sábado, 27 de junho de 2015

O que é que importa?!




Qual é o momento filosófico atual? Quais são os filósofos e as filosofias da atualidade? Eu pura e simplesmente não sei, ignoro e, nesse sentido, faço da atualidade filosófica uma coisa em si incognoscível, mesmo ela sendo fenômeno e não númeno; também poderia dizer que faço da atualidade filosófica uma atualidade não-filosófica ou, no máximo, uma atualidade filosófica do fim da história e do fim da filosofia, então mesmo ela sendo um fenômeno é sem relevância espiritual ou filosófica; também poderia dizer que faço da atualidade filosófica uma inatualidade ou um anacronismo ideológico que ignora que a atividade filosófica da atualidade é o conhecimento da coisa em si, da matéria em si. Mas que conhecimento da matéria em si é este? A atualidade filosófica não seria naturalmente expressão dum esforço ou atividade de conhecimento dessa matéria ou coisa em si?! Desprezá-la ou ignorá-la não é precisamente desprezar ou ignorar o conhecimento dessa matéria ou coisa em si?! Desprezar e ignorar a atualidade filosófica em nome do conhecimento da matéria ou coisa em si é naturalmente considerar a existência de um objeto, coisa ou matéria cujo conhecimento precede a consciência que se faz dele, portanto, implica considerar que, antes de tudo, é preciso apreciar e conhecer o objeto, coisa ou matéria em si porque o resultado desse conhecimento é uma determinada consciência dessa realidade atual em si e, desse modo, se insere no conjunto de expressões da consciência da atualidade ou no âmbito das expressões da atualidade consciente, espiritual, filosófica, ideológica. Mas o resultado desta atividade de conhecimento, por sua vez, já não se encontra determinado antecipadamente pela consciência, espírito, filosofia, ideologia, quer dizer, de forma mais precisa não se encontra antecipadamente marcado pela objetividade, coisidade, materialidade, sensibilidade da atividade de conhecimento do sujeito e, então, nesse sentido, é preciso apreciar e conhecer, antes de tudo, a própria atividade sensivelmente humana de conhecimento da matéria em si, ou seja, é preciso apreciar e conhecer a própria prática da sensibilidade, da materialidade, da coisidade, da objetividade. Nesse último sentido, o conhecimento da coisa em si é conhecimento do fenômeno, não é conhecimento de algo para além do fenômeno, conhecimento que é impossível, segundo Kant, e que é conhecimento do fenômeno da ideia que suprime o fenômeno do real, segundo Hegel mas que, aqui, no caso de Marx, é conhecimento do fenômeno da matéria realizada e transformada pelo fenômeno objetivo do sujeito humano.


No sentido kantiano o conhecimento é limitado. Só podemos conhecer a superfície sensível e acessível para nós, quer dizer, o concreto, já que a profundidade insensível e inacessível em si é abstrata. A coisa em si abstrata, insensível e inacessível pode ser considerada de duas maneiras. De um lado, ela se encontra sob a superfície de todos os objetos sensíveis que percebemos, quer dizer, se encontra sob a objetividade dos fenômenos. De outro lado, ela se encontra sob a superfície de toda a nossa sensibilidade perceptiva, quer dizer, se encontra sob a nossa subjetividade fenomênica. E é nesse último sentido que Kant desenvolve as relações com a coisa em si como desenvolvimento da atividade prática, ou seja, não é possível conhecer mas é possível praticar a coisa em si, desde que se suponha e estabeleça que ela é tal qual a crença que se faz dela se torna possível praticá-la tal qual a crença que se faz dela e, desse modo, se torna possível desenvolvê-la como prática, quer dizer, como criação prática, como arte, como costume, como moral, como invenção e instituição.


No sentido hegeliano o conhecimento é absoluto. Podemos conhecer a profundidade abstrata porque ela é acessível e se faz sensível não apenas como consciência do fenômeno objetivo mas também como consciência do fenômeno subjetivo, como consciência de si. E, nesse último sentido, o conhecimento fenômeno subjetivo já não é mais limitado, ou seja, a coisa em si sob a subjetividade fenomênica não se limita a ser crença, prática etc. mas também é cognoscível, fenômeno, quer dizer, conhecimento do espírito. Desse modo, as invenções e/ou instituições do espírito não são apenas práticas, costumes, moralidades mas são também e principalmente conhecimentos e/ou ciências do espírito. E, portanto, o desenvolvimento do espírito é o desenvolvimento do conhecimento e/ou da ciência. Se com Kant é a lei moral e o Estado de Direito que se desenvolve, então, com Hegel é a ciência do direito e da moralidade que se desenvolve como Estado do espírito até chegar ao espírito absoluto do Estado.


No sentido marxiano o conhecimento é material. Conhecemos a superfície sensível e acessível para nós, mas também vamos conhecendo a profundidade abstrata que vai se tornando sensível e acessível para nós e aquela que, ainda não é acessível para nós, vem a ser, não por um desenvolvimento do nosso espírito, e sim, por um conhecimento nosso da matéria em si. A ciência que fazemos é uma ciência dos fenômenos, mas a nossa prática não se limita à crença que fazemos da coisa em si nem no conhecimento espiritual da coisa em si e se fixa sim no conhecimento material que fazemos da coisa, objeto ou matéria em si. Desse modo, o desenvolvimento material é o desenvolvimento do conhecimento e/ou da ciência, então, não é a ideologia nem o Estado, quer dizer, a superestrutura que faz o desenvolvimento do conhecimento ou ciência material e sim a infraestrutura da Sociedade Civil, ou seja, a moralidade e o direito são efetivamente realizados pela prática material dos humanos em sociedade/pela prática material da sociedade humana, a qual, a depender dessa prática material se mostra humana ou desumana, moral ou imoral.


Esse dito sentido marxiano, aparentemente é o que mais corresponde à realidade efetiva das sociedades capitalistas nas quais vivemos, onde por toda parte o direito está ligado às práticas materiais dos diferentes sujeitos (“... todos são iguais em direitos... sem discriminação de raça, cor, sexo, classe, riqueza...”), dos diferentes egoístas que só serão livres com o desenvolvimento diversificado de suas práticas materiais de diferentes egoístas em diferentes altruístas, de proprietários individuais (de rendas, de lucros e de salários) em proprietários sociais.



No entanto, que importância tem isto na atualidade filosófica?! Ao que parece nenhuma importância, logo, também não deve ter nenhuma importância material, já que tanto o conhecimento atual e quanto o conhecimento material partem do conhecimento dos fenômenos. Que atualidade é essa? Que materialidade é essa? O que é que importa na atualidade e na materialidade? A vontade, respondem os que observam os fenômenos do terrorismo, do poder imperial da guerra ao terror dos EUA, do “nós podemos” de Obama, do “mudar o mundo” da Coca & Cola, da corrupção por toda parte. Enfim, a vontade também está implicada na falta de vontade, melhor, na vontade de nada, quer dizer, no niilismo. Outros consideram que a vontade e o niilismo estão no fim e o que importa na atualidade e na materialidade é a ausência de sentido, de paradigma. Todos, no entanto, parecem ver por toda parte da atualidade e da materialidade uma criação destrutiva e uma destruição criativa que eterniza o tédio, o terror, o niilismo e também o ânimo, a paz, a mudança como faces duma mesma moeda, dum mesmo real.



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