quinta-feira, 18 de junho de 2015

Que fazer, aqui e agora, com esse uso público da razão e da liberdade humanas?!




Que interesse existe em interesse? Que existência existe em existir? Para as perguntas sem reposta é preciso desenvolver respostas sem perguntas?! Mas, em geral, logicamente, é impossível responder sem que seja a uma pergunta, melhor, uma resposta sem uma pergunta não é conceitualmente uma resposta porque não responde a uma pergunta, seja porque não existe nem foi feita a pergunta, seja porque não responde à pergunta que existe e que foi feita, mas responde sim a uma pergunta que ou não existe nem foi feita ou é ignorada/incognoscível.


Que é o melhor: ignorar ou saber?


A primeira suposição é que a pergunta sequer se coloca quando o melhor é ignorar, já que simplesmente é ignorada. De modo que a segunda suposição é que ela se coloca quando o pior é saber, posto ser impossível ignorá-la.


No primeiro caso, ainda não se entrou naquilo que, na Bíblia, foi chamado de “ciência do bem e do mal”. Enquanto, no segundo caso, já se entrou precisamente naquilo que foi chamado na Bíblia de “ciência do bem e do mal”. O estado de inocência e de ignorância do bem e do mal se encontram lado a lado, enquanto que o estado de responsabilidade e de conhecimento do bem e do mal também se encontram caminhando lado a lado.


Na Grécia Antiga também se fez relação entre ignorância e saber, inocência e responsabilidade, por exemplo, Epicuro refletia assim “Os animais, que não puderam convencionar algum pacto de não prejudicar nem de ser prejudicado, não recebem justiça nem sofrem injustiça. O mesmo ocorre com os povos que, seja por não poder fazer, seja por não querer fazer, não fizeram tais pactos de não prejudicar nem ser prejudicado.” “A justiça nada é por si mesma; mas no trato comum e recíproco se fazem algumas convenções por todas as partes de não causar nem receber danos.” “A injustiça não é um mal por si mesma, mas pelo medo de que não poderá se ocultar aos castigadores dela.”


A Bíblia estabelece que, depois de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, se passa a ter a responsabilidade de viver às custas do suor do próprio rosto pelo trabalho e a usar roupa para proteger e esconder a nudez, por isso, muitas vezes se interpreta o consumo do fruto como a descoberta e exercício da sexualidade. Mas, antes de ser a sexualidade, ainda que nela mesma esteja presente, parece ser a descoberta no exercício “do trato comum e recíproco" da possibilidade "de causar prejuízo e de ser prejudicado”.


Conhecimento, vergonha, convenção, trabalho, roupa, educação são um conjunto não natural que resulta do uso do artifício e/ou do raciocínio nas relações com as circunstâncias naturais, portanto, são forças humanas modificadoras das circunstâncias naturais e criadoras das circunstâncias convencionais, artificiais ou contextuais. E as forças humanas modificadoras, quer dizer, aquelas que não agem apenas por impulso natural mas que retornando a si agem de forma consciente, com conhecimento de si ou de forma convencional, são, antes de tudo, práticas de trabalho e/ou de disciplina para estabelecer o pacto de não cometer e nem sofrer danos, para estabelecer o pacto liberto do cometer e do sofrer danos, para estabelecer a convenção da liberdade que não comete nem sofre danos, logo, são antes de tudo práticas de trabalho e/ou de disciplina sobre as necessidades naturais que visam não apenas a satisfação das necessidades naturais mas também a saída de suas imposições do cometer e do sofrer danos para um mundo da liberdade de não promover nem sofrer danos.


A oferta do paraíso e a perda do mesmo pelo consumo do fruto da árvore do bem e do mal ou pelo estabelecimento do pacto de não cometer nem sofrer prejuízos e a procura do paraíso e o ganho do mesmo pela prática do trabalho e da disciplina de desenvolver um pacto de não sofrer e de não cometer danos, quer dizer, o pacto de um mundo livre, o pacto de um mundo da liberdade.


A infância e a menoridade são tidas por paradisíacas e, até mesmo, existem leis protegendo a infância e os menores de trabalhar e das responsabilidades dos adultos e dos maiores. Mas o trabalho infantil já foi normal e também o trabalho escravo já foi normal. E, mesmo sendo proibido, o trabalho infantil continua ocorrendo ainda hoje e o mesmo acontece com o trabalho escravo, apesar de também ser proibido.


