domingo, 16 de agosto de 2015
A dança da farsa autêntica com o autêntico farsante?! E vice-versa?!
As críticas ao sindicalismo atrelado ao Estado e ao imposto sindical estão presentes na tradição trabalhista de esquerda e a Dilma Rousseff é dessa tradição.
O novo sindicalismo, nascido com as greves do ABC e com Lula, criou o PT e a CUT combatendo o sindicalismo atrelado ao Estado e o imposto sindical, mas acabou retrocedendo no combate e aceitando a manutenção do imposto sindical e do atrelamento do sindicalismo ao Estado.
O curioso da história do sindicalismo no Brasil é seu nascimento sob predominante influência anarquista trazida pelos trabalhadores industriais que eram basicamente estrangeiros importados da Europa, ou seja, eram parte do excesso de contingente dos trabalhadores europeus do fim do século XIX e início do século XX.
Greves amplas e famosas desse sindicalismo caracteristicamente anarquista e europeu foram as de 1917. Aliás, os fundadores do PCB, em 1922, foram trabalhadores brasileiros que, até pouco antes, eram sindicalistas e anarquistas.
Enquanto se desenvolviam as divergências entre os comunistas e os anarquistas em relação ao sindicalismo e à organização apenas em movimento e à organização também em partido, surgiu a Revolução de 30 e com ela a formalização do trabalhismo duma estrutura sindical dita corporativa ou atrelada ao Estado, a qual, aliás, também foi importada da Europa, da Itália fascista.
E o sindicalismo autônomo, seja anarquista, seja comunista, simplesmente perdeu influência significativa e capacidade de exercer hegemonia sindical, ou seja, o sindicalismo real passou a ser o trabalhista, quer dizer, o sindicalismo tutelado pelo Estado que o criou.
Marx observava que a estrutura corporativista era característica da ausência de emancipação política, isto é, característica da situação na qual não existe separação entre Estado e Sociedade Civil de modo que os indivíduos são inteiramente dependentes das organizações corporativas porque apenas através delas existe o reconhecimento dos direitos políticos e civis, ou seja, destacava Marx, a Sociedade Civil corporativista é imediatamente política ou estatal/Estado. Assim, as reflexões de Gramsci podem ser compreendidas como tendo sido desenvolvidas para aquelas condições nas quais vigora a estrutura corporativista imediatamente política da Sociedade Civil que é imediatamente Estado e inseparável do Estado. Noutras palavras, condições nas quais vigora por toda parte a tutela do Estado e nas quais o tutor exerce por toda parte seu poder. A emancipação política nasceu nessas condições e para se libertar dessas condições.
A emancipação política que nasceu nessas condições do Estado e Sociedade Civil corporativos trouxe consigo o liberalismo, quer dizer, a separação entre Estado e Sociedade Civil de modo que os indivíduos passaram a poder agir livre e criativamente na Sociedade Civil e também passaram a ter reconhecidos seus direitos individuais de cidadão inteiramente independentes das corporações sociais civis de qualquer tipo.
Esta emancipação política trazida junto com o liberalismo foi muito apreciada por toda a filosofia clássica alemã e também por Marx, o qual, observava que a filosofia clássica alemã era inteiramente congruente com a realidade da Inglaterra e da França, países liberalmente desenvolvidos, e que era preciso realizar a filosofia clássica alemã na Alemanha, ou seja, a filosofia clássica alemã precisava se realizar na Alemanha saindo do mundo de sonhos da filosofia e entrando e se concretizando no mundo real da anacrônica Alemanha como contemporaneidade da realidade mundana ou como contemporaneidade real do mundo. E Marx foi se radicar na Inglaterra para com a filosofia clássica alemã conhecer e realizar diretamente a ciência da contemporaneidade real do mundo e também participar da ação da contemporaneidade da realidade mundana e exportá-la para o continente europeu e para a Alemanha. É curioso que a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), da qual Marx, na qualidade de secretário-geral, foi o principal dirigente, não tenha tido o sindicalismo alemão como associado, o qual, aliás, se contrapunha ao internacionalismo da AIT na qualidade de sindicalismo nacional e, por sua vez, também era imediatamente político, isto é, era a um só tempo sindicato e partido lassalleanos. Ferdinand Lassalle foi o fundador da Associação Geral dos Trabalhadores Alemães, fundada em 23 de maio de 1863, apenas um ano antes da AIT que foi fundada em setembro de 1864.
Sindicalismo internacional, quer dizer, da Sociedade Civil e independente do Estado-Nação, logo, significa sindicalismo separado do Estado ou politicamente emancipado, consequentemente, quando os trabalhadores formados num tal associativismo internacional vierem a se organizar em partidos políticos que lutam para exercer o poder político de e em cada Estado-Nação eles trarão os interesses emancipatórios da Sociedade Civil para o exercício da cidadania no poder do Estado, ou seja, exercerão o poder nacional do Estado visando a concretização dos poderes nacionais numa Sociedade Internacional na qual se dissolve o Estado-Nação, porque exercerão o poder nacional da Sociedade Civil sobre o Estado-Nação visando a concretização do poder da Sociedade Civil nacional e internacional bem como a dissolução do Estado-Nação do seu país e dos demais países. Esta, ao que indicam seus textos, foi a proposta de Marx de mudança de modo de produção capitalista para modo de produção comunista.
O que interessa ressaltar aqui é que o novo sindicalismo do PT e da CUT surgiu como emancipação política trazida junto com o liberalismo numa conjuntura de lançamento do chamado Neoliberalismo. E atraiu anarquistas, marxistas identificados com o Marx da I Internacional, marxistas identificados com II Internacional (socialdemocratas), marxistas identificados com a III Internacional (leninistas, stalinistas, maoístas), marxistas identificados com a IV Internacional (trotskystas, guevaristas, castristas), cristãos etc. Mas, em pouco tempo ele foi voltando a ser e querer o trabalhismo e isso ocorreu precisamente quanto mais viável se tornou sua chegada ao poder político do Estado-Nação e, inclusive, há quem considere que, em 89, Lula e a cúpula do PT deliberadamente perderam as eleições, no último debate da TV Globo, porque consideraram que com aquela base emancipacionista política não teriam condições de exercer o poder dum Estado que acabava de sair duma ditadura e que era tradicionalmente corporativista. Então, Lula e a cúpula do PT resolveram adiar a conquista do poder político da presidência da república de modo a ir modificando a sua base de sustentação política, quer dizer, de modo a ir profissionalizando e/ou criando uma estrutura partidária e sindical burocrática corporativa "profissional" ou "de ofício".
Dilma Rousseff é uma trabalhista de esquerda, quer dizer, daquelas que gostariam de um sindicalismo independente do Estado. Foi ela quem se aproximou do PT, mas dum PT (e duma CUT) que buscam o trabalhismo como forma de atrelamento ao Estado. Curiosamente, ela, a trabalhista, parece se situar à esquerda de Lula, o petista, que quer o retorno do trabalhismo. E isto porque ela quer avançar para o sindicalismo independente do Estado e Lula quer retroceder para o trabalhismo atrelado ao Estado.
A autenticidade parece estar na representante de esquerda da farsa trabalhista e a farsa parece estar no representante de direita da autenticidade do novo sindicalismo criador do PT e da CUT.
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