domingo, 21 de dezembro de 2014

O que é estritamente atual? Democracia e fundamentalismo religioso! Socialismo é apenas o eterno retorno edipiano?!!




Aquilo que se mostra estritamente atual são os movimentos inseparáveis da emancipação política, ou seja, todos aqueles afirmadores dos direitos políticos e dos direitos humanos e também os movimentos inseparáveis do aprisionamento no fundamentalismo religioso de modo que só parecem existir lutas de emancipação política por toda parte e lutas contra a emancipação política e por regimes religiosamente fundados e fundamentados sem quaisquer direitos (políticos e humanos) exceto os permitidos pelos deveres religiosos.



Nessa realidade atual os socialismos e os comunismos reais sofrem por não terem conseguido afirmar e desenvolver de forma plena os direitos políticos e humanos, mais ainda, por perceberem que, em lugar de desenvolverem uma emancipação social ou humana, desenvolveram um fundamentalismo ou dogmatismo "social" que se mostrou muito mais religioso do que social, muito mais sem direitos políticos e humanos do que uma emancipação social humana superior à emancipação política, muito mais um regime de vigilância política e social do que de liberdade política e social. E, como, boa parte dos comunismos reais sofre por ter consciência dessa sua limitação política e social tem ocorrido no seu interior processos reformistas que visam encontrar um caminho para superar essa limitação que sua consciência reconhece ser uma qualidade dos países que só fizeram sua emancipação política e aperfeiçoamentos da sua emancipação política, os quais, por sua vez, são todos eles capitalistas, sejam mais ou menos desenvolvidos.



A hegemonia da emancipação política, que está em perfeita harmonia com um mundo descolonizado em sua grande maioria de países, está conduzindo os movimentos socialistas e comunistas a se desfazerem do fundamentalismo ou dogmatismo "social" aplicados pelos comunismos reais e também está conduzindo boa parte dos próprios países do comunismo real a reformas que permitam uma saída do fundamentalismo ou dogmatismo "social". O resultado geral disso tudo se mostra por um lado precisamente como um processo de retorno aos fundamentos dos socialismos e dos comunismos, seja através de estudos das suas teorias (daí os diferentes retornos - das diferentes abordagens - a Marx), seja através dos estudos históricos dos movimentos socialistas e comunistas e dos países socialistas ou comunistas reais, seja através dos estudos do desenvolvimento econômico e social ou sistêmico da realidade capitalista dominante na qual se encontram inseridos tanto os movimentos socialistas quanto os países socialistas reais, seja, finalmente, através dos estudos dos aperfeiçoamentos teóricos tornados possibilidades efetivas com as realizações práticas do desenvolvimento sistêmico-econômico-social do capitalismo dominante. Por outro lado, se mostra como um processo de sucessivas posições aplicadas pelos movimentos socialistas e pelos países socialistas reais no curso de suas lutas sociais e políticas e de acordo com as conjunturas políticas e sociais, ou seja, se mostra como resultante da prática e do pragmatismo políticos, como posições inseridas e coerentes com o contexto social e político, portanto, podem se mostrar como contraditórias entre si e, mais ainda, a consciência pode justificar tais contradições. De fato, a história dos partidos comunistas reais é feita das sucessivas frações, tendências e linhas aplicadas em determinados períodos históricos e de acordo com as variações conjunturais. Desse modo, o zigue-zague é a história social natural dos partidos socialistas e dos partidos socialistas reais e se encontra em harmonia com o monolitismo destes partidos.



O monopólio do partido dum país socialista real não elimina apenas a liberdade política de outros partidos mas também a liberdade política de suas frações, tendências e linhas políticas divergentes de modo que o Estado e o partido se confundem. É bom lembrar aqui que Marx considerava que os comunistas não formavam um partido à parte dos partidos proletários e que se constituíam sim numa fração dos partidos proletários, mas isso deve ser interpretado como a existência de um partido monolítico dentro do qual os comunistas desempenham o papel da sua melhor fração devido à sua compreensão teórica do conjunto do movimento histórico e devido à sua maior capacidade de decisão e aplicação práticas, portanto, estão destinados a dirigir e exercer o poder dirigente do partido ou isso pode ser interpretado pela existência de um partido pluralista, logo, composto de diversas frações ou até mesmo diferentes partidos mas que não se constituem em partidos à parte do proletariado e sim em partidos que funcionam como frações daquilo que num sentido histórico e social amplo configura o partido proletário?! A primeira interpretação é o problema histórico e concreto dos partidos dos países socialistas reais. A segunda interpretação só pode ser compreendida como aquela que foi aplicada por Marx na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) e que desde o surgimento dos partidos sociais-democratas deixou de ser compreendida e aplicada precisamente por terem adotado a primeira interpretação e a teoria chamada de marxista, termo que foi cunhado por Bakunin, o principal adversário de Marx na AIT, termo em relação ao qual Marx se posicionou declarando que não era marxista (declaração que explicava também porque ele não defendia na AIT pontos programáticos, como a abolição do direito de herança, que havia defendido no Manifesto do Partido Comunista, de onde retiramos a consideração a respeito das relações dos comunistas com os proletários), ou seja, Marx foi concebido como uma seita chamada marxismo pelo seu adversário na AIT e como esta interpretação foi levada adiante pela social-democracia e pelo comunismo real que optaram pela doutrina de Marx, o dirigente da AIT, e não pela doutrina de Bakunin, o expoente da maior corrente de oposição dentro da AIT.



