domingo, 26 de abril de 2015

Homem prático versus homem teórico




Nietzsche queria os pensamentos que vinham da atividade natural e instintiva e suspeitava dos pensamentos que vinham da atividade artificial e inteligente. Nietzsche era crítico do conceito do homem teórico e queria o momento de realidade do homem prático.


O homem prático, real, natural e instintivo faz o seu currículo, se desenrola, se expõe como excesso de potência, excesso de tempo livre, excesso de sentimentos ou variação de sentimentos. Perto dele, e para se comparar, aparece um homem com falta de potência, falta de tempo livre, falta de sentimentos ou sem variação de sentimentos que faz seu currículo, se desenrola, se expõe como falta e, por isso, ele se reduz "ao pique no lugar", à atividade de sobrevivência e de invariável repetição por ser portador duma falta natural e instintiva, logo, por precisar recorrer ao artifício da repetição invariável até conseguir algo similar àquilo que o portador dum excesso natural e instintivo consegue num único ato, nesse sentido, sua prática não é imediata como a do portador de excesso e sim mediada pela repetição devido a ser portador de falta natural e instintiva, logo, também, de falta de realidade, falta de prática. A repetição invariável até conseguir o que necessita revela sua falta de tempo livre e a sua tendência  ao trabalho e ao excesso de tempo de trabalho, quer dizer, sua tendência ao uso do artifício e da inteligência para conseguir o que necessita e, nesse sentido, sua tendência à teoria, à imaginação, ao artifício e à inteligência. No entanto, esta sua tendência à teoria não é muito desenvolvida porque este homem da falta de potência natural e instintiva não dispõe daquilo que o uso da teoria requer e que precisamente o homem do excesso de potência possui em excesso: tempo livre! Por isso que será a partir de um homem portador do excesso de potência que adoece e que, daí em diante, não usa seu excesso de potência precisamente por sentir uma falha no mesmo, porém, como dispõe de excesso de tempo livre começa a usá-lo na teoria, na imaginação, no desenvolvimento do artifício e da inteligência. E percebe que pode criar um excesso de potência artificial fazendo um arranjo com as atividades dos que, por falta de potência, estão aprisionados no tempo de trabalho. E é aí que começa a atividade do sacerdote que, recorrendo à criação dum meio de produção artificial de excesso de potência, inicia o uso do rebanho humano, do animal doméstico, do trabalho humano, da economia humana como processo de "rebelião dos escravos na moral".


O homem teórico, imaginativo, artificial e inteligente não é o escravo do tempo de trabalho e sim um homem prático, real, natural e instintivo que é o senhor do tempo livre que, ao adoecer, descobriu e inventou o uso teórico, imaginativo, artificial e inteligente do tempo de trabalho para produzir e garantir um tempo livre superior ao do excesso de potência natural e instintiva do senhor. O sacerdote tal qual o patrão capitalista se baseia nas massas trabalhadoras humanas. Se antes da emancipação política da burguesia a religião se apoderou do Estado, então, depois, dessa emancipação política burguesa, a religião se tornou atividade privada, de foro íntimo e exclusiva da Sociedade Civil do mesmo modo que a indústria e a economia capitalistas se tornaram atividades privadas, íntimas e exclusivas da Sociedade Civil. O domínio do homem teórico ou do sacerdote permaneceu sendo a Sociedade Civil e possibilitou a ele socializar a teoria, a imaginação, o artifício, a inteligência que, com a liberdade política (com o Estado "perfeito"), ele tornou domínio comum de exercício do poder dos "escravos rebeldes na moral". Na máquina do Estado todos são supostamente iguais em direitos e livres de quaisquer diferenças privadas, religiosas ou sociais, as quais, no entanto, civilmente ou na Sociedade Civil são livres como práticas privadas, religiosas ou sociais. Este Estado da igualdade e da liberdade teórica, imaginária, artificial e inteligente é, portanto, aquele que garante que civilmente ou na Sociedade Civil permaneça sendo permitida e cultivada a predominância do homem teórico, imaginativo, artificial e inteligente, afinal, é ele quem está justificado como comum a todos no Estado, na moral.


Qual é a mudança que, na atualidade, quer libertar o homem prático, real, natural e instintivo?! Onde se encontra este homem prático, real, natural e instintivo?





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