Os discípulos de Hegel, mais cedo ou mais tarde, se percebem
todos às voltas com o problema da consciência de si posto pelo sistema de Hegel
como novidade dialética. E o problema da consciência de si do sistema hegeliano
é um problema filosófico historicamente determinado pela existência das
filosofias da consciência, as quais, de acordo com as determinações do sistema
hegeliano, se situam na história geral da filosofia na história da filosofia da
Grécia Antiga onde surgem nos ciclos das filosofias estoica, cética e
epicurista.
Marx se assume às voltas com o problema da consciência de si
posto como novidade dialética do sistema de Hegel bem cedo, ou seja, logo com o
seu primeiro trabalho filosófico após se assumir discípulo de Hegel. E o seu
primeiro trabalho filosófico como discípulo hegeliana foi sua dissertação de
doutorado sobre o epicurismo nomeada de “Diferenças entre as filosofias da
Natureza em Demócrito e Epicuro”. No capítulo da Fenomenologia do Espírito, dedicado
à dialética da consciência de si, o epicurismo aparece como momento final do
ciclo completo da consciência de si sob o nome de “consciência infeliz” e os
momentos anteriores aparecem sob os nomes “estoicismo” (primeiro momento) e “ceticismo”
(segundo momento). Marx optou pela “consciência infeliz” que na Fenomenologia sequer
mereceu seu nome próprio de epicurismo. Em todo caso, ele fez esta opção porque
a construção da consciência de si termina e só se completa com o epicurismo ou
porque o epicurismo, dentre os momentos da consciência de si, é o materialismo
mais completo e acabado?! Aliás, para Hegel, a construção da consciência de si
termina na consciência infeliz por preceder a construção da razão ou porque, infelizmente,
é o materialismo mais completo e acabado que precede a construção da razão?!
Marx, que se assume às voltas com o problema da consciência
de si, situa a construção e o ciclo das filosofias da consciência de si gregas
estoica, cética e epicurista como sucessores do fim da história objetiva da
filosofia grega, de modo que a importância do estoicismo, do ceticismo e do
epicurismo se situa na continuidade da história subjetiva da filosofia tanto em
relação à Grécia como para além da Grécia. Ele ressalta que são essas formas subjetivas estoicas, céticas e epicuristas que migraram para Roma e
mesmo para a época de Frederico, o Grande ou do iluminismo de Kant. Ora,
rapidamente, podemos resumir as formas
subjetivas de Kant, Hegel e Marx.
Kant é o filósofo do espaço e do
tempo como formas subjetivas a
priori
da sensibilidade humana,
Hegel é o filósofo do espírito como forma
subjetiva da coisa em si
ideal, Marx, enfim, é o filósofo
da força humana de trabalho como forma subjetiva da coisa em si
material.
Num tal resumo caberia a Kant o ceticismo,
a Hegel o estoicismo e a Marx o epicurismo.
Marx herda de David Ricardo o sistema capitalista constituído por três classes
de proprietários que são os proprietários das fontes materiais ou fundiários,
os proprietários dos meios/instrumentos de produção/trabalho ou capitalistas e
os proprietários e os proprietários das forças/energias humanas de produção/trabalho
ou trabalhadores. Mas, é curioso como essas classes de proprietários
correspondem às formas subjetivas da consciência
de si estoica proprietária do todo
natural/divinamente produtivo, da consciência
de si cética proprietária dos meios/instrumentos ou formas de produção e da consciência de si epicurista proprietária de si
própria, de sua força ou energia humana de produção.
Marx percebeu que, para os discípulos do sistema hegeliano,
que havia chegado ao fim da história da filosofia objetiva do idealismo alemão,
a saída era por meio da retomada do problema dialético da construção da
consciência de si dentro da qual o estoicismo era uma saída conservadora, de
direita ou da tendência dos chamados velhos hegelianos, já o ceticismo era uma
saída progressista ou dentro da tendência dos chamados jovens hegelianos mas
que se limitava a retomar as origens kantianas do sistema hegeliano, as quais,
ainda que fossem fundamentais enquanto raízes e princípios de partida do
sistema, permaneciam conduzindo ao retorno do sistema hegeliano e não à sua
superação e, por isso, esta saída progressista era uma saída centrista e contra
a qual se levantava, no interior mesmo da tendência dos jovens hegelianos, a
saída epicurista que era a única a ir além do sistema hegeliano porque
simplesmente retomava o que havia sido abandonado pelo hegelianismo desde suas
origens kantianas e que era o conhecimento da coisa em si como conhecimento da
matéria em si, quer dizer, o conhecimento do materialismo e não a recusa desse
conhecimento sob a alegação de se entregar à metafísica. Marx percebeu que a
tendência estoica permanecia nos limites do sistema hegeliano duma consciência
de si absolutamente idealista; que a tendência cética permanecia nos
fundamentos idealistas do sistema hegeliano duma consciência de si
subjetivamente idealista e que só a tendência epicurista ia além dos princípios
idealistas do sistema hegeliano como consciência de si subjetivamente
materialista.
Então, a passagem do discípulo hegeliano para a sua maestria
é a passagem da disciplina espiritual absoluta hegeliana para a liberdade da
energia de trabalho como maestria humana; é a passagem do fim da história do espírito
absoluto e do sistema da necessidade humana para a continuidade da história da
energia humana de trabalho e para o sistema da liberdade humana.
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