Esta possibilidade de interpretação do Manifesto do Partido Comunista como a interpretação que foi aplicada por Marx na AIT e defendida por ele como uma posição aberta, por ser capaz de mudar junto com a compreensão do conjunto do movimento histórico e junto com a capacidade de aplicar consequentemente tal mudança na prática, abre a perspectiva da compreensão do poder proletário como uma comunidade de discussão e ação da qual participam as diferentes frações, tendências, linhas e partidos proletários de modo que o monopólio é da comunidade de discussão e ação e não de suas frações, tendências, linhas e nem de seus partidos. Aliás, Marx não exaltou a Comuna de Paris de 1871 precisamente por sua criação desse novo tipo de poder?!



Se o Estado burguês permite a participação de diferentes partidos e se os partidos de trabalhadores lutaram para conquistar o reconhecimento de suas existências e a participação no Estado burguês, então o Poder Proletário ou a Comuna Proletária permite e reconhece a participação de diferentes partidos de trabalhadores incluindo aí os dos camponeses (fração pequeno burguesa) e os partidos dos inventores (de meios de produção, que tendem a ser ou se identificar com os burgueses) e dos administradores (dos meios de produção, que tendem a ser ou se identificar com os burgueses).



Mas, enquanto não existe uma associação geral dos trabalhadores ou uma comuna dos trabalhadores, quer dizer, o seu poder proletário, é perfeitamente possível que suas frações, tendências, linhas, correntes se organizem em partidos ou em organizações diferenciadas que admitem estar participando e disputando a influência política dentro de um mesmo campo de abrangência que é o proletariado. Mais ainda, de forma consequente, serão levados a admitir que são componentes deste campo abrangente denominado proletariado e também que a posição majoritária de um dos componentes frente às posições minoritárias de vários outros componentes não significa de modo algum que esta posição majoritária é o proletariado ou o partido do proletariado enquanto que as demais posições minoritárias não são o proletariado nem o partido do proletariado. Ao contrário, o proletariado ou o partido do proletariado é formado pelo conjunto de suas frações ou partidos, tanto das frações ou partidos majoritários quanto das frações ou partidos minoritários. Na verdade, tanto as frações majoritárias quanto as minoritárias estão construindo o partido proletário, já que ainda não existe a sua associação geral ou a sua comuna ou o seu poder proletário. E este último só poderá vir a se viabilizar quando todas as frações, majoritárias e minoritárias, compreenderem que são partes da construção desse poder e, portanto, quando estiverem dispostas a afirmar não apenas a sua diversidade mas também a sua unidade.



Isso é apenas uma apreciação que, levando em conta a espécie de beco sem saída do socialismo real, se apoiou num pouco de retorno à teoria, quer dizer, à Marx, mas lembrando que ele desenvolveu uma teoria que aplicou no seu tempo, logo, um pouco de retorno à sua prática histórica, mas, infelizmente, não é uma apreciação que se tenha baseado no desenvolvimento histórico-sistêmico-econômico-social e menos ainda nos avanços teóricos resultantes do desenvolvimento histórico. A única constatação é que são atuais os direitos políticos e humanos proporcionados pelo desenvolvimento da emancipação política e a posição contrária que só admite a atualidade dos deveres religiosos oriundos do desenvolvimento do fundamentalismo religioso. Esta constatação da atualidade da democracia política versus a teocracia fundamentalista se baseia numa outra constatação: O problema do socialismo e do comunismo real é estar vivenciando a fábula trágica de Édipo-Rei, ou seja, a auto-condenação à renúncia de seu poder e o retorno do mesmo a como era sob seu pai, ou seja, o retorno ao capitalismo. Ao vivenciar tal situação edipiana o socialismo e o comunismo reais se descobrem céticos em relação ao seu anterior fundamentalismo ou dogmatismo e também sem quaisquer perspectivas de saída do capitalismo, melhor, só lhes resta a esperança de que o capitalismo no seu desenvolvimento próprio chegue ao socialismo e ao comunismo porque eles, edipianos, não conseguiram chegar e sim apenas voltar ao capitalismo numa fase de desenvolvimento mais avançada.




Nenhum comentário: