quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
Interdito ou a consciência da liberdade
Qual a situação na qual me encontro e na qual adentro sempre mais e mais por não encontrar alternativa? É a situação de interdito e para a qual não encontro nenhuma outra resposta para a pergunta: Que fazer?
Ora, se é sempre e cada vez mais interdito a condição na qual me encontro, então a resposta para a pergunta "Que Fazer?" seria sempre e cada vez mais libertação para sair da condição na qual me encontro, certo?!
Não! Não existe nada certo no caso porque a interdição crescente só ocorre na medida que procuro preservar a liberdade, na medida que procuro me libertar da quase totalitária manipulação que é feita da minha liberdade, quer dizer, da quase total negação da minha liberdade que é feita em nome da minha liberdade. Quem está me interditando? Aqueles que me querem livre para fazer o que eles querem que eu faça ou eu que me impeço de ser livre para fazer aquilo que eles querem que eu faça?!
A minha interdição tem dois aspectos. Num deles eu posso me sentir livre para fazer tudo que o mundo e os afeitos ao poder querem que eu faça e aí este aspecto se apresenta para mim como sendo a liberdade da prática ou de tudo aquilo que é e pode ser aceito como livre prática, mas ainda nesse aspecto eu permaneço interdito e não disponho de liberdade nem de poder para fazer sequer o mais mínimo do que eu quero. No outro aspecto, eu posso perceber a minha mais mínima liberdade como a recusa a fazer o que o mundo e os afeitos ao poder querem que eu faça e aí eu posso também sentir que disponho da liberdade de recusar tudo aquilo que pode ser e é aceito como livre prática, como liberdade da prática para fazer o que o mundo e os afeitos ao poder querem que eu faça, logo, a única e mínima liberdade da qual realmente desfruto é liberdade de interditar o mundo e os afeitos ao poder e de respeitar a minha interdição de não dispor de liberdade nem de poder para fazer o que eu quero, ainda que disponha da liberdade de recusar-me a fazer o querem que eu faça.
A liberdade para a qual eu posso dizer sim é a liberdade de ser farsante, de ser mundano, de ser conforme com a prática mundana e de poder. E a recusa dessa liberdade de dizer sim é a pequena liberdade de dizer não e, assim, me manter autêntico, de me manter eu mesmo, conforme com a prática de ser eu mesmo e de poder recusar o que não está de acordo comigo mesmo, ainda que não seja a liberdade de fazer o que eu quero, quer dizer, ainda que não seja a saída da interdição ou da condição que me impede de fazer o que eu quero, melhor, de ser livre.
Ao optar pela liberdade da farsa eu opto por ser apenas aparência e pelo esquecimento da minha essência interdita. Ao optar pela liberdade da autenticidade eu opto por ser a aparência da interdição e por lembrar da vivência da interdição da minha essência.
No primeiro caso, com a aventura da farsa eu esqueço que permaneço prisioneiro e de que só sou sujeito no sentido de assujeitado ao que quer o mundo e os afeitos ao poder, quer dizer, só sou sujeito assujeitado ao outro. No segundo caso, com a desventura da autenticidade eu lembro que permaneço prisioneiro e que mesmo assim consigo ser sujeito no sentido de não me assujeitar ao que quer o mundo e os afeitos ao poder, quer dizer, consigo ser sujeito assujeitado a mim mesmo.
No primeiro caso, filosoficamente, está em ação a tendência da filosofia mundana ou positiva, quer dizer, aquela que adota o ponto de vista do momento de realidade, melhor, do mundo e dos afeitos ao poder. No segundo caso, filosoficamente, está em atividade a tendência da filosofia conceitual ou negativa, quer dizer, aquela que adota o ponto de vista do momento da crítica, melhor, da essência e do seu poder de recusar a aparência.
A resposta ao "Que Fazer?", no primeiro caso, é se lançar na aventura da prática de conformação ao mundo e aos afeitos ao poder. Já no segundo caso, a resposta ao "Que fazer?" é se manter na desventura da prática da crítica ao mundo e aos afeitos ao poder,melhor, é se manter na prática da resistência e da sinalização de vida da essência.
Se conformar com esquecer a interdição da essência e não se conformar e resistir com a lembrança, melhor, com a consciência da interdição da essência. Se apresentar como a consciência da liberdade da prática mundana versus se apresentar como a consciência da interdição da prática essencial.
Em torno de que gira todo este texto? Todo este problema deste texto? Toda a problematização deste texto? Gira em torno do seguinte: A prática e a crítica oriundas diretamente da essência estão interditadas, mas restam a prática e a crítica oriundas diretamente da consciência da interdição da essência. Noutras palavras, o texto trata das armas da crítica porque ao recusar a prática mundana cria o espaço da consciência, do conceito e não trata da crítica das armas porque esta é oriunda da essência que se liberta da interdição, logo, de algo a que a consciência da condição atual ainda não chegou e que considera que a essência também ainda não chegou dado o seu grau de interdição.
Assumir a consciência da interdição da essência é o "Que Fazer" que se apresenta na atualidade e que pode vir ou não vir a conquistar a libertação da interdição da essência, mas é só passando pela atualidade como consciência da interdição da essência que, talvez, se chegue ao vislumbre da libertação da essência. Portanto, o "Que Fazer" que eu assumo é o da consciência da interdição da essência, é o da consciência do problema, é o assumir conscientemente o problema da interdição da essência para que com ciência possa buscar a solução que, certamente, é a libertação da essência.
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