O auto-engano é próprio das interpretações conjunturais e não sistemáticas. É disso que o último texto que escrevi sofre, de auto-engano. Porquê? Porque o Marx da "Introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel" que prega a realização da filosofia do direito e do Estado de Hegel, quer dizer, a colocação em prática desta filosofia em momento algum acha que, com isso, estará realizando o Estado tal qual concebido por Hegel como o do desenvolvimento do Espírito. E, porque não? Porque, a seu ver, a filosofia do direito de Hegel só é filosofia do Espírito na Alemanha, já que ele a percebe como prática do direito e do Estado na Inglaterra e, em menor grau, na França, ou seja, a seu ver, realizá-la e trazê-la para a prática é retirá-la do mundo dos sonhos, do mundo das ideias, do mundo da filosofia de Hegel e pô-la no mundo das percepções, no mundo das realidades, no mundo da prática; em outras palavras, é trazer para a realidade mundana da Alemanha a realidade mundana da Inglaterra e da França, melhor, é trazer para a realidade anacrônica da Alemanha a realidade contemporânea (atual) da Inglaterra e da França e também é sair da filosofia de Hegel e, nesse sentido, dissolvê-la. Marx chega a dizer que a realidade anacrônica da Alemanha coloca a constituição de monopólios como tarefa da economia nacional, enquanto que a realidade atual da Inglaterra e da França assume a dissolução dos monopólios como tarefa da economia política. Então, ele está dizendo que o Estadão ou o Estado monopolizador só existe na Alemanha enquanto esta permanece uma realidade anacrônica e a filosofia aí permanece um mundo dos sonhos, mas, uma vez que a filosofia saia do mundo dos sonhos trazendo para o mundo das percepções a realidade atual da Inglaterra e da França então a realidade anacrônica da Alemanha entra em dissolução ao mesmo tempo que o mundo das ideias se dissolve no mundo das realidades, melhor, é o mundo da filosofia hegeliana que se dissolve junto com a realidade anacrônica quando o mundo da prática da filosofia hegeliana se realiza junto com a realidade atual e contemporânea da Inglaterra e da França. Portanto, Marx não quer o monopólio e/ou Estadão da economia nacional, mas, ao contrário, a dissolução do monopólio e/ou do Estado da economia política. Ou seja, aí Marx não só inaugura seu pensamento crítico da história como desenvolvimento do Estado e do Espírito, quer dizer, da Ideia como ainda permanece defendendo a saída da Ideia para a Realidade, do Estado para a Sociedade Civil, do Espírito para a Atividade Material.
Por outro lado, o Marx maduro, que defendeu a destruição do Estado feita pela Comuna de Paris de 1871, foi quem introduziu na realidade européia a tarefa, mais ou menos imediata, após a derrota da Comuna e a dissolução da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), de construção dos partidos dos trabalhadores. E, por sua vez, foi na Alemanha, cuja participação na AIT foi quase que inexistente, já que o principal, maior e mais consistente movimento dos trabalhadores alemães era inteiramente nacional. pois bem, foi nessa Alemanha que o movimento nacional dos trabalhadores aceitou a proposta, oriunda do movimento internacional da AIT, de se constituir em partido dos trabalhadores. E o problema da proposta de constituição dos partidos dos trabalhadores europeus da Internacional Socialista ou Segunda Internacional foi precisamente a preponderância do movimento alemão na caracterização dos partidos dos trabalhadores que foram aí constituídos, ou seja, a tendência de fazer dos partidos dos trabalhadores um movimento nacional, melhor, a tendência de fazê-los defensores da economia nacional, do monopólio, do Estadão e não como Marx propunha defensores da economia política, do fim do monopólio, do fim do Estado. O que faz a Segunda Internacional atualmente? Constrói um Estadão, a UE, à maneira de Estados-Nações Unidos da Europa.
De onde vem então a possibilidade de Marx favorecer a criação do Estadão? Vem das medidas presentes no "Manifesto do Partido Comunista", medidas que ele considera retrógradas, tanto nos debates no interior da AIT quanto no prefácio ao "Manifesto" no qual defende a destruição do Estado e não meramente a tomada e colocação do mesmo a serviço dos trabalhadores. Na AIT sua grande vitória sobre Bakunin será acrescentar nos Estatutos da AIT a proposta de constituição dos trabalhadores em partido político, ou seja, sua grande vitória será propor a tarefa, mais ou menos imediata, de construção dos partidos dos trabalhadores europeus. E sua grande derrota? A preponderância do movimento dos trabalhadores alemães, quer dizer, no qual o anacronismo alemão de defender o monopólio e a economia nacional venceu e dobrou a atualidade inglesa e francesa que defendia o fim do monopólio e a economia política. A partir daí se tornou viável uma Segunda Guerra Mundial bem como um Estadão, seja na URSS que fez uma Revolução querendo Paz, Pão e Terra, seja nos países europeus que terminaram a guerra querendo um Estado do Bem-Estar Social.
