segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Enigma da Esfíngie



"(...) quando o trabalho não for apenas um meio de viver, mas se tornar ele próprio na primeira necessidade vital (...) a sociedade poderá escrever nas suas bandeiras: 'De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades!'"

Karl Marx

na "Crítica do Programa de Gotha"




As necessidades vitais são aquelas necessidades que precisam ser satisfeitas para que se possa viver. Quais são elas? Respirar é uma necessidade vital que é satisfeita imediatamente e se, assim não fosse, aquele que a fosse satisfazer por meio de alguma outra coisa antes de respirar morreria por ter ficado sem respirar, por ter ficado fora da necessidade imediata de respirar. Comer e beber, excetuando-se o mamar, são necessidades vitais que precisam antes da coleta, da caça e da pesca ou ainda da agropecuária e do tratamento da água para que seja filtrada ou potável, logo, são necessidades que requerem antes de sua satisfação os trabalhos de coleta, caça, pesca, agropecuária etc. como meios para alcançá-las (aqui apenas mamar é um trabalho de comer e beber ou é uma atividade de trabalho que se confunde com a própria necessidade vital de modo que é possível dizer que o trabalho de mamar é ele próprio a necessidade vital de mamar).


Respirar e mamar são necessidades vitais que são satisfeitas imediatamente com as atividades de respirar e de mamar, ou seja, nelas as atividades ou os trabalhos de respirar e de mamar se confundem com as próprias necessidades de respirar e de mamar de modo que é possível dizer que às capacidades de respirar e mamar correspondem as necessidades de respirar e mamar. Mas e se o trabalho, que compreende as atividades que vão desde a coleta e da caça e da pesca até à reprodução científica dos vegetais e dos animais, chegar a um ponto no qual a sua atividade de trabalho ou capacidade de realização corresponde à atividade da sua necessidade ou da sua necessidade de realização?


Nas atividades de respirar e de mamar capacidades e necessidades se correspondem de forma natural. Nelas, as liberdades de respirar e de mamar são idênticas às necessidades de respirar e de mamar. O trabalho como meio de vida não possui uma correspondência natural com as necessidades que satisfaz por ser ele um artifício que visa alcançá-las e isto precisamente por estarem elas separadas do trabalho. O trabalho como primeira necessidade vital possui uma correspondência natural imediata com as necessidades que satisfaz por ser ele parte inseparável da natureza interna destas necessidades vitais.


Nesse contexto, em lugar do trabalho ser um aprisionante meio de vida ele se torna afirmação natural da liberdade vital ou afirmação livre da natureza vital. Porque nesse contexto ele não é mais uma prisão, uma separação, um artifício, um meio de viver, uma sobrevivência e é sim uma liberdade, uma conjunção/um pertencimento, uma naturalidade, uma necessidade vital, um viver pleno.


Tudo isso está indicado por Marx, mas onde se vê isso sendo decifrado e desenvolvido? Onde se vê isso sendo realizado? Em parte alguma, em lugar nenhum e, especialmente, por nenhum daqueles que se dizem seguidores ou discípulos de Marx, de modo que, até mesmo entre os que defendem Marx, permanece vigorando a concepção do trabalho como um meio de vida, uma prisão, uma separação, logo, aquilo que podem efetivamente realizar ao defenderem o trabalho e os trabalhadores como meios de vida nada mais pode ser do que uma prisão e uma separação ainda mais completas, ainda mais totais.


E nós, aqui, conseguimos alguma coisa? Ao que parece nada conseguimos, exceto questionar e, talvez, despertar, quem sabe, aqui e ali, a necessidade vital do trabalho de decifrar e pesquisar as indicações de Marx. Uma coisa fica muito estampada, o trabalho como meio de vida é similar àquele que na Bíblia foi imposto ao homem por Deus ao ser expulso do paraíso e o trabalho como necessidade vital é similar à criação do paraíso pelo próprio ser humano.





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