“A oferta do paraíso e a perda do mesmo pelo consumo do
fruto da árvore do bem e do mal ou pelo estabelecimento do pacto de não cometer
nem sofrer prejuízos e a procura do paraíso e o ganho do mesmo pela prática do
trabalho e da disciplina de desenvolver um pacto de não sofrer e de não cometer
danos, quer dizer, o pacto de um mundo livre, o pacto de um mundo da
liberdade.”
A oferta do paraíso e sua perda pelo consumo. A procura do
paraíso e o seu ganho pelo trabalho. Troca e compensação, porque com o consumo
se retira a energia do paraíso da abundância, já com o trabalho se devolve a
energia dum oásis para a escassez. E a esperança é conseguir com o trabalho
devolver a energia que reconstitua o paraíso da abundância.
A Natureza é perfeita porque é um paraíso, mas o consumo
humano é a introdução da imperfeição e da perda do paraíso. Nessa economia
política bíblica Malthus é a ortodoxia e a outra ortodoxia que aí também está
suposta e presente é a ecologia porque ambos consideram que o consumo humano é
superior à produtividade da Natureza e a desequilibra e empobrece. A humanidade
é a falha e a queda da produtividade da Natureza, a destruição e/ou perda do
paraíso. No entanto, com o suor do trabalho a humanidade consegue repor parte
da produtividade perdida da Natureza garantindo assim o salário, ou o valor
correspondente ao sal extraído do suor da jornada de trabalho, com o qual
limita seu consumo da Natureza a uma ração que repõe o seu desgaste com a
jornada de trabalho ao mesmo tempo que poupa e não consome a outra parte da
jornada de trabalho com a qual agrega e, assim, repõe, com trabalho, produtividade
à produtividade perdida da Natureza.
Então, ao que tudo indica parece que é assim. A humanidade
começa a coletar e caçar na Natureza e chega numa situação que a população
cresceu e as mudanças ou rodízios de locais não são mais suficientes para que
uma área muito consumida volte à sua produtividade habitual. Mas, nessa época,
a humanidade descobre ou inventa a agricultura e a pecuária, quer dizer, passa
a usar o trabalho e a disciplina da domesticação e criação dos animais para
repor a produtividade da Natureza. Desse modo, a população humana aumenta ainda
mais e a Natureza trabalhada e domesticada também. Porém, as atividades de
coleta e de caça precisam ser controladas e impedidas para que ocorra o
desenvolvimento das atividades da agricultura e criação de rebanhos, caso
contrário, elas serão impossíveis e não se desenvolverão. O coletor e o caçador
na prática se assemelham aos demais animais da Natureza que também coletam e
caçam. Parece então que a agricultura e a criação de rebanhos separam a
humanidade dos animais, separam o trabalho e/ou produção humana do consumo e/ou
fruição animal. E também que esta separação é uma separação no interior da
humanidade entre coletores e caçadores para os quais não existe Natureza
trabalhada ou humanamente produzida, quer dizer, Natureza que é própria ou
propriedade da humanidade porque para os coletores e caçadores toda e qualquer
Natureza é própria ou propriedade da humanidade. Para os agricultores, pastores
e/ou pecuaristas os coletores e caçadores são preguiçosos, ladrões, predadores,
agressores, guerreiros ou terroristas porque a coleta e a caça só deve
continuar existindo onde a Natureza ainda continua não sendo trabalhada nem
humanamente produzida. Tudo indica então que com o trabalho também veio a
propriedade, ou seja, a Natureza trabalhada ou humanamente produzida está não
só separada do mero consumo e fruição animal na instituição duma sociedade
humana, mas esta sociedade humana para além da sociedade animal é também a
instituição da Natureza de propriedade humana.
Para a humanidade voltar a ser meramente coletora e caçadora
é preciso destruir a população humana e impedir que ela cresça, ou seja, é
preciso um controle da sexualidade e do crescimento populacional similar ao
usado no mito grego onde “Cronos era aquele que comia seus próprios filhos”. Mas, segundo Malthus, para que a humanidade
desenvolva uma Natureza humanamente produzida (agropecuária) também é preciso
controlar a população, impedir que ela cresça e favorecer que ela decresça,
porque o crescimento da população que consome é maior do que o da produtividade
da Natureza trabalhada. Equivale a dizer que tem mais gente consumindo do que
produzindo ou que o crescimento da população humana é maior do que o
crescimento dos recursos naturais.
Mas, quem vem antes, a Natureza (Deus) ou a humanidade? Se é
a Natureza (Deus), como tudo parece indicar que seja, então a falha, trazida
pela humanidade com sua capacidade populacional de crescer mais às custas do
decréscimo da produtividade da Natureza, é uma falha produzida pela Natureza
(Deus) ou originada da Natureza (Deus). Nesse caso, o trabalho, desenvolvido
pela humanidade para suprir essa falha originada pela Natureza (Deus) que criou
a humanidade, ainda que seja humano é naturalmente
humano, ou seja, é uma força da Natureza (Deus), logo, é parte do
desenvolvimento da própria Natureza ou é propriedade da Natureza. Sendo assim a
Natureza precisa que a humanidade desenvolva o trabalho para que a própria Natureza
se desenvolva, ou seja, ela precisa que a humanidade se desenvolva como
Natureza trabalhada para que ela própria Natureza se revele naturalmente humana. Então, deve ser o seguinte. A humanidade por meio do
trabalho que faz e desenvolve a ciência (da árvore) do bem e do mal, do prazer
e da dor, do pacto de não prejudicar nem ser prejudicado vai chegar a fazer e
desenvolver a ciência (da árvore) da vida, do íntimo da Natureza, da essência
da liberdade. A suposição é que pelo desenvolvimento do trabalho a humanidade
saia do mundo da luta com a necessidade e alcance o mundo do saber/sabor(ear)
da liberdade.
Ou seja, a humanidade está obrigada a lutar com a
necessidade e a desenvolver o trabalho de tal forma que ela poderá vir a suprir
suas necessidades e, assim, a suprimir o mundo e a luta com a necessidade, quer
dizer, suprimir o trabalho com a ciência da vida, com a tecnologia e a educação,
com a fruição-saber natural e vital do mundo da liberdade.
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