sábado, 3 de outubro de 2015

E quem acredita?!




- Não acredito!


Foi o que respondeu quando disse que Milton Friedman era o autor da proposta de concessão duma renda aos pobres para que estes pudessem participar da economia por meio do consumo de mercadorias. Um misto de surpresa e de tédio apareceu dentro de mim, quando ele acrescentou que o Bolsa Família era atacado pela direita e que esse boato a respeito do Friedman era e servia a alguma armação da direita. Até recentemente era tradicional a esquerda recusar "esmolas", recusar ou, pelo menos, minimizar as propostas feitas pura e exclusivamente em torno do consumo e, em lugar disso, não só aceitar mas, mais ainda, exaltar as propostas baseadas exclusivamente ou em torno da associação com a produção, de modo que a esquerda adotava como seu um princípio do trabalho, ainda que fosse duro e cruel, que declarava "quem não trabalha, não come!", claro que admitia as exceções - as quais aliás, seriam crescentes numa sociedade socialista - que seriam sanadas pela previdência social. Então, ainda que a esquerda fosse a primeira a ser contra as propostas de concessão de renda ou de bolsa para os pobres, era a esquerda quem admitia que o socialismo ou a sociedade socialista iria proporcionar renda ou bolsa de forma crescente e de acordo com a necessidade de cada um. (Ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Milton_Friedman ; http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1541 ; http://www.teoriaedebate.org.br/materias/economia/imposto-negativo-garantia-de-renda-minima?page=full ; https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=friedman ; https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=friedman+imposto+negativo)


O misto de surpresa e de tédio dentro de mim só cresceu e me deprimiu porque ficou claro que se trata de acreditar ou de não acreditar em algo, logo, se trata exclusivamente de fé, de religião, de ideologia, de imaginação ou de representação da consciência, quer dizer, se trata sempre de farsa e nunca de algo autêntico e que tenha relação com o ser, com a ciência, com a materialidade, com a realidade ou com a percepção sensível da consciência.


Farsa é como podemos verificar que foi o processo de Independência na América Latina, tanto da área de colonização da Espanha quanto da área de colonização de Portugal. ou seja, as repúblicas espanholas tiveram como modelo e imitaram a figura do Libertador Napoleão Bonaparte, então, os "Libertadores da América Espanhola" estavam todos fantasiados de Napoleão Bonaparte, eram todos crentes em Napoleão Bonaparte; por sua vez, a Independência do Império do Brasil teve como modelo e imitação o Reino Unido da Grã-Bretanha que foi instituído como Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, ou seja, a Corte Portuguesa veio para o Brasil protegida pela armada inglesa e aqui tratou de ter por modelo e de imitar a Inglaterra ou, até mesmo, o Rei Jorge III que se casou com uma nobre que também se chamava Carlota (ver https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlota_de_Mecklemburgo-Strelitz ; https://pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_III_do_Reino_Unido ; https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=rei+ou+rainha+da+inglaterra+em+1808) quem sabe se é ou não mera coincidência, o destino da fé ou o acaso da história?!


A Independência na América Latina parece ser uma Farsa que aprisiona e transplanta o "Velho Mundo da Europa" nesse "Novo Mundo", enquanto que a Independência dos Estados Unidos parece ser uma Tragédia que libera e transplanta o "Novo Mundo da Europa" nesse "Novo Mundo". Talvez, por isso, os latinos americanos pareçam estar sempre fantasiados, pareçam estar sempre num carnaval, pareçam ser eternos carnavalescos, enquanto que os estadunidenses pareçam estar sempre expressando a si mesmos, pareçam estar sempre dando testemunhos diretos, pareçam ser eternos representantes diretos de si mesmos ou eternas testemunhas diretas da percepção sensível.


A revolução francesa tentou combater o antigo regime com sua república mas acabou adotando o exercício do terror do próprio antigo regime que combatia. Com Napoleão Bonaparte a república da revolução francesa, que havia se inspirado na Roma antiga, passa a adotar o império, igualmente imitando a Roma antiga. E é sob essa forma de império ou de poder direto do antigo regime que pretende expandir por toda a Europa a revolução francesa. A guerra da Inglaterra contra a França de Napoleão pode ser vista como guerra entre uma Monarquia Constitucional, cujo poder imperial é exercido muito mais pelas instituições parlamentares ou de forma republicana do que pelo monarca, e uma República Imperial, cujo poder imperial é exercido muito mais pelo imperador do que pelas instituições parlamentares republicanas. O poder do rei na Inglaterra é visto como meramente simbólico e o verdadeiro poder é visto como sendo o do parlamentarismo inglês. Já o poder de Napoleão é evidentemente visto como realmente verdadeiro e o poder dos parlamentares franceses é visto quase como meramente simbólico.


