domingo, 28 de junho de 2015

"Elementar, meus caros hegelianos!", diria Marx, o anglófilo.




Os discípulos de Hegel, mais cedo ou mais tarde, se percebem todos às voltas com o problema da consciência de si posto pelo sistema de Hegel como novidade dialética. E o problema da consciência de si do sistema hegeliano é um problema filosófico historicamente determinado pela existência das filosofias da consciência, as quais, de acordo com as determinações do sistema hegeliano, se situam na história geral da filosofia na história da filosofia da Grécia Antiga onde surgem nos ciclos das filosofias estoica, cética e epicurista.


Marx se assume às voltas com o problema da consciência de si posto como novidade dialética do sistema de Hegel bem cedo, ou seja, logo com o seu primeiro trabalho filosófico após se assumir discípulo de Hegel. E o seu primeiro trabalho filosófico como discípulo hegeliana foi sua dissertação de doutorado sobre o epicurismo nomeada de “Diferenças entre as filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro”. No capítulo da Fenomenologia do Espírito, dedicado à dialética da consciência de si, o epicurismo aparece como momento final do ciclo completo da consciência de si sob o nome de “consciência infeliz” e os momentos anteriores aparecem sob os nomes “estoicismo” (primeiro momento) e “ceticismo” (segundo momento). Marx optou pela “consciência infeliz” que na Fenomenologia sequer mereceu seu nome próprio de epicurismo. Em todo caso, ele fez esta opção porque a construção da consciência de si termina e só se completa com o epicurismo ou porque o epicurismo, dentre os momentos da consciência de si, é o materialismo mais completo e acabado?! Aliás, para Hegel, a construção da consciência de si termina na consciência infeliz por preceder a construção da razão ou porque, infelizmente, é o materialismo mais completo e acabado que precede a construção da razão?!


Marx, que se assume às voltas com o problema da consciência de si, situa a construção e o ciclo das filosofias da consciência de si gregas estoica, cética e epicurista como sucessores do fim da história objetiva da filosofia grega, de modo que a importância do estoicismo, do ceticismo e do epicurismo se situa na continuidade da história subjetiva da filosofia tanto em relação à Grécia como para além da Grécia. Ele ressalta que são essas formas subjetivas estoicas, céticas e epicuristas que migraram para Roma e mesmo para a época de Frederico, o Grande ou do iluminismo de Kant. Ora, rapidamente, podemos resumir as formas subjetivas de Kant, Hegel e Marx. Kant é o filósofo do espaço e do tempo como formas subjetivas a priori da sensibilidade humana, Hegel é o filósofo do espírito como forma subjetiva da coisa em si ideal, Marx, enfim, é o filósofo da força humana de trabalho como forma subjetiva da coisa em si material. Num tal resumo caberia a Kant o ceticismo, a Hegel o estoicismo e a Marx o   epicurismo. Marx herda de David Ricardo o sistema capitalista constituído por três classes de proprietários que são os proprietários das fontes materiais ou fundiários, os proprietários dos meios/instrumentos de produção/trabalho ou capitalistas e os proprietários e os proprietários das forças/energias humanas de produção/trabalho ou trabalhadores. Mas, é curioso como essas classes de proprietários correspondem às formas subjetivas da consciência de si estoica proprietária do todo natural/divinamente produtivo, da consciência de si cética proprietária dos meios/instrumentos ou formas de produção e da consciência de si epicurista proprietária de si própria, de sua força ou energia humana de produção.


Marx percebeu que, para os discípulos do sistema hegeliano, que havia chegado ao fim da história da filosofia objetiva do idealismo alemão, a saída era por meio da retomada do problema dialético da construção da consciência de si dentro da qual o estoicismo era uma saída conservadora, de direita ou da tendência dos chamados velhos hegelianos, já o ceticismo era uma saída progressista ou dentro da tendência dos chamados jovens hegelianos mas que se limitava a retomar as origens kantianas do sistema hegeliano, as quais, ainda que fossem fundamentais enquanto raízes e princípios de partida do sistema, permaneciam conduzindo ao retorno do sistema hegeliano e não à sua superação e, por isso, esta saída progressista era uma saída centrista e contra a qual se levantava, no interior mesmo da tendência dos jovens hegelianos, a saída epicurista que era a única a ir além do sistema hegeliano porque simplesmente retomava o que havia sido abandonado pelo hegelianismo desde suas origens kantianas e que era o conhecimento da coisa em si como conhecimento da matéria em si, quer dizer, o conhecimento do materialismo e não a recusa desse conhecimento sob a alegação de se entregar à metafísica. Marx percebeu que a tendência estoica permanecia nos limites do sistema hegeliano duma consciência de si absolutamente idealista; que a tendência cética permanecia nos fundamentos idealistas do sistema hegeliano duma consciência de si subjetivamente idealista e que só a tendência epicurista ia além dos princípios idealistas do sistema hegeliano como consciência de si subjetivamente materialista.



Então, a passagem do discípulo hegeliano para a sua maestria é a passagem da disciplina espiritual absoluta hegeliana para a liberdade da energia de trabalho como maestria humana; é a passagem do fim da história do espírito absoluto e do sistema da necessidade humana para a continuidade da história da energia humana de trabalho e para o sistema da liberdade humana.



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