segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Certeza da consciência sensível versus certeza da consciência de si




Prometeu, Édipo e Dionísio são os grandes personagens trágicos do Prometeu Acorrentado, de Ésquilo; do Édipo-Rei, de Sófocles; e, de As Bacantes, de Eurípedes.


A certeza sensível na Fenomenologia do Espírito é aquela que está certa da verdade do sensível e a sua verdade essencial é que o sensível é. Mas, este puro ser é o mesmo ser de Parmênides "para o qual é impossível achar limite; nem fora, se percorremos o espaço e o tempo onde se expande, nem [dentro], se penetramos pela divisão no interior de um fragmento tomado dessa plenitude"(Fenomenologia do Espírito - Parte I, tradução de Paulo Meneses com a colaboração de Karl-Heinz Efken, Vozes, 2ª edição, 1992 - Petrópolis, p.74). Ainda que já se veja também aí presente o ser de Demócrito ou o átomo, quer dizer, "um fragmento [infinito] tomado dessa plenitude". Além disso, Parmênides e Demócrito devem ter sido reenviados "à escola inferior da sabedoria, isto é, aos mistérios de Eleusis, de Ceres e de Baco, a aprender primeiro o segredo de comer o pão e de beber o vinho. De fato, o iniciado nesses mistérios não só chega à duvida do ser das coisas sensíveis, mas até ao seu desespero. O iniciado consuma, de uma parte, o aniquilamento dessas coisas, e, de outra, vê-las consumarem seu aniquilamento. Nem mesmo os animais estão excluídos dessa sabedoria, mas antes, se mostram iniciados no seu mais profundo; pois não ficam diante das coisas sensíveis como em si essentes, mas desesperando dessa realidade, e na plena certeza de seu nada, as agarram sem mais e as consomem. E a natureza toda celebra como eles esses mistérios revelados, que ensinam qual é a verdade das coisas sensíveis" (Idêm, p. 81), porque um salvou o seu ser com a metafísica ou a moradia do ser no insensível e o outro indo também para o insensível salvou seu ser com a física dos seres insensíveis, os átomos, que moram no insensível, o vazio. Como dizia Robin: Demócrito amoedou o ser de Parmênides. Coincidentemente ambos dividiram o saber em dois estabelecendo, de um lado, o conhecimento legítimo, que é o verdadeiro, e, do outro, o conhecimento bastardo, que é o aparente.


Os iniciados nos "mistérios de Eleusis, de Ceres e de Baco" tendem a dizer que seguem a escola do ser e do não-ser de Heráclito e, nela, admitem a participação de Demócrito com os seus seres, átomos, e não-ser, vazio. Mas, na escola de Heráclito, o fogo é o ser que é e que não é, de modo que o essencial é ser um fogo. E Epicuro desenvolveu os átomos e o vazio até a sua supressão num fogo que é a consciência de si humana e do filósofo, mas aí temos também o feito de Prometeu que roubou a centelha dos céus e a deu aos humanos como seu domínio/poder consciente.


O que Epicuro fez corresponde ao que Prometeu fez. O que Demócrito fez corresponde ao que Édipo fez. O que Heráclito e Parmênides fizeram corresponde ao que Dionísio fez.


Com Epicuro e Prometeu a humanidade se constrói, se socializa e se liberta. Com Demócrito e Édipo a humanidade se corrige, se politiza e se explora. Com Heráclito-Parmênides e Dionísio a humanidade, se destrói, se dissocia e se aniquila.


Dionísio era o deus de Napoleão III e seus seguidores, também era o deus prático das SA de Hitler, ou seja, os bacanais e o porno eram suas práticas usuais bem como as políticas de destruir, dissociar e aniquilar a tudo e a todos, incluindo a si mesmo.


