terça-feira, 2 de dezembro de 2014




O que é viver sem explorar? Como viver sem explorar? Como viver sem consumir o mundo como uma chama devoradora? Como mudar a estrutura do modo de vida explorador? Como mudar o poder explorador? Como se libertar do modo de vida explorador e do poder explorador?


Democracia, Socialismo, Comunismo, Ecologia dizem defender um viver livre, comum, sem exploração e com decidida cooperação. Mas, efetivamente vivem sem explorar?! Todos (Democracia, Socialismo, Comunismo, Ecologia)se dispõem a consumir o mundo como chama devoradora voltada contra ele. Todos estruturam um modo de vida explorador e um poder explorador.


Para viver é preciso respirar, é preciso beber água e é preciso comer. De um modo geral, os vivos respiram e bebem água em perfeita comunhão e sem matarem-se uns aos outros. Mas, na hora de comer tem início a matança de vegetais e animais. Os grupos humanos para comer começam fazendo a coleta de vegetais e a caça e a pesca de animais. E com essas atividades iniciam a confecção de instrumentos, feitos a partir das madeiras, das fibras e dos cipós dos vegetais e das pedras dos minerais. Os animais também coletam e caçam e, até mesmo, fazem instrumentos, mas apenas os humanos se diferenciam dos demais na produção de instrumentos e, especialmente, pelo uso do fogo, a chama devoradora, tanto na produção de instrumentos quanto para proteção do frio e de ataques noturnos, cozinhar e assar alimentos, mas, especialmente, para ver à noite uns aos outros e também para "anotar os sonhos, as imaginações", quer dizer, desenhar nas paredes de cavernas e dançar uns com os outros e, finalmente, para vivenciarem a si mesmos como fogos ou chamas devoradoras na atividade de copular. Das cópulas resulta a reprodução humana e é nela e por meio dela que se descobre que viver não é só consumir ar, água e alimento nem só produzir instrumentos mas também é reproduzir a própria espécie fornecendo alimento próprio e interno no caso da amamentação e alheio e externo no caso da coleta e da caça e pesca. Mas, a descoberta da reprodução não se limita à reprodução humana e a percepção da reprodução vegetal e da reprodução animal dá início à domesticação dos vegetais e animais, ou seja, à cultura dos vegetais ou à agricultura e à cultura dos rebanhos ou à pecuária. E, estas atividades agropecuárias, não só domesticam os vegetais e os animais como também viabilizam a construção das cavernas artificiais que são as habitações e os ambientes artificiais construídos pelos humanos. Este novo habitat artificial humano é resultante da descoberta e uso do processo de reprodução vegetal, animal e humana. O processo de domesticação é um processo de descoberta, uso, desenvolvimento e exploração centrada na reprodução vegetal, animal e humana.


Os produtos da reprodução humana são os filhos, melhor, é a prole humana. E esta se inicia no viver sendo alimentada pela amamentação e, em seguida, com os produtos da domesticação vegetal e animal, portanto, se inicia dentro do processo de domesticação. Esta prole inicialmente só consome os produtos da domesticação e, em seguida, ela passa a ser iniciada no processo de produção da domesticação (agropecuária e indústria do habitat humano) e é a partir daí que surge a base para a exploração da domesticação humana, isto é, surgem os tutores dessa prole humana que, além de a iniciar no processo de produção doméstico, passam a usá-la no processo de produção doméstica como fonte de produtos domésticos que possibilitam aos tutores "reproduzir" para eles mesmos a situação inicial da prole humana, isto é, a de ser alimentado pelo produtos domésticos e de usufruir dos produtos domésticos sem precisar participar diretamente da produção dos produtos domésticos, ou seja, estes tutores se descobrem e desenvolvem como pastores da prole humana desde o seu nascimento e desenvolvimento consumista improdutivo até chegar ao seu desenvolvimento consumista produtivo. E, é nesse momento que os tutores se beneficiam dos produtos do processo de reprodução de modo que consomem ou digerem os vegetais e os animais reproduzidos pela atividade agropecuária da prole humana de forma indireta, porque consomem os produtos resultantes do consumo da força de trabalho da prole humana. Eles não comem diretamente a prole humana, mas, indiretamente, eles comem ou consomem o excesso ou excedente da produção da força de trabalho ou da chama devoradora da prole humana.


O desenvolvimento desse processo de exploração da produção doméstica se faz por meio do desenvolvimento da luta de classes das sociedades de classes até chegar na sociedade de classes atual onde a força de trabalho ou a chama devoradora da prole humana se constitui na classe do proletariado ou de todos aqueles que só possuem sua chama devoradora ou força humana de trabalho, enquanto que os tutores ou os exploradores indiretos do processo de produção domesticado se constitui na classe da burguesia ou daqueles que possuem todos os meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano, existindo ainda, sem ter tido sucesso total, aqueles que visam possuir os meios de produção da reprodução humana de modo a explorar as possibilidades de criação de super-homens e de "imortais", ou seja, de humanos "naturalmente" dominantes (de posse de todas as vantagens ou perfeições genéticas)e de humanos "artificialmente" imortais (de posse de todos os meios de conservação e renovação do corpo humano de modo a perdurar no tempo e mesmo superar a morte).


