quarta-feira, 24 de junho de 2015

Compreensão ou confusão?!




O real e o imaginário/real imaginário e imaginário real. O real fornece as imagens para o imaginário, então sem o real o imaginário não imagina, mas e o real realiza sem o imaginário? Kant dizia que sim, que o real realiza sem o imaginário, mas dizia também que a realização do real sem imagens é incognoscível porque nosso acesso ao conhecimento do real se faz pelo imaginário. (É importante saber que o imaginário não é composto só pela visão e que o tato, o olfato, o paladar e a audição também fazem parte da composição do imaginário).


Então, segundo Kant, nosso acesso não é ao real em si nem nosso conhecimento é do real em si porque nosso acesso é ao real imaginário e nosso conhecimento também é do real imaginário.


A partir do real imaginário já é possível para o imaginário imaginar e é o que ele faz e a tal ponto que é capaz de desenvolver o imaginário para que ele venha a ser o imaginário real, quer dizer, venha a inverter a via da produção do imaginário que se origina no fornecimento de imagens do real para o imaginário e se torne uma via da produção do imaginário que se origina no fornecimento de imagens do imaginário para o real. Esta novidade do imaginário real, quer dizer, do imaginário que fornece imagens para o real é aquela que Hegel ressalta ou destaca com sua filosofia e que ele chama de espírito.


O problema do real sem imagens, melhor, do real que se realiza sem a presença do imaginário para obter imagens do real é saber se o real sem imagens ainda é tal qual ele aparece para o imaginário, para os sentidos e para nós. Se a resposta for negativa, isto é, o real sem imagens, o real em si e sem o imaginário é diferente do real para nós, do real com imagens ou do real imaginário, então, por sua vez, o real imaginário, o real com imagens ou o real para nós também é completamente diferente do real em si. O real em si é inacessível para nós e nós nunca acessamos o real em si porque só acessamos o real para nós, o real imaginário, então, o desenvolvimento lógico dessa nossa posição de acesso exclusivo ao real imaginário, ao real para nós é chegar ao imaginário real, ao desenvolvimento de nós para o real, quer dizer, é efetivamente desenvolver o imaginário como real, o imaginário real, o mundo real da ideia, o mundo humano mas não o mundo real do real, o mundo do real em si.


O resultado dessa posição de Kant desenvolvida por Hegel foi partir de um idealismo do sujeito e chegar a um idealismo absoluto que afirma o imaginário real como o em si e nega o real em si. Os jovens hegelianos que herdaram este conhecimento que chegou até o imaginário real, ao espírito sentiram a falta do real em si que tinha sido negado por Hegel e que, ainda que afirmado por Kant, permanecia inacessível e isto porque o imaginário real, o espírito e/ou o saber absoluto não os satisfazia como prática porque permanecia teórico e eles queriam que fosse prático, real e não tão somente imaginário, pensamento, ideia. Então, é porque os discípulos de Hegel querem o imaginário real e/ou o espírito ao qual Hegel chegou como prática, como real e não apenas como imaginário que eles se voltam para a retomada do real em si e, por aí, em primeiro lugar, para a retomada de Kant, que ainda afirmava o real em si, e que Hegel, na sua caminhada para o imaginário real, terminou por negar o real em si e afirmar o imaginário em si como o absoluto.


De um lado, se encontra o real imaginário ou o limite do espírito que não acessa o real em si e sem limites, do outro lado, se encontra o imaginário real ou o espírito absoluto que acessa o imaginário em si e sem limites. Esta última realização filosófica, a do conhecimento absoluto do imaginário em si, significa um grande avanço do conhecimento do espírito em si, no entanto, os discípulos dessa realização filosófica do conhecimento do espírito em si se defrontam com um abismo crescente entre o conhecimento filosófico do espírito em si e sua realização mundana como conhecimento mundano da realidade para si, ou seja, se defrontam com a contradição crescente entre o feito de Hegel do conhecimento absoluto do espírito em si e o feito de Kant do conhecimento limitado da realidade para si. E isto porque o espírito que alcançou o autoconhecimento não conseguiu alcançar, por outro lado, o conhecimento do real em si e, assim, ficou limitado ao conhecimento do real para si. Kant colocou as condições de possibilidade para o conhecimento do real para nós ou dos fenômenos, ou seja, o conhecimento possível é o conhecimento do real imaginário e não do real em si. Hegel parte dessas condições de possibilidade postas por Kant, parte do conhecimento do real imaginário para chegar ao conhecimento do imaginário real em si, do espírito em si ou do absoluto, mas também estabelece condições de possibilidade para chegar ao conhecimento do absoluto, do espírito em si ou do imaginário real em si e, a mais importante condição, é que se tenha chegado ao fim da história, ao fim do espaço e do tempo, ao fim do real imaginário, ao fim da dialética porque é dentro dessa condicionalidade que se efetiva o imaginário real em si. Mas o fim da história, o fim do espaço e do tempo, o fim do real imaginário, o fim da dialética que é a efetivação do absoluto, do espírito em si e do imaginário real em si significa precisamente a interdependência entre o real imaginário que se dissolve no imaginário real e do imaginário real que suprime todo e qualquer desenvolvimento do real imaginário de modo que a realidade imaginária para si estanca para que tenha vez o estancamento na imaginária realidade em si.


Ora, os discípulos percebem aí nesse fim generalizado também o fim da filosofia e, mais especificamente, o fim da filosofia idealista que com Hegel chegou ao idealismo absoluto. Os discípulos se voltam para fora da filosofia e para fora do idealismo e não necessariamente porque queiram mas porque se sentem expulsos do sistema hegeliano já que o conhecimento absoluto do espírito em si satisfaz Hegel mas não os discípulos que adotaram o conhecimento do espírito absoluto em si de Hegel como filosofia ou espírito para si com o qual percorrem ou pretendem percorrer o desenvolvimento até chegar ao espírito absoluto em si neles próprios. Ora, Hegel parece cortar essa possibilidade ao fazer coincidir a chegada aos absolutos com a chegada aos fins, ao fazer coincidir a filosofia do espírito para si com a chegada ao espírito em si da filosofia, ao fazer coincidir o cume da sua filosofia com o conhecimento absoluto do espírito de Hegel em si mesmo, ou seja, Hegel coincide a realização de sua filosofia consigo mesmo e torna impossível fazer história com a sua filosofia, torna impossível continuar a história do idealismo absoluto de Hegel. Os discípulos se sentem não só expulsos mas igualmente encaminhados por Hegel para o que ficou fora do percurso do idealismo desde seu início com Kant até chegar ao idealismo absoluto de Hegel, portanto, encaminhados e expulsos pelo mestre para o problema filosófico que os discípulos precisam enfrentar desenvolvendo respostas próprias e que é o problema da prática material em si ou da efetivação do imaginário real em si no real em si. O problema do conhecimento da coisa em si é o problema do conhecimento material em si, é o problema do conhecimento materialista, logo, é o problema do materialismo que em todo o desenvolvimento do idealismo até ao absoluto foi deixado de fora e interdito por ser considerado impossível conhecer a coisa, o objeto ou a matéria em si.


Os discípulos obrigados logicamente pelo sistema hegeliano a ir para o materialismo, a ir para a prática começaram a tentar responder positivamente ao problema do real sem a presença de imaginário, quer dizer, a considerar que o real emite imagens sensíveis mesmo na ausência de percepções sensíveis das mesmas, ou seja, a considerar que as imagens sensíveis não são uma produção exclusiva dos seres portadores de imaginários sensíveis, logo, passaram a considerar que o sensível ou a sensibilidade é comum ao real e ao imaginário, portanto, a considerar que o espaço e o tempo não são formas a priori da sensibilidade imaginária animal e/ou humana porque são sim formas sensíveis das próprias coisas em si. Mas, assim o conhecimento do real sensível é um conhecimento do real imaginário mas porque as imagens do real natural saem efetivamente do real natural para adentrar no imaginário animal e humano, sendo este último o imaginário realmente mais significativo. As imagens se desprendem imediatamente da superfície dos corpos e não da interioridade dos corpos, então, nesse sentido, as imagens das coisas são normalmente da exterioridade das coisas ou corpos e não da interioridade das coisas ou corpos, ou seja, a possibilidade do conhecimento começa pela exterioridade das coisas ou corpos, começa pela objetividade e se desenvolve historicamente com acessos à interioridade das coisas ou corpos, com acessos à subjetividade, ainda que esta última seja mais efetiva e significativa nos humanos.



Conhecer a coisa em si ou a matéria em si é possível mas é dificultoso porque o acesso do conhecimento é fácil na superfície da matéria e difícil na interioridade da matéria e o aprofundamento do conhecimento da matéria é histórico de modo que todo o desenvolvimento dos instrumentos técnicos e tecnológicos humanos são igualmente desenvolvimento histórico do conhecimento humano da matéria. Mas todo esse conhecimento histórico da matéria é produzido pelo trabalho humano de modo que o conhecimento histórico da subjetividade humana é o conhecimento histórico das condições humanas libertas do trabalho humano porque é este trabalho humano e não o espírito humano quem efetivamente realiza o desenvolvimento histórico do conhecimento e a força humana de trabalho, que é a base de todo e qualquer trabalho humano, se encontra aprisionada e explorada pelo processo de produção do conhecimento histórico humano. Para o materialismo o importante não é chegar ao desenvolvimento do espírito humano em si e sim ao desenvolvimento do ser e/ou do sujeito humano em si.



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