Qual é o momento filosófico atual? Quais são os filósofos e
as filosofias da atualidade? Eu pura e simplesmente não sei, ignoro e, nesse
sentido, faço da atualidade filosófica uma coisa em si incognoscível, mesmo ela
sendo fenômeno e não númeno; também poderia dizer que faço da atualidade
filosófica uma atualidade não-filosófica ou, no máximo, uma atualidade
filosófica do fim da história e do fim da filosofia, então mesmo ela sendo um
fenômeno é sem relevância espiritual ou filosófica; também poderia dizer que
faço da atualidade filosófica uma inatualidade ou um anacronismo ideológico que
ignora que a atividade filosófica da atualidade é o conhecimento da coisa em
si, da matéria em si. Mas que conhecimento da matéria em si é este? A
atualidade filosófica não seria naturalmente expressão dum esforço ou atividade
de conhecimento dessa matéria ou coisa em si?! Desprezá-la ou ignorá-la não é
precisamente desprezar ou ignorar o conhecimento dessa matéria ou coisa em si?!
Desprezar e ignorar a atualidade filosófica em nome do conhecimento da matéria
ou coisa em si é naturalmente considerar a existência de um objeto, coisa ou
matéria cujo conhecimento precede a consciência que se faz dele, portanto,
implica considerar que, antes de tudo, é preciso apreciar e conhecer o objeto,
coisa ou matéria em si porque o resultado desse conhecimento é uma determinada
consciência dessa realidade atual em si e, desse modo, se insere no conjunto de
expressões da consciência da atualidade ou no âmbito das expressões da
atualidade consciente, espiritual, filosófica, ideológica. Mas o resultado
desta atividade de conhecimento, por sua vez, já não se encontra determinado
antecipadamente pela consciência, espírito, filosofia, ideologia, quer dizer,
de forma mais precisa não se encontra antecipadamente marcado pela
objetividade, coisidade, materialidade, sensibilidade da atividade de
conhecimento do sujeito e, então, nesse sentido, é preciso apreciar e conhecer,
antes de tudo, a própria atividade sensivelmente humana de conhecimento da
matéria em si, ou seja, é preciso apreciar e conhecer a própria prática da
sensibilidade, da materialidade, da coisidade, da objetividade. Nesse último
sentido, o conhecimento da coisa em si é conhecimento do fenômeno, não é
conhecimento de algo para além do fenômeno, conhecimento que é impossível,
segundo Kant, e que é conhecimento do fenômeno da ideia que suprime o fenômeno
do real, segundo Hegel mas que, aqui, no caso de Marx, é conhecimento do
fenômeno da matéria realizada e transformada pelo fenômeno objetivo do sujeito
humano.
No sentido kantiano o conhecimento é limitado. Só podemos
conhecer a superfície sensível e acessível para nós, quer dizer, o concreto, já
que a profundidade insensível e inacessível em si é abstrata. A coisa em si
abstrata, insensível e inacessível pode ser considerada de duas maneiras. De um
lado, ela se encontra sob a superfície de todos os objetos sensíveis que
percebemos, quer dizer, se encontra sob a objetividade dos fenômenos. De outro
lado, ela se encontra sob a superfície de toda a nossa sensibilidade perceptiva,
quer dizer, se encontra sob a nossa subjetividade fenomênica. E é nesse último
sentido que Kant desenvolve as relações com a coisa em si como desenvolvimento
da atividade prática, ou seja, não é possível conhecer mas é possível praticar
a coisa em si, desde que se suponha e estabeleça que ela é tal qual a crença
que se faz dela se torna possível praticá-la tal qual a crença que se faz dela
e, desse modo, se torna possível desenvolvê-la como prática, quer dizer, como
criação prática, como arte, como costume, como moral, como invenção e
instituição.
No sentido hegeliano o conhecimento é absoluto. Podemos
conhecer a profundidade abstrata porque ela é acessível e se faz sensível não
apenas como consciência do fenômeno objetivo mas também como consciência do
fenômeno subjetivo, como consciência de si. E, nesse último sentido, o
conhecimento fenômeno subjetivo já não é mais limitado, ou seja, a coisa em si
sob a subjetividade fenomênica não se limita a ser crença, prática etc. mas
também é cognoscível, fenômeno, quer dizer, conhecimento do espírito. Desse
modo, as invenções e/ou instituições do espírito não são apenas práticas,
costumes, moralidades mas são também e principalmente conhecimentos e/ou
ciências do espírito. E, portanto, o desenvolvimento do espírito é o
desenvolvimento do conhecimento e/ou da ciência. Se com Kant é a lei moral e o
Estado de Direito que se desenvolve, então, com Hegel é a ciência do direito e
da moralidade que se desenvolve como Estado do espírito até chegar ao espírito
absoluto do Estado.
No sentido marxiano o conhecimento é material. Conhecemos a
superfície sensível e acessível para nós, mas também vamos conhecendo a profundidade
abstrata que vai se tornando sensível e acessível para nós e aquela que, ainda
não é acessível para nós, vem a ser, não por um desenvolvimento do nosso
espírito, e sim, por um conhecimento nosso da matéria em si. A ciência que
fazemos é uma ciência dos fenômenos, mas a nossa prática não se limita à crença
que fazemos da coisa em si nem no conhecimento espiritual da coisa em si e se
fixa sim no conhecimento material que fazemos da coisa, objeto ou matéria em si.
Desse modo, o desenvolvimento material é o desenvolvimento do conhecimento e/ou
da ciência, então, não é a ideologia nem o Estado, quer dizer, a superestrutura
que faz o desenvolvimento do conhecimento ou ciência material e sim a
infraestrutura da Sociedade Civil, ou seja, a moralidade e o direito são
efetivamente realizados pela prática material dos humanos em sociedade/pela prática
material da sociedade humana, a qual, a depender dessa prática material se
mostra humana ou desumana, moral ou imoral.
Esse dito sentido marxiano, aparentemente é o que mais
corresponde à realidade efetiva das sociedades capitalistas nas quais vivemos,
onde por toda parte o direito está ligado às práticas materiais dos diferentes
sujeitos (“... todos são iguais em direitos... sem discriminação de raça, cor, sexo,
classe, riqueza...”), dos diferentes egoístas que só serão livres com o
desenvolvimento diversificado de suas práticas materiais de diferentes egoístas
em diferentes altruístas, de proprietários individuais (de rendas, de lucros e de
salários) em proprietários sociais.
No entanto, que importância tem isto na atualidade
filosófica?! Ao que parece nenhuma importância, logo, também não deve ter
nenhuma importância material, já que tanto o conhecimento atual e quanto o
conhecimento material partem do conhecimento dos fenômenos. Que atualidade é
essa? Que materialidade é essa? O que é que importa na atualidade e na
materialidade? A vontade, respondem os que observam os fenômenos do terrorismo,
do poder imperial da guerra ao terror dos EUA, do “nós podemos” de Obama, do “mudar
o mundo” da Coca & Cola, da corrupção por toda parte. Enfim, a vontade
também está implicada na falta de vontade, melhor, na vontade de nada, quer
dizer, no niilismo. Outros consideram que a vontade e o niilismo estão no fim e
o que importa na atualidade e na materialidade é a ausência de sentido, de
paradigma. Todos, no entanto, parecem ver por toda parte da atualidade e da
materialidade uma criação destrutiva e uma destruição criativa que eterniza o
tédio, o terror, o niilismo e também o ânimo, a paz, a mudança como faces duma
mesma moeda, dum mesmo real.
Nenhum comentário:
Postar um comentário