quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Utopia ou o quê?! [IV]




Desde a coleta e a caça que os humanos se diferenciam dos demais por produzirem instrumentos e usarem o fogo, mas, depois que eles descobrem como cultivar/domesticar a reprodução vegetal, animal e do habitat humano, eles entram num processo de exploração dos humanos pelos humanos que vai se desenvolvendo de diferentes formas até chegar ao modo de produção da reprodução vegetal, animal e da reprodução humana, ou seja, uma sociedade na qual o pênis e o sêmen são representados pela força humana de trabalho ou pela classe do proletariado e a vagina e o óvulo são representados pelos meios de produção ou pela classe burguesa/capitalista, consequentemente, como se fosse algo natural, o "ovo" e/ou a produção resultante da relação de produção destas duas forças de produção (a força humana de trabalho e as forças industriais dos meios de produção) passa a pertencer à classe mãe ou gest(ad)ora que é a dona dos meios de produção. Em geral, cabe a uma terceira classe ser dona das terras e esta originalmente impunha obrigações de pagamentos à burguesia (classe mãe) e de trabalhos ou serviços à prole camponesa ou ao proletariado (classe tutelada dos filhos). Esta terceira classe dá origem ao grande tutor que se sustenta e desenvolve a partir dos impostos e tributos que as duas outras classes, a classe mãe burguesa e a classe do filho proletariado, são obrigadas a pagar, ou seja, se constitui não só na classe dos latifundiários ou donos das terras da Nação, mas também na máquina de poder tutor do Estado(-Nação) e é representada como sendo a Lei do pai. A classe que efetivamente produz é a do proletariado, a classe que efetivamente se apropria da produção é a da burguesia e a classe, melhor, a máquina de tutela que efetivamente garante que, apesar das diversas mudanças nas relações das classes, permanecerá havendo continuidade e eterno retorno da relação de produção essencial das classes entre si é o pai Estado. É o pai Estado-Nação (dono das terras nacionais) quem interfere garantindo que a mãe burguesia permaneça dona dos meios de produção da reprodução geral e da produção resultante, mas também é quem interfere garantindo que o filho proletariado permaneça dono de sua força humana de trabalho e recebendo o salário justo ou efetivamente equivalente ao valor da reprodução de sua força humana de trabalho.


Aí podemos ver as três grandes classes apontadas por Marx na sua obra de crítica da economia política capitalista, a saber, a classe dos proprietários fundiários, a classe dos proprietários dos meios de produção e a classe dos proprietários das suas próprias forças humanas de trabalho. E elas correspondem perfeitamente aos três grandes tipos de consciências humanas de si nascidos na Grécia Antiga e que atravessam os diversos momentos históricos e que são os estóicos (proprietários fundiários), os céticos (proprietários dos meios de produção) e os epicuristas (proprietários de si mesmos ou das suas próprias forças humanas de trabalho). Aí podemos ver também como o grande tutor, a máquina do Estado, inverte a relação com a prole humana, já que esta inicial e naturalmente nada produz e é mantida pela mãe natural e pelo pai-marido da mãe natural, de modo que é a força humana de trabalho ou a chama devoradora do proletariado que tudo produz e mantém a contínua produtividade dos meios de produção da mãe artificial burguesa e do grande pai artificial de todos e marido artificial da burguesia ou mãe artificial. O complexo de Édipo presente nas relações familiares burguesas tem por pano de fundo estas relações invertidas entre a prole tutelada e o pai tutor e de ambos com a mãe tutora.


Quando é que a prole humana pode nascer sendo imediatamente produtora e responsável por si mesma? Aparentemente é a partir do surgimento do proletariado como classe social produtora, mas é preciso que a prole humana natural seja também imediatamente produtora e responsável por si mesma para que possa vir à tona e à existência efetivamente uma sociedade da humanidade comum, uma sociedade comunista ou dos proprietários comuns dos meios de produção e das terras, ou seja, uma sociedade sem classes sociais e sem (máquina de) Estado. Marx dizia isso na sua "Crítica ao Programa de Gotha" ao estabelecer que é só quando o trabalho se torna a primeira necessidade vital que surge a sociedade baseada no princípio de cada um segundo sua necessidade a cada um segundo sua capacidade.


Mas, isto é um sonho ou quimera que serve apenas para que os humanos continuem fazendo o eterno retorno das lutas e sociedades de classes, melhor, das diferentes versões da sociedade capitalista?!


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