Mas, existe realmente um fim desse processo de exploração da produção doméstica? Existe um fim do desenvolvimento da luta de classes? Um fim da sociedade de classes? Estas duas classes atuais, o proletariado (de um modo geral é a classe de todos aqueles que vivem do salário)e a burguesia (de um modo geral é a classe de todos aqueles que possuem os meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano) podem efetivamente desaparecer se e quando todos aqueles que vendem sua chama devoradora ou força de trabalho se tornarem proprietários dos meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano e, por sua vez, todos aqueles que atualmente são proprietários dos meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano se tornarem produtores diretos? Sendo proprietário dos meios de produção da reprodução geral o proletariado deixa de vender sua força de trabalho. Mas, e a burguesia se tornando produtor direto passa a vender sua força de trabalho? Se trata duma simples inversão de posição na estrutura atual e, portanto, da continuação da mesma em situação de eterno retorno? Para que a luta destas duas classes e para que a sociedade de classes delas desapareça é preciso que desapareça não só o trabalho assalariado mas também a propriedade burguesa ou tutelar dos meios de produção da reprodução geral, logo, não basta para o proletariado se tornar proprietário comum dos meios de produção (ou, como isto tem sido traduzido na linguagem do realismo político, se tornar proprietário público ou estatal dos meios de produção da reprodução geral), mas é preciso ainda destruir qualquer possibilidade de continuidade e reconstituição do trabalho assalariado (ou, como isto é inteligível na linguagem do realismo político, é preciso destruir o Estado ou qualquer
tutela ou tutor que por meio do assalariamento retorne e reinicie a constituição e exploração do proletariado).


Os vegetarianos exploram as fontes vegetais e os carnívoros exploram as fontes animais. Desse modo, se estabelece uma cadeia alimentar . A morte dos vegetais é vida para uns e a morte dos animais é vida para outros. Não é simplesmente a morte e sim a digestão dos mortos que aproveita os digeridos como fontes de energia vital. Então é a chama devoradora de vegetais e/ou de animais que garante a manutenção da energia vital da chama devoradora, ou seja, é a morte da energia vital alheia que garante a conservação da energia vital própria. Mas, a cadeia alimentar também é formada e estabelecida por um outro aspecto que é a reprodução dos seres vivos. É aí que a semente sai do fruto, cai na terra e "morrendo" dá origem ao processo de reprodução da espécie vegetal que originou os frutos e as sementes. É aí que de forma sexual o sêmen "morre" no óvulo dando origem ao "ovo" e nele ao processo de reprodução dos portadores de sêmens e óvulos oriundos de cada espécie animal. Se a primeira chama devoradora ou digestão é feita a partir da destruição das espécies em prol da conservação corporal da própria espécie, já a segunda digestão é feita a partir da "destruição" dos princípios vitais da própria espécie em prol da sua mutação em corpos da própria espécie.


É nesse processo de reprodução que o "comer" adquire um sentido novo, um sentido que não é o da exploração e sim o da criação ou produção da vida a partir da digestão dos próprios princípios vitais (sementes, sêmens, óvulos), adquire o sentido de cooperação criadora ou de autodigestão criadora, melhor, como encontro da chama devoradora duma espécie com a chama devoradora da própria espécie tendo por resultado a aparição duma nova chama devoradora da própria espécie, quer dizer, um aumento da própria espécie. Só aí cada espécie se relaciona com sua própria espécie como a fonte de sua própria vida (não me refiro, claro, ao canibalismo), só aí o alimento interno que reproduz a espécie não é uma exploração devoradora das espécies e do meio ambiente, mas, ao contrário, se mostra um devorar criador do desenvolvimento das espécies e do meio ambiente.


Quando o "comer" da chama devoradora é digestão dos demais para conservar a si mesma, aí a relação
é de supressão dos demais. E, quando o "comer" da chama devoradora é digestão de outra chama devoradora semelhante a si mesma, quer dizer, é digestão mútua das chamas devoradoras da mesma espécie no encontro duma com a outra, aí então a relação é de criação de mais chama devoradora da mesma espécie. Num caso, se faz a falta dos outros; no outro, se faz o excesso dos mesmos.


Este aspecto de ser o devorar criador do alimento interno desenvolvedor das espécies e do meio ambiente deu origem entre os humanos à agricultura e à criação ou cultura dos rebanhos. As fontes vegetais e animais de energia vital foram desenvolvidas nos seus processos próprios de reprodução para atender à chama devoradora dos humanos das espécies digeridas para conservarem a energia vital de seus corpos humanos. Mas também os próprios humanos ao se reproduzirem ou se cultivarem nos seus processos próprios de reprodução passaram a ser usados e explorados como fontes de energia no desenvolvimento da agricultura e da pecuária e na indústria artesanal a partir de matérias-primas da agricultura e da pecuária e da exploração e manipulação criativa dos minerais. Exceto nos casos de canibalismo que iguala o cultivo de rebanhos humanos com os dos rebanhos animais para digestão alimentar, a regra foi o uso e exploração dos rebanhos humanos nas atividades agrícolas, pecuárias, artesanais, industriais, extrativistas etc., de modo que enquanto essa prole humana gastava sua energia nas atividades de exploração produtiva, já os seus tutores humanos usufruíam do excesso produzido por essa prole humana.


A própria reprodução humana passou a ser explorada como forma de aumentar os cultivadores humanos da agricultura, da pecuária, do artesanato, da indústria. E, desse modo, o aumento populacional passou a significar o aumento da produção agrícola, pecuária, artesanal, industrial, extrativista, mas, ao invés desta produção aumentada ficar com a própria prole cultivadora da mesma ela vai para as mãos dos tutores da prole.


Viver é o eterno retorno do poder e do comportamento explorador do humano pelo humano ou é a mudança libertadora do eterno retorno do poder e do comportamento explorador do humano pelo humano, quer dizer, mudança liberta da exploração e do retorno da exploração?!


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