"A questão de saber se é preciso conceder ao pensamento humano uma verdade objetiva não é uma questão de teoria, porém uma questão prática. É na prática que o homem deve comprovar a verdade, isto é, a realidade efetiva e a força, o caráter terrestre de seu pensamento. A disputa referente à realidade ou à não-realidade efetiva do pensamento - que está isolada da prática - é uma questão puramente escolástica." (Extraído de "As 'Teses Sobre Feuerbach' de Karl Marx", de Georges Labica, - tese segunda -,publicado por Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1990, p. 31)
A prática é "uma verdade objetiva" porque "é na prática que o homem deve comprovar (...) a realidade ou a não-realidade efetiva do pensamento". "A escolástica está isolada da prática" porque para ela a verdade do pensamento não é objetiva já que ela se encontra ainda isolada na escola de pensamento ou no pensamento de escola, de aprendiz do pensamento e não de sua comprovação objetiva. A escolástica ainda se encontra isolada na verdade subjetiva do pensamento, isto é, na sua existência subjetiva ou teórica e sem nenhuma prova objetiva. De modo que "a disputa" dos escolásticos "referente à realidade ou à não-realidade efetiva do pensamento" é uma "disputa" referente à verdade subjetiva do pensamento, isto é, referente à existência subjetiva ou teórica duma corrente de pensamento escolástico ante outra corrente de pensamento escolástico, ou seja, uma disputa na qual cada uma das correntes recorre à comprovação da existência subjetiva ou teórica do pensamento que é verdadeiro para cada uma delas e, desse modo, a disputa permanece "isolada da prática", "da sua comprovação e verdade objetivas".
Mas, o método científico que recorre à prática para resolver a "disputa referente à realidade ou à não-realidade do pensamento" pode ser visto como uma consequência das disputas sem saída da escolástica, melhor, pode ser visto como a solução encontrada para sair de tais disputas e seu círculo vicioso de eterno retorno para o avançar no que passa a ser considerado como construção e desenvolvimento do conhecimento e da verdade científicas. Se a escolástica foi o desenvolvimento da verdade subjetiva e teórica do pensamento humano, então a ciência (ou o método científico) veio a ser o desenvolvimento da verdade objetiva e prática do pensamento humano.
E o que faz um discípulo de Hegel em relação ao pensamento humano? Ora, Hegel propõe que se faça a ciência, logo, que se desenvolva a verdade objetiva e prática do pensamento humano. Portanto, seus discípulos certamente estarão voltados para fazer ciência, para a prática e comprovação da verdade objetiva do pensamento humano.
Porém, segundo Hegel, a verdade objetiva do pensamento humano é uma prática que comprova que o idealismo ou o pensamento humano é absoluto, ou seja, tudo que existe na realidade efetiva é resultante do pensamento humano, incluindo aí toda a materialidade, toda a objetividade, toda a natureza e o próprio pensamento humano que resultam dum pensar absoluto, o qual, por sua vez, é absolutamente humano, melhor, dentre todos os seres, excetuando-se o ser absoluto - Deus (o absoluto pensar em si e para si) -, só é acessível ao ser humano.
Um discípulo pode considerar que aí a filosofia de Hegel permanece prisioneira da escolástica e resolver que é preciso colocar à prova a verdade objetiva de sua filosofia, que é preciso comprovar na prática o idealismo absoluto. Mas, só por assumir este feito, esta prática tal discípulo já não considera o idealismo absoluto, mas antes o considera uma forma de escolástica, uma forma de verdade subjetiva do pensamento isolada da prática, portanto, tal discípulo vai tratar de comprovar na prática a verdade objetiva do hegelianismo, vai tratar de desenvolver aquilo que do hegelianismo se comprova na prática como realidade efetiva duma verdade objetiva e não duma verdade subjetiva tal qual a afirmação de ser o real: idealismo absoluto. Ao contrário, tal discípulo que parte para a prática, para a comprovação da verdade objetiva, quer dizer, real do pensamento humano (no caso o idealismo absoluto) só por adotar tal posição eleva a ciência e a prática, como comprovações da verdade objetiva (real), a algo além da absoluta verdade subjetiva do pensamento, quer dizer, eleva o pensamento humano ao absoluto da verdade objetiva (real), ao absoluto da prática. O que significa dizer que eleva o pensamento humano à sua comprovação real de verdade objetiva, logo, de verdade material e, com isso, é a saída do pensamento humano da sua condição de verdade subjetiva e a sua entrada na condição de verdade objetiva que faz com que tal discípulo afirme a sua ciência como prática do materialismo histórico/dialético ou como prática da verdade objetiva do pensamento humano e não mais como retenção na escolástica como teoria do idealismo absoluto histórico/dialético ou como teoria da verdade subjetiva do pensamento humano.
Trata-se, então, dum aprofundamento do método científico desenvolvido pelo hegelianismo de modo que ele passa a ser aplicado ao próprio hegelianismo, como se Hegel tivesse se esquecido de aplicá-lo ao seu próprio pensamento e, por isso, tivesse permanecido na escolástica ou tivesse limitado seu pensamento à verdade subjetiva da teoria absoluta ou da ideia absoluta. Já o discípulo aparece como alguém que lembra de aplicar o método científico desenvolvido pelo hegelianismo ao próprio pensamento hegeliano e, por isso, avança a ciência ou aumenta as fronteiras do pensamento como verdade objetiva da prática relativa ou do real dialético/histórico.
O rigor do discípulo, então, é equivalente ao daquele que se considera "mais realista do que o rei!?".
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