As lutas contra o trabalho infantil e contra o trabalho escravo também foram lutas pela infância e pela menoridade livres do trabalho e contra o trabalho escravo de maiores sem maioridade, responsabilidade ou liberdade e pelo trabalho livre dos maiores com maioridade, responsabilidade ou liberdade. São as lutas e os trabalhos que libertam e disciplinam ao estabelecer para a infância e a menoridade uma proteção contra os danos do trabalho e da responsabilidade (de cometer e sofrer danos) para quem necessita e muito de atenção e de cuidado para desenvolver o pacto de não cometer nem sofrer danos, de quem precisa muito de cuidado e de atenção para desenvolver o pacto da convenção, do artificio, do raciocínio, de quem precisa muito de cuidado e de atenção para desenvolver a educação, melhor ainda, de quem precisa de cuidado e de atenção para desenvolver a força humana modificadora das circunstâncias naturais e históricas, desenvolver a força humana de trabalho disciplinadora e criadora das circunstâncias naturais e históricas.


Então, a ausência de trabalho infantil e de trabalho escravo bem como a presença da educação infantil, de menores e de maiores são um critério interno, nestas condições sociais humanas, de progressão do pacto de não sofrer nem promover danos, de desenvolvimento do pacto de criação e fruição do mundo da liberdade. As máquinas e, dentre elas, em especial, os computadores, mas também os celulares, os tabletes etc. aproximam os mundos da educação e do trabalho de uma maneira que tende a fazer da educação e do trabalho tradicionais ou existentes até agora algo ultrapassado. Nessas condições fica muito difícil discernir entre educação e trabalho. Mais do que isso entram em crise tanto o mundo da educação quanto o mundo do trabalho. As escolas deixam de existir como lugar de desenvolvimento da autoestima, do mérito e da educação formal. As fábricas, as indústrias e o trabalho formal se reduzem de um modo que parece até que estão a desaparecer e surge como que do nada e se expande ruidosa e globalmente os ditos mercado informal e trabalho informal. Mas também surgem novas experiências educacionais, com escolas que usam a informática e a informalidade no desenvolvimento da autoestima e do mérito, que aproximam educação e trabalho. Novas experiências de formação e de formalização do trabalho no mundo do trabalho que aproximam o trabalhador individual do empreendedor individual, o empregado do patrão sob a forma do trabalhador ser seu próprio patrão, mas isto num mundo que expande o microempreendedor, a microempresa etc. e, ao mesmo tempo, reduz e concentra a grande empresa.


Nas cadeias, onde deveria existir a recuperação do criminoso que não respeita o pacto de não sofrer e não cometer danos, onde deveria, portanto, existir educação e trabalhos voltados para o aprendizado e desenvolvimento do pacto de não promover nem sofrer danos, o que ocorre é o desenvolvimento do crime organizado dividindo os espaços das cadeias de acordo com o domínio das facções, organizações ou grupos criminosos de cada território; o que ocorre é a porosidade total das cadeias de modo que os criminosos comandam suas organizações e introduzem novas modalidades criminosas desde suas celas nas cadeias; não são apenas os celulares que confirmam essa porosidade e permitem a comunicação da cadeia com o mundo mas são os tráficos de armas, de drogas etc. que mostram que as cadeias são espaços de exercícios e aperfeiçoamentos do crime organizado. As cadeias deixaram de ser os ditos e previstos lugares de recuperação do prisioneiro e passaram, cada vez mais, a mostrar, sem nenhuma ocultação, o que elas, como lugares malditos e imprevistos, são: verdadeiras fábricas ou indústrias de produção do crime organizado mas também verdadeiros centros de graduação e pós-graduação em crime organizado.


É ou não é do interesse desses centros de produção e de formação do crime organizado que, cada vez mais, essa produção e formação de criminosos organizados ocorra mais cedo? Ou seja, que, cada vez mais, menores se tornem maiores e adentrem nesses centros de produção e de formação do crime organizado?! Ou, melhor ainda, que tenha início mais cedo essa produção e formação de criminosos por meio de novos estabelecimentos voltados exclusivamente para os menores criminosos que são punidos como maiores por adquirir a maioridade criminal?!


Quando os mundos da educação e do trabalho se aproximam de maneira que máquinas realizam trabalhos facilmente por meio da educação, então se abre a possibilidade de se trabalhar usando quase que exclusivamente a inteligência educacional, logo, de se reduzir a atividade de trabalho que usa quase que exclusivamente o risco e a dureza do trabalho ou também a monotonia e mesmo a burrice do trabalho. Nesses mundos, que se aproximam cada vez mais, estão sendo requeridas mudanças que satisfaçam os sentidos desses mundos da educação e do trabalho.


Do que se reclama atualmente (na França, em especial, se entendo bem o que ouço um amigo que mora lá falar, mas também aqui no Brasil)? Do lado do trabalho? Que ocorreu uma desindustrialização; que ocorreu uma redução da classe operária; que não existem mais as massas operárias de antigamente; que não existe mais trabalho para os jovens; que existe uma crise da previdência por falta de sustentabilidade da mesma num mundo que reduz continuamente a população economicamente ativa. E do lado da educação? Que para grande parte ou, até mesmo, a maioria dos que se formam não existe trabalho; que permanecer estudando a vida inteira nas universidades se tornou uma “profissão”; que grande parte dos jovens que se formam numa ou mais profissões nunca chegará a trabalhar nelas; que desse modo os gastos e os custos da previdência social só aumentam sem que sua base de arrecadação e sustentação pare de se reduzir continuamente.


De imediato se percebe que o ideal para os trabalhadores seria que uma redução do tempo de trabalho fosse acompanhada duma redução da jornada de trabalho. De imediato se seria tentado a dizer que o ideal para os estudantes seria o oposto, ou seja, que uma expansão do tempo de estudo fosse acompanhada duma expansão da jornada de estudo. No entanto, a redução da jornada de trabalho dos trabalhadores levaria estes a usarem seu tempo livre para desenvolver uma jornada de estudo e, desse modo, iriam aumentar em muito a quantidade dos estudantes, os quais no caso duma redução da jornada de trabalho efetivamente significativa iriam experimentar participar do mundo do trabalho, logo, estariam, na verdade, interessados numa redução do tempo de estudos. No entanto, o problema é que com as novas tecnologias os mundos da educação e do trabalho estão se aproximando e a educação parece estar se tornando preponderante para o uso e o desenvolvimento das novas tecnologias, logo, a expansão do mundo da educação interessa a todos e, em especial, ao mundo do trabalho, o qual, por sua vez, só poderá verdadeiramente se beneficiar duma expansão do mundo e do tempo da educação se ocorrer uma drástica e radical redução do tempo de trabalho de modo que o mundo do trabalho se torne ele próprio cada vez mais um mundo da educação, quer dizer, um mundo livre do tempo de trabalho e, para o qual, o tempo livre seja cada vez mais o tempo da educação. Afinal, o tempo da educação era o tempo livre do trabalho da infância e dos menores, mas também foi o tempo livre do trabalho usado pelos filósofos, pelos iluministas, pelos maiores para desenvolver o uso público da razão, da inteligência, do intelecto ou da educação para estabelecer em bases firmes o pacto de não sofrer nem cometer danos, o pacto do mundo da liberdade. Ora, as novas tecnologias criam as possibilidades de um desenvolvimento muito mais amplo, extenso e expansivo do tempo livre do trabalho como tempo da educação e duma educação que entra no mundo do trabalho de um modo que continuamente suprime tempo de trabalho e aumenta tempo livre ou de educação ou de uso público da razão, da inteligência, do intelecto, enfim, aumenta o uso público do tempo de educação, logo, aumenta o uso público do mundo da liberdade que não comete nem sofre danos. Então, porque, ante tais possibilidades de um mundo ou reino da liberdade, caminhamos para o eterno retorno de um mundo ou reino da necessidade que permanece cometendo e sofrendo quebras do pacto de não cometer nem sofrer danos, permanece sofrendo e cometendo danos ao desenvolvimento dum mundo da liberdade?!


O atual debate em torno da lei da maioridade penal para os menores não é revelador precisamente desse eterno retorno da regressão no estabelecimento do pacto de não cometer nem sofrer danos?! Não é revelador da redução de tudo ao simples controle ou repressão duma natureza que não foi nem é ainda capaz de fazer o pacto de não sofrer nem cometer danos?! Não é revelador duma regressão que, em lugar de proteger a infância e os menores com um tempo livre do trabalho e imerso na educação, teme a infância e os menores com tempo livre do trabalho e imerso no crime?! E que soluciona o problema dessa infância e desses menores com tempo livre do trabalho e imersos no crime lançando-os mais fundo no poço do crime, ou seja, nas instituições de recolhimento e aprisionamento que são dominadas pelo crime organizado que nelas produz e forma criminosos graduados e pós-graduados?! Não é revelador de quão pouco o uso público da razão ou da liberdade é efetivamente um uso público da razão ou da liberdade humanas, posto que se revela um uso público duma razão ou duma liberdade que reduz o uso público da razão ou da liberdade humanas mas aumenta o uso público duma razão ou duma liberdade desumanas, quer dizer, políticas?!



Que fazer, aqui e agora, com esse uso público da razão e da liberdade humanas?!



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