quinta-feira, 25 de junho de 2015

O materialismo do discípulo hegeliano





A relação de Kant estabelecendo um fosso entre o real em si e o real para nós, entre o real em si e o real imaginário serviu para que Hegel desenvolvesse o conhecimento do real imaginário até chegar ao imaginário real negando a existência e persistência do real em si. Os discípulos de Hegel, da filosofia do espírito absoluto ou do idealismo absoluto, insatisfeitos com este resultado, se voltaram para o contrário do espírito ou da ideia, se voltaram para a matéria. A matéria já se encontrava marcada pelo fosso de Kant entre o real em si e o real para nós ou imaginário, então ou a matéria é incognoscível por ser o real em si inacessível ou ela é cognoscível por ser acessível o real em si. Porém, nesse último caso, o real em si não é algo separado de nós, logo, não é mais exatamente somente em si e sim também em nós. Ora, nesse último caso, de ser também em nós, volta a valer com força o feito de Hegel, já que Hegel encontrou o real em nós no imaginário real ou no espírito. No entanto, o real em nós e não separado do real em si é apenas o imaginário real ou o espírito? Não é, antes disso, a nossa atividade sensível por ser ela tanto nossa quanto do próprio real "em si”? Se é a nossa atividade sensível e imaginária e não separada da atividade sensível e imaginária do real, então, a nova maneira de lidar com os fenômenos é parecida com a de Kant que só conhece os fenômenos e diferente da de Kant porque conhece a coisa ou o real em si, logo, é parecida com a de Hegel que afirma conhecer a coisa ou o real em si, mas também é diferente da de Hegel porque afirma conhecer a coisa ou o real em si como movimento ou atividade material sensível e não exclusivamente como movimento ou atividade ideal imaginária.


Marx é um discípulo hegeliano consequente dessa passagem do idealismo para o materialismo. E como o conhecimento da coisa, do real ou da matéria em si é acessível e, portanto, está presente em nós que, aliás, somos quem efetivamente produz o conhecimento, então, é em nós que se encontra a coisa, o real ou a matéria em si, quer dizer, é em nós que se produz o conhecimento, a consciência, a ciência e/ou a tecnologia da coisa, do real ou da matéria, mas, não exclusivamente como espírito e sim como atividade espacial e temporal humana, como atividade sensivelmente humana, como prática, como atividade humana criativa, como trabalho humano.


A Natureza é sensível, material, real com imagens, mas são, principalmente, e, talvez, até, exclusivamente, os humanos que, com sua atividade naturalmente sensível, material, real com imagens, transformam sensível, material e realmente as imagens dos corpos/as formas das coisas da Natureza. De modo que o conhecimento humano não é ou não se limita a um desenvolvimento espiritual, a um desenvolvimento do espírito até chegar ao espírito absoluto. E isto porque o desenvolvimento do conhecimento humano se faz como um desenvolvimento material, um desenvolvimento da matéria humanamente transformada até chegar a um tal desenvolvimento material humano no qual a matéria natural transformada humanamente alcançou um tal grau de transformação e de incorporação da racionalidade humana do conhecimento humano que é muito mais o chamado software do que o chamado hardware que passa a ter papel preponderante na atividade sensível humana. Noutras palavras, o discípulo materialista quer realizar a filosofia do espírito absoluto do mestre Hegel como desenvolvimento material da atividade sensivelmente humana e não como desenvolvimento ideal da atividade abstratamente humana, ainda que queira precisamente conseguir que a atividade material humana seja efetivamente atividade abstratamente humana. Ou seja, o processo de automação e de libertação humana do trabalho, o qual, aliás, já havia sido cogitado por Aristóteles que por meio da introdução do autômato viu a libertação do escravo do trabalho e a expansão absoluta do ócio intelectivo próprio do filósofo e da filosofia.



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