A relação de Kant estabelecendo um fosso entre o real em si
e o real para nós, entre o real em si e o real imaginário serviu para que Hegel
desenvolvesse o conhecimento do real imaginário até chegar ao imaginário real
negando a existência e persistência do real em si. Os discípulos de Hegel, da
filosofia do espírito absoluto ou do idealismo absoluto, insatisfeitos com este
resultado, se voltaram para o contrário do espírito ou da ideia, se voltaram
para a matéria. A matéria já se encontrava marcada pelo fosso de Kant entre o
real em si e o real para nós ou imaginário, então ou a matéria é incognoscível
por ser o real em si inacessível ou ela é cognoscível por ser acessível o real
em si. Porém, nesse último caso, o real em si não é algo separado de nós, logo,
não é mais exatamente somente em si e sim também em nós. Ora, nesse último
caso, de ser também em nós, volta a valer com força o feito de Hegel, já que
Hegel encontrou o real em nós no imaginário real ou no espírito. No entanto, o
real em nós e não separado do real em si é apenas o imaginário real ou o
espírito? Não é, antes disso, a nossa atividade sensível por ser ela tanto
nossa quanto do próprio real "em si”? Se é a nossa atividade sensível e
imaginária e não separada da atividade sensível e imaginária do real, então, a
nova maneira de lidar com os fenômenos é parecida com a de Kant que só conhece
os fenômenos e diferente da de Kant porque conhece a coisa ou o real em si,
logo, é parecida com a de Hegel que afirma conhecer a coisa ou o real em si, mas
também é diferente da de Hegel porque afirma conhecer a coisa ou o real em si
como movimento ou atividade material sensível e não exclusivamente como
movimento ou atividade ideal imaginária.
Marx é um discípulo hegeliano consequente dessa passagem do
idealismo para o materialismo. E como o conhecimento da coisa, do real ou da
matéria em si é acessível e, portanto, está presente em nós que, aliás, somos
quem efetivamente produz o conhecimento, então, é em nós que se encontra a
coisa, o real ou a matéria em si, quer dizer, é em nós que se produz o
conhecimento, a consciência, a ciência e/ou a tecnologia da coisa, do real ou
da matéria, mas, não exclusivamente como espírito e sim como atividade espacial
e temporal humana, como atividade sensivelmente humana, como prática, como
atividade humana criativa, como trabalho humano.
A Natureza é sensível, material, real com imagens, mas são,
principalmente, e, talvez, até, exclusivamente, os humanos que, com sua
atividade naturalmente sensível, material, real com imagens, transformam sensível,
material e realmente as imagens dos corpos/as formas das coisas da Natureza. De
modo que o conhecimento humano não é ou não se limita a um desenvolvimento
espiritual, a um desenvolvimento do espírito até chegar ao espírito absoluto. E
isto porque o desenvolvimento do conhecimento humano se faz como um
desenvolvimento material, um desenvolvimento da matéria humanamente
transformada até chegar a um tal desenvolvimento material humano no qual a matéria
natural transformada humanamente alcançou um tal grau de transformação e de
incorporação da racionalidade humana do conhecimento humano que é muito mais o
chamado software do que o chamado hardware que passa a ter papel preponderante
na atividade sensível humana. Noutras palavras, o discípulo materialista quer
realizar a filosofia do espírito absoluto do mestre Hegel como desenvolvimento
material da atividade sensivelmente humana e não como desenvolvimento ideal da
atividade abstratamente humana, ainda que queira precisamente conseguir que a
atividade material humana seja efetivamente atividade abstratamente humana. Ou
seja, o processo de automação e de libertação humana do trabalho, o qual,
aliás, já havia sido cogitado por Aristóteles que por meio da introdução do
autômato viu a libertação do escravo do trabalho e a expansão absoluta do ócio intelectivo
próprio do filósofo e da filosofia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário