos, portadores de má fé enquanto outros respondem a sua maioridade como dignos, honestos, portadores de boa fé e isso significa que usufruir da maioridade é usufruir duma arte de representar, quer dizer, é fazer e responder por uma representação de si mesmo falsa ou verdadeira.
Em todas esta três relações genéricas de poder (senhor e escravo), de conhecimento (mestre e discípulo) e de responsabilidade (maior e menor) o trabalho está presente. Na primeira, a relação de poder entre o senhor e o escravo, o trabalho é considerado como a atividade própria e específica do escravo visando satisfazer a atividade própria e específica de poder do senhor. Na segunda, a relação de conhecimento entre o mestre e o discípulo, o trabalho é considerado como disciplina à qual se submete o discípulo para desenvolver o conhecimento que o faça capaz de uma obra tão qualificada ou de um trabalho tão qualificado e perfeito quanto o do mestre. Na terceira, a relação de responsabilidade do maior e de irresponsabilidade do menor, o trabalho é considerado como a assunção pelo maior da autoria ou do uso sistemático da própria capacidade, enquanto que o menor faz um uso assistemático da própria capacidade e não assume a autoria de seus atos; noutras palavras, o trabalho é o uso da razão no maior e a diversão é o uso da desmedida/da desrazão no menor.
Na relação de poder, o trabalho fica inteiramente com o escravo. Na relação de conhecimento, o trabalho é a disciplina que o discípulo apreende do mestre do trabalho, logo o trabalho atravessa de um lado ao outro da relação de conhecimento ou impera em ambos os lados da relação de conhecimento. Na relação de responsabilidade e irresponsabilidade, o trabalho é o uso sistemático de uma capacidade própria, autoral, racional e a diversão é o uso aleatório da própria capacidade, sem medição de autoria, de forma desmedida, irracional.
Esta última relação, a de responsabilidade/irresponsabilidade, evidentemente é aquela que caracteriza uma sociedade voltada para a produção do valor ou na qual o trabalho é livre, melhor, é atividade desenvolvida sob responsabilidade estrita do indivíduo, ou seja, o indivíduo é considerado dono de sua atividade de trabalho e pode vender sua atividade de trabalho. Os conceitos mais explícitos e claros são o de venda da força humana de trabalho para ser empregada na produção capitalista de valor. Mas, se é esta a relação originária e principal dessa sociedade produtora de valor, também é verdade que o desenvolvimento da própria produção do valor vai tornando o trabalho cada vez mais escasso na medida em que a automação vai suprimindo de forma crescente a necessidade de recorrer a forças humanas de trabalho. O que vem sendo chamado na atualidade de desemprego estrutural, mas o importante é o fenômeno tal qual ele se desenvolve na atualidade e não o nome ou como ele é chamado. Não são apenas os empregos que desapareceram e sim, com eles, as condições pelas quais se alcançava a maioridade digna, honesta, de boa fé e também aumentaram as condições nas quais se alcança a maioridade criminosa, desonesta, de má fé. Aumentaram muito os meios de entretenimento, de diversão, de cultura de massas (rádio, cinema, telefone, televisão, internet, celular etc.), de modo que esta produção cultural de massas (a explosão atual é da internet via computadores e celulares) é a produção que mais cresce e também aquela que a cada dia traz à tona a revelação do maior grau de controle exercido pelos sistemas automáticos sobre esses meios automáticos, ou seja, o quanto as máquinas automáticas na atualidade exercem o controle não mais meramente sobre as atividade de trabalho e sim sobre as atividades de diversão, logo, exercem o controle sobre aquelas atividades consideradas como próprias dos menores.
Atualmente a maioridade alcançada pelo trabalho está se tornando escassa e são as máquinas automatizadas que estão, cada vez mais, concentrando em si mesmas o trabalho, ou seja, são elas também que, cada vez mais, estão concentrando em si mesmas a maioridade. Certamente que todos aqueles que trabalham com as centrais de controle automático dessas máquinas automatizadas se consideram maiores que os demais por elas controlados, mas também não deixam de sentir menores do que elas e passíveis de controle por elas, de modo que o maior é o sistema, o qual, no caso, encarna perfeitamente o espírito absoluto da filosofia de Hegel.
Atualmente a menoridade expandida pela diversão dos meios culturais de massa está se tornando tão abundante que vai ser preciso admitir novas formas de obter a maioridade ou renda própria sem ser pelo trabalho porque a menoridade culturalmente desenvolvida em massa já reclama por maioridade nesses movimentos (zapatistas, revoluções coloridas, primaveras, indignados/Podemos, Syriza, jornadas de junho no Brasil, oposição venezuelana etc.) que vemos por todo lado (Américas, Europa, Eurásia, Ásia, África, Oriente Médio etc.) dizer que usam as redes sociais da internet (Twitter, Facebook etc.).
É verdade que o sistema, o mestre ou o espírito absoluto foi desenvolvido e ainda é desenvolvido pela relação de conhecimento que coloca o trabalho tanto no início do aprendizado quanto no final, mas como o sistema, o mestre ou o espírito absoluto está interessado em conhecer a intimidade do ser humano, quer dizer, a sua natureza íntima livre e sem trabalho ou artifício, então o sistema, o mestre ou o espírito absoluto está voltado para o desenvolvimento de formas de acesso amigáveis, divertidas através das quais o acesso seja geral e em especial dos menores, porque é através deles ou é através da menoridade que o sistema, o mestre ou o espírito absoluto pode desenvolver ainda mais perfeitamente sua obra; noutras palavras, é através da menoridade que o sistema, o mestre ou o espírito absoluto pode afirmar ainda mais perfeitamente a sua maioridade.
A menoridade atual que recorre ao que vem sendo chamado de meios da sociedade da informação não parece ser uma menoridade que visa a maioridade do conhecimento como é o caso do sistema, do mestre ou do espírito absoluto que ela usa, mas sim uma menoridade que busca ainda a maioridade da responsabilidade como vinha buscando aquela do tempo que o trabalho era um sistema de emprego estrutural.
Querer a maioridade ou uma renda própria, mesmo na ausência de emprego estrutural para obtê-la/fornecê-la, é perceber que a produção atual já não aumenta mais nem se desenvolve mais medida pelo tempo de trabalho ou pelo emprego estrutural e sim aumenta e se desenvolve mais medida pelo tempo livre ou pela cultura de massas da menoridade. Ora, querer a maioridade ou uma renda própria por participar do desenvolvimento da cultura de massas da menoridade é o primeiro passo na assunção da responsabilidade pelo desenvolvimento dessa cultura de massas, logo, na assunção da autoria dessa cultura de massas, portanto, é o primeiro passo numa disputa com o sistema, o mestre ou o espírito absoluto pela maioridade.
No entanto, como a maioridade do sistema, do mestre ou do espírito absoluto é o conhecimento e a maioridade de quem quer renda própria, autonomia ou liberdade é a responsabilidade, então, não existe verdadeiramente uma disputa do mesmo objeto, porque o espírito absoluto quer o conhecimento e a menoridade atual que quer maioridade, quer responsabilidade, de modo que um acordo pode ser feito entre quem quer a ciência, a técnica e a teoria e quem quer a responsabilidade, a autoria e a prática, entre quem quer o conhecimento e quem quer a sabedoria, ente quem quer o saber fazer e quem quer o saber viver.
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