quinta-feira, 19 de março de 2015
Prática & universalidade
No primeiro capítulo da Fenomenologia do Espírito de Hegel, A Certeza Sensível - ou o Isto e o Visar, a leitura nos faz vivenciar aquela pureza dos primeiros filósofos gregos para os quais existe a certeza sensível de que a coisa sensível é, mas, em seguida, surgem contradições que os levam a afirmar que só uma determinada coisa é. E aí cada um afirma a coisa determinada que é de acordo com sua certeza. Até que um deles afirma que a coisa que é com certeza não é sensível e tem início uma sucessão de coisas insensíveis, de acordo com a filosofia de cada um deles, que são afirmadas como sendo com certeza. Tudo isso é vivenciado na simples leitura do primeiro capítulo da Fenomenologia de um modo inteiramente diferenciado e afastado duma história da filosofia, porém, o que chama a atenção é que a simples leitura é a vivência duma experiência filosófica da consciência.
Eu fiquei tão enredado na experiência da leitura que resolvi ler copiando para ver se conseguia me desenredar, mas, com isso, creio, vivenciei uma outra experiência filosófica da consciência que é precisamente a dos copistas que irão dar origem aos escolásticos. Mas tendo chegado aqui só pude concluir/deduzir que a experiência está no cerne da Fenomenologia, o que, aliás, é confirmado pelo seu subtítulo, Ciência da experiência da consciência, portanto, tendo a crer que a famosa "prática" seja uma consequência lógica da filosofia hegeliana muito mais destacada do que de qualquer outra filosofia, logo, o movimento de sair da filosofia para entrar na "prática" é um movimento genuína e autenticamente hegeliano. Se assim é, então é possível aprender muito mais a respeito da experiência e/ou da prática com Hegel do que "imagina nossa vã filosofia".
Muito provavelmente é possível aprender e compreender Marx aprendendo e compreendendo Hegel do que se limitando a ler e aprender exclusivamente com Marx. Afinal, Marx se filia a Hegel e a filia, no sentido de amor presente na palavra filosofia que significa amor ao saber, indica que o saber, a sofia, está em Hegel e foi apreendido com Hegel.
A simples leitura, seguida da atividade de copista e, por sua vez, da atividade de escolástico, à qual se segue a atividade universal do método científico mostra um caminhar do simples sentir, da simples sensação, do simples sensível passando pelo aprendizado da disciplina da cópia e da escola para o fazer de acordo com regras universais e/ou de acordo com aquilo que pode ser comprovado por todos, como, por exemplo, a produção industrial.
Nesse caminhar do universal por mais belo que pareça se dissolve por completo a singularidade?! Existe alguma chance para a existência do que não é sistema, estrutura, universalidade?! A emancipação que se conquista desenvolvendo a experiência da consciência ou a prática é a emancipação do universal de modo que a singularidade, a individualidade se dissolvem e aquilo que se emancipa é equivalente a um robô?! A liberdade é ser robô (lembrando que robot é uma palavra russa para trabalho), é ser trabalho (servo mecanismo/bateria)?!
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário