sexta-feira, 25 de setembro de 2015
Qual a atividade substituta do trabalho?!
Tempo de trabalho versus tempo livre. Produção medida pelo tempo de trabalho versus produção medida pelo tempo livre. Tudo indica que estamos diante da produção resultante e medida pela atividade humana do puro e simples dever da necessidade ou atividade de trabalho de passagem para a produção resultante e medida pela atividade humana do puro e simples prazer da liberdade ou atividade cultural.
Segundo a antropologia cultural, são aquelas formações sociais ditas "primitivas" que são regidas pela cultura. Segundo Tocqueville, os índios norte-americanos são, surpreendentemente, portadores de valores muito parecidos com os dos aristocratas europeus, logo, antes de Nietzsche, já existiu quem fizesse uma leitura dos valores morais a partir da natureza cultural (ou da cultural natural). O que é mais importante destacar? A semelhança entre os valores dos índios com os dos aristocratas europeus ou as formações sociais das ditas "comunidades primitivas" serem regidas e/ou medidas pela cultura ou tempo livre?!
A prevalência da Nietzsche no pensamento atual é devida à prevalência dos ditos valores morais aristocráticos ou devida à prevalência da cultura na formação dos ditos valores morais?!
Conseguiremos elevar a potência de Marx e de Nietzsche se optarmos por desenvolver que é a prevalência da cultura na formação dos valores que explica a recorrência ao pensamento de Nietzsche na atualidade. Porque? Porque a relação dos primitivos é com o excesso ou abundância natural e a relação dos complexos é com o excesso ou abundância da produção automatizada, ou seja, o tempo livre ou a cultura social dos primitivos é uma atividade humana desenvolvida naturalmente, enquanto que o tempo livre ou a cultura social dos complexos é uma atividade humana desenvolvida artificialmente ou por meio do uso da produção automatizada, quer dizer, por meio duma natureza artificial reproduzida pelas máquinas humanas.
Inversamente, rebaixaremos a potência de Marx e de Nietzsche se optarmos por desenvolver que é a prevalência dos valores morais aristocráticos que explica a recorrência ao pensamento de Nietzsche na atualidade. Porque? Porque aí o excesso ou abundância natural dos primitivos se confunde com uma classe superior determinada pela natureza como portadora dos valores morais aristocráticos e, por usa vez, o excesso ou abundância artificial dos complexos se confunde com uma classe superior determinada pela ciência como portadora dos valores morais aristocráticos. A potência de Marx fica rebaixada porque é sempre a diferença de classe que se afirma, seja naturalmente, seja cientificamente. A potência de Nietzsche fica rebaixada porque num caso a diferença é devida ao instinto e no outro é devida à inteligência, ou seja, ora prepondera uma classe trágica e autenticamente aristocrática, ora prepondera uma classe farsante e falsamente aristocrática.
No entanto, é o instinto quem tem vez numa sociedade complexa medida pelo tempo livre porque a cultura, desenvolvida pelo excesso ou abundância artificial devida à inteligência, mesmo que seja muito doméstica ou domesticada, não é uma cultura da inteligência e sim uma cultura do prazer da liberdade ou do tempo livre, logo, uma cultura do desejo e/ou do instinto. Aliás, provavelmente é mais uma cultura do desejo do que do instinto por não se relacionar com a abundância natural e sim com uma abundância humana (já que toda a abundância artificial outra coisa não é senão abundância humana). Mesmo assim, existe aí quem prefira a promoção de guerras e, portanto, do entendimento da cultura como sendo resultante do instinto e não do desejo. Promoção do terror fundamentalista versus promoção das relações homoafetivas. Instinto versus desejo. Matar versus amar.
O principal, no entanto, é saber qual a atividade que vai ocupar o espaço vago deixado pelo trabalho, ou seja, a partir de qual atividade se passará a medir a produção? Esta atividade substituta do trabalho, que podemos chamar por enquanto de atividade substituta, será aquela por meio da qual os humanos medirão a produção e também a dignidade afirmada por quem a pratica e desenvolve. Ora, a dignidade afirmada e desenvolvida pelo trabalho é medida pelo tempo de trabalho, enquanto que a dignidade afirmada e desenvolvida por esta atividade substituta é medida pelo tempo livre. Então, o nome desta atividade substituta é liberdade?! Talvez seja, mas o importante é chegarmos a uma concepção ou participarmos do nascimento desta atividade com todas as características substitutas à altura da atividade de trabalho ou, mais precisamente, é chegarmos de forma clara e irrefutável à atividade substituta do trabalho que se mostra de forma clara e inequívoca como medida da produção automatizada. Melhor, se trata de chegarmos àquela atividade substituta do trabalho, cuja medida da produção, aparece como tempo livre. Ora, mas o que é a liberdade? O que é a atividade livre? Está posta em oposição ao trabalho, logo, pode ser considerada como sendo cultura, atividade de cultura?
No autômato ou automático está presente toda a cultura erudita que foi desenvolvida até agora, mas no acesso ao autômato ou ao automático está presente toda a cultura autodidata que vai sendo desenvolvida por seu usuário a partir do seu uso. O autômato ou automático, quer dizer, a produção erudita é acessada pelo usuário autodidata, quer dizer, pelo tempo livre que desenvolve novos usos ou associações para a produção erudita, a qual, assim desenvolve sua produção erudita de forma autodidata, melhor, graças à cultura autodidata ou ao tempo livre autodidata de uso do tempo de trabalho erudito.
Se essa atividade substituta do trabalho ou da cultura erudita por sua capacidade de desenvolver a produção de liberdade ou de cultura autodidata merecer ser desenvolvida então ela precisará consumir a produção em troca de seu desenvolvimento. E a questão é saber se isso se dá através dum salário, duma renda universal ou de alguma outra forma, quer dizer, o problema é saber sob que forma se dá a satisfação das necessidades da atividade cultural autodidata?
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