Édipo sintetiza o poder e a sucessão do poder incluindo a revolução e o golpe de Estado, o impeachment e a renúncia, a guerra civil e a corrupção, enfim, sintetiza o problema a ser resolvido e a solução que o faz uma sucessão problemática, quer dizer, uma estrutura abstrata defendida ora como ditadura da burguesia, ora como ditadura do proletariado, ora como ditadura dos proprietários fundiários aristocratas ou burocratas, enfim, como uma estrutura abstrata pela qual todos passam ou como complexo de Édipo.


Prometeu era o símbolo dos jovens hegelianos e de Marx e foi, até mesmo, por isso que Marx durante muito tempo defendeu Blanqui, com o qual, no entanto, não se associou quando teve todas as chances e mesmo condições de fazê-lo. Porque? Porque Blanqui defendia estritamente a pura e simples instalação duma ditadura revolucionária, quer dizer, defendia pura e simplesmente a solução edipiana. De todo modo, sem ser Blanqui, outros prisioneiros, como Mandela, Gandhi etc. conseguiram fazer da sua prisão um processo de libertação e, no Brasil, foram diversos prisioneiros e, ainda que possamos destacar alguns, foi muito mais o movimento coletivo pela anistia ampla, geral e irrestrita, do que um ou outro prisioneiro, que se destacou.


No entanto, aquilo que hoje chama a atenção, por exemplo, na Venezuela é que Chávez tal qual Hitler tentou um golpe que não deu certo, se tornou prisioneiro e assim construiu sua lenda de libertador e seu partido, saiu da prisão disputou eleições e venceu. Mas a roupagem de Chávez era de esquerda e não de direita como ocorreu com Hitler. No entanto, um líder opositor do chavismo, Leopoldo López, se deixou prender durante uma manifestação que convocou para se entregar publicamente ao governo chavista de Nicolás Maduro. E o que surpreende é que ele não propunha um golpe de Estado, ainda que defendesse uma revolução democrática, quer dizer, uma mudança democrática no poder da Venezuela. E também surpreende que todas as formas de lutas civis, democráticas e conhecidas como lutas de classes estejam na atualidade sendo dirigidas em sua maioria pelos que usam as roupas da direita. Enquanto que os que usam as roupagens da esquerda se mostram tiranos, antidemocráticos, anti lutas civis, anti lutas de classes.


Que inversões são estas?! Prometeu se tornou o símbolo da direita enquanto Édipo e Dionísio, mas, principalmente Dionísio se tornaram os símbolos da esquerda?! Ou como dizem atualmente: não existe mais esquerda e direita e, então, como dizia Marx, isso tudo não passa de uma farsa?! Logo, aquilo que se mostra como esquerda e como direita é apenas uma farsa e nenhuma outra relação tem com a original tragédia de ser de esquerda e ser de direita, exceto: a farsa!!!


Finalmente, não é precisamente isso o que ocorre com a certeza sensível: "Nem mesmo os animais estão excluídos dessa sabedoria, mas antes, se mostram iniciados no seu mais profundo; pois não ficam diante das coisas sensíveis como em si essentes, mas desesperando dessa realidade, e na plena certeza de seu nada, as agarram sem mais e as consomem.", ou seja, "tudo que é sólido se desmancha no ar" e, portanto, se o que se quer é ir além da sabedoria animal de modo que o humano não seja apenas uma certeza sensível que se explora e se aniquila em prol dum outro como, por exemplo, o super-homem, então é preciso retomar e percorrer o caminho que nos conduz e eleva à certeza (da consciência) de si. Porém, considerando que as certezas das consciências de si de esquerda, de centro e de direita bem como prometeicas, edipianas e dionisíacas não se confundem mais com as certezas sensíveis de modo que não se trata mais das roupagens, mas, talvez, ainda das formas de luta criadoras e libertadoras; reformadoras e exploradoras; e, destruidoras e aniquiladoras.


Nesse caso, na Venezuela, o avanço democrático se dará junto com a direita que está na prisão?!?!





Nenhum comentário: