quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Quem é quem?
A travessia da filosofia para o mundo constitui o processo de passagem da teoria para a prática. A vontade sai do lado do mundo chamado filosofia e vai para o lado do mundo chamado mundo. Este último lado do mundo é o mais poderoso e visado porque já se chama mundo, quer dizer, é um lado que é conhecido com o nome do todo, logo, que se confunde com o todo. Mas, a vontade que sai do lado filosófico para ir para o lado mundano é uma vontade da filosofia que quer ser uma vontade do mundo e aí resta saber como ela realiza o seu querer: ela abandona o lado da filosofia para ser vontade do lado do mundo ou ela permanece vontade do lado da filosofia que faz o mundo abandonar seu lado mundano, ou seja, ela suprime o lado da filosofia para a afirmação do lado do mundo ou ela afirma o lado da filosofia suprimindo o lado mundano? Porém, antes de tudo, ela faz isso atravessando do lado da filosofia para o lado do mundo, ou seja, ela suprime a filosofia e afirma o lado do mundo no lado do mundo ou ela afirma a filosofia e suprime o lado do mundo no lado do mundo.
Então, a pergunta é quem chega no lado do mundo ao fazer a travessia do lado da filosofia para o lado do mundo?
Ao suprimir o lado da filosofia e afirmar o lado do mundo quem chega do lado do mundo? Se o lado da filosofia é suprimido pela afirmação do lado mundano do mundo, então, a travessia, nesse caso, não é a entrada do lado da filosofia no lado do mundo, mas é, antes, a entrada do lado do mundo no lado da filosofia, logo, é o lado mundano que passa a ocupar o lado suprimido da filosofia, ou seja, do ponto de vista do lado filosófico a travessia é uma espécie de suicídio, niilismo e/ou auto-sacrifício que se deixa ocupar pelo lado mundano e, desse modo, é o lado mundano quem faz a travessia e efetivamente ocupa o lado da filosofia.
Ao afirmar o lado da filosofia e suprimir o lado do mundo quem chega no lado do mundo? Se o lado da filosofia se afirma suprimindo o lado mundano do lado do mundo, então, a travessia, nesse caso, é a entrada do lado da filosofia no lado do mundo porque é o lado filosófico que passa a ocupar o lado suprimido do mundo, ou seja, do ponto de vista do lado filosófico a travessia é uma espécie de auto-afirmação ou homicídio, auto-criação ou destruição do outro e/ou auto-satisfação ou sacrifício do outro por invadir e ocupar inteiramente o lado mundano de modo que é o lado filosófico quem de fato faz a travessia e ocupa realmente o lado mundano.
Como se desenvolve a atividade de suprimir a si mesmo e afirmar o mundo? Como uma passividade que se limita a interpretar o mundo de forma diferente. Esta atividade passiva de interpretação pode perfeitamente ser uma transvaloração de todos os valores mundanos, quer dizer, uma interpretação diferente dos valores mundanos.
Como se desenvolve a atividade de afirmar a si mesmo e suprimir o mundo? Como uma atividade que se limita a mudar o mundo em igual a si mesmo. Esta atividade ativa de mudar pode perfeitamente ser uma transformação da identidade do mundo, quer dizer, uma mudança de identidade do mundo.
Enquanto intérprete posso me limitar a ir trans-valorando de forma diferente todos os valores do mundo. E na qualidade de mudador posso me limitar a ir trans-formando o mundo numa nova identidade.
Posso caminhar na travessia que me proponho fazer da filosofia para o mundo através da atribuição de valores diferentes para os valores do mundo. E posso caminhar na travessia que me proponho fazer da filosofia para mundo através de formas diferentes que vou dando à forma do mundo. Quando transvaloro ou interpreto de forma diferente os valores do mundo eu caminho dando nova identidade aos valores do mundo, logo, trago para o mundo uma nova identidade que valora de outro modo os valores já identificados do mundo. Quando transformo ou mudo a forma do mundo, logo, trago para o mundo uma nova identidade que forma de outro modo a forma já identificada do mundo. No primeiro caso, a transvalorização ou a passagem através dos valores do mundo é um processo de diferenciação dos valores de quem faz a travessia e não dos valores do mundo. No segundo caso, a transformação ou a passagem através das formas do mundo é um processo de diferenciação das formas do mundo que é atravessado e não da forma de quem atravessa o mundo.
Um parece dizer "eu é um outro!". Já outro parece dizer "o outro sou eu!". Um erra pelo mundo através da sua valoração. Já outro conserta o mundo através da sua formação. E cada um deles é o contrário do outro do mesmo modo que a filosofia e o mundo são lados contrários do mundo (e da filosofia). Suprimir a si afirmando o outro e afirmar a si suprimindo o outro são movimentos contrários no âmbito da travessia da filosofia para o mundo e da travessia do mundo para a filosofia. Na travessia da filosofia para o mundo na qual a filosofia é suprimida e o mundo é afirmado quem se dissolve é a filosofia e quem se realiza é o mundo, logo, quem faz a travessia é o mundo que entra e ocupa o espaço da filosofia, quer dizer, quem se realiza é a tendência filosófica do positivismo. Já quando o mundo é suprimido e quando a filosofia é afirmada na travessia da filosofia para o mundo, então quem se dissolve é o mundo e quem se realiza é a filosofia porque é a filosofia que entra e ocupa o espaço do mundo, quer dizer, quem se realiza é a tendência filosófica conceitual.
O problema na sua totalidade é que "eu é um outro e o outro sou eu", é que "eu transvaloro/interpreto de forma diferente o mundo/os valores do mundo e eu transformo/mudo o mundo/os valores do mundo de forma igual". O problema implica a poesia, como atividade de um eu que é um outro e atividade que transvalora/interpreta o mundo de forma diferente, e a prosa, como atividade de um outro que sou eu e atividade que transforma/muda o mundo de forma.
Mas, a produção do valor não é atividade de transvalorar? E a supressão da produção do valor não é atividade de transformar? Mas, qual o resultado da luta entre ambas?
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