Os Estados Unidos com sua Independência instituíram uma República que não só rompia com a Inglaterra mas também com a Farsa de sua Monarquia simbólica, de modo que na sua República tinham poder verdadeiramente real tanto os parlamentares quanto o presidente da República. Já nas Repúblicas Libertas de Espanha eram os Libertadores ou presidentes que tinham mais poder do que os parlamentos e os parlamentares, ou seja, imitavam o poder imperial de Napoleão Bonaparte. Ainda que, no Império Liberto de Portugal, o imperador do Brasil tivesse poder inclusive para outorgar a Constituição, seu poder era efetivamente contrabalançado pelo parlamentarismo, mas, apesar disso, foi o poder imperial e não o parlamentarista quem fez a Abolição da Escravatura no país; porém, foi igualmente aí que o Império sofreu um golpe que instituiu a República. E cabe pesquisar e descobrir se a instituição da República foi feita para contrapor ao poder imperial o poder presidencial ou para aumentar o poder dos parlamentares? Saber se o aumento do poder presidencial, que ocorreu historicamente, era uma contraposição ao parlamentarismo imperial ou ao próprio poder do imperador? Aparentemente os parlamentares exerciam maior poder durante o Império do que durante grande parte da República no Brasil, ou seja, o Império no Brasil seguiu mais o modelo inglês e a República no Brasil seguiu mais o modelo francês, aliás, os republicanos eram seguidores da doutrina positivista do francês Auguste Comte.


A França revolucionária quis implantar a República inspirada no feito dos Estados Unidos, mas estes se encontravam num novo mundo e os revolucionários da França estavam no velho mundo. Introduzir um novo mundo num velho mundo é muito mais difícil do que introduzir um novo mundo num novo mundo. Neste último caso, os agentes se encontram em pé de igualdade com os pacientes, quer dizer, existe enorme coincidência entre as mudanças das circunstâncias e as mudanças da atividade humana ou a autotransformação humana. Já no caso francês, os agentes ou pacientes revolucionários se encontram em contraposição com os agentes ou pacientes de todas as circunstâncias e educação reacionárias do mundo existente, a relação é inteiramente desigual porque as circunstâncias e a educação do novo mundo precisam se introduzir e se implantar nas circunstâncias e educação do velho mundo. O embate entre revolução e reação é um embate entre mudança e interpretação que se desenvolve de um modo que leva a mudança criadora de novas circunstâncias e educação a adotar uma nova interpretação repetidora das velhas circunstâncias e educação para poder levar a mudança para dentro e a agir por dentro das velhas circunstâncias e educação de modo que admitam uma nova interpretação e, desse modo, sejam mudadas e possam vir a ser instituídas novas circunstâncias e educação de um novo mundo no velho mundo. De um lado, sob o período do Terror, os revolucionários perseguem os próprios revolucionários vendo neles os inimigos disfarçados, quer dizer, vendo neles farsantes e querendo, desse modo, que só tenham vida aqueles que são autênticos. De outro, sob Napoleão, a revolução se disfarça de antiguidade imperial e persegue todos os inimigos reacionários do velho mundo e coloca no lugar deles exercendo o poder uma nobreza falsa para expressar e expandir a revolução disfarçada de antiguidade imperial.


A guerra de autodestruição dos revolucionários da época do Terror visava acabar com os farsantes e afirmar os autênticos. Já as guerras napoleônicas são guerras de um autêntico revolucionário farsante que pretende acabar com os reacionários através de instituições farsantes que podem ser vistas como instrumentos que trazem para dentro do velho mundo uma guerra de autodestruição dos reacionários europeus.


Isto que começou com o militar Napoleão Bonaparte, pode ter sido adotado primeiro por Leon Trotsky, quando fez uso do uniforme na qualidade de comandante do Exército Vermelho e, em seguida, por Josef Stálin, Mao Tsé Tung, Marechal Josip Broz Tito, Kim Il Sung, Fidel Castro, Che Guevara, Daniel Ortega etc. Mas, com certeza, o uso do uniforme militar não só permite como, o que é mais importante, legitima que o exercício do poder seja imperial e não mera, pura e simplesmente parlamentar.


