quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Qual é mesmo o conselho?! O gesto de grandeza?! O coração da razão?!




Quem está vendendo conselhos? Fernando Henrique Cardoso? Ok! Mas, quanto vale? Vale quanto custa. Quanto custa uma renúncia da presidência da república? É o quanto vale.


Quem já renunciou à presidência da república no Brasil? Jânio Quadros e Fernando Collor. A do primeiro foi uma renúncia aceita formalmente e a do segundo não foi formalmente aceita e não valeu, já que foi o impeachment que foi formalmente aceito e que valeu. Então, apenas Jânio Quadros renunciou à presidência da república do Brasil. E a renúncia dele foi algo que surpreendeu a todos, algo inesperado e uma decisão que, segundo ele, foi tomada para que o seu exercício do poder presidencial fosse preservado e não fosse usado indevidamente pelas forças que estavam sabotando a autenticidade de sua atividade presidencial. Então, a sua renúncia repentina e surpreendente era para evitar um golpe que estava em curso no interior do sistema de poder presidencial da república do Brasil. No entanto, ele nunca revelou que forças estavam minando o íntimo do sistema de poder presidencial e como, em seguida, os chefes militares se opuseram à posse do vice-presidente da república, o senhor João Goulart, então a sua renúncia trouxe à tona uma crise política que efetivamente sabotou o sistema de poder institucional da presidência da república do Brasil, posto que constitucionalmente o vice-presidente da república do Brasil deveria assumir a presidência que Jânio Quadros havia deixado vaga para ele. E como Jânio Quadros renunciou elogiando os chefes militares pareceu a todos que foi ele quem, com sua renúncia repentina e surpreendente, realmente minou o sistema de poder presidencial da república do Brasil.


Dilma Rousseff a quem Fernando Henrique Cardoso aconselha a renúncia evidentemente não se encontra numa situação similar à de Jânio Quadros, quer dizer, no sentido duma situação na qual ela surpreenderia a todos com um ato repentino e surpreendente. Mas, ela se encontra numa situação similar a algum outro presidente da república? Sim, responde Fernando Henrique Cardoso, ela se encontra numa condição parecida com a de Fernando Collor. - Aliás, acabo de aprender, lendo em http://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia-brasil/governo-collor-de-mello-1990-1992-presidente-renuncia.htm que Collor renunciou para não sofrer o impeachment -. Foi um gesto de grandeza essa renúncia do Collor para não sofrer o impeachment?! Ao que parece Fernando Henrique Cardoso não deixa claro se o gesto de Collor foi de grandeza, especialmente porque se refere a Ulysses Guimarães que, com a constituição em punho, teria dito que Collor pensava que era presidente, mas que já não era mais presidente. Faz essa referência argumentando que se ela não renunciar alguém virá até ela e repetirá Ulysses Guimarães. E, com isso, dá a entender que a renúncia de Collor foi desprovida de grandeza, já que Dilma só terá grandeza se fizer a renúncia agora, quer dizer, antes que alguém repita Ulysses para ela e que ela repita a falta de grandeza, para não dizer a pequenez, da renúncia de Collor.


Porém, contra o Collor havia o impeachment, votado pelos parlamentares, por estar embasado em provas de corrupção cometidas por seu tesoureiro, o Paulo César Farias, após a apuração de uma CPI. E contra Dilma? Não existe nada, nem mesmo uma CPI. Existe sim uma vontade política de submetê-la ao impeachment. Uma vontade expressa por manifestações e entre os grupos de manifestantes existem inclusive aqueles que claramente querem o golpe militar e não tão somente o golpe político via impeachment. Entre os que, aparentemente, querem apenas o golpe político via impeachment se encontram os políticos dos partidos de oposição e dissidentes dos partidos aliados do governo Dilma. Mas esta situação duma vontade política de manifestantes nas ruas expressarem o desejo do impeachment como um golpe político e, até mesmo, um golpe militar não é a mesma de Collor nem se parece com a de Collor. Os historiadores atuais dizem que o golpe de 64 foi um golpe civil-militar precisamente porque houve uma mobilização de manifestantes civis nas ruas defendendo a derrubada do governo João Goulart. Então, se existe uma situação parecida, nos ensinam os historiadores, que é a que antecedeu o golpe civil-militar de 64 que derrubou João Goulart.


Antes do golpe de 64 a manifestação e a atividade dos militares em movimentos francamente golpistas e favoráveis a um golpe foi algo bastante costumeiro e que correspondia ao uso dos costumes ou à moral e aos costumes da época precisamente porque a proclamação da república no Brasil foi um golpe militar, ainda que há muito existisse um movimento republicano na sociedade civil brasileira. Mas, foi especialmente a partir do fim da Segunda Guerra Mundial que teve início, com apoio logístico dos EUA, uma mobilização sistemática dos militares para intervir em defesa da democracia liberal na vida política da república. Nessa época, Getúlio Vargas teve, segundo Fernando Henrique Cardoso, a grandeza de renunciar por ser um ditador num país que lutou na Segunda Guerra Mundial contra a ditadura nazi-fascista. Ora, ele, Getúlio Vargas, havia feito a opção pelos Aliados e contra o Eixo, então, como podia manter um regime contra o qual havia levado o próprio país a lutar na Guerra?! Acabamos de achar um presidente que renunciou antes de Jânio Quadros e, ao que parece, com um gesto de tamanha grandeza que o fez voltar à presidência da república legitimado pela vontade política dos eleitores.


