"Confundiram Estado, Governo, Partido e Povo e ainda falta
um: Empresas."
Não sei quem possui uma noção clara e distinta do que seja cada um dos termos citados: governo, estado, partido e povo e empresas. Mais ainda, quando alguém estabelece uma noção clara e distinta entre os termos, então, ao mesmo tempo, estabelece um determinado sistema, quer dizer, uma interpretação que segue determinadas regras de clareza e de distinção dos termos entre si, as quais, por sua vez, só possuem validade dentro daqueles limites determinados. A corrupção que é o assunto que se impõe como problema na atualidade, em geral, ela envolve as relações entre o chamado público e o chamado privado. Mas, governo, nesse caso, não é precisamente um resultado dessas relações dentro das regras estabelecidas pelo jogo democrático? Nesse jogo democrático o governo é eleito e para que isso ocorra, a eleição dos governantes, é preciso que o partido ou a coligação de partidos tenha seus candidatos e, além disso, ganhe os votos do povo, melhor, ganhe a maioria dos votos do povo, o que é computado pelo juizado eleitoral, o qual é uma avaliação do Estado do que é chamado de lisura eleitoral; porém, durante a campanha os candidatos e os partidos gastam dinheiro que conseguem por meio das doações eleitorais de pessoas físicas ou simples eleitores e de pessoas jurídicas ou complexos eleitores. Os candidatos, os votos, as doações das pessoas físicas e das pessoas jurídicas e o governo saem da Sociedade Civil, apenas o juizado eleitoral está aí como presença saída do Estado. Os juízes, de um modo geral, entram para o Estado por meio de formação técnica avaliada por meio dos chamados concursos públicos, que são provas de conhecimentos elaboradas de acordo com os critérios técnicos exigidos pelo Estado para constituir seus quadros de juízes; a exceção clássica existe no Supremo onde a indicação/escolha é do Executivo Eleito e depende da aprovação do Legislativo Eleito que faz avaliação política, que aprova/aceita ou reprova/rejeita a escolha política do Executivo.
Aparentemente o Estado se mostra um aparato técnico, enquanto que o(s) Governo(s), Partido(s), Empresa(s) e mesmo o Povo se mostram como componentes sociais da Sociedade Civil. De onde o Estado retira essa sua legitimidade técnica? Como ele se constituiu de forma independente do jogo democrático como um jogo de necessidade técnica?! Como ele conseguiu tamanha legitimidade independente do jogo democrático? Nietzsche, como você observou, diz que são os fortes que instituem o poder dos senhores sobre os fracos escravos, ou seja, são aqueles que instituem o Estado devido a uma predominância natural instintiva ou, como dizem os reis, uma legitimidade da natureza instintiva do sangue, portanto, são eles que são os bons, que são os nobres, que são os guerreiros, enfim, são eles que comprovadamente são escolhidos pela superioridade técnica de suas naturezas instintivas. O Estado se constitui, portanto, de forma inteiramente natural e instintiva ou como superioridade da força, do poder, do senhorio, logo, de forma nada democrática e sem depender do desejo, do voto ou da escolha do povo, quer dizer, do rebanho dos fracos, dos impotentes, dos escravos. Mas, porque o Estado se submete ao jogo democrático? Porque os fortes, os bons, os senhores se submetem aos fracos, aos maus¹, aos escravos? Nietzsche diz que é devido à "rebelião dos escravos na moral", a qual, por sua vez, é resultante da intervenção do sacerdote que, a seu ver, é um senhor forte e bom que ficou doente e sem sua força natural e instintiva e, por isso, desenvolveu, com sua imaginação, uma força artificial e inteligente. E é esta que irá fazer dos escravos um exército que, combatendo os senhores por meio do maior poderio do maior número, se apoderará do Estado e instituirá o início do jogo democrático de modo que o maior número tenha voz, vez e poder.
A origem do Estado, então, é própria da desigualdade natural e instintiva ou técnica entre os humanos, logo, como se origina a supressão do Estado? Tornando todos os humanos natural e instintivamente iguais? Tecnicamente iguais? Robôs? Estabelecendo que só existirão natural e instintivamente ou tecnicamente os humanos que compõe o Estado? Então, um Estado racista é um caminho para o fim do Estado, melhor, da Sociedade Civil na medida que só os membros da raça no poder do Estado permanecerão existindo e os demais serão escravizados e fisicamente eliminados. Por outro lado, um Estado classista também se supõe um caminho para o fim do Estado, melhor, da Sociedade Civil na medida que só os membros da classe no poder do Estado permanecerão existindo e as demais classes serão expropriadas e socialmente aprisionadas e extintas. No entanto, nessas interpretações, o que está presente não é precisamente a concepção sacerdotal que visa uma igualdade artificial e inteligente ou moral entre os humanos? Já que é por meio da apropriação do Estado, um aparato (ou máquina) criado(a) originalmente pelos senhores e que deles foi expropriado(a) pelos escravos rebeldes na moral, que pretendem acabar com a desigualdade/com o Estado?
