Não sei o que Michel Onfray cobra de Kant e de outros pensadores que acusa de não fazerem aquilo que dizem, por exemplo, Michel Foucault não teria praticado o "Cuidado de Si" que propõe e, nesse caso, acho até que ele só propôs o "Cuidado de Si" depois de ter cometido o "Descuidado de Si" contraindo a Aids. Como disse, eu não sei as acusações específicas feitas por Onfray aos diferentes pensadores, mas esse tipo de acusação me lembra a crítica de Marx aos jovens hegelianos que acusavam Hegel de acomodação e, por aí, de agir de má fé. A primeira parte da crítica de Marx é lembrar aos jovens hegelianos que foram eles que se tornaram discípulos de Hegel, que foram eles que se tornaram hegelianos e lembrar a eles que quando adotaram o hegelianismo o fizeram cheios de entusiasmo e sem nenhum espírito crítico, quer dizer, agiram de forma cômoda, logo, seus primeiros passos como discípulos hegelianos foram passos da/na prática da acomodação. A segunda parte da crítica de Marx aos jovens hegelianos é lembrar que os discípulos ou membros de um sistema de pensamento não tratam o seu mestre pensador com desconfiança, não desconfiam da consciência de si de seu mestre pensador, logo, não consideram que o mestre pensador age de má fé, mas, ao contrário, confiam plenamente na consciência do seu mestre pensador e na sua boa fé, de modo que confiam quando o próprio mestre diz que se acomodou aqui ou ali, nisso ou naquilo; e é aí que, como discípulos, precisam vir em auxílio do mestre pensador, porque vindo em auxílio dele estão vindo em auxílio deles próprios que são discípulos do mestre; e como podem ajudar o mestre ou o sistema hegeliano que adotaram? Confiando na consciência do mestre e na capacidade dos discípulos de conhecer profundamente a consciência do mestre, ou seja, os discípulos só poderão ajudar o mestre (e a si mesmos) desenvolvendo um conhecimento da consciência de si íntima e essencial do mestre de modo a poder entender a razão de o mestre ter deixado de fora do seu sistema ou ter deixado como consciência externa e inessencial esta ou aquela acomodação; noutras palavras, os discípulos ao trazerem à tona a consciência íntima e essencial do mestre ao mesmo tempo trarão à tona a insuficiência ou o desenvolvimento insuficiente do princípio do qual o mestre parte e, desse modo, poderão se dedicar ao desenvolvimento suficiente ou da suficiência/sustentabilidade do princípio do qual partiram.
É evidente que Marx percebeu na atividade sensivelmente humana, na prática o desenvolvimento suficiente do trabalho que considera como sendo o princípio do qual parte o seu mestre Hegel. É evidente que Marx percebeu que o trabalho como princípio de que parte Hegel não foi desenvolvido suficientemente, melhor, que seu lado ativo foi desenvolvido apenas de forma abstrata e insensível; noutras palavras, Hegel adota o ponto de vista do mestre do trabalho que possui todas as qualificações do trabalho, todas as capacitações do trabalho, incluindo todos os meios e materiais de trabalho, já Marx adota o ponto de vista do aprendiz do trabalho que possui apenas a qualificação íntima e essencial do trabalho que é a energia humana, a prática.
Este trabalho também é aquilo que está presente no uso público da razão de Kant, também é por meio dele que se visa a saída da menoridade ou a entrada na maioridade.
O sistema hegeliano se propõe efetivar o saber absoluto do espírito absoluto construindo sua obra absoluta através da apropriação de toda a energia humana possível pelo próprio sistema do saber absoluto do espírito absoluto, ou seja, é o conhecimento absoluto que torna efetivo o sistema hegeliano. Ora, é precisamente isso que ocorre com a automação completa da produção. E, no entanto, para existir e se justificar o sistema automatizado precisa de acessos de energias humanas que escoem a sua produção e permitam que o sistema automatizado continue produzindo para as energias humanas sua produção.
Até recentemente a energia humana tinha trabalho e acessava a produção participando de sua produção, mas atualmente em alguns lugares a automatização é completa e não existe mais emprego da energia humana na produção, ainda que exista acesso à cultura automatizada proporcionada pelo sistema automatizado e, aliás, é através dela e desses acessos das energias humanas que a produção automatizada faz alterações na produção que atendam às necessidades inovadas das energias humanas.
A grande questão atual é saber se essas energias humanas por seus simples acessos à cultura automatizada devem receber salários de acordo com eles (os acessos) ou a produção automatizada deve estabelecer uma renda universal para todos independente de ter ou não acesso à cultura automatizada. A grande questão é saber se as energias humanas atuais são capazes de sair da menoridade e de entrar na maioridade, então nem mesmo receber salário ou receber renda universal pode diferenciar a condição das energias humanas atuais: São capazes ou não são capazes de entrar na maioridade?!
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