O real e o imaginário/real imaginário e imaginário real. O
real fornece as imagens para o imaginário, então sem o real o imaginário não
imagina, mas e o real realiza sem o imaginário? Kant dizia que sim, que o real
realiza sem o imaginário, mas dizia também que a realização do real sem imagens
é incognoscível porque nosso acesso ao conhecimento do real se faz pelo
imaginário. (É importante saber que o imaginário não é composto só pela visão e
que o tato, o olfato, o paladar e a audição também fazem parte da composição do
imaginário).
Então, segundo Kant, nosso acesso não é ao real em si nem
nosso conhecimento é do real em si porque nosso acesso é ao real imaginário e
nosso conhecimento também é do real imaginário.
A partir do real imaginário já é possível para o imaginário
imaginar e é o que ele faz e a tal ponto que é capaz de desenvolver o
imaginário para que ele venha a ser o imaginário real, quer dizer, venha a
inverter a via da produção do imaginário que se origina no fornecimento de
imagens do real para o imaginário e se torne uma via da produção do imaginário
que se origina no fornecimento de imagens do imaginário para o real. Esta
novidade do imaginário real, quer dizer, do imaginário que fornece imagens para
o real é aquela que Hegel ressalta ou destaca com sua filosofia e que ele chama
de espírito.
O problema do real sem imagens, melhor, do real que se
realiza sem a presença do imaginário para obter imagens do real é saber se o
real sem imagens ainda é tal qual ele aparece para o imaginário, para os
sentidos e para nós. Se a resposta for negativa, isto é, o real sem imagens, o
real em si e sem o imaginário é diferente do real para nós, do real com imagens
ou do real imaginário, então, por sua vez, o real imaginário, o real com
imagens ou o real para nós também é completamente diferente do real em si. O
real em si é inacessível para nós e nós nunca acessamos o real em si porque só
acessamos o real para nós, o real imaginário, então, o desenvolvimento lógico
dessa nossa posição de acesso exclusivo ao real imaginário, ao real para nós é
chegar ao imaginário real, ao desenvolvimento de nós para o real, quer dizer, é
efetivamente desenvolver o imaginário como real, o imaginário real, o mundo
real da ideia, o mundo humano mas não o mundo real do real, o mundo do real em
si.
O resultado dessa posição de Kant desenvolvida por Hegel foi
partir de um idealismo do sujeito e chegar a um idealismo absoluto que afirma o
imaginário real como o em si e nega o real em si. Os jovens hegelianos que
herdaram este conhecimento que chegou até o imaginário real, ao espírito
sentiram a falta do real em si que tinha sido negado por Hegel e que, ainda que
afirmado por Kant, permanecia inacessível e isto porque o imaginário real, o
espírito e/ou o saber absoluto não os satisfazia como prática porque permanecia
teórico e eles queriam que fosse prático, real e não tão somente imaginário,
pensamento, ideia. Então, é porque os discípulos de Hegel querem o imaginário
real e/ou o espírito ao qual Hegel chegou como prática, como real e não apenas
como imaginário que eles se voltam para a retomada do real em si e, por aí, em
primeiro lugar, para a retomada de Kant, que ainda afirmava o real em si, e que
Hegel, na sua caminhada para o imaginário real, terminou por negar o real em si
e afirmar o imaginário em si como o absoluto.
De um lado, se encontra o real imaginário ou o limite do
espírito que não acessa o real em si e sem limites, do outro lado, se encontra
o imaginário real ou o espírito absoluto que acessa o imaginário em si e sem
limites. Esta última realização filosófica, a do conhecimento absoluto do
imaginário em si, significa um grande avanço do conhecimento do espírito em si,
no entanto, os discípulos dessa realização filosófica do conhecimento do
espírito em si se defrontam com um abismo crescente entre o conhecimento
filosófico do espírito em si e sua realização mundana como conhecimento mundano
da realidade para si, ou seja, se defrontam com a contradição crescente entre o
feito de Hegel do conhecimento absoluto do espírito em si e o feito de Kant do
conhecimento limitado da realidade para si. E isto porque o espírito que
alcançou o autoconhecimento não conseguiu alcançar, por outro lado, o
conhecimento do real em si e, assim, ficou limitado ao conhecimento do real
para si. Kant colocou as condições de possibilidade para o conhecimento do real
para nós ou dos fenômenos, ou seja, o conhecimento possível é o conhecimento do
real imaginário e não do real em si. Hegel parte dessas condições de
possibilidade postas por Kant, parte do conhecimento do real imaginário para
chegar ao conhecimento do imaginário real em si, do espírito em si ou do
absoluto, mas também estabelece condições de possibilidade para chegar ao
conhecimento do absoluto, do espírito em si ou do imaginário real em si e, a
mais importante condição, é que se tenha chegado ao fim da história, ao fim do
espaço e do tempo, ao fim do real imaginário, ao fim da dialética porque é
dentro dessa condicionalidade que se efetiva o imaginário real em si. Mas o fim
da história, o fim do espaço e do tempo, o fim do real imaginário, o fim da
dialética que é a efetivação do absoluto, do espírito em si e do imaginário
real em si significa precisamente a interdependência entre o real imaginário
que se dissolve no imaginário real e do imaginário real que suprime todo e
qualquer desenvolvimento do real imaginário de modo que a realidade imaginária
para si estanca para que tenha vez o estancamento na imaginária realidade em si.
