Sabe o que está me preocupando? Isso:
O PT surgiu como partido que uniu os mais diversos grupos de esquerda, desde os baseados em Marx e numa linguagem dita do século XIX passando pelos sociais-democratas, os leninistas e, até mesmo, pelos stalinistas (José Dirceu) e maoístas, pelos diferentes grupos trotskystas. Esta unidade da diversidade representada pelo PT no momento do seu surgimento fez dele a organização partidária de tipo clássico da esquerda, ou seja, ele era efetivamente o partido dos trabalhadores com o qual a esquerda dos mais diversos matizes sempre sonhou. Era um partido de massas e não de quadros, mas que não deixava de abrigar os mais diversos quadros de esquerda, enfim, era um partido de todos de esquerda por ser antes de tudo um partido dos trabalhadores. Era a primeira vez, dizia toda a esquerda, que um partido surge efetivamente dos trabalhadores. Isso não ocorreu com o PC (PCB, PC do B) nem com o PTB nem com o PS (PSB), enfim, com nenhum outro partido de esquerda no Brasil. O PT era um evento significativo no Brasil e também na história mundial dos partidos dos trabalhadores.
E como ele surgiu? Num momento histórico que, no Brasil, se fazia a "abertura lenta, gradual e segura", quer dizer, a passagem para o fim da ditadura e início da democracia sem traumas, quer dizer, a entrega do poder político dos militares ditatoriais para os civis democráticos. E este era um desejo exclusivo dos militares? Não, porque fazia parte das mudanças em dominó promovidas pelos EUA que trouxeram a ditadura e que agora promoviam "o retorno" da democracia. Estas mudanças se referenciavam na derrota na Guerra do Vietnam mas que teve a vantagem da aproximação com a China; no processo de descolonização generalizada do mundo que se combinava com o fim das ditaduras na Espanha, em Portugal e na Grécia; na guerra de guerrilhas contra os comunistas no Afeganistão; na vitoriosa greve de 1978 no ABC paulista; na revolução religiosa do islamismo xiita no Irã e na revolução politica do sandinismo social-democrata na Nicarágua, ou seja, revoluções não-comunistas nem ateístas; na anistia em 1979 e na liberdade de organização partidária que desencadeou o movimento pró-PT; finalmente, a constituição do PT em 1980. No entanto, em 1979 também ocorreu algo que vinha sendo preparado já fazia tempos, por exemplo, com a mudança de nome do câmbio ou mercado negro para câmbio ou mercado paralelo, com a mudança de mercado ilegal de sonegadores fiscais para mercado informal, com a mudança de mercado de trabalho ilegal para mercado de trabalho informal, enfim, 1979 foi o ano de lançamento oficial do neoliberalismo que vinha sendo desenvolvido e preparado fazia anos.
É aí que se encontra o problema principal que me preocupa e que, até agora, só consigo perceber tal qual ele se apresenta, ou seja, se trata do mercado. Na época do Estado do Bem-Estar Social, lá nos idos anos 30-40-50, existia nos EUA, e se espalhava pelo mundo a partir dele, o problema da delinquência juvenil, ou seja, no momento que se construía o Estado do Bem-Estar Social também se desenvolvia aquilo que Freud já tinha percebido no final do século XIX e, em especial, nos anos 20 do século XX e que era o "Mal-Estar na Civilização". O delinquente não é aquele que resolve todos os seus problemas tendo como iniciativa o bem-estar providenciado pelo Estado, mas, ao contrário, ele quer o seu bem-estar às custas do Estado e do patrimônio ou propriedade dos outros, mais ainda, ele não só se apropria expropriando os outros mas negociando ou transformando em mercadoria aquilo que roubou. Sua atividade mina o Estado do Bem-Estar Social em construção e também é responsável pela explosão de profissões voltadas para o cuidado das mais diversas formas de manifestação dessa Mal-Estar que tem no delinquente uma de suas figuras máximas. Assistentes sociais, sociólogos, cientistas sociais, cientistas políticos, psicólogos, psiquiatras,advogados, behaviorismo, psicanálise etc., enfim, uma expansão sem precedentes ocorre nas ditas profissões ou ciências sociais, logo, também um mercado para esses profissionais e também um aperfeiçoamento dos serviços sociais do Estado do Bem-Estar Social.