Tecnologicamente os humanos escravos rebeldes na moral fizeram e fazem um desenvolvimento fantástico de modo que transformam a natureza instintiva em "natureza" artificial e inteligente. E esta tecnologia ou "natureza" de inteligência artificial está conseguindo liberar o escravo de sua escravidão. Qual? Qual foi a escravidão dos fracos, dos maus? Sua própria natureza é instintivamente fraca ou tecnicamente falha, ou seja, ele precisou valorizar a fraqueza exercitando a artificialidade e a inteligência, ou seja, valorizando o trabalho porque ele só podia conseguir aquilo que os fortes e bons conseguiam natural e instintivamente por meio dessa atividade artificial e inteligente: o trabalho. Atividade, por sua vez, que os caracterizava precisamente como escravos, já que a atividade dos senhores, natural e instintiva, não era para eles um tempo de trabalho e sim um tempo livre.
Então, outra invenção, além do tempo livre do Estado dos fortes, bons e senhores deve ser observada. Qual? A do tempo de trabalho da "Sociedade Civil" dos fracos, maus e escravos. Pois bem, este desenvolvimento tecnológico fantástico é também um desenvolvimento fantástico da "Sociedade Civil" dos fracos, maus e escravos, melhor, a tecnologia é uma concentração/redução do tempo de trabalho e uma expansão/aumento do tempo livre, ou seja, é uma forma de libertação dos escravos do que os escraviza e que é o trabalho, mas, ao mesmo tempo, a própria tecnologia não é outra coisa que o próprio trabalho artificial e inteligente dominando e superando a espontaneidade natural e instintiva. No entanto, ao proporcionar cada vez mais tempo livre para os escravos e, assim, os libertar de sua escravidão pelo e no trabalho e os deixar frente a frente com sua espontaneidade natural e instintiva, seja ela expressão do seu ser fraco e mau ou do seu ser forte e bom, o que ocorre é que agora o fraco e mau não está mais destinado ao tempo de trabalho e, por outro lado, o tempo livre do forte e bom não é mais oriundo da sua natureza e sim do desenvolvimento tecnológico que assumiu todo o tempo de trabalho e liberou todo o tempo livre.
A tecnologia da "Sociedade Civil" pode vir a suprimir a necessidade técnica do Estado, quer dizer, a inteligência artificial dos escravos da "Sociedade Civil" pode suprimir a natureza instintiva dos senhores do Estado, a tecnologia (entendida como produto do trabalho artificial e inteligente do escravo) pode suprimir a técnica (entendida como produto da espontaneidade natural e instintiva do senhor), mas, desse modo, a espontaneidade natural e instintiva, que só tende a aumentar e se desenvolver com o tempo livre, não mais estará originando o Estado entre os humanos, porém, ao contrário, o predomínio duma "Sociedade Civil" que, de um lado, é o tempo de trabalho da tecnologia e, de outro lado, é o tempo livre dos humanos. Ora, se todos dispõem de tempo livre, mesmo que, natural e instintivamente, uns sejam fortes e bons, enquanto que outros são fracos e maus, estão todos protegidos uns dos outros e igualados uns aos outros artificial e inteligentemente, de modo que suas diferenças naturais e instintivas podem se desenvolver livremente sem ocasionar o surgimento técnico do Estado ou da superioridade dos senhores sobre os escravos, logo, o livre desenvolvimento das diferenças naturais e instintivas sem o desenvolvimento de diferenças de estamento/Estado também é o livre desenvolvimento das diferenças naturais e instintivas sem o desenvolvimento de diferenças sociais/de estamentos sociais/de classes de senhores e de escravos. Nietzsche falando, deste novo desenvolvimento das diferenças naturais e instintivas, coloca lado a lado humanos e feras, domésticos e selvagens, civilizados e bárbaros. Já Marx fala que o trabalho deixa de ser um meio de vida e se torna a primeira necessidade vital, quer dizer, se torna a primeira expressão do livre desenvolvimento natural e instintivo.
Eu pretendia me ater a certas ambiguidades presentes na maneira de compreendermos a atualidade, em especial, a corrupção, no entanto, me desviei para esta outra "corrupção/interpretação da origem do Estado e da 'Sociedade Civil'".
1- Nietzsche distingue na "Genealogia da Moral" basicamente entre "bom" e "mau" e os diferencia de "bem" e "mal", de modo que "bom" e "mau" se mostra uma distinção técnica tal qual usamos no dia a dia para dizer que alguém é "bom" nadador, observador etc., enquanto outro é "mau" nadador, observador etc. Já "bom" no sentido do "bem" foi introduzido pelo sacerdote que, invertendo os valores, substituiu "mau" no sentido de "mal" por "malvado", donde, "bom" e "mau" é algo técnico, natural e instintivo, já "bom" e "malvado" é algo moral, artificial e inteligentemente perverso. PS: O Estado e a diferença qualitativa da atividade ou trabalho de cada um é de ordem natural e técnica, a Sociedade Civil e a a diferença quantitativa da atividade ou do trabalho de qualquer um é de ordem moral e tecnológica?!
PS
PS
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