Ora, os discípulos percebem aí nesse fim generalizado também
o fim da filosofia e, mais especificamente, o fim da filosofia idealista que
com Hegel chegou ao idealismo absoluto. Os discípulos se voltam para fora da
filosofia e para fora do idealismo e não necessariamente porque queiram mas
porque se sentem expulsos do sistema hegeliano já que o conhecimento absoluto
do espírito em si satisfaz Hegel mas não os discípulos que adotaram o
conhecimento do espírito absoluto em si de Hegel como filosofia ou espírito
para si com o qual percorrem ou pretendem percorrer o desenvolvimento até
chegar ao espírito absoluto em si neles próprios. Ora, Hegel parece cortar essa
possibilidade ao fazer coincidir a chegada aos absolutos com a chegada aos
fins, ao fazer coincidir a filosofia do espírito para si com a chegada ao
espírito em si da filosofia, ao fazer coincidir o cume da sua filosofia com o
conhecimento absoluto do espírito de Hegel em si mesmo, ou seja, Hegel coincide
a realização de sua filosofia consigo mesmo e torna impossível fazer história
com a sua filosofia, torna impossível continuar a história do idealismo
absoluto de Hegel. Os discípulos se sentem não só expulsos mas igualmente encaminhados
por Hegel para o que ficou fora do percurso do idealismo desde seu início com
Kant até chegar ao idealismo absoluto de Hegel, portanto, encaminhados e
expulsos pelo mestre para o problema filosófico que os discípulos precisam enfrentar
desenvolvendo respostas próprias e que é o problema da prática material em si
ou da efetivação do imaginário real em si no real em si. O problema do
conhecimento da coisa em si é o problema do conhecimento material em si, é o
problema do conhecimento materialista, logo, é o problema do materialismo que
em todo o desenvolvimento do idealismo até ao absoluto foi deixado de fora e
interdito por ser considerado impossível conhecer a coisa, o objeto ou a
matéria em si.
Os discípulos obrigados logicamente pelo sistema hegeliano a
ir para o materialismo, a ir para a prática começaram a tentar responder
positivamente ao problema do real sem a presença de imaginário, quer dizer, a
considerar que o real emite imagens sensíveis mesmo na ausência de percepções
sensíveis das mesmas, ou seja, a considerar que as imagens sensíveis não são
uma produção exclusiva dos seres portadores de imaginários sensíveis, logo,
passaram a considerar que o sensível ou a sensibilidade é comum ao real e ao
imaginário, portanto, a considerar que o espaço e o tempo não são formas a priori
da sensibilidade imaginária animal e/ou humana porque são sim formas sensíveis
das próprias coisas em si. Mas, assim o conhecimento do real sensível é um
conhecimento do real imaginário mas porque as imagens do real natural saem
efetivamente do real natural para adentrar no imaginário animal e humano, sendo
este último o imaginário realmente mais significativo. As imagens se desprendem
imediatamente da superfície dos corpos e não da interioridade dos corpos,
então, nesse sentido, as imagens das coisas são normalmente da exterioridade
das coisas ou corpos e não da interioridade das coisas ou corpos, ou seja, a
possibilidade do conhecimento começa pela exterioridade das coisas ou corpos,
começa pela objetividade e se desenvolve historicamente com acessos à
interioridade das coisas ou corpos, com acessos à subjetividade, ainda que esta
última seja mais efetiva e significativa nos humanos.
Conhecer a coisa em si ou a matéria em si é possível mas é
dificultoso porque o acesso do conhecimento é fácil na superfície da matéria e
difícil na interioridade da matéria e o aprofundamento do conhecimento da
matéria é histórico de modo que todo o desenvolvimento dos instrumentos
técnicos e tecnológicos humanos são igualmente desenvolvimento histórico do
conhecimento humano da matéria. Mas todo esse conhecimento histórico da matéria
é produzido pelo trabalho humano de modo que o conhecimento histórico da
subjetividade humana é o conhecimento histórico das condições humanas libertas
do trabalho humano porque é este trabalho humano e não o espírito humano quem
efetivamente realiza o desenvolvimento histórico do conhecimento e a força
humana de trabalho, que é a base de todo e qualquer trabalho humano, se
encontra aprisionada e explorada pelo processo de produção do conhecimento
histórico humano. Para o materialismo o importante não é chegar ao
desenvolvimento do espírito humano em si e sim ao desenvolvimento do ser e/ou
do sujeito humano em si.
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