A lei seca nos EUA proibiu a compra e venda de bebida alcoólica entre 1920 e 1933. O preço da proibição foi um enorme mercado ilegal protegido à bala pelos chamados gangsters (tradução: membros de quadrilhas ou quadrilheiros). Porém, as drogas, como a cocaína descoberta por Freud no início do século XX, acabaram sendo proibidas e o mercado ilegal e igualmente formado por quadrilhas apenas se desenvolve desde o início das proibições de usos de drogas para cá. Lá atrás, no século XIX,nas Guerras do Ópio a Inglaterra lutou contra a China para impor o direito de vender ópio para os chineses. Ver:
O mercado se desenvolve de todo jeito com base no sistema de necessidades humanas, onde as dependências químicas, fisiológicas e afetivas desempenham suas preponderâncias. Além disso, ninguém se considera livre se não puder dispor de sua própria força humana de trabalho, quer dizer, se for escravo de alguém ou se estiver preso na comunidade rural como o servo. Por isso, o capitalismo brada para todo lado que trouxe o trabalho livre e/ou o livre comércio de compra e venda da força humana de trabalho pela própria força humana de trabalho. Mas, essa liberdade foi e é suprimida quando não existia e quando não existe um limite para a exploração da força humana de trabalho durante a jornada de trabalho, seja devido à sua exploração extensa de 18, 16, 14, 12, 10 horas de trabalho, seja devido à sua exploração intensa em jornadas de 8, 6, 4 etc. horas de trabalho cujos esforços repetitivos acabam com a saúde dos trabalhadores.
O trabalho livre, no entanto, é visto como um grande avanço social e humano frente aos sistemas de trabalho escravo e servil, mas, ele é precisamente a vitória plena do mercado em geral frente ao mercado limitado aos senhores no sistema escravista e servil, ainda que, neste último, as fugas dos servos para constituir os burgos tenha permitido desenvolver o mercado marginal ou alternativo que já fazia com a sua produção comunitária independente dos senhores. O mais importante movimento de emancipação do capitalismo é o da emancipação dos trabalhadores ou do proletariado, não é o dos expropriadores ou lumpemproletariado, ou seja, é aquele que tem por base essa liberdade reconhecida legalmente que é a do trabalho livre e não a liberdade não reconhecida legalmente que é a de roubar. A legitimidade do movimento de emancipação dos trabalhadores ou do proletariado tem por base precisamente o trabalho livre, quer dizer, a mais sólida e efetiva afirmação do mercado que é o mercado de trabalho assalariado. Aliás, é notável que Freud rejeitando a hipnose, feita em geral nos hospitais psiquiátricos com pacientes internados, tenha desenvolvido a psicanálise nos consultórios com pacientes livres que pagam pelo serviço psíquico como quem paga por qualquer outro serviço prestado no mercado pelo trabalho livre.
No entanto, Marx, que assumiu a legitimidade do movimento de emancipação do trabalho livre, argumentando ser baseado na existência do mercado mundial de trabalho livre de modo que os trabalhadores no seu movimento de emancipação querem uma emancipação internacional ou mundial e não meramente nacional ou local, visa o fim do mercado por ser este baseado no sistema das necessidades humanas, quer dizer, em diferenciadas formas de dependência humana. E ele argumenta que o desenvolvimento da emancipação dos trabalhadores no mercado mundial supõe a passagem do sistema de mercado e/ou das necessidades humanas para o sistema de comunidade e/ou das liberdades/capacidades humanas, quer dizer, das diferenciadas formas de independência humana. Pois bem, é esta afirmação de Marx que eu acredito que não entendo e que, muito provavelmente, quase ninguém entende, ainda que todos acreditem.
Como se faz a passagem do reino e sistema da necessidade baseado no mercado para o reino e sistema da liberdade baseado na comunidade humana? Como se pensa isso a partir da dramaturgia do acaso na qual a criatividade dos atores predomina? Como o predomínio da criatividade dos atores passa a ser predomínio da comunidade das capacidades e liberdades dos atores e não mais das necessidades e dependências dos atores? Como a dramaturgia do acaso do Escobar contribui para esta realização efetiva?
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Impeachment? Sim!!!... LIBERDADE!!!
O impeachment da exploração do humano pelo humano? Sim!!! E liberdade da sociedade sem classes e sem estado.
Então, todo apoio às investigações das corrupções e outros crimes. Aprofundando as investigações até chegar não apenas à condenação mas também ao impeachment completo da exploração do humano pelo humano e, desse modo, libertar a sociedade sem classes e sem estado.
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