Porque Marx defendeu propostas no "Manifesto" que favoreciam a criação de um Estadão? Isso não ia contra tudo que queria? Qual era a aposta de Marx para cometer um tal absurdo?
Tudo indica que Marx achava que as medidas favoráveis à constituição de um Estadão eram antieconômicas e em sociedades economicamente desenvolvidas estimulariam o processo social de dissolução do Estadão pela economia, de modo que rapidamente a Sociedade se apropriaria da propriedade do Estado, quer dizer, a propriedade social se apropriaria e dissolveria a propriedade estatal em países de desenvolvimento capitalista avançado, mas, em países de desenvolvimento capitalista atrasado quem acabaria por se apropriar e por dissolver a propriedade estatal seria precisamente a propriedade privada capitalista [disso ele tinha plena consciência e fala explicitamente a respeito na "Ideologia Alemã" (1846), portanto, antes do "Manifesto" (1848)]. Consciente de todos esses problemas porque Marx e Engels não se preocupam com o entrar em contradição, com o defender medidas que irão favorecer o capitalismo e não sua destruição/dissolução? Porque vivem num momento que a revolução é o avanço e o avanço da revolução pode até mesmo ser burguês, pode ser o avanço duma revolução burguesa, já que a Europa está ainda muito desequilibrada e, por muitos lados, é francamente atrasada e pesadamente feudal, então, se as medidas que favorecem o Estadão forem aplicadas em países de atrasado desenvolvimento capitalista o resultado final será o fim do Estadão e o aparecimento de avançado desenvolvimento capitalista nesses países; e, por outro lado, se o Estadão for aplicado em países de avançado desenvolvimento capitalista o resultado final deverá ser o fim do Estadão e o aparecimento de vigoroso desenvolvimento comunista. De modo que, concluíam eles no "Manifesto", não importa o grau de desenvolvimento econômico e social para os comunistas a questão da propriedade se coloca sempre como um fio condutor das transformações da revolução social e/ou da libertação humana.
Portanto, não dá primeiro para se aferrar à maneira de Bakunin e de outros que se assumem marxistas ali e onde Marx se assume não marxista nem para repetir a crítica dos jovens hegelianos endereçada a Hegel passando a endereçá-la agora a Marx, ou seja, não dá para dizer que Marx se acomodou e, entrando em contradição consigo mesmo, aceitou difundir aquelas propostas que ele mesmo criticava. Não dá pura e simplesmente porque ele queria uma mudança geral das condições sociais e históricas, ou seja, onde houvesse feudalismo e as propostas que levam ao capitalismo, mesmo que travestidas de propostas "ditas" comunistas, significam um avanço; e, onde houvesse capitalismo e as propostas que levam ao comunismo, mesmo que travestidas de formas "ditas" do antigo regime, também significam um avanço.
No entanto, ele não deixou de lutar e denunciar, pouco depois de ter publicado o "Manifesto", aquilo que chamou de farsa e de Imperialismo e que foi o regime instituído por Napoleão III, aliás, precisamente aquele que levou às alturas a máquina do estado e para o qual ele previu em 1852 uma destruição por parte dos trabalhadores, profecia que se realizou precisamente na Comuna de Paris em 1871. Esse regime, que logo se tornou o de Bismarck, foi tendo desenvolvimentos e acabou se constituindo no fascismo e no nazismo, quer dizer, em regimes modernos baseados no anacrônico antigo regime.
Não dá para acusar Marx de autoritário, como faz Bakunin, antes do surgimento do fenômeno na URSS, porque ele fez questão de se declarar não marxista e em total desacordo com as medidas que defendeu no "Manifesto", já que são estas medidas que levam Bakunin a cunhar o termo marxista e também levam outros que se colocavam ao lado de Marx a aceitar e a assumir a alcunha de marxista, enquanto que ele próprio Marx recusa as medidas e alcunha e declara que ele não é marxista.
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