terça-feira, 30 de junho de 2015

"Acadêmicos, céticos e dogmáticos e luta de classes"




“Sexto denomina então aqueles filósofos que declaram ter obtido a verdade como
resultado de suas investigações de “dogmáticos”; aqueles que afirmam ser a verdade
inapreensível de acadêmicos; e aqueles que continuam a investigar de céticos. As filosofias se
dividem, portanto, em dogmática, acadêmica e cética.” (“Ceticismo e dialética especulativa na filosofia de Hegel”, de Luiz Fernando Barrére Martin, tese de doutorado, Campinas, Dezembro de 2009, Universidade Estadual, p. 27)


Kant não seria, segundo o critério de Sexto Empírico, um verdadeiro cético e sim um acadêmico que considera a verdade ou a coisa em si inapreensível. Já Hegel por continuar a investigar os fenômenos desenvolvendo uma fenomenologia poderia estar mais próximo do verdadeiro cético tal qual estabelecido no critério de Sexto Empírico, porém, por afirmar que chega ao saber absoluto e, portanto, à apreensão da verdade ou da coisa em si Hegel termina sendo um dogmático pelo critério de Sexto.


No combate à separação da Religião e do Estado, quer dizer, na luta pela emancipação política da Religião a posição acadêmica de Kant ao considerar Deus, a verdade da Religião, a coisa em si inapreensível e inteiramente separada dos fenômenos, os quais, por sua vez, são inteiramente apreensíveis como coisas ou verdades para nós tal qual a emancipação política do Estado separado da Religião que só trata de conhecer as coisas ou verdades para nós e separa e afasta a Religião e o conhecimento das coisas ou verdades inapreensíveis tais quais são em si da liberdade política e do Estado. Kant chama esse seu combate pela emancipação política de época do Esclarecimento e de século de Frederico, o Grande. Já Hegel começa aceitando o ponto de partida de Kant que é o se ater ao conhecimento dos fenômenos, quer dizer, das coisas ou verdades para nós, logo, aceita se ater ao exercício da emancipação ou liberdade política, portanto, aceita também se ater ao exercício e desenvolvimento do Estado separado da Religião, mas, na sua época, é Napoleão quem faz este desenvolvimento da liberdade política e do Estado separado da Religião até chegar a se coroar Imperador, em 02 de dezembro de 1804, tirando a coroa das mãos do Papa Pio VII, quer dizer, até chegar a uma nova junção do Estado e da Religião na qual a Religião se submete ao Estado, mas aí, o Estado assume o conhecimento da verdade ou da coisa em si. Hegel publica sua “Fenomenologia do Espírito” em 1807 e nela desenvolve a posição investigativa do cético, tal qual estabelecida pelo critério de Sexto Empírico, ou seja, desenvolve o exercício do espírito político em épocas sucessivas até chegar ao saber absoluto do espírito político absoluto, portanto, ao chegar tal qual Napoleão ao conhecimento da verdade ou da coisa em si da Religião.


Ambos, Kant e Hegel, estão conectados ao processo de emancipação política da burguesia ascendente ao Estado. Ambos olham muito mais para o processo de emancipação política ou de emancipação do Estado da Religião do que para a coisa em si e quando olham para esta coisa em si a percebem ocupada pela Religião. Então, para eles, a coisa em si ou a Sociedade Civil é o âmbito da Religião, melhor, é o ambiente saudável para o exercício da Religião que se separou do Estado. Pois os olhos de Marx vão se fixar, junto com os olhos dos economistas e dos materialistas e, para além, dos olhos dos religiosos, nesse ambiente da Sociedade Civil, onde, a partir da emancipação política burguesa, se encontram Religião e coisa em si. Marx irá perceber que aí, na Sociedade Civil, a emancipação política é o feito da burguesia, quer dizer, significa o desenvolvimento duma Sociedade Civil capitalista, mas ele percebe também que nesta Sociedade Civil capitalista existem os trabalhadores que são fundamentais para a existência e desenvolvimento da mesma e, no entanto, eles se encontram numa situação que requer, para além da emancipação política, da qual carecem mas podem obter com relativa facilidade, da emancipação social, isto é, da emancipação da dominação e exploração que os capitalistas e a Sociedade Civil capitalista fazem deles e esta eles só podem obter se emancipando da própria Sociedade Civil capitalista ou da própria coisa em si.



Dois filósofos sucessivos olhando para a coisa para nós, de forma acadêmica e cética, até alcançar o dogmatismo do Idealismo Absoluto, são sucedidos por um filósofo e um movimento social olhando para a coisa em si, de forma dogmática, visando a emancipação social Materialista ou materialmente efetivada.



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