O suicídio de Getúlio Vargas é considerado o gesto da mais suprema grandeza na política da república brasileira. Mas, como é possível que o mesmo político que foi capaz de renunciar não só se recuse a renunciar mas cometa o suicídio para defender seu mandato político de presidente da república?! Quando foi capaz de renunciar seu mandato havia começado cerca de 15 anos antes num movimento civil-militar sob o argumento de ir contra eleições fraudulentas que deram a vitória a seu adversário da oligarquia paulista. Quando foi capaz de cometer suicídio seu mandato havia sido obtido em eleições limpas que o legitimaram. No primeiro caso, ele renunciou por admitir que, além de duvidoso, o seu mandato era ilegítimo. No segundo caso, ele defendeu a legitimidade de seu mandato, apesar de estar cercado de auxiliares que, mais que duvidosos, eram piores do que seus próprios inimigos, melhor, só estavam à altura dos seus piores inimigos. Seus auxiliares eram não só corruptos mas também assassinos, portanto, com a corrupção, serviam não ao seu governo e sim a seus opositores, e, com assassinatos, serviam aos opositores golpistas porque minavam e roubavam a legitimidade de seu governo. Ora, Getúlio Vargas fez questão de demonstrar que ele não era nenhum deles. Fez questão de demonstrar que não era corrupto, que não era golpista, que não era assassino e, mais do que tudo, fez questão de demonstrar que pela democracia e pela legitimidade do mandato democrático ele era capaz do supremo sacrifício.


A Dilma não se encontra na situação de ditadora como se encontrava Getúlio Vargas no término da Segunda Guerra Mundial, então sua renúncia não pode ser um gesto de grandeza como o do Getúlio Vargas que renuncia à ditadura em favor da democracia. No entanto, ela se encontra numa situação de presidente eleita legitimamente como se encontrava Getúlio Vargas quando foi cercado não só pelos seus opositores golpistas mas também por seus auxiliares corruptos, golpistas e assassinos. Claro que inexiste caso de atentados golpistas e assassinos por parte de seus "auxiliares ou apoiadores", mas existem os casos de corrupção envolvendo parte dos auxiliares do governo dela ou de seu predecessor, quer dizer, envolvendo dirigentes de empresas estatais e privadas, políticos e partidos da base do governo etc. Em tal situação o gesto de grandeza da Dilma Rousseff para demonstrar que é o tal coração valente que luta pela liberdade, pela legitimidade do mandato democrático, pela legitimidade da democracia seria, sem dúvida, o do supremo sacrifício.


Mas, se é verdade que o gesto da suprema grandeza é o suicídio de Dilma Rousseff, não é verdade que o único suicídio possível é aquele cometido por Getúlio Vargas. Porque, afinal de contas, João Goulart não cometeu um suicídio político para, nas suas palavras, "evitar um banho de sangue" do povo brasileiro pelos golpistas de 64?! E se realmente o gesto de grandeza de Dilma Rousseff  é o suicídio, então, supondo que não seja o suicídio real de Getúlio nem o suicídio político de João Goulart, qual é o suicídio que ela irá cometer?!


O filme "Coração Valente" nos dá algumas indicações. O herói escocês se sacrifica bradando liberdade e, desse modo, muda a posição do rei escocês que em lugar de se render aos ingleses parte para a guerra pela liberdade da Escócia da Inglaterra. Então, a disposição de Dilma Rousseff de cometer o sacrifício supremo visa levantar o povo para lutar pela liberdade, pela legitimidade do mandato democrático, pela legitimidade da democracia e contra o golpe, mas sem evitar a resistência, se acaso houver um golpe, por não considerar que haverá "um banho de sangue" já que, na atualidade, além do longo aprendizado com os sofrimentos impostos pela ditadura, não existe mais espaço e tempo, melhor, lastro ou base para o uso costumeiro e abusado da moral e dos costumes ditatoriais. A época é outra.


O "suicídio" de Dilma Rousseff é o gesto de grandeza de se manter firme na defesa de seu mandato legítimo mesmo no caso de que ele lhe seja retirado porque com seu firme brado pela liberdade ela voltará legitimada pelo povo por seu "Coração Valente".


Não estou dizendo que voltará a ser eleita, mas sim que voltará a ser reconhecida, ou seja, à maneira do herói escocês que morre gritando liberdade e, por morrer, não pode voltar, ela voltará como espectro que brada: LIBERDADE!!!


Noutras palavras, a herança de Vargas, o suicídio, ainda não se realizou efetivamente na história e Dilma é parte integrante dessa herança e o desafio que está posto para que enfrente é o da entrada na história da encarnação da liberdade, da democracia, do mandato democrático que Getúlio Vargas defendeu "saindo da vida para entrar na história". Dilma Rousseff assim como João Goulart são herdeiros dessa situação na qual Vargas saiu da vida para entrar na história e eles herdaram esse dever de entrar na história deixado por Vargas.


Talvez caiba a Dilma Rousseff o último ato dessa herança de Vargas que é o da encarnação na história da liberdade popular, da democracia legítima, da legitimidade do mandato democrático. Posto que, como dizia Vargas, "o povo do qual fui escravo, não mais será escravo!", ou seja, a liberdade histórica do povo brasileiro é a herança encarnada de Getúlio Vargas. Logo, o coração que ele abateu com um tiro no peito é o coração valente que ele deixou como herança para se encarnar na história.


E Dilma Rousseff, desde sua última campanha eleitoral, assumiu ser a encarnação do "Coração Valente"...



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