domingo, 6 de setembro de 2015

Ética de Epicuro e de Kant




A ausência de dor é a ataraxia para Epicuro. E não é a presença do prazer porque sua consequência pode ser a dor e sim a ausência de dor que é o supremo prazer, melhor, que é a ataraxia. A sensibilidade é sensibilidade de prazer e de dor, mas a sensibilidade ataráxica é a não sensibilidade de dor nem de prazer, por isso, é comparada à ausência de sensibilidade e, até mesmo, à morte. Então, na ética de Epicuro existe algo similar à ética de Kant, quer dizer, Epicuro guia sua ética pela prática da ataraxia e Kant guia sua ética pela prática do que é suposto como sendo a coisa em si. A prática da ataraxia ou do supremo prazer/da suprema liberdade de Epicuro é similar à morte insensível e a prática do que é suposto como a coisa em si ou do supremo dever/da suprema liberdade de Kant é similar à coisa em si insensível.


A ataraxia como ausência de dor, de prazer, de sensibilidade, como morte é a prática epicurista da ética, mas não é a prática da divindade nem da alma imortal ainda que a ética epicurista admita que é a prática da liberdade. Já Kant faz da prática do dever, insensível tanto ao sofrimento quanto ao prazer, não só a prática do que é admitido como prática da liberdade mas também como prática da alma imortal e como prática da própria divindade, porque a coisa em si insensível não é suposta, como em Epicuro, exclusivamente como morte imortal e sim como ser imortal ou divino, como alma imortal e como essência da insensível liberdade.


A diferença de Epicuro em relação à morte imortal está em não atribuir a esta um ser divino nem uma alma imortal e se limitar a atribuir à morte imortal da sensibilidade uma liberdade em relação à dor e ao prazer, então, a ausência ou abstração da sensibilidade é a prática suprema da ética epicurista da liberdade e do prazer. E é aí nesse ponto que ela se assemelha à prática suprema da ética kantiana da liberdade e do bem que é a insensibilidade à dor e ao prazer ou a indiferença ao sofrimento e ao mal desde que se realize efetivamente o desenvolvimento do cumprimento do dever.


A ausência ou abstração da sensibilidade da morte imortal, até onde se sabe, é algo real, mas, quando ela se torna um princípio da prática da ética epicurista, ela é algo fictício, já que a dor e a sensibilidade poderão estar sendo negadas do mesmo modo pelo qual a vida é negada, ou seja, pela simples mortalidade, melhor, mortificação, sacrifício e não pela simples imortalidade, melhor, insensibilidade e indiferença reais da morte. Então, um epicurista, ainda que esteja urrando de dor e se mortificando, poderá considerar que está praticando a ausência ou abstração da sensibilidade equivalente à da morte imortal, quer dizer, poderá considerar que está praticando a ataraxia ao não deixar que a dor e a sensibilidade o reduzam a um simples prisioneiro do real. A liberdade está inteira no escapar à sensibilidade do real, seja por conseguir não ser atingido pela sensibilidade do real ao transformá-la em real insensibilidade, seja ao transformá-la em fictícia insensibilidade. Ora, o mesmo se pode observar na prática do dever da ética de Kant, ela tanto pode usufruir da sorte e do prazer duma insensibilidade do real, quanto sofrer com o azar e a dor duma insensibilidade fictícia.


A grande diferença aparente entre a ética de Epicuro e a ética de Kant se encontra precisamente na diferença entre a ataraxia que termina negando até mesmo uma essência insensível da liberdade, quer dizer, negando que a liberdade seja do insensível ou da morte imortal ou do indivisível, do átomo e, desse modo, negando a essência livre do insensível átomo, do indivisível ou da morte imortal, resta apenas a sensibilidade para a essência da liberdade e só a sensibilidade ou vida mortal humana efetivamente se ausenta ou abstrai da própria sensibilidade ou vida mortal por meio da construção e constituição da consciência humana de si ou da consciência humana da própria sensibilidade ou vida mortal, ou seja, se existe uma coisa em si ela é a consciência de si humana ou a consciência da própria sensibilidade humana, a consciência da própria vida mortal humana. A ataraxia é a sensibilidade humana e a vida mortal humana afastando e suprimindo a sensibilidade da dor e da mortificação para fruir a sensibilidade do prazer e da vitalização humanas. É nesse ponto que Epicuro deixa de ser estoico e também é nesse ponto que Kant permanece estoico. Epicuro deixa de ser estoico porque deixa de admitir a existência duma coisa em si na própria natureza das coisas e Kant permanece estoico porque admite a realização da coisa em si existente na própria natureza das coisas.






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