"O emprego está morrendo no capitalismo desenvolvido" significa dizer que a produção industrial automatizada está tirando a força humana de trabalho da produção industrial e substituindo-a por máquinas automatizadas, por robôs ou pela força maquinal de trabalho. Ora, se isso acontecer com toda a produção industrial então não haverá mais como extrair mais-valia e/ou lucro da força humana de trabalho, logo, não haverá mais valor nem produção de mercadorias. Porém, isso não acontece com toda a produção industrial e, assim, a produção industrial não inteiramente automatizada permanece extraindo mais-valia da força humana de trabalho, permanece produzindo valor, permanece produzindo mercadorias que são trocadas pelas produzidas pelas indústrias inteiramente automatizadas de modo que a mais-valia e/ou o valor é transferido para os donos da produção inteiramente automatizada sendo, aliás, precisamente esta transferência da mais-valia ou do valor que legitima a condição de donos da maquinaria automatizada da qual desfrutam, já que se não houvessem trocas entre a produção inteiramente automatizada e a ainda não inteiramente automatizada não haveria nenhuma mais-valia ou valor circulando no ambiente da produção automatizada porque se ninguém é pago para produzir algo ou se ninguém vende sua força humana de trabalho, então toda a produção automática é gratuitamente produzida e, para pagá-la, é preciso que o dinheiro, o salário ou a renda do antigo vendedor da sua força humana de trabalho também exista e seja recebido gratuitamente, caso contrário, a produção automática gratuitamente produzida só pode e deve ser gratuitamente consumida. No entanto, na atualidade os donos da produção inteiramente automatizada permanecem donos da mesma precisamente porque fazem trocas com a produção ainda não inteiramente automatizada, ou seja, trocam o tempo livre do trabalho da produção automática pelo tempo de trabalho sem liberdade da produção ainda não automática, trocam tempo livre por tempo de trabalho, mas, desse modo, ainda que estejam vivendo num sistema de trocas de mercadorias, eles não deixam de, com a produção automática, estar aumentando a automatização da produção ainda não inteiramente automática nem deixam de, com a produção não automática, estar aumentando o trabalho humano da produção automática. Ou seja, o capital, mesmo quando o tempo livre se torna a medida da produção, continua negando que a produção possa ser medida pelo tempo livre e usa como medida da produção o tempo de trabalho. Porque? Porque é a única forma que lhe resta para garantir que a produção ainda é uma produção de valor, quer dizer, obtida pela extração de mais-valia da força humana de trabalho durante seu tempo de trabalho. Porém, a própria lógica da produção ainda não automática é a de reduzir o tempo de trabalho e aumentar o tempo livre. E mesmo quando a produção automática resiste aumentando o tempo de trabalho, oriundo da produção não automática, no seu meio ambiente ela, ao mesmo tempo, só pode fazer isso aumentando o tempo livre da produção automática no meio ambiente da produção não automática, portanto, a tendência mais forte é a da produção automática e a importação de tempo de trabalho que ela faz da produção não automática é cada vez menor porque ela só faz tal importação por meio da exportação da produção automática para o meio ambiente da produção não automática.


As propostas de imposto negativo, de renda mínima, de renda universal etc. que vem proliferando em países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos também vem sendo aplicadas em países ditos em desenvolvimento como o Brasil & outros que fornecem bolsas ou renda para quem não possui renda. O desemprego estrutural não é um problema restrito aos países desenvolvidos e o que acontece quando a China, considerada o carro que puxa toda a produção industrial, resolve reduzir sua produção? Certamente, ela começa a aumentar sua produção automática e a reduzir seu emprego estrutural de força humana de trabalho, então, sua produção por ser automática pode até aumentar ao mesmo tempo que aumenta o tempo de livre de sua forças humanas de modo que ela poderá inicialmente fazer o que já fizeram e fazem outros países que é aumentar o emprego no chamado setor de serviços, quer dizer, aquele ligado ao consumo e à manutenção dos produtos de consumo e dos usuários do consumo ou à manutenção dos consumidores. Mas, em todos estes casos, se trata sempre das diferentes formas assumidas ou pelas quais passa ou pode passar a transferência de mais-valia/de valor, ou seja, no processo de produção de mais-valia ou valor está ocorrendo uma redução na mais-valia ou valor produzido, já que o que está ocorrendo é basicamente uma pura e simples transferência da mais-valia ou valor produzido e não um aumento da mais-valia ou valor produzido.


A que resultado cheguei com o meu misto de espanto e tédio?! E com esse resultado posso afirmar o mesmo que ele afirmou, mas, em lugar de afirmar uma qualquer fé, vir a afirmar precisamente o contrário que é o mais pleno ceticismo, logo também:


- Não acredito!


PS/OBS.: O fato de o Neoliberalismo ter como principal alternativa o Fundamentalismo Islâmico é algo que deveria chamar muito a atenção dos pensadores. Parece até algo planejado já que o Liberalismo no início tinha como principal alternativa os resquícios feudais do Absolutismo e do Antigo Regime. Ora, os Fundamentalistas Islâmicos são comparados precisamente aos Absolutistas e Feudalistas do Antigo Regime. Fé cética versus